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    CRÉDITO: LÉO RAMOS CHAVES_2022

ficção

O aparelho

Uma porta se abriu, depois outra, os velhos todos saindo, combinados, para assistir à televisão

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira | Edição 185, Fevereiro 2022

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“Quem não quiser se arruinar deve tomar cuidado para que, pesado segundo a escala desse aparelho, não seja julgado leve demais”

THEODOR W. ADORNO e MAX HORKHEIMER, Dialética do Esclarecimento

 

Me trouxeram pra cá faz…, já faz uns…, bom, pode ser que tenha vindo sozinho, não sei,

se vivo capengando, talvez eu mesmo tenha me carregado até aqui, na marra, pelo cu das calças, como se diz,

então, olha, pra falar a verdade não me lembro de nada, nem quero me lembrar,

estou velho, dizem, … mas desconfiado, a cabeça avoada, sim, esvoaçada, uns pedaços de mim por aí, no que ao menos pontual, sem os prazos remarcados, não é desse jeito?,

ou o relógio só batendo no meu pulso, hein?,

 

outro dia mesmo tomei um susto comigo, que apareci, no espelho do banheiro, um velho desconhecido,

quem?,

abanei a mão, pra ter certeza, segurei-me na torneira da pia, meio passado, e o outro lazarento, tal qual no vidro, arrevesado, arremedando-me ao inverso, e… pá!,

sim, era eu, que sou ainda, acho, mesmo que habitante um tanto diferido de ontens, vendo-me num futuro, porém hoje, agora, ou qualquer coisa assim, desentendida e desavinda,

as febres da caduquice?,

não, acho que não, nunca fui tão ciente…, sou professor de história, não sabe?,

levei o dia amuado, debaixo dos braços, beliscando as pelancas, a mocidade desvivida e enfiada num canto surdo e mudo qualquer da cabeça, concluí,

isso, a velhice num de repente, assim diluída, a não ser que…,

olha, se a homeopatia vale mesmo, basta nascer, e pronto!,

já carregamos, lá atrás, o velho desde então, … aquele que somos, mas depois de amanhã, não pensa assim?,

… o que valerá em reversas direções, também, ora, ora, os primeiros anos reverberados em erradas rugas, da mesma outra forma, nas dobras da pele e do pensamento,

… estes restos vívidos da juventude, ainda validos e revividos, sidos sendo, de novo, como da primeira destas tantas e demais vezes,

devaneio?

 

puta que o pariu, moça!,

já tomei esses compridos, hoje, … eu, … ninguém acredita em mim, por estas bandas…, por quê?, aqui é o inferno?, hein?,

fala, capeta!, … responde, bugio das profundas!,

 

… ou somente cismas?,

a gente sabe quando morre?,

isso explicaria muita coisa, se é que se perceba quando pelejamos vivos, também, e, mesmo, se fomos vivos de fato, um dia, porque as dúvidas vão retesadas, sempre, pra ambos os lados do ser e do não ser, segundo o célebre verso do bardo inglês, correto ao menos nas incertezas que valem questionamento, cuja resposta se faz nos silêncios,

… sim e não, ao mesmo tempo, pois as dúvidas, por isso mesmo, também nas dissipações, quem há de negá-lo?,

sei lá, não sei cá, sei aqui, não se sabe se lá!,

viver?,

as carnes dançando com os ossos…,

ou estarei saldando meus erros, no outro mundo, que este mesmo, aqui, num agora inesgotável?,

 

não, ninguém vem me ver, ninguém, … disseram que minha filha, uma vez por mês,

irene…,

traz bolachas recheadas,

descreio,

que filha?,

só se mamãe, e eles confundindo tudo, mas…,

melhor nem pensar nisso,

acho que faz uns dez anos que não como nem biscoito de polvilho…,

bolacha recheada!, pra cima de mim?,

 

às vezes mamãe me visita, no mais frio da noite…, entra quietinha no quarto, fala do pai, seu marido, lá longe, no meio do arrozal, a madrugada cansando os afazeres do dia seguinte, por antecipações, nos entremeados da vigília,

… me vela os sonos, puxa a coberta e revela,

dorme, ela fala, dorme,

eu lhe obedeço sem fazer força, o pesinho das pálpebras que ninguém aguenta, na bagagem dos sonhos, sobrepesadas,

as tarefas e as obrigações vistas, revistas,

… e folheio os meus dias nas páginas adiante, então, impressas na mais funda quimera,

… não me importo, porque se uns sonham acordado, como dizem, há os que despertam apenas para os pesadelos, não acha?, e me espreguiço devagar, estalando as juntas do tornozelo, … daqui a pouco o banzé da passarinhada, penso gostoso, quente, me apagando de mim, recoberto, porém descoberto, ao mesmo tempo, sim, e imagino que este aqui, agora, em velho, é que é o de noite, escuro e pesadelado, pra daqui a pouco eu acordar menino, entende?,

 

não come carne quando a lua está lá no alto, benê!, ela avisou, … o bucho espreme, empanzinado, as visagens ruins, moleque!, … o amadeo lobisomem virou bicho de pé preto desse jeitinho, não sabe?,

mamãe fala o medonho, quando quer, … arrepia,

não ouvi, errei, … dei no que deu, deu no que dei,

 

transformo-se-me?,

 

uma vez um menino estuporou, vizinho de colônia, tanta carne moída mandou pro bucho, com arroz, depois das nove da noite, esfomeado,

comeu na panela, escondido, a colher de pau quase não cabendo na bocarra, disseram,

era o de comer do dia seguinte, pra marmita do pai e do irmão mais velho, que iriam longe, cedinho, desmatar um capão, lá pros lados do corguinho da sucuri, nos limites da montanha, fazendola do seu honestaldo,

 

arreliento, comeu e limpou a boca no lençol, quando se deitou, ciência dos vestígios alaranjados na barra cerzida, vez que gostavam, todos ali, do arroz bem soltinho, tingido e perfumado de urucum, a prova cabal,

em uma hora, ou pouco mais, pôs pra fora a congestão, já contorcido no azedo dos espasmos,

foi aquele ninguém nos acuda!, o pai puxando a língua do filho, engrolada, a mãe pedindo chorosa, pra são vito, que não levasse embora o filhinho, … e aquele cerco de gente, a molecada espiando a desgraça pelada pelo vão das pernas da vizinhança curiosa,

bem feito!, disse comigo, quem mandou?,

não ia muito com a cara dele, mesmo, porque seu pai metido a administrador da fazenda…, esse sujeitinho toma ordens e quer cuspir poses e posses!, papai falava,

depois…, bom, a gente ria dele, sim, a boquinha torta de não acatar os mais velhos, em triste gilvaz, … mas justo escarmento, repuxado numa bochecha, redefinitiva exortação pra meio mundo e meio, e, mais, pros demais arredores, na cara de pau curvo de um sem-vergonha que haveria de morrer assim, soprando de lado,

 

vai, bocudo!,

… sai, beiçola!,

… boca torta e cu de argola!,

 

ele chorava, jogava pedras, corria atrás da meninada e, ainda, tomava uns cascudos, pra aprender,

sim, meu irmão me ensinou a bater de mão fechada, cerrando bem os dedos, na palma, pra não luxar os artelhos, o pugilato mais doído, ainda que não ecoado, pondo o arremate na força da vez única, bem marroada e definitiva, sem o gongo salvador, ele dizia, gabando-se do muque ostentado – repuxada antes a manga da camisa, por mostrar o inchaço bonito dos bíceps,

por isso mesmo, toda vez, pelo relembrado caso da boca oblíqua, eu tremia diante das desobediências, mesmo fechando os punhos de raiva, pra não quebrar a falange dos dedos com o soco, ainda que apenas imaginado, … e, nem bem revivia o episódio, arrotava ardido, aturdido e repetido, engolindo o cuspe, alimentado,

isso até hoje,

ora, a gente deve aprender a dormir vazio, mas cheio dele, do desguarnecido, esta lição que vamos revivendo, compreendeu?,

bom, casar…, posso ter me casado, sim, gostei muito de teresa, se bem que ela, nada, não queria saliências comigo, e as desfeitas a gente não esquece,

não, o bom arrepio não deixa cicatriz, negaceio é que é feito à unha, de seu tanto que o estigma, depois, calcado e recalcado, latejando as memórias mais fundas, em cultivada casca de ferida, quase que quase seca, e assim permanecida, em lavoura diária, pelo gostoso da coceirinha, e, e e, e, e e…,

as expectativas…, pancadas frouxas no peito, assobiando as asmas desse inútil roçado, verdejante até nas secas mais esturricadas,

 

as tristezas maiores vêm de dentro, sim e assim,

como se respiradas, chiando por entupidas narinas, em ambas as direções, como já lhe disse, e repito,

uma hora você tem de engolir o muco,

noutras, é preciso escarrá-lo,

 

moça, quer me obrigar a almoçar duas vezes?, será o benedito?,

não, não será, porque sou…, o benedito sou eu, mulher!,

não, não, comida pra fora do prato também mata!,

não tenho fome, não…, o cheiro até embrulha o estômago, sai pra lá com isso…,

eu…, comi sim!,

o quê?,

arroz com feijão, picadinho de carne, salada de chuchu com cebola, todo mundo viu,

vai lá no refeitório e pergunta, vai…, ou, então…,

chega aqui, chega…, olha o bafo, ó…,

gelatina de sobremesa, … de abacaxi, ai, ai, abaixa aqui, abaixa, abaixa que eu lhe mostro, ó,

duro, duro, ó!,

põe a mão só um pouquinho, pra sentir, põe…,

 

… será que é a teresa que vem me ver à noite, escondida?, os olhos dela esverdinhados, duas maritacas no forro de casa, grulhando,

sim, o amor comendo os fios, por dentro, aquela arruaça de penas e gritos,

pronto, a esperança deu nisso, tá vendo?,

a luz acabou,

não, não!, teresa não comeu a fiação com os olhos, não, papai, onde já se viu?,

teresa é o meu amor, falei por falar…,

confessei sem querer…,

ele riu de mim, contou pra mamãe, espalhou pros outros parentes, até,

curti vergonha do que nem sabia, revelado assim, por mim mesmo, nas carnes do corpo, antes, latejadas…,

teresa era sem palavras, … ou cento e uma?,

reconto…, teresa era mil e uma noites, mas, sem os dias de alívio, era um aperto de nós, retrancados, mas num só, e solitário,

o amor, irmão do medo?,

hein?,

não, é no escuro que a luz dói mais, nos olhos, se repentina,

 

eu dou um jeito nisso!,

papai queria torcer e arrancar a cabeça dela, espalhando o sangue pelos caibros, para os outros bichos, irmãos dela, desistirem, pelo exemplo, de comer a fiação, amedrontados com a barbárie…,

um prejuízo dos diabos!,

teresa…, o pai dela trabalhava no banco do brasil, na cidade,

bem, alguma coisa a gente devia aprender, contando sem parar o dinheiro dos outros, isso sim…,

 

acho que o galo cantou, pela terceira vez,

teresa nos sonhos,

atrás das árvores,

teresa nos canarinhos-da-terra, à tardinha, enchendo os galhos de gorjeios amarelos, e, quando alguém em todos os lugares, porque mesmo em nenhuns, sabia?,

 

a solidão, feita e refeita presente, em desfeitas e nãos…,

 

meu peito é que sem as forças, papai…, o senhor não entende?, ou o senhor só sabe os escuros?,

ele se zangou comigo, brabo,

 

um frio na barriga, … ainda não bateu o sinal,

pedi pra professora,

saí antes, porque muito apertado, muito…,

dona alda não queria deixar, coloquei a mão no pinto, arrochando os dedos, como se alicatasse as vontades sem controle,

vai, benedito, pode ir, vai…,

não menti de corpo inteiro, porque a fisgada maior no peito, aquele anzol na boca, por desentalar-me, assim,

e fiz tocaia,

sabia que teresa ia passar ali…,

esbarrei o meu amor,

as colegas gargalharam e saíram de perto, por antecipada malvadez, acho,

preciso falar uma coisa pra você, teresa,

disse que gostava dela, no corredor da escola, só pra ela, mas a menina correu, se rindo embora,

nunca mais olhou na minha cara…,

 

eu pagava o escárnio do beiçola?, será?,

 

sim, o salário de fome é que me trouxe pra cidade, mais do que a seca…,

fiz supletivo e me formei, reformado, indo adiante em concurso, matéria no jornaleco da cidade, professor aos cinquenta,

guardei o folhetim na gaveta, até há pouco,

lembro que limpei a bunda com ele, faz um tempinho, num momento de raiva…, besteira, né?, sujei o cu à toa,

ora, ora, a seca e a sujeição até que expeditas, enfim…, um empurrão, não acha?,

o crás da maritaca às vezes não procrastina!, refleti, teleológico,

falar nisso…,

eta, que vontade duma cachacinha agora, rapaz!, depois, um gole de café, boca de pito, um cigarrinho bom, mas aqui…, seja o inferno, talvez, só água e comprimidos pilulados, difíceis de engolir,

qualquer dia perco as estribeiras e cuspo na cara dela,

sai de perto, diacho!,

no entanto, à noite, escuto a gemeção dos outros, com as dores lamentadas, em coro discorde,

os passos no corredor,

e tenho medo da minha vez,

vai que ela sendo o diabo aos poucos, mesmo, em si, e não a crosta do meu xingamento,

então…, no mais, as feituras do vazio, ocas por dentro,

 

toda tarde, depois do almoço, os velhinhos vão pro pátio coberto, saindo de seus quartos,

… ou mais ou menos coberto, não vou mentir, a jabuticabeira-do-mato no meio, frondosa, idosa, espelho de uma ironia irrefletida,

construíram o telhado em volta, gambiarra,

aqui faz tanto calor!, será mesmo o abismo?, … o buraco no qual a queda não se finda, sem mundos ou fundos?,

a televisão fica lá, 20 polegadas, no alto de uma prateleira de ferro, meio que escorada nos galhos, protegida por duas telhas grandes, de amianto, amarradas com arame recozido,

outro dia, com a chuva de vento, grudou uma água marrom na tela, respingada, e os artistas choraram ferrugem,

não sei, deu uma tristeza que só vendo…, eu mesmo rechorei escondido no quarto, depois, abafando-me,

mas, de repente, bateu um alívio, porque as lágrimas branquinhas de clara translucidez, nas costas da mão, correndo soltas pelos vales de peles e veias que carrego,

a fiação, descendo o forro?,

sorri e brinquei de soprar enchentes, então, nos campos e campos desta propriedade que sou e estou, ainda,

vivo!,

senti o frio úmido das florestas de pelo, deitadas com o vendaval dos pulmões, … e respirei, feliz, sem aqueles chiados tristes, … ou, ao menos, deixei de ouvi-los, o que é mesma coisa,

 

decidi-me há tempos,

não, nenhuma ilha ou filha inexistente haveria de me cercar e me tomar de mim, eu mesmo, irenes ou atlântidas que fossem,

 

não sei explicar, tive dois minutos de certeza de que não estava velho, e que a vida ainda viria, ditosa, remedando os sonhos,

… mas com arame galvanizado, é lógico,

e caí em mim, desamparado, desarvorado, desamarrado…,

 

no natal, penduram uns pisca-piscas, a extensão pela veneziana do escritório, fazendo barriga no varal das roupas, a árvore então floridinha de jabuticabas-lumes,

disse que alguém ia tomar um choque, qualquer dia, isso sim,

não me deram ouvidos,

o capiroto é mouco,

… teresa, mais surda ainda, meu deus!,

 

gosto de abrir a bolacha e rapar o recheio, antes, com os dentes de baixo,

mamãe ri, me chama de queixada, … de porquinho,

agora tiro a dentadura de cima e a repasso, desbastando a guloseima em mínimo arado, com cuidado, pra não a quebrar…,

depois chupo as lascas, lambendo a ferramenta dentifrícia, … tão gostoso!,

o demônio quer me proibir, tem cabimento?, disse que dá ânsia de vômito,

filha da puta!,

o chifrudo não cospe faísca e golfa enxofre?, hã?,

tomara que morra eletrocutada, cadela do tártaro!,

 

não, não gosto muito de televisão, uns programas chatos, o aparelho meio muito lá no alto, dá dor no cangote, … acho que foi de propósito, sim, pra velharada torcicolar o pescoço e rumar de volta pro quarto, doce quarto, dando sossego aos funcionários,

os velhotes voltam resmungando sem igual as contas que não batem de um dolorido flexuoso também na teimosia, penso, em noves fora dos poucos restados dias…,

 

é até bonito de ver,

cada velhinho tem o seu lugar no pátio,

sim, estes sim, redefinindo o conceito de programação para além do gênero humano, numa espécie de sobrepostas dores, o que somos, desde o parto, por bem-bom mal-estar,

eles vêm em bando, andorinhando com dificuldade, as asinhas quebradas, lentas, o rangido chiado das cadeiras de roda, … e as bengalas, pontuando a vagareza arrastada dos chinelos, pshhh, pshhh, toc, pshhh, pshhh, toc…, esse pedido de silêncio das manias, recorrente, prendendo ao chão os avoados do mundo, em sonoros símbolos,

 

é, é preciso aprender a rir-se de si, porque as lágrimas…,

 

uma vez, faz tempo, tive de pegar um filhote de andorinha que caiu do ninho, já emplumado, no quase fugir do chão, sua janela de liberdade por abrir-se à vida, feita de azul, faltando pouco,

cuidei dele, então, com papinha de fubá, durante uma semana, e tomei-me de amor, porque o tiquinho de vida se afeiçoou a mim, enfiado entre os meus pés, protegido, querendo estas mãos em concha, ainda hoje, nas lembranças, quando bate as asinhas e pia conversas que passei a compreender com mais fundura que as palavras todas, que nunca aprendi…,

teve uma infecção repentina e morreu entre os meus dedos…, foi deitando o corpinho, recolhendo uma pata, engruvinhada, e eu supus, por tremenda vontade, impedir-lhe o fim, erguendo sua postura, com a delicada maior força que fiz na vida, em vão…,

sempre choro, quando uns piadinhos ecoam, no cair da tarde, apagando a distância tecida destes esgarçados dias, emaranhados em cegos nós…,

 

… eu me divertia muito nas quermesses, vovó amarrava o balão com força, em várias voltas e volteios, até arroxear os meus dedos,

se escapar, não compro outro, não!, … vai aprendendo a segurar as coisas de que gosta, hein!,

isso, pra dizer a verdade, agora, acho que nunca aprendi, vovó…,

tudo o que amei ficou longe do alcance das mãos,

… ou escorreu por entre os braços,

 

… uns velhinhos vão escorando os outros como disfarce das próprias tonturas, o que não é recomendado,

às vezes, a dupla cai do cavalo, … ou da burrice, quando, por azar, ambos os mundos da lua, lá deles, no entorno translativo de cada um, corrupiando para a mesma banda de um lado só, desengrenados, e os dois, de supetão, porque tudo eppur si muove, pronto!, desestribados e coincidentes no tombo,

nessa brincadeira de roda, aqui, um pobrezinho já quebrou a bacia, … ou o fêmur, não me lembro, e pouco importa,

falaram pra família que foi a osteoporose, que ele não caiu e quebrou o osso, não, não!, mas que o osso partiu sozinho, e ele despencou-se dele mesmo, arriado,

os filhos acreditaram,

sempre acreditam, principalmente se os fatos carregando os genitores pelo bico do urubu, quando o fardo já perdeu o contorno das costas, por distância dos anos e da enganosa lucidez, apagados ambos da proximidade perdida,

 

filha…, que filha, meu deus?, … que filha?,

 

disseram que o túmulo de teresa é revestido de ladrilhos hidráulicos,

 

o volume da televisão quebrou faz tempo, então é só a tela, mesmo,

melhor,

cada um escutando o que bem não entender, de si, nas próprias caducagens coloridas, mas em som mono,

… decrepitudes estereafônicas?,

ah, mesmo rouco, um pouco mouco, meio louco, sei rir de mim, sim, o que é uma espécie de haicai, gênero de mínima poesia, viu?,

 

ontem, roubaram a televisão,

pularam o muro, dá pra ver a marca das solas, no reboco, e, ainda, cagaram no chão, embaixo da jabuticabeira,

as moscas fizeram a festa, cansadas das peles enrugadas,

 

o demônio riu dos ladrões, porque o aparelho há muito quebrado, sem som,

quando ligarem, vão ter aquela surpresa!,

senti que a filha da puta gostou, por todos os lados,

ela fez questão de avisar, pessoalmente, de quarto em quarto, que iam pedir outro aparelho pra prefeitura, … pra associação de amigos do bairro, sei lá,

a partir de hoje, não tem televisão!, nem precisam sair…,

eu mesmo não estava nem aí, se bem que faz tempo que não estou nem aqui, também, então…,

um homem precisa aprender a não estar em lugar nenhum, na verdade,

mas aquele capeta, fingido,

tadinhos, a única diversão que tinham…,

e falava mais alto, pra todos ouvirem,

… o único divertimento!,

sei…, teu nome é legião, marafona!,

 

fui obrigado a almoçar duas vezes, hoje, o cão-tinhoso me ameaçou com soro, injeção, se não limpasse o prato,

vade retro!, … bode do casco rachado!,

não adiantou!, satanás faz gosto de sapatear nas partes baixas da gente…, começa pelo estômago e vai descendo, só pode,

segurei o pau e o saco pra ela, chacoalhando as ferramentas com um ó, procê bem sublinhado,

ela riu de mim, a desgraçada,

 

criei coragem e fui ao casamento de teresa…, mostrei a cara no cartório, também,

voltei pra casa antes da festa, solitário mais que nunca,

no caminho, comecei a contar os flamboyants, … perdi a conta,

abri a porta chorando, incapaz de me segurar, como sempre, daí em diante,

 

ia ficar no quarto, lendo, mas ouvi uns gritos feios, … um livro do florestan, a revolução burguesa no brasil,

saí pra espiar o furdunço,

meu vizinho, seu josé, estava atracado com o coiso, quase na porta do meu alojamento, acredita?,

ele não queria perder o capítulo da novela, gostava de sair mais cedo, mas a enfermeira bateu o pé no roubo…,

sem dentes, todo bafafá é mais cuspido, é ou não é?,

aproveitei, enfiei-me na cruzada alheia, fingi que apartava e dei uns apertos nas peitolas do anticristo, com gosto!,

ela saiu chorando, depois que um enfermeiro a socorreu,

disfarcei,

quase não conseguimos, hein?,

ele nem me respondeu, mal-agradecido!,

 

seu josé ainda urrava uns palavrões cabeludos, de tampar os olhos, sobrantes os fios daquela sua seborreica peruca, inclusive, boca adentro dos gritos,

engasgado, ele babava sem parar e tossia, assustando a plateia de velhos…,

saiu arrastado, soprando as ventas e os pelos,

todos os funcionários acompanhavam o cortejo, menos a enfermeira-chefe, claro,

percebi que davam uns safanões nele, em disfarçados repuxões vingativos, séquito de belzebu, creio em deus pai!,

numa hora dessas, tenho certeza, a cuja acendendo a lenha com os cascos, lá dentro da enfermaria, pensei,

cruz-credo!,

 

então, trancadas as portas, tudo serenou, os pacientes voltaram para os quartos, o pátio ficou vazio,

 

peguei meu livro, na cabeceira da cama, e saí, de novo,

sentei-me num banco de cimento, doado pela clínica de repouso santana, não para nádego reconforto da velharada, mas por figadal e incisiva propaganda aos parentes visitantes, lembrando que havia, no município, um asilo bem melhor, particular, … este sim, de abundantes refrigérios,

sei…,

 

mas, então, uns quarenta minutos depois, o inusitado…,

uma porta se abriu,

depois outra,

e mais outra,

os velhos todos saindo, combinados,

era o horário em que assistiam à televisão,

ri daquela atitude,

os coitados se esqueceram de que o aparelho fora roubado…,

tentei avisar, gritei,

hoje não tem televisão!,

um deles sorriu pra mim, mostrando as gengivas roxas,

outra senhora resmungou qualquer coisa que não entendi,

a maioria nem tchum pra mim, essa é a verdade,

repeti o alerta, acentuando-o com mais força,

hoje não tem novela!, … roubaram a tevê!,

em vão,

foram se abancando no lugar de sempre, os olhos voltados para o vazio onde ficava o aparelho,

nenhum espanto, nenhum comentário, nada, todos com o olhar voltado para a tevê que não havia, compenetrados,

 

… quando mefistófeles voltou, eu mesmo, também, já me divertia com o último capítulo da novela,


Conto do livro inédito um treminhão na banguela cruzando sem freios o fusquinha da vida.