correspondência

O arcaico e o moderno

A amizade epistolar entre Mário de Andrade e Pio Lourenço Corrêa

Gilda de Mello e Souza
A correspondência com Mário de Andrade foi a abertura mais prolongada de Pio Corrêa com o mundo exterior: trocaram cartas por 28 anos
A correspondência com Mário de Andrade foi a abertura mais prolongada de Pio Corrêa com o mundo exterior: trocaram cartas por 28 anos FOTO: ACERVO OURO SOBRE AZUL

Pio Lourenço Corrêa (1875–1957), ao contrário dos demais correspondentes de Mário de Andrade, além de ser dezoito anos mais velho, não é um escritor, artista ou intelectual conhecido. Fazendeiro, viveu em Araraquara e, desde menino, foi grande amigo de Carlos Augusto de Andrade, pai de Mário.

Como classificar esse homem invulgar e contraditório que, embora ligado à oligarquia, não representa o protótipo de uma certa ordem social, de um estilo de vida, de uma concepção arraigada de poder? Na paisagem de sua região natal, ou no contexto mais restrito da família, Pio emerge antes como anomalia, pois se alguns traços de sua personalidade o identificam à imagem tradicional do senhor, muitos outros o afastam do modelo de que, sem dúvida, derivou. Nas diversas etapas da vida em que foi comerciante, banqueiro, lavrador, sempre apresentou um perfil atípico, alheio aos hábitos da classe dominante, indiferente à acumulação de dinheiro, à expansão das terras ou ao prestígio.

Na verdade, o espaço em que se situa – como atestam os inúmeros instantâneos fotográficos nos quais aparece – não é o mesmo das pessoas que se dispõem a sua volta: se elas encaram atentas a objetiva, ele está frequentemente de perfil e isolado, como um personagem de Piero della Francesca; ou, numa pose frontal, com as mãos espalmadas sobre os quadris e o olhar cintilante, enquanto os demais se entreolham e parecem conversar entre si. É um homem solitário, mas não um desadaptado.

Filho do segundo casamento de um patriarca de 67 anos, já encontrou ao nascer uma família numerosa e disciplinada: onze irmãs e irmãos, cunhadas e cunhados, sobrinhos adultos, hábitos e valores arraigados. Dos 12 aos 13 anos, no curto espaço de um ano, perde o pai e a mãe, faz uma breve estadia no Seminário Diocesano de São Paulo e vai viver nessa cidade sob a tutela do parente e padrinho Joaquim de Almeida Leite Moraes, agregando-se à família do mesmo, a família materna, hospitaleira e caudalosa de Mário de Andrade.

Sabe-se pouco de sua formação intelectual em São Paulo, mas temos notícia de que a 10 de dezembro de 1889 – com 14 anos – presta exames de aritmética e francês no Curso Anexo da Faculdade de Direito, sendo aprovado com os graus Simplesmente, na primeira, e Plenamente, na segunda. É sua intenção prosseguir os estudos na capital, talvez cursar essa faculdade e ingressar na diplomacia.

A partir dos 15 anos já é quase independente, responsável pela mesada, que vai apanhar em Santos, pontualmente, na casa comissária de Francisco de Almeida Leite Moraes, irmão de seu padrinho, anotando com bela caligrafia a despesa e a receita no livro de assentamentos que o padrinho lhe confia. Pelos assentamentos e retratos da época vemos que se transformou num rapazinho urbano, de aparência agradável e elegante, que frequenta o teatro e se dedica à leitura. Em 1892, aos 17 anos, na companhia de seu tutor e irmão Antonio Lourenço, vinte e sete anos mais velho, vai para Buenos Aires, e se hospeda com ele na Legação Brasileira, chefiada por Assis Brasil.

Com a morte de Leite Moraes, em 1895, quando se desfaz o núcleo patriarcal que abrigava tantos membros da família – inclusive ele próprio –, Pio Lourenço se transfere com a cunhada Isabel, viúva de seu irmão Cândido Lourenço, e com os três órfãos, seus sobrinhos, para uma casa da rua Major Sertório. “Aí vivi eu um dos anos mais felizes de minha vida”, anota ele, cinquenta anos mais tarde, à margem de uma carta da cunhada, que guardara com saudade.

Tem 20 anos quando, em 1896, Antonio Lourenço chama-o a Araraquara, sob o pretexto de que a herança que recebera do pai está sendo afetada e é tempo de ele começar a tratar da vida.

A separação da casinha da rua Major Sertório foi dolorosa, pois já se habituara ao ritmo movimentado da cidade e estava apaixonado pela sobrinha Zulmira, dois anos mais moça. Dois anos depois, já estabelecido e com a vida assentada, casa-se com ela, que é a segunda filha de seu irmão Cândido Lourenço, e neta pela mãe do padrinho Leite Moraes.

O primeiro decênio do casamento não é tranquilo para o jovem casal. Estudos interrompidos, acomodações de carreira, epidemias e crises políticas, graves problemas familiares, tudo isso deixou marcas na sensibilidade exacerbada de Pio Lourenço, e foi provavelmente responsável pelos mal-estares que o vão acompanhar pela vida afora: ciática, dor de estômago, depressões nervosas, temperamento progressivamente solitário.

Mas embora retraído, e talvez tímido, não dispensa interlocutores, precisa de alguém por perto a quem possa impor sua vontade e que acate as suas razões. Tem o temperamento autoritário, mas, talvez por ser o caçula de uma extensa irmandade, sente-se mais seguro exercendo a tirania em círculos fechados, na cidade do interior onde nasceu, na fazenda, na chácara, nas casas que construiu. O tempo e os acontecimentos fizeram dele um misantropo, uma “espécie de neurastênico de profissão”, temido na família, como o vai definir Mário de Andrade.

Esse homem inteligentíssimo, culto, civilizado, é em tudo original: no mundo cerrado que construiu e no qual se encasulou, no horário das refeições, na concepção de conforto, na peculiar utilização do dinheiro, na maneira pessoal de se vestir e calçar, no desprezo soberano por toda e qualquer sujeição à moda. A correspondência com Mário de Andrade será a abertura mais prolongada, mais importante que manterá com o mundo exterior.

 

O conjunto da correspondência é constituído por 105 cartas e bilhetes de Pio Lourenço e 84 cartas de Mário de Andrade, datadas de 1917 a 1945. Devido ao temperamento ordeiro e escrupuloso dos dois correspondentes, o conjunto foi preservado em perfeitas condições. Não obstante, Pio Lourenço só começou a colecionar as cartas do amigo depois que o prestígio deste estava, de certo modo, consolidado. Quando essa curiosa amizade epistolar se inicia, ele tem 41 anos e meio, e Mário de Andrade pouco mais de 23. Dois acontecimentos familiares foram decisivos na aproximação dessas duas pessoas tão diversas em temperamento, concepção de vida, normas de conduta, preferências intelectuais e artísticas, idéias políticas: as mortes do irmão mais moço e do pai de Mário de Andrade.

A morte do irmão Renato dá-se a 22 de junho de 1913, quando Mário está entrando na casa dos 20 anos e inicia seus cursos de teoria musical no Conservatório, como aluno praticante. Renato, menino extremamente dotado e o predileto da família, teria sido certamente pianista. A morte inesperada, o excesso de trabalho e a convalescença de “um amor besta de adolescência” contribuíram certamente para a séria depressão nervosa que atingiu Mário. Em carta a Manuel Bandeira, de 29 de maio de 1931, ele relata como foi o bom senso de seu tio que o salvou: Pio levou-o para a fazenda em Araraquara e deixou-o lá sozinho. Aparecia de tempos em tempos para saber se não estava precisando de nada e ia-se embora. Quando Mário voltou da fazenda, estava curado. É esta a primeira vez que a mão amiga de Pio Lourenço intervém no seu destino.

Quatro anos mais tarde, a 15 de fevereiro de 1917, Carlos Augusto de Andrade morre de uma crise cardíaca. Mário ainda não tinha se encontrado como escritor e atravessava o período do “ruim esquisito” a que Manuel Bandeira se refere. Se a primeira morte o surpreendeu na disputa com o irmão, a segunda ocorre quando ainda não havia resolvido a “desafetividade” entre ele e o pai, que deixou marcas tão profundas como atestam as cartas e os Contos Novos.

 

A primeira carta de Mário se perdeu, mas pela resposta de Pio Lourenço percebemos que ela acompanhava a oferta de seu primeiro livro, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema (1917), e que o autor pedia a opinião sobre ele, pondo-se diante do tio para ser julgado.

Pio Lourenço rejeita vivamente a responsabilidade, sentindo-se incapaz de julgar o que quer que venha dos filhos de Carlos Augusto:

Eu sou o tio Pio, eu sou o amigo do Papai. O Papai, em longos anos de convivência que eu vivo e viverei revivendo, obliterou em mim o livre exame para examinar essas coisas, quando elas vêm do Carlinhos, do Mário ou da Lourdes. Eu me sinto perfeitamente suspeito: é como se houvesse de emitir juízo sobre obra minha.

Mas se não pode julgar, pode, como camarada, exigir tarefas, trocar favores. Por exemplo: pedir que Mário lhe compre mercúrio para trabalhos na fazenda; que procure nas casas do ramo os anéis de metal para identificar as galinhas da raça Bresse compradas no Rio de Janeiro; que se empenhe de corpo e alma na complexa aquisição de um presente para a “impressionante afilhada” de casamento; que lhe compre a Encyclopédie Scientifique, “publiée sous la direction du dr. Toulouse”, em que um dos volumes é dedicado aos insetos himenópteros… Pede-lhe ainda o “estafante favor” de folhear os dez primeiros volumes da Revista Lusitana, que está à venda, verificar se a obra está em ordem e se vale mesmo os 800 mil réis que estão pedindo. “É espiga e grande” – comenta meio contrafeito – “que o trabalho de folhear dez volumes de cerca de 300 páginas não é festa!”

Mário de Andrade, por seu lado, pede a Pio Lourenço um sem-número de pequenos favores: informações sobre problemas de linguagem, sobre hábitos de animais e de insetos, crendices e costumes da região:

Escarafunche bem a memória e veja se tira dela algum provérbio, abusão, frase feita, quadrinha, superstição que imagine não recolhida e vá mandando. (…) Veja se se lembra de qualquer espécie de documento folclórico referente ao boi.

Em outro momento pede ao tio que, “com a sua larga experiência da nossa natureza paulista”, tente identificar um vespão que mata e come aranha, citado por Anchieta numa de suas cartas vicentinas…

 

A chácara onde mora Pio Lourenço em Araraquara é a réplica rural da rua Lopes Chaves. Mais que em sua própria casa, é ali – “na paz sapientíssima da chácara” – no universo ordenado e protegido que Mário trabalha com mais prazer. Ora sentado debaixo do grande ceboleiro, junto à mesa de pedra rosada do rio Chibarro, ora olhando a paisagem tranquila, os três ipês floridos, o gadinho pastando além da cerca. Onde esteja é assaltado pelo desejo da chácara. Em plena viagem ao Amazonas, escreve lamentando que por aquela altura não esteja chegando para o descanso de fim de ano. Só descansa realmente ali. É ali que deseja mergulhar no trabalho – como fez quando escreveu Macunaíma. E por isso projeta, um dia, “estourar pela sua casa adentro munido dum organete e volumosos embrulhos de livros e notas”, para redigir afinal Na Pancada do Ganzá. O amigo que sossegue: “O organete não será para tocar Wagner e a comparsaria da bulha”, mas para o fazer escutar as melodias do Brasil. Não pretende incomodar ninguém, pede apenas “quarto e silêncio”.

A chácara, enfim, é o seu vício, a sua Pasárgada, onde são satisfeitas as suas “vontades rurais”: comer macuco, sentir o sabor verdadeiro do mel de jataí, saborear “filé de carneiro gordo de forno, preparado com sal e lenha de angico”, ceder à “suave convicção de que um arroz com baguaçu vale mais que um prestígio”. A chácara amacia tudo, mas apesar de ser um nirvana dissolvente, não impede que Macunaíma exploda nela em seis dias febris de inspiração, no quarto contíguo ao de Pio e Zulmira.

 

A correspondência não se refere a Macunaíma, que deve ter ficado na memória de Pio Lourenço como um pecado hediondo a ser esquecido. Em compensação, abre espaço para a discussão de Amar, Verbo Intransitivo, sobretudo na tradução em língua inglesa. Mas, como atesta a carta de 10 de março de 1927, já tinha gostado do livro desde a leitura da versão original, mesmo fazendo “muitas e severíssimas objeções, já quanto à ortografia, já quanto à sintaxe, já quanto ao estilo e – arre! – já ainda quanto à geral orientação artística”.

A tradutora norte-americana, Margaret Richardson Hollingsworth, deve ter tido opinião semelhante à de Pio Lourenço, e quando a editora Macaulay remeteu ao autor a versão inglesa, Mário ficou horrorizado. Ao discutir a dificuldade de fazer o livro original ser aceito pela sensibilidade norte-americana, ele concorda, imprudentemente, que, por causa do tamanho do volume exigido pelo editor, os diálogos interiores, disseminados pela obra, fossem substituídos por “alguma descrição de paisagem”, quando necessário. A tradutora não se limitou a isso: modificou integralmente “a geral orientação artística do livro”, interferindo ainda, profundamente, no caráter psicológico da protagonista. Referindo-se em carta a essa catástrofe, Mário comentou que achava, sem modéstia, o livro “bem ruinzinho”, irregular e com páginas que já não assinaria, mas, mesmo assim, ele representava sem dúvida “um livro de arte”: “O trabalho da tradutora foi converter um livro de arte em um livro de comércio, dessas histórias gostosas que a gente lê no trem, no bonde etc.”

Mas como a tradução lhe valera uma “verdadeira conquista”, que era o aplauso do tio, dava tudo por bem empregado:

Bem haja pois a senhorita Margaret – concluía – que entre as tremendas desilusões que me deu, sempre me deu, além dos dólares que estou acostumado toda vida a desprezar no gasto imediato, o seu aplauso a uma obra minha.

Em resumo, foi uma obra degradada que empolgou Pio Lourenço e provocou, em 1934, as cartas entusiásticas dos dias 21, 22, 23 e 27 de setembro, e a compra de mais dois exemplares suplementares de Fräulein, para presentear às amigas. Esse episódio foi decisivo na sua avaliação subsequente do talento do amigo, tendo como fator principal a substituição dos idiomas. A tradução descaracterizou completamente a mensagem artística original, mas na medida em que para Pio Lourenço a língua inglesa era a mais civilizada de todas as línguas, ela purificava, sacralizava o território suspeito e selvagem de Mário de Andrade.

É através de um livro deformado, transposto para outra língua, que Pio Lourenço conclui a sua iniciação na modernidade brasileira. Dali em diante, o interlocutor ranheta e autoritário de 1922 vai se abrandando, tornando-se mais receptivo, oferecendo-se como colaborador possível para as traduções futuras. Traduções, é claro, mais afeitas ao gosto dominante – como as preconizadas por miss Hollingsworth.

Por outro lado, “a deliciosa aventura” de Fräulein deve ter provocado um período de recordações, de lembranças de episódios e pendores da juventude que, com o aprofundamento da amizade, e o afrouxamento da censura, emergiam agora espontaneamente entre os dois amigos. Acho que é assim que devemos entender os anos seguintes da correspondência na qual parece despontar em Pio Lourenço a esperança de um entendimento estético com o amigo e a possibilidade de também ter talento literário.

É então que tira da gaveta velhos esboços como O Caso do Barraqueiro e Garapa Azeda, que talvez pudessem ser refeitos. E que lembra episódios extraordinários de sua jeunesse dorée interiorana, quando ainda era solteiro, amava os cavalos ajaezados e gostava de escandalizar a parentela da cidadezinha, idealizando carros alegóricos em que as raparigas locais posavam de gregas.

No início de 1942, provavelmente durante uma estadia de Mário na chácara e depois de algumas recordações nostálgicas, combina com ele reproduzirem literariamente, cada um a seu modo, estilo e temperamento, um desses episódios pelo qual Mário se apaixonou. O episódio escolhido é registrado em cinco cartas do escritor e seis de Pio, e merece uma breve análise.

 

As divergências quanto ao tratamento do personagem central surgem desde o início e decorrem da própria concepção que cada um tinha do que seja a verdade da vida e a verdade da arte. De certo modo, Pio está preso a um amor genérico da verdade: confia sem hesitação no “sol velhíssimo da verdade”. E por isso, eu acrescentaria, é que faz na correspondência a defesa da fotografia em detrimento da pintura, dando vivas à Kodak de Mário contra os Caipiras Negaceando de Almeida Júnior. E desafia “o mais agudo engenho humano a produzir qualquer coisa igual ao inigualável quadro naturalista” produzido pelo instantâneo fotográfico.

Mário, ao contrário, pende para a mentira da arte:

O que me interessa no caso – diz ele a certo momento – não são as verdades, mas aquilo em que as verdades locais e episódicas iam se transformar, para mim, num dado de universalidade. E para isso eu deformava tudo, em proveito da “nova síntese” que é a arte.

Para Mário, “era a verdade da arte X a mentira da vida; a deformação X a transposição fiel da realidade”.

Quanto aos personagens e ao entrecho, Mário explica que conservaria alguns traços verdadeiros, exageraria outros etc. No caso presente, o que ia interessá-lo era o homem (e não o personagem feminino), mas não iria descrevê-lo como um tipo, um exemplar particular, e sim como protótipo, isto é, naquilo em que era “representativo de uma mentalidade brasileira numa dada época psicossocial do Brasil”.

O que me interessou – conclui – foi retratar aquela noção ríspida, um bocado estreita mas elevada e de forte defesa social, com que ali pela caudinha do século passado o homem se conservava numa noção tamanha de honradez, de dignidade, de respeito aos seus compromissos quaisquer (no caso matrimoniais), a ponto de fazer os maiores sacrifícios de sensibilidade e lembranças gratas para impedir que uma mulher livre guardasse “exposto” um retrato dele. Essa concepção, em favor da qual, está claro, eu não hesitaria em exagerar os dois tipos, tornando aliás o homem bastante mau e antipático, favorecendo a mulher na luz roxa de bastante infeliz. Enfim um fenômeno irritante de patriarcado (…).

Mas, refletindo bem, viu que a deformação poderia ferir o amigo e acabou desistindo do conto que, se tivesse prosseguido na elaboração, denominaria “O retrato”, dada a perspectiva escolhida.

Mas não deixou de analisar a versão de Pio Lourenço, centrada na personagem feminina, referindo-se inicialmente à escrita: “(…) o problema da linguagem, esse, é irremovível entre nós.”

Concede que o conto está admiravelmente bem escrito no sentido da linguagem castigada, estilizada, gramatical etc., “mas é linguagem muito à feição dos que não podem se libertar de um estilo que, nem em Portugal, já não se usa mais”.

Em resposta, Pio Lourenço argumenta humilde, embora magoado:

Escrevi na minha [linguagem], ou na única que sei manejar. Um homem de 67 anos é quase um antepassado. É um documento histórico ambulante, que pode sentir ainda os choques da vida presente, mas não tem a energia precisa para os assimilar. Não sei, não posso absorver os eflúvios que dimanaram da Semana de Arte Moderna, tenho por eles invencível antipatia, talvez porque eles ponham as minhas fraquezas em evidência, e com isso me sinto diminuído entre os moços que os assimilam.

Apesar das divergências entre os dois, sentimos que está menos irônico e mais respeitoso das posições do antagonista. Quanto a Mário, não desistiu de conquistar o amigo. Por ocasião do aparecimento de Os Filhos da Candinha escreveu-lhe anunciando a próxima remessa do livro e diz que as crônicas que o compõem foram “dirigidas pra outra banda da arte, a beleza, o valor estético, a perfeição do dizer. Pode não ser para os outros” – conclui –, “mas para mim essas crônicas de Os Filhos da Candinha que o senhor receberá lá por abril ou maio são o meu livro mais bem escrito. O meu livro impossível de um português escrever”.

Pio Lourenço recebe o livro a 7 de agosto de 1943, acusa logo o recebimento “da visita conjunta” e trata “de ouvir um por um os rapazes” que lhe dão a melhor das impressões: “Tenho gostado muito dos meus novos amigos, entre os quais reconheci aliás dois ou três antigos interlocutores”, escreve em carta de 23 de agosto:

E, o que é mais, à medida que vamos entrando em maiores intimidades, aumenta a simpatia que vários membros da notável família me inspiraram. (…) O livro ainda não viu e não verá tão cedo a prateleira da estante. Anda por aqui, de mesa em mesa, de mão em mão, nesta sala quadradona e ampla, de que se constitui atualmente o primeiro enfeite. Já tem cosido à dobra da folha de rosto, por meio de um alfinetão grosso e comprido, a carta em que você declara ser este o seu livro mais bem escrito (…) Mot de la fin: gosto do livro: será guardado juntinho do Verbo Intransitivo.

Terminava o longo aprendizado dos dois amigos, a mútua iniciação em personalidades e concepções literárias tão diversas. Caminho bem mais complexo que a volta de uma ovelha ao aprisco.

Por essas razões – e outras a que vou aludir mais adiante – a correspondência pode ser abordada de outra perspectiva.

 

Vendo as cartas em conjunto – como estrutura funcional, não como documento –, percebemos que representam um todo orgânico. É uma estrutura fechada, coerente, com princípio, meio e fim, provocada por uma propulsão inicial (a publicação de um livro conjugada à morte do pai). Vem depois uma progressão ascendente, representada pelo debate intelectual dos dois correspondentes e, em consequência, o delineamento do acordo no episódio de Amar, Verbo Intransitivo (sobretudo através da versão norte-americana do livro). Segue-se um esforço de entendimento, com a aceitação de Os Filhos da Candinha, que se caracteriza por ser um entendimento puramente artístico, desta vez sem nenhuma conotação erótica, como acontecera com o livro anterior. Segue-se a estes um período depressivo, em que os correspondentes ontologicamente infelizes procuram se apoiar mutuamente, a introdução do tema da morte e a carta final em que Mário de Andrade, quinze dias antes de morrer, coloca com melancolia o tema da celebridade. Do ponto de vista intelectual, a correspondência se estende da estréia literária do escritor até sua entrada na posteridade.

Curiosamente, o cenário onde esta trajetória se efetua não é o do mundo das artes e das letras, como no restante do epistolário. Não é igualmente o mundo familiar, como podia parecer à primeira vista, uma vez que o interlocutor é um parente muito próximo. É o mundo envolvente, enfeitiçante da chácara, mundo fechado, diverso de todos os outros espaços. Eu ouso dizer que é o mundo onírico, odorante e sonoro (povoado de cigarras, cheirando a murta e magnólia, como diz Pio Lourenço), onde reina um casal de velhinhos afáveis e hospitaleiros, sempre à espera da chegada anual do visitante.

De tempos em tempos, para se retemperar, o visitante retorna e penetra nesse mundo encantando, vencendo a vigilância da coruja, que preside à entrada das cartas e visitas.

É nessa atmosfera amorosa e protegida que Mário de Andrade descansa e produz.

 

Uma série de fatores e pequenas coincidências – a que irei me referir – aliadas à tonalidade mágica da atmosfera parecem sugerir que a visão da chácara é uma fantasia compensatória e o seu dono Pio Lourenço, uma substituição. Uma dessas substituições muito frequentes nos sonhos, a que recorremos para abrandar as tensões e trapacear a censura. Ele não está ali por ele, mas por outra pessoa. Quem sabe substituindo Carlos Augusto, o grande amigo ausente a quem se refere, aliás, na primeira carta.

Pio Lourenço não é um parente qualquer, escolhido ao acaso dentro da família: é o amigo devotado de Carlos Augusto de Andrade. Quando aos 14 anos, órfão de pai e mãe, foi retirado do seminário e incorporado à grande família patriarcal de Leite Moraes, esta já havia estendido o seu braço protetor a Carlos Augusto, Maria Luiza e aos filhos que iam chegando. Passou toda a adolescência à sombra desse amigo mais velho, experiente, instruído e civilizado, que soube estabelecer com ele uma relação cordial, bem mais espontânea do que aquela que manteve com os filhos.

A lembrança afetuosa que Pio Lourenço guardou de Carlos Augusto, e mais tarde procurou transmitir aos filhos dele, divergia muito da imagem ríspida e fria que Mário fixa nas cartas e em várias narrativas bastante autobiográficas de Contos Novos, sobretudo “Peru de Natal”, de que o pai é protagonista latente. Em todas essas transposições deformou sensivelmente o original, exagerando as características negativas e ignorando os traços que poderiam sugerir complexidade ou ambiguidade. A deformação provém não apenas de convicções literárias (como explica na correspondência), mas um pouco porque perdeu o pai num momento de incompatibilidade, não tendo tido tempo de refazer o juízo da mocidade. Ora, prestando atenção verificamos que maltrata igualmente Pio Lourenço, ao transpô-lo na figura extraordinária de Joaquim Prestes em “O poço” ou no que seria o personagem masculino da versão que esboçou de “O retrato”. O modelo servia indiferentemente para Carlos Augusto e Pio Lourenço, mas na vida real ambos eram para ele homens de “nobreza inflexível”, podendo servir de exemplo, refúgio e inspiração para os artistas.

Neste sentido, a carta de 11 de maio de 1931, escrita na véspera do aniversário do “tio Pio da longe Araraquara”, serve de pretexto para, saudando-o pelos 56 anos (pois é mais fácil contar por carta o que sentia), comunicar o juízo verdadeiro que faz dele e dizer como preza a intimidade que, apesar das “diferenças de idade e de experiência de vida” se estabeleceu entre ambos:

Em vidas muito acidentadas e muito cheias de precariedades derivadas da curiosidade do mundo e da paixão por ele, como são em geral as vidas dos artistas e é esta minha, nada faz tanto bem, nada repõe a gente dentro da sua mais perfeita e sobrenatural finalidade que a presença dum homem de nobreza inflexível. A gente se garante nesse refúgio e cobra forças pra não derrapar definitivamente. (…) Às minhas “loucuras”, fantasias, curiosidades, a sua simplicidade sistematizada de ser deu maior paciência, mais precisão de fortificarem-se no estudo; à minha sensibilidade, o senhor e sua vida trouxeram novos lados, desconhecidos antes, por onde ela se experimentasse e enriquecesse; e finalmente à riqueza milionária das minhas fraquezas veio a sua belíssima e tão nobre atitude moral pôr freios (…).

É uma carta filial, agradecida, reverente, que podia ter sido endereçada ao pai, se a morte não tivesse colhido antes do amadurecimento do filho.

Mas a meu ver o traço mais convincente da substituição é o convite que ele faz ao tio para que esteja presente, como convidado especial, ao Congresso da Língua Nacional Cantada que o Departamento de Cultura realiza em julho de 1937:

Desejaria intensamente que viesse – declara por carta – quanto mais não fosse para espiar a cara de Souza da Silveira e do Antenor Nascentes que virão e trazem teses.

Será realmente por esse motivo que desejava a presença de Pio Lourenço? Para lhe dar a alegria de se aproximar, ver de perto, trocar idéias com os dois linguistas que tanto admira e com os quais tem trocado cartas, sob o pseudônimo de Mota Coqueiro? Ou porque deseja exibir aos companheiros o tio de que ele se orgulha, tão aristocrático, gentil e civilizado em seu terno abotoado até o peito, como se usava em 1910? Ou estará, antes, exigindo a sua presença para que o “amigo de papai” testemunhe, por ele e por Carlos Augusto ausente, o respeito público que cerca naquele momento a antiga ovelha tresmalhada, aquela que foi impiedosamente vaiada na terrível Semana de 1922? Acaso, não é em momentos como esses que costumamos repetir a frase surrada, mas reveladora, “Imagine se seu pai fosse vivo!”?

Sob este enfoque, talvez um pouco fantasioso, a presença de Pio Lourenço no Congresso da Língua Nacional Cantada, ideado e presidido por Mário de Andrade, representaria o momento final de uma conversão, o episódio público e apoteótico que completaria agora a adesão artística de Pio a Amar, Verbo Intransitivo e Os filhos da Candinha.



A última etapa da correspondência (1938 a 1945) não conserva essa tonalidade vitoriosa. Mário projetou uma trajetória curta, ela está terminando e Pio Lourenço envelhece, no refúgio da chácara, sentindo adensar-se em torno dele uma névoa opaca, pesada, que lhe oculta os horizontes:

Cada dia me torno mais comparável a certas fêmeas de coccídeos, que segregam do corpo um líquido ceroso e abundante que, dissecando-se após exposição ao ar, adere à madeira onde está a bichinha, formando-lhe justo em volta do corpo uma valente e apertada prisão intransponível – confessara anos antes.

Mário, por sua vez, passado o episódio do Departamento de Cultura, ingressa no pior período de sua vida, período cheio de atribulações financeiras e, logo mais, de dúvidas sobre o que foi sua trajetória intelectual. Em 1940, escreve à mão, com caligrafia descontrolada, uma carta de desespero:

Ando cada vez mais bicho-do-mato, sem ver ninguém de ninguém. Não que esteja neurastênico, estou pior: misantropo, detestando homens e mundos e com poucas razões de existir.

Impressionado com a “linguagem sombria” do amigo, Pio Lourenço responde procurando apaziguá-lo, acenando-lhe com o recurso pacificador da chácara:

Você está esgotado, homem (…), venha cá descansar, tomar fitina, comer ovos frescos, pescar lambaris, ler as Peregrinações, escrever artigos em ambiente perfumado de murtas e magnólias, rodeado dos “pequenos barulhinhos que constituem o grande silêncio” e verá desaparecerem, na poesia das estradas do São Francisco e do Matão, as equimoses subjetivas que mancham a alma e prejudicam a saúde do corpo.

Aqui já começa a aparecer de manhã uma fresquinha macia, que ajuda a viver. Venha gozá-la, venha sentir as carícias de abril longamente, docemente – e apreciar de bem longe o rumor da política, das ferocidades sociais e das guerras de extermínio. Saudades e abraços nossos.

Depois da crise provocada pela saída do Departamento de Cultura, os dois amigos procuram se apoiar na depressão. É um período melancólico de poucos anos, a última crise da vida de Mário, quando ele toma consciência de que se transformou em um “homem célebre” e se vê “obrigado a encarar o problema desilusório da celebridade”, mas não consegue confiar no veredicto dos contemporâneos.

Assim se expressa na última carta, datada de 10 de fevereiro de 1945:

Mas afinal desde meados do ano passado que me vi enfim obrigado a encarar o problema desilusório da celebridade. (…) Tenho esperneado que o senhor não imagina para me livrar de exigências, convenções, e o diabo que a celebridade traz. Se ao menos trouxesse uma qualquer certeza pessoal de valor, qualquer confiança… Mas à medida que a vida dos outros, a vida “social” da -celebridade toma conta de mim, cada vez mais, cada vez mais me sinto incerto de minha vida e minhas obras. É triste.

Quinze dias depois, morria de repente.

Pio Lourenço sobreviveu doze anos ao amigo. Depois de sua morte, foram encontrados em seus papéis alguns testemunhos comoventes de seu apego a ele: cartas de pêsames dos colegas filólogos, recortes de jornais, recorte do último artigo da Folha da Manhã, às vezes com anotações na sua bela caligrafia e dois originais escritos a lápis, com correções e em papel rascunho: o primeiro, do Relatório e o segundo, da Exposição de Motivos do Congresso da Língua Nacional Cantada. E há um longo artigo de Mário intitulado Língua Nacional em que a certa altura o escritor faz a seguinte avaliação da Monografia da Palavra Araraquara:

Livro muito bem escrito, o qual veio demonstrar que, de raro em raro, aparece algum filólogo que, além de escrever correto, escreve bem (…) é dos ensaios mais finos e hábeis de psicologia linguística que conheço em português.

A correspondência é uma versão miniaturizada do trajeto que Mário de Andrade percorreu desde o livro de estréia até sua glorificação final de escritor. Na última carta, já no limiar da morte, ele entrega ao tio o resultado do esforço que fez para ser digno da estima, como quem confessasse:

Esta é a minha carta de brasão.

Gilda de Mello e Souza

Gilda de Mello e Souza (1919–2005) foi crítica literária, ensaísta e professora universitária. Escreveu O Tupi e o Alaúde: uma Interpretação de Macuna

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