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    Hamada, um militante sírio, passou quinze meses detido. “Você acaba querendo que eles te matem logo. Já não aguenta mais a tortura, ou mesmo dormir, acordar de novo e ter de viver cada dia.” FOTO: MICHAEL MCQUADE

carta da Síria

O arquivo Assad

Como uma organização independente conseguiu reunir documentos oficiais capazes de incriminar o governo de Bashar al-Assad por violações aos direitos humanos

Ben Taub | Edição 119, Agosto 2016

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O investigador já havia feito aquela mesma viagem talvez uma centena de vezes, sempre no mesmo caminhãozinho estropiado geralmente vazio. Ao longo dos quase 65 quilômetros até a fronteira, ele passava por onze postos de controle nas mãos das forças rebeldes que combatiam o governo do ditador sírio Bashar al-Assad. Os soldados rebeldes, nos postos de controle, já o tratavam como alguém da região, um advogado cujos infortúnios na guerra incluíam ter que passar diariamente por aquele trecho de estrada. Às vezes o investigador oferecia a eles água ou algum lanche, e sempre fazia questão de agradecer pela proteção que os militares rebeldes proporcionavam a civis como ele. Naquela tarde de verão, seu caminhão carregava mais de 100 mil documentos que, depois de terem sido roubados do governo da Síria, haviam sido enterrados em poços ou escondidos em cavernas e casas abandonadas.

O condutor pegara a estrada ao entardecer. Para os combatentes nos postos de controle, era como se ele fosse invisível. Um dos três veículos de reconhecimento que o precediam confirmou por rádio o que ele esperava ouvir: não havia novos postos de controle à frente. A fronteira deveria estar fechada, como de costume, mas os soldados do país vizinho lhe permitiriam passar. Ele seguiu até uma embaixada ocidental, onde deixou a encomenda para ser entregue em segurança a Chris Engels, um advogado norte-americano. Engels esperava que naqueles documentos constassem provas capazes de ligar altas autoridades sírias a atrocidades cometidas em massa. Depois de uma década preparando advogados para atuar na área do direito penal internacional – nos Bálcãs, no Afeganistão e no Camboja –, Engels hoje dirige a unidade dedicada aos crimes do regime sírio da Commission for International Justice and Accountability, Cija (Comissão para a Justiça Internacional e a Imputabilidade), uma entidade investigativa independente, fundada em 2012 em resposta à guerra na Síria.

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