carta da venezuela

O arroz chegou

Sobreviver é a principal preocupação dos venezuelanos

Paula Ramón
“Tem carne?”, pergunto no primeiro açougue que encontro. “Só na lousa”, responde o empregado, mostrando o quadro com os preços na parede. De braços cruzados e com a geladeira vazia, ele me explica que o último lote de carne chegou ali no sábado, mas já no domingo não havia mais nada
“Tem carne?”, pergunto no primeiro açougue que encontro. “Só na lousa”, responde o empregado, mostrando o quadro com os preços na parede. De braços cruzados e com a geladeira vazia, ele me explica que o último lote de carne chegou ali no sábado, mas já no domingo não havia mais nada MERIDITH KOHUT_© PHOTOSHELTER, INC

Quando o avião se aproxima de Maracaibo, o azul-turquesa do mar caribenho surge como um clichê, mas um clichê que toda vez desperta a saudade de algo que parece irrecuperável.

Às três da tarde de 21 de agosto, o Aeroporto Internacional de La Chinita – como os venezuelanos se referem à Virgem de Chiquinquirá – está deserto. Por ele circulam apenas alguns poucos funcionários e os passageiros desse voo que vai e vem de Miami, talvez uma das poucas reminiscências da época de ouro de Maracaibo, cidade rica de petróleo que décadas atrás era chamada de Arábia Saudita da Venezuela.

Sou a passageira que chega com menos bagagem, embora tenha duas malas grandes, fora a de mão. Estão cheias de alimentos básicos – farinha, arroz, açúcar, café, macarrão e leite –, mas também de alguns “luxos”, como diz Paulina, minha mãe (que tem vergonha de pedi-los a mim): biscoitos, gelatinas, doces e chocolates. Também trago os remédios que ela necessita para controlar o hipertireoidismo, e não toma faz um mês porque não os encontra na cidade, bem como proteínas, analgésicos, vitaminas para dez meses e os indispensáveis corticoides. De Miami, mandei os rolos de papel higiênico por um navio que chegou alguns dias antes de mim na Venezuela. Comigo trago ainda pastas de dente e sabonetes, além de pneus novos para a cadeira de rodas de minha mãe, que não encontro há um ano e meio.

Com tanta bagagem para verificar, os funcionários da alfândega não podem demorar muito com cada um dos passageiros. Porém, como sou uma das últimas a sair, não passo despercebida. “Isso é um iPhone?”, me pergunta a jovem fiscal que, seguindo a moda no país, usa longas unhas de acrílico estampadas com motivos dourados. “Não”, digo, lacônica e com olhar firme. A Venezuela é uma constante queda de braço com todo mundo, especialmente funcionários do baixo escalão. Às vezes ganhamos, às vezes perdemos. É bom cultivar um misto de psicologia, paciência e jogo de cintura, pois costuma funcionar mais do que a confiança nas leis e nos direitos.

A funcionária não solta o telefone. Vira-o de um lado para o outro, pensativa. Fico em silêncio, tentando antecipar em seu rosto algum sinal do que me espera. “É muito parecido com um iPhone”, ela diz, depois de alguns minutos, devolvendo-me enfim o aparelho da marca Xiaomi.

Conseguir sair de um aeroporto venezuelano com a bagagem intocada sempre é para mim motivo de comemoração, pois não são pequenas as chances de algum objeto ser furtado ou de algum funcionário da alfândega se “apaixonar” por ele. Foi para evitar isso que decidi pegar o voo de São Paulo, onde moro, até Miami, para daí seguir diretamente até Maracaibo. Desse modo, evitei a entrada na Venezuela pelo aeroporto de Maiquetía, em Vargas, ao lado de Caracas, onde os voos são cancelados com frequência e os riscos de furto são maiores.

Quem vem me apanhar de carro é uma amiga de meu irmão Pablo, uma vez que não se pode confiar nos táxis. Do Chile, onde vive, ele combinou a corrida com Yeraldin Ferrer, jovem funcionária em férias de um banco estatal, que aceitou fazer esse “bico” porque está juntando dinheiro para arrumar o ar-condicionado do carro. “Acho que as coisas vão melhorar na Venezuela”, ela diz, assim que saímos do aeroporto e seguimos pela rodovia que leva a Maracaibo. “Mês passado, eu precisava comprar um remédio para minha mãe, mas meu salário não deu”, continua. “Neste mês, com o aumento, não só vai dar, como vai sobrar.” Sua convicção me faz intuir que é adepta da “revolução bonita” iniciada por Hugo Chávez em 1999.

Quatro dias antes da minha chegada, o presidente Nicolás Maduro havia anunciado que, no mês seguinte (setembro), aumentaria o salário mínimo de 52 bolívares soberanos (o equivalente a 2,08 reais no câmbio paralelo, quando escrevo estas linhas) para 1 800 bolívares soberanos (72 reais). Para comprar 250 gramas de queijo o trabalhador gasta o total do antigo salário mensal. Com o novo, teria a possibilidade de comprar meio quilo de queijo, além de 2 quilos de farinha, 2 quilos de carne, meio quilo de presunto, uma lata de molho de tomate e algumas verduras, aproximadamente.

“Espero que os preços não disparem com o aumento”, diz Ferrer, um pouco menos animada. Em silêncio, descarto a ideia de comentar que os preços mudam diariamente e que a inflação na Venezuela ronda os cinco dígitos e deve chegar a 1.000.000% até o final do ano, segundo o Fundo Monetário Internacional.

A promessa de aumento salarial não é a única novidade na minha chegada. Desembarco no país no segundo dia de uma reforma monetária que implantou o chamado bolívar soberano. Quando foi anunciada em março, a reforma planejava tirar três zeros da moeda então vigente, o bolívar forte, que entrou em vigência em janeiro de 2008, com Chávez, e que resultou da eliminação de três zeros do antigo bolívar (apenas, sem qualificativos). Mas, como o bolívar soberano demorou a ser implantado e o bolívar forte foi ficando cada vez mais fraco, tiveram que cortar não apenas três, mas cinco zeros. “Será que as coisas vão mudar com o bolívar soberano?”, pergunta Ferrer. Respondo de maneira genérica e vagamente empática: “Vamos ver.”

 

As ruas do Veritas, o bairro de classe média onde vive minha mãe, estão ainda mais desertas que da última vez em que estive na Venezuela. A princípio, penso que é por causa de uma paralisação convocada por líderes da oposição, mas logo deduzo que, na estagnada economia do país, o impacto do protesto é nulo.

Chegamos à casa de Paulina, e ela abre com um controle remoto o portão da garagem, para que Ferrer possa estacionar o carro lá dentro e, assim, os vizinhos não vejam o tamanho das malas que eu trago. Há que se manter sempre muita discrição em um país onde a posse de 1 quilo de farinha é um elemento de distinção entre uma pessoa e outra.

Minha mãe está me esperando na sala, vestida com uma bata. Percebo de imediato que a situação dela é muito mais precária do que um ano atrás, ou apenas seis meses, quando publiquei nesta revista um diário sobre nossas conversas por meio do FaceTime. Professora do ensino médio, ela se aposentou cedo, antes dos 40 anos, por causa de uma doença degenerativa. Nos últimos tempos, como sua aposentadoria minguou até sumir, Paulina passou a depender inteiramente das remessas semanais que meu irmão mais velho e eu enviamos por intermédio de cambistas. Eles recebem o dinheiro em contas no exterior e trocam a quantia pelo equivalente em bolívares, no câmbio paralelo e sem taxas, que depositam em nossas contas locais.

Este ano foi, sem dúvida, o pior para minha mãe. Embora tenha dinheiro na conta e receba a cada dois meses uma caixa de alimentos não perecíveis que eu envio, ela quase não consegue comprar verduras, frutas, carnes e alguns remédios indispensáveis, como hormônios e corticoides. Com isso, sua saúde deteriorou. Para piorar, sua cuidadora decidiu ir embora em julho. Nós não tínhamos como entregar à empregada o dinheiro para o transporte até sua casa nos fins de semana, ainda que enviássemos o salário mensalmente via transferência bancária. Na Venezuela é muito difícil obter dinheiro vivo.

Mais magra, mais frágil e mais deprimida, minha mãe chora com frequência e passa os dias sem mesmo poder se entreter com o tablet, pois há um mês roubaram os cabos de internet da rua e já não existe nenhuma companhia interessada em instalar o serviço para novos assinantes. Para quem não fez uma assinatura de internet domiciliar anos atrás ou quem teve os cabos roubados, a única alternativa é comprar chips com uma capacidade limitada de internet por mês, para serem ajustados em roteadores ou computadores.

Enquanto troco as rodas desgastadas da cadeira que estavam dificultando a mobilidade de minha mãe, volto a propor a ela que me deixe levá-la de mudança para San Cristóbal, cidade onde passou a juventude e onde mora a maioria de seus irmãos. Mas Paulina resiste, porque não quer deixar nem sua casa, nem Maracaibo, onde se sente mais à vontade – foi aqui que passou cinquenta dos seus 72 anos. A conversa encaminha-se para uma nova briga, sei que minha proposta faz com que ela se sinta ainda mais velha e dependente do que é.

Entretanto, eu insisto, pois a vida dela está ficando cada vez mais difícil com a falta de produtos básicos e o colapso dos serviços públicos, como o fornecimento de água, cuja escassez atinge há décadas a população da cidade, de 1,6 milhão de habitantes. Na era Chávez, houve, entre vários projetos, a promessa de saneamento do lago de Maracaibo, ao redor do qual cresceu a cidade, e de aproveitamento da água. Previsto para 2012, nunca saiu do papel. Atualmente, torres petrolíferas abandonadas, tubulações subaquáticas sem manutenção, incontáveis vazamentos de óleo e ataques de pirataria estão destruindo esse reservatório de 13 200 quilômetros quadrados. O fedor do lago invade a avenida El Milagro, onde no passado foram erguidos luxuosos hotéis, edifícios e shopping centers. Nas casas, as pessoas racionam ao máximo a água, armazenada em tanques graças a um intrincado sistema interno de bombeamento, porque “nunca se sabe quando ela volta”. Quando a água volta, minha mãe sempre precisa que algum vizinho ligue a bomba hidráulica para abastecer o tanque, pois é incapaz de fazer isso sozinha. Como às vezes só chega de madrugada, uma dessas vizinhas prestativas precisa ficar aguardando horas a fio na casa de Paulina.

Os problemas com energia elétrica também se intensificaram no último ano. Todos os dias há apagões e cortes de luz. Com medo de que quedas de energia danifiquem o ar-condicionado, como ocorreu várias vezes nos últimos tempos, minha mãe prefere suportar o calor sufocante a ligar o aparelho. É uma situação absurda, pois, desligado, o ar-condicionado não serve para coisa nenhuma.

Na icônica avenida 5 de Julio de Maracaibo, o prédio da extinta Energía Eléctrica de Venezuela foi esvaziado e está hoje em ruínas – as empresas de eletricidade foram todas unificadas na estatal Corporación Eléctrica Nacional, que tem outra sede. A confusão é tão grande no setor elétrico que, em Maracaibo, os consumidores não sabem nem mesmo onde pagar a conta de luz. Explosões frequentes nas centrais e linhas de transmissão – para o governo, por causa de sabotagem; para a oposição, por negligência – acabaram por arruinar dramaticamente o sistema. Certa madrugada, em 31 de agosto, enquanto eu ainda estava na Venezuela, uma dessas explosões deixou a maior parte de Maracaibo sem energia por mais de dez horas. As imagens do desastre viralizaram nas redes sociais, mostrando grandes nuvens de fogo e torres de fumaça que lembravam bombardeios e outras imagens de guerra. Ao mesmo tempo, uma série de explosões e incêndios ocorreu em várias ruas da cidade.

As comunicações também estão deterioradas. A telefonia opera de forma intermitente, assim como o sinal de internet. Quando o fornecedor do serviço é a estatal Cantv, a Compañia Anónima Nacional de Teléfonos de Venezuela, a situação é ainda pior, pois só se consegue que ela reinstale cabos roubados subornando um funcionário ou recorrendo a algum contato dentro da empresa. As conexões de internet são tão precárias que, nas lojas, os vendedores evitam mover a máquina de cartões de débito ou crédito por receio de perder o sinal. Com isso, acabou se institucionalizando no país o hábito de os clientes passarem sua senha para o caixa junto com o cartão. O próprio caixa a digita, sem precisar mover a maquininha.

O transporte público urbano praticamente deixou de existir. Muitas linhas de ônibus desapareceram e as poucas que restam operam não com ônibus, mas com caminhões ou micro-ônibus em péssimas condições. Foi a dificuldade de renovar a frota ou de encontrar peças de reposição, baterias e pneus, que fez os ônibus sumirem das ruas, um a um. Como se não bastasse a falta de veículos, as passagens devem ser pagas em dinheiro vivo, outro bem escasso na Venezuela. Com isso, muita gente que depende do transporte público para ir ao emprego prefere pedir as contas, como fez a cuidadora da minha mãe, que resolveu cruzar a fronteira para buscar trabalho na Colômbia.

Presa a uma cadeira de rodas, Paulina acabou sem empregada, sem internet, praticamente sem eletricidade e sem água, contando apenas com a ajuda esporádica de sua única irmã em Maracaibo, de suas quatro noras (incluindo as ex) e de algum vizinho para poder se alimentar, se arrumar e manter a casa minimamente em ordem.

 

A abundância de petróleo permitiu que a Venezuela vivesse anos de prosperidade durante o governo Hugo Chávez. Em 2014, com a queda dos preços do produto – que é a fonte principal do PIB do país –, aprofundou-se a lenta destruição da economia nacional. Sem dinheiro, Nicolás Maduro, que sucedeu Chávez, cercou-se de uma equipe de governo partidarista, que estimula o perfil autoritário do presidente. Apesar de a situação estar piorando cada vez mais, Maduro nunca reconheceu de fato os erros do governo na gestão da economia, responsabilizando inverossímeis inimigos internos e externos pelo desastre que está fazendo naufragar a “revolução bonita”.

Quando a fome nas ruas chegou às portas do palácio do governo, o presidente viu-se obrigado a criar medidas econômicas embaraçosas em relação ao controle de divisas e ao preço da gasolina – que Chávez manteve congelado nos catorze anos de seu governo, gerando um gasto gigantesco para o Estado, que até hoje subsidia o abastecimento nacional. Apenas em 2016 Maduro decretou um aumento, insignificante perto da desvalorização da moeda e da inflação acelerada, e que não serviu para recuperar a defasagem de décadas de subsídio. Contudo, dada a pouca circulação de dinheiro vivo, o aumento real aconteceu de maneira extraoficial, como quase tudo no país.

No posto de gasolina mais próximo da casa de minha mãe, o gerente me mostra um maço de notas de 1 mil bolívares fortes – os bolívares soberanos tinham sido liberados há pouco e ainda não circulavam de maneira expressiva entre a população – e explica que, por causa da escassez de cédulas, é impossível dar troco. Um tanque de 40 litros custava menos de 50 bolívares fortes no momento da minha estadia (0,00002 real no câmbio paralelo), mas para enchê-lo as pessoas precisam pagar 1 mil bolívares fortes (0,0004 real). O mesmo acontece nos demais postos de gasolina da cidade, onde muitos funcionários chegam a rejeitar as (quase extintas) notas de menor valor. O lucro, evidentemente, não é repassado para a estatal, e caso fosse não teria nenhum impacto no caixa do governo. O funcionário guarda o maço de notas e completa: “Se você não tiver dinheiro, não se preocupe, encho seu tanque assim mesmo.” Mas a gasolina já não está sobrando, e por isso há filas nos postos.

Em meados de agosto, Maduro falou que planejava um novo aumento. É uma proposta confusa que pretende equiparar os preços na Venezuela aos padrões internacionais – algo totalmente impraticável, considerando-se o salário mínimo de 72 reais. Ao mesmo tempo, ele prometeu manter o subsídio estatal para quem fizer um registro digital e apresentar no posto de gasolina a “carteira da pátria”, implantada em 2017. Trata-se de um cartão com um código de barras que permite aos venezuelanos conseguirem um bônus em dinheiro. Mas há quem diga que a “carteira da pátria” não passa de um instrumento de controle e discriminação – segundo os líderes da oposição, ela foi usada como elemento de coação na eleição presidencial ocorrida em maio.

Minha mãe se nega a tirar a carteira, porque não depende das ajudas do governo no dia a dia e, como não tem carro, não precisa de gasolina. É seu gesto de resistência, ela acha. Mas nem todo mundo pode se dar esse luxo. Uma de minhas primas, embora entenda como “humilhação” a obrigatoriedade da carteira da pátria, foi logo procurar um posto de cadastramento, pois para ela gasolina é produto de primeira necessidade.

 

“Confiem em mim”, diz Maduro em cadeia nacional de televisão, insistindo em seu empenho inútil de imitar o carisma do falecido Chávez. Há quem ainda acredite nele, e há os que já não suportam mais ouvir sua voz. Mas, agora, a prioridade dos venezuelanos não é tanto a política, mas seguirem vivos, seja trocando de país, seja procurando formas criativas de driblar a fome e os problemas em sua própria terra. Se as pessoas na Venezuela parecem submissas e impotentes não é porque não tenham princípios ou não estejam fartas de seu governo, mas sim porque a sobrevivência virou a questão primordial delas, aquilo que as ocupa o tempo todo, dia e noite.

As prateleiras dos supermercados estão praticamente vazias, os açougues são vigiados pela Guarda Nacional e os hospitais quase não têm médicos nem remédios. Como o dinheiro vivo é raridade no país, as agências bancárias estão sempre superlotadas, com longas filas em frente aos caixas eletrônicos para se obter as notas. Mas nesses caixas o limite diário de retirada é de 10 bolívares soberanos (equivalente a 0,40 real), e por isso as pessoas preferem recorrer aos guichês, onde conseguem 50 bolívares soberanos (2 reais) por dia. A quantia não é suficiente nem para comprar 1 quilo da tradicional harina P.A.N (uma farinha de milho pré-cozida) no mercado negro (onde é obtida com mais facilidade). Para pagar uma passagem de ônibus, ida e volta, por exemplo, que custa 20 bolívares soberanos, a pessoa tem de ir dois dias ao caixa eletrônico.

Sigo por uma rua e vejo uma enorme fila para dois caixas eletrônicos. A fila continuará até que acabe o dinheiro ou o expediente do banco. Geralmente, o dinheiro acaba antes. Dentro do banco, há outras duas filas extensas para os guichês dos caixas: uma para retirada de dinheiro, outra para assuntos variados. “Isso aqui é o apocalipse, estamos todos famintos  e quase nus”, diz uma senhora que está há duas horas numa das filas. Como não existe atendimento preferencial, idosos, grávidas e pessoas com deficiência têm que aguentar firmes como qualquer outra pessoa. Ninguém reclama ou quebra as regras do jogo, nem mesmo quando algum espertinho fura a fila. É tão grande o medo de o dinheiro acabar ou de a energia elétrica cair e não haver meios de imprimir algum documento que todo mundo só deseja que sua vez chegue logo.

Nas filas, reflexão é o que não falta, assim como comentários saudosos sobre quando “se comprava com 10 centavos o café da manhã completo”, como diz doña María, que acompanha na fila sua irmã Sonia, de 63 anos e com problemas no joelho. “Meus filhos foram embora para o Peru”, diz Pedro, que está na fila para apanhar uma caderneta bancária. “Minha mulher quer ir para lá também. Se eu for embora, perdemos a casa, então prefiro ficar sozinho tomando conta dela, é meu dever”, completa, resignado.

Líderes da oposição e de movimentos habitacionais denunciam que o governo respalda de forma extraoficial um suposto programa conhecido como “Ubica Tu Casa” (Encontra a Tua Casa), que incentivaria as pessoas a rastrear e invadir propriedades que estão vazias porque seus proprietários deixaram o país. O governo nega a acusação e diz que se trata de uma campanha de ódio, mas em alguns bairros de Maracaibo é possível ver grafites nos muros dizendo que os moradores organizados estão “vigilantes” a qualquer tentativa de invasão. Vídeos de invasões também circulam com frequência. Porém, se alguma ocorre, o pedido de despejo não chega a ser uma opção para o proprietário, de tal modo é deficiente o estado de direito. Quem quer sair do país, mas tem casa própria, se debate entre deixá-la aos cuidados de alguém ou vendê-la pelo valor que for possível.

É a segunda vez que a freira Luisa tenta ser atendida no banco. Ela precisa atualizar seus dados depois que se mudou para Maracaibo. No dia anterior, esperou durante três horas e meia, até que um apagão obrigou a agência a fechar as portas. Agora, na reta final da fila, depois de quatro horas de espera, ela não consegue represar o nervosismo. “Estou quase chegando, quase”, diz, olhando com ansiedade para as duas funcionárias que atendem em pequenos cubículos. De repente, uma piscada das luzes faz todo mundo soltar um desesperado grito em uníssono: “Nãooo.” Alarme falso. Foi apenas uma oscilação de energia. O ar-condicionado, as luzes e, o que é crucial, a rede de computadores continuam funcionando.

A uma senhora que pediu a caderneta bancária onde são registrados os depósitos e retiradas, a funcionária do banco entrega apenas uma folha de papel. “Faz meses que não temos material, por isso estamos dando essas folhas para o registro das operações. Quando a folha estiver cheia, a senhora vem e pega outra, que grampeamos na anterior”, explica a funcionária para a cliente, que lança um olhar surpreso. Na fila do saque, explicam para um homem, que, para tirar dinheiro, ele precisará fazer um cheque de 50 bolívares soberanos. Ele avalia a proposta por alguns segundos e desiste. “Não vou desperdiçar um cheque com isso, tenho poucos”, diz.

Luisa foi atendida, mas o sistema para atualizar os dados não está funcionando e ela terá que voltar uma terceira vez. A freira sorri com resignação e sai em silêncio, como os outros que recebem uma resposta negativa. Todos lamentam a situação, mas ninguém se altera, a paciência prevalece – ou o medo. “Você está indignada com a situação porque está de passagem e não é obrigada a viver essas coisas todos os dias”, me dirá uma amiga à noite. “As pessoas foram obrigadas a se acostumar com isso, pois é sempre assim.”

 

Quando decido ir a outro banco privado à tarde, o termômetro marca 36 graus centígrados. A pequena sala está quase às escuras e o ar-condicionado, desligado, apesar de ser a agência de uma das maiores instituições financeiras do país. Respirar é um tormento por causa do calor. Como os caixas eletrônicos ainda têm dinheiro, encontro mais filas ali. Mas para os caixas internos a espera é menor, com filas de cerca de quinze pessoas cada. Olhando os funcionários em suas mesas mal iluminadas, em mangas de camisa e se abanando com papéis, lembro que, há quinze anos, meu irmão mais velho conseguiu um emprego nesse banco. Ele sonhava em fazer carreira e orgulhava-se de, apesar do calor, usar o uniforme composto de gravata, colete e paletó. No passado, o uso do ar-condicionado sempre no máximo levou Maracaibo a ganhar o título de a “cidade mais fria da Venezuela”. A piada foi levada tão a sério que, uns vinte anos atrás, um shopping da cidade inaugurou uma pista de patinação no gelo.

Uma mulher pergunta ao funcionário se não está faltando material de papelaria e cartões – e sua fala me devolve ao presente. “Não está faltando, mas o sistema caiu”, responde o rapaz. Isso explica a fila curta: algumas pessoas desistiram de esperar. Pergunto aos clientes que continuam ali por que ainda aguardam. “Se o sistema voltar, podemos fazer o cartão”, justifica outra mulher. “Eu teria que ir a pé para outro banco, pois não tem transporte”, diz um homem.

Saio do banco e caminho pela avenida 5 de Julio, que foi um marco da cidade, uma espécie de avenida Paulista, guardadas as proporções. Minha infância e adolescência transcorreram nessa região. Lembro-me dos desfiles de Carnaval, das decorações natalinas, das caminhadas até a escola e dos passeios no final da tarde com meu pai, para comprar pão. Vários prédios estão abandonados e locais que eram comércios prósperos, como a padaria, viraram ruínas. A livraria que eu frequentava quando entrei para a universidade agora só comercializa miudezas de papelaria. A confeitaria onde meu pai me levava aos domingos também continua aberta. Na porta, há uma fila de umas trinta pessoas. O local ainda vende seus tradicionais biscoitos de ovos, mas passou a oferecer também pães, frios e outros produtos – que nem sempre se pode encontrar. Pergunto a uma mulher na fila o que ela vai comprar. “O que ainda tiver”, responde. Quando me aproximo da porta de entrada, o funcionário diz que só tem pão e refrigerante.

Chego a outro banco. Não há ninguém nos caixas, apenas três pessoas na porta. Um funcionário espia timidamente por trás das grades – na Venezuela tudo está cercado de grades. “Estamos sem sistema desde cedo, por isso não vamos abrir.”

Caminho mais duas quadras e vejo um grande movimento na porta de uma farmácia. “O arroz chegou, o arroz chegou!”, escuto. Arroz na farmácia? Sim, pois algumas delas passaram a vender também alimentos. Umas trinta ou quarenta pessoas se amontoam na entrada, pois viram descarregar vários sacos de arroz que, segundo os empregados, será vendido a preço tabelado. Para quem não conta com a ajuda de familiares ou amigos que vivem no exterior, comprar alimento a preço de tabela é uma questão de sobrevivência. Mas, tabelados ou não, os produtos não são fáceis de encontrar. É preciso tempo e paciência para percorrer os comércios atrás de arroz, carne, frango, queijo ou presunto. Mais fácil é encontrar alguns vegetais e frutas, que, para quem pode pagar, estão disponíveis em certos locais, como na feirinha perto da casa de minha mãe, que continua acontecendo às sextas-feiras. Um quilo de tomate estava custando, no final de agosto, 45 bolívares soberanos (1,80 real), o equivalente a quase um salário mínimo local naquele momento (52 bolívares soberanos).

Ao lado da feira, uma enorme fila de carros corta a rua. Uma loja de baterias a duas quadras dali conseguiu um carregamento e vende cada bateria a 120 milhões de bolívares fortes, ou 1 200 bolívares soberanos (cerca de 48 reais), ou em torno de 23 salários mínimos naquele dia. Juan, um professor de 43 anos que se divide entre a fila da feira e a da bateria (onde deixou o carro), teme que as peças acabem antes de chegar a sua vez. “Vim cedo, assim que me avisaram, mas já tinham parado de distribuir senhas, não sei se vão me vender”, conta.

As filas, no final das contas, são as únicas coisas que ainda trazem um pouco de vida a Maracaibo. No dia a dia, as ruas esvaziadas e melancólicas parecem viver um eterno domingo de ressaca. Nelas não se vê crianças de uniforme escolar indo e vindo nem pessoas correndo apressadas para o trabalho. Não há jovens conversando nos cafés nem gente passeando com o cachorro. O lixo se acumula nas esquinas e alguns bairros estão sem água há quase três semanas. Por isso, circula pela cidade uma penca de caminhões-pipa, a única alternativa à falta d’água, desde que se possa arcar com o preço do serviço, que chega a 1 150 bolívares soberanos.

Soberanos… O nome da moeda é motivo de piada nas filas. Na prática, o que realmente permite às pessoas ter alguma segurança ou independência financeira é o dólar. Não apenas como valor de referência, mas como moeda preferencial na negociação de propriedades e grandes negócios. Mas a moeda americana também começa a ser utilizada mais e mais em transações menores.

Por isso, quando finalmente consegui convencer minha mãe a abandonar Maracaibo, tive que negociar abertamente em dólares com um sujeito que se dedicava a fazer a travessia de carro até perto da fronteira com a Colômbia.

 

“Você ficou louca”, meu irmão Pablo disparou, quando lhe comuniquei minha decisão pelo telefone. Ele não apenas era contra “abandonar” a casa – “vão invadi-la”, disse –, como achava que viajar com um motorista desconhecido representava para minha mãe e eu um risco imenso. “Caso você vá, leve uma faca e me mande fotos do carro”, insistiu, depois de uma discussão que por fim eu ganhei, ao dizer que era melhor perdermos a casa do que a mãe.

Em um domingo, cinco dias após minha chegada, subi com minha mãe na caminhonete, como se aquela fosse uma viagem qualquer, exceto pelo fato absurdo de que coloquei uma faca na bolsa. Foi triste abandonar de forma improvisada a casa da minha infância, e eu me sentia terrivelmente mal por estar tirando Paulina do lugar onde ela viveu tantas décadas e por expô-la talvez a algum perigo durante a viagem.

Décadas atrás, viajar de Maracaibo a San Cristóbal, nos Andes venezuelanos, onde minha mãe morou até os 20 anos, era uma coisa corriqueira. Apenas 450 quilômetros separam as duas cidades, num percurso que bordeja a fronteira da Venezuela com a Colômbia. Durante anos fomos com alguma frequência a San Cristóbal para visitar meus tios e primos. Mas fazia uma década que não colocava os pés lá.

A principal dificuldade da viagem era o combustível. Todos os postos de gasolina ao longo da estrada permanecem fechados a maior parte do tempo por ordem do governo, a pretexto de combater o contrabando. Na verdade, a gasolina é disputada no estilo Mad Max, vendida ilegalmente e em pesos colombianos com a conivência da Guarda Nacional, assim como quase tudo que se comercializa no percurso. O pouco que se consegue em bolívares não está ao alcance do venezuelano que vive de salário mínimo. Por exemplo, um tequeño – petisco tradicional na forma de um palito de massa folhada recheado com queijo – custa 25 bolívares soberanos (1 real), o que naqueles dias representava meio salário mínimo.

Para não precisar comprar combustível no caminho, nosso motorista, Ramiro, um homem eloquente de pouco mais de 50 anos, levou o necessário para a viagem em garrafas plásticas de refrigerante estocadas no porta-malas. Como se tratava de um carro particular, foi fácil passar pelas cerca de dez barreiras militares que encontramos na estrada, todas ostentando painéis com a imagem de Hugo Chávez, que, morto há cinco anos, tornou-se uma espécie de líder místico no país.

Em Casigua El Cubo, uma cidadezinha a 310 quilômetros de Maracaibo, paramos para reabastecer em frente a uma biboca à beira da estrada. Enquanto nosso chofer transfere a gasolina das garrafas plásticas para o tanque, entro no bar, que cobra em pesos colombianos. Pergunto ao dono, Mario, se é melhor trabalhar com essa moeda. Ele encolhe os ombros e responde: “Não consegui acabar de construir minha casa porque quebrei alguns anos atrás. Achava que ia me aposentar aos 55 anos e poderia descansar. Mas tudo o que guardei em trinta anos de trabalho não dá nem para comprar 2 quilos de carne. Eu vendo as coisas aqui em pesos colombianos porque não tenho máquina de cartão de crédito, nem internet para fazer transferências, nem dinheiro vivo. O que posso fazer?”

Mario me avisa que há um protesto bloqueando a estrada poucos metros adiante. Parece que os moradores de Casigua El Cubo estão pedindo a cabeça de um coronel do Exército por “abusos de poder”. De fato, ao avançarmos pela estrada ladeada por uma infinidade de palmeiras, logo nos deparamos com o bloqueio. Mas soldados da Guarda Nacional armados abrem passagem, e assim continuamos a viagem.

Estranhamente, minha mãe estava de bom humor, e se entreteve durante a viagem criticando sem parar a situação venezuelana: “A Guarda Nacional é corrupta!”, “Olha a cara de Chávez em todo lugar!”, “Como é possível que o asfalto esteja nessas condições?”

Mais ao sul, ao cruzarmos a cidade de San Juan de Colón, a paisagem mudou, revelando o azul dos Andes. A estrada ficou cada vez mais sinuosa e, pouco depois, avistamos a capital do estado de Táchira, San Cristóbal, encravada nas montanhas, a pouco mais de uma hora da fronteira com a Colômbia.

Uma fila enorme para comprar gasolina nos espera às portas da cidade com 283 mil habitantes. Mas não se sente aqui a decadência que tomou conta de Maracaibo, embora o trânsito e o comércio também tenham diminuído em comparação com outros tempos. Chegamos à casa da minha tia Bárbara – que todos chamam Betty – às oito da noite. Ainda fiel à “revolução bonita”, ela escutava justamente naquela hora um discurso de Maduro, o que levou minha mãe a me lançar um olhar de reprovação.

Professora aposentada e viúva, como minha mãe, minha tia mora num sobrado em um bairro de classe média. Tem 79 anos, mas sua aparência praticamente não mudou desde a última vez que a vi. É também mais forte que Paulina, sua irmã caçula, que pesa menos de 50 quilos. Alguns problemas de visão e audição não impedem Betty de fazer, todas as tardes, deliciosos pães doces, cuja receita é impossível copiar. Parte do tempo, ela passa diante da televisão, assistindo ora o canal estatal, ora a Telemundo, rede norte-americana em espanhol, sediada na Flórida. Gosta de acompanhar tanto as intrigas das telenovelas latino-americanas quanto os avanços do “governo revolucionário”. Ela me conta que Lilibeth, sua filha, está quase sempre mal-humorada. “Com essa situação, como não ficar assim?”, justifica Lili, que tem 47 anos e vive das remessas que os dois filhos lhe enviam do exterior e de um pequeno negócio de bijuterias que mantém em seu estúdio, na parte superior da casa. Às vezes, mãe e filha se desentendem por causa da política. “Mamãe parece viver em Nárnia”, minha prima se queixa quando tia Betty fala em “guerra econômica” dos países estrangeiros contra a Venezuela e de “sabotagem” ao sistema elétrico do país.

Três dos quatro filhos de tia Betty, cinco netos e dois bisnetos vivem no exterior – no Chile e nos Estados Unidos. Lilibeth foi a única filha que permaneceu na Venezuela e, pouco tempo depois da minha chegada em San Cristóbal, ela me conta que precisa acordar às quatro da manhã para abastecer o carro, que deixou na fila do posto de gasolina. Por isso mesmo, pede desculpas e vai dormir.

No dia seguinte, tento conseguir um táxi em San Cristóbal, o que não é tarefa fácil. A maioria dos motoristas trabalha com pesos colombianos e o pagamento em dólares é visto com desconfiança. Além disso, muitos taxistas migraram para o comércio de gasolina, que é mais atraente. “Todo mundo está fazendo fila para comprar gasolina e depois revender, porque isso rende mais do que as corridas”, explica Juan, um taxista que está sem trabalhar porque seu carro quebrou e ele não tem conseguido a peça que falta. Os motoristas de táxi têm direito de reabastecer mais vezes que os de carros particulares, por isso mesmo traficam as cotas – contabilizadas nos chips que cada um deles recebe –, comprando mais gasolina, que depois revendem em pesos.

Os ônibus também são escassos, porque muitos foram tirados de circulação com a crise. Deslocar-se nessa cidade de grandes ladeiras, definitivamente, não é para qualquer um. Há pessoas que caminham a pé durante horas, da casa para o trabalho, e vice-versa. Outras simplesmente desistiram, por isso, do trabalho.

O gás é outro grande problema. No estado de Táchira, muitas casas não têm gás encanado e chegam a ficar semanas sem nem um botijão sequer, o que costuma gerar protestos e bloqueios nas estradas. Minha tia agora só cozinha em um fogão elétrico, e o fogão a gás virou mera peça decorativa na casa. Como nem sempre é possível recorrer ao aquecedor de água a gás, as opções para tomar banho em San Cristóbal e outras cidades andinas são usar o chuveiro elétrico (e rezar para não faltar energia) ou esquentar a água na panela. Ou, enfim, suportar chuveiradas geladas.

 

“Tem carne?”, pergunto no primeiro açougue que encontro. “Só na lousa”, responde o empregado, mostrando o quadro com os preços na parede. De braços cruzados e com a geladeira vazia, ele me explica que o último lote de carne chegou ali no sábado, mas já no domingo não havia mais nada. Um cliente que está comprando batata (pois os açougues também vendem legumes e verduras, diversificando para seguir funcionando) escuta a conversa e conta que a poucas quadras dali há outra loja que recebeu carne e que, para fazê-la “render”, os próprios clientes pediram que a venda fosse limitada a meio quilo por freguês.

É meio-dia e volto para a casa de minha tia sem a carne, que só conseguirei dois dias depois. A tevê exibe o noticiário estatal. Maduro está lendo a lista de bônus e subsídios que serão distribuídos a partir de 1º de setembro. Tia Betty, que tem sua carteira da pátria, escuta com interesse, enquanto minha mãe evita fazer qualquer comentário. As duas têm profundas divergências políticas. Paulina desistiu do chavismo há anos, mas Betty, que vive numa espécie de bolha por causa das remessas de dinheiro dos filhos, acredita que o governo continua lutando contra as elites econômicas e políticas, que seriam as verdadeiras responsáveis pela crise no país. Para evitar atritos entre as duas, como os que ocorreram no passado, combinamos que minha mãe não falaria mal do governo.

Apesar da sua notória falta de carisma, Maduro é o protagonista do noticiário que exibe comerciantes falando das delícias da “vida no socialismo” e assegura estarem de volta ao país centenas de venezuelanos, depois do lançamento do programa “Volta à Pátria”. “Tem mais gente chegando do que partindo”, diz Maduro, antes de prometer um bônus de 360 bolívares soberanos, numa única parcela, a toda pessoa que tiver sua carteira da pátria. A quantia, que o presidente anuncia como se fosse uma fortuna, mal dá para comprar duas caixas de ovos na rua, se alguém tiver sorte de achar, é claro.

Chega uma vizinha da minha tia com a notícia de que o jovem gerente de um supermercado do bairro foi preso porque a fiscalização encontrou no estabelecimento produtos sendo vendidos a preços mais altos que os fixados pelo governo. Minha prima fica indignada ao saber disso, mas o assunto passa para o segundo plano quando alguém avisa, pelo WhatsApp, que um açougue do bairro vai receber carne no fim da tarde. E lá vamos nós para mais uma fila.

Os venezuelanos têm reações pavlovianas com relação às filas. Se alguém vê um grupinho de pessoas na frente de um comércio, logo corre para lá para saber o que está sendo vendido. A ansiedade provocada pela escassez é difícil de controlar, mesmo quando se tem alguma comida em casa. Uma amiga brasileira que morou alguns anos em Caracas me contou que, quando voltou a São Paulo, levou meses para se livrar do “hábito de estocar comida”. Na Venezuela, a procura por comida, remédio e outros produtos é uma missão incessante conduzida pela incerteza. Por isso, o país vive em estado de permanente sobressalto e estresse. É perturbador e cansativo ver os dias transcorrerem tendo como único objetivo na vida encontrar algum lugar para comprar alguma coisa.

Para conseguir pão, por exemplo, é preciso saber a hora exata em que sai a fornada e se postar no balcão da padaria, à espera que o produto seja vendido, pois dez minutos depois já não haverá mais nada. É a lição que tiro da minha peregrinação malograda por sete padarias. Apenas na última encontro um pouco de pão e, para minha surpresa, não há filas nem ninguém disputando o butim. “Estamos sem sistema”, explica o balconista, que por isso não consegue receber via cartões de débito ou de crédito, mas apenas em dinheiro vivo. Como desde que cheguei não consegui dinheiro vivo na moeda local, e o vendedor não aceita dólares, aquele pão exposto ali, tão ao meu alcance, é para mim um produto inalcançável. Saio da padaria com as mãos abanando.

O mercado central está cheio de policiais. Constantes operações de fiscalização de preços contribuem, junto com a escassez, para que a maioria das lojas feche cedo e o comércio de ambulantes tenha praticamente desaparecido. Afinal de contas, nenhum comerciante quer acabar na prisão acusado de participar de uma “guerra econômica” contra o governo simplesmente porque seus preços ultrapassaram os preços tabelados. Se há, porém, alguma coisa que não falta na Venezuela é resiliência. No meio da rua, um sujeito carrega um pacote de farinha nas mãos, enquanto sussurra: “Farinha, farinha.” Se o transeunte tem interesse, a transação é feita ali mesmo, em poucos segundos e em dinheiro vivo, sejam bolívares ou pesos colombianos.

 

Às cinco da manhã, Betty e Lilibeth já estão acordadas, contando dinheiro. Na véspera avisaram pelo WhatsApp que iria chegar finalmente, depois de meses, a cesta básica que o governo vende a preço muito inferior ao do mercado. O pagamento precisa ser depositado em nome de um representante oficial do governo antes de começar a entrega, que é feita em casa, mediante a apresentação do comprovante do depósito. Como não se fazem transferências imediatas de outros bancos, é preciso realizar o depósito em dinheiro vivo. Minha tia e minha prima fazem sucessivas ligações telefônicas para parentes, pois elas têm pouco tempo para conseguir a quantia. Minha mãe não intervém, ela se recusa a comprar essa cesta básica, pois acha os produtos de péssima qualidade. Não estou certa disso, mas me impressionou o modo como minhas tias e primas miraram, fascinadas, os pacotes de comida que eu trouxe do Brasil, comentando, enquanto apalpavam os produtos: “Que grandes”, “Deve ser bom, é importado”, “Tem certeza que é 1 quilo só? Parece maior.”

Deixo as mulheres em sua operação bancária e parto com três primos para Cúcuta, cidade colombiana na fronteira com a Venezuela. Quando eu era pequena e o bolívar era uma moeda mais forte que o peso colombiano (1 para 3), sempre que vínhamos a San Cristóbal minha mãe me levava às compras no centro comercial de Cúcuta, onde tudo era mais barato: roupas, calçados e comida. Hoje, Cúcuta se tornou a principal porta de entrada do fluxo migratório que em menos de dois anos levou cerca de 1 milhão de venezuelanos a se mudar para a Colômbia.

Esse êxodo mudou completamente a fisionomia do lugar. Anos atrás, venezuelanos e colombianos atravessavam livremente com seus carros, indo e vindo de um país ao outro. A ponte Simón Bolívar, que liga os dois países, agora está fechada ao trânsito de veículos e é obrigatório deixar o carro na venezuelana Santo António del Táchira, cruzando a pé até a Colômbia. A ponte tornou-se uma versão reduzida da vida na Venezuela: pobreza, sacrifício, filas e corrupção.

“#EnEstaAduanaNOseHablaMalDeChávez” [#Nesta alfândega não se fala mal do Chávez], anuncia um cartaz pendurado em frente ao controle de migração. A bandeira nacional da Venezuela, puída e desbotada, tremula na base da ponte. Centenas de venezuelanos se alinham nas faixas demarcadas para passar pelos vários pontos de controle de documentos. Paira ali uma tristeza difícil de explicar, acentuada pelo movimento de milhares de pessoas atravessando a ponte a pé e pela arrogância dos agentes colombianos de migração, que gritam sem parar: “Documento na mão para ir rápido.”

Antigamente, quando havia alguma inspeção, bastava mostrar a carteira de identidade. Agora, os venezuelanos só podem entrar na Colômbia se tiverem o passaporte carimbado – depois de aguardarem numa fila de quase seis horas – ou apresentarem o Cartão de Mobilidade Fronteiriça, que Bogotá implantou quando o fluxo migratório começou a aumentar. O cartão é utilizado com mais frequência por pessoas que, como meus primos, vão a Cúcuta apenas para comprar algo e retornam no mesmo dia.

Quando alguém é proibido de entrar por não ter os documentos necessários, é só dar meia-volta que logo aparecem os “coiotes” com soluções. Jovens colombianos, os coiotes agem com tranquilidade no lado venezuelano. De quando em quando, um soldado da Guarda Nacional manda-os “circular”. É puro jogo de cena: todos se conhecem e, em menos de cinco minutos, eles voltam à caça de clientes. Para os venezuelanos que querem ficar na Colômbia ou emigrar para outro país de ônibus, partindo de Cúcuta, mas não têm os documentos necessários, os coiotes oferecem duas opções: cobram 40 mil pesos colombianos (em torno de 50 reais) para cruzar pela ponte com um documento falso, ou 20 mil pesos para cruzar ilegalmente pelo rio Táchira, fronteira natural entre os dois países.

A Venezuela não proíbe a saída do país, mas a escassez de passaportes e a alta demanda por cartões de mobilidade, que atualmente não estão sendo emitidos para novos solicitantes, favorece o mercado dos coiotes. Seis deles se sentam perto de mim num banco junto à entrada da ponte. Reclamam que o dia está fraco e que há um militar novo no lado venezuelano cuja patente não conseguem identificar, porque não conhecem bem as fardas nem as divisas locais. Temem que seja um general “que não dê conversa” e que não os “deixe trabalhar”, mas relaxam quando garanto que não se trata de um general. Um deles me conta que o salário dos funcionários de migração colombianos “não dá para nada”. Então, claro, a “comissão” que os coiotes pagam por operar na ponte é sempre bem recebida.

O fluxo de saída supera majoritariamente o de entrada, formado apenas por pessoas que voltam das compras na Colômbia. Andrés Ochoa, 41 anos, um taxista nascido na colombiana Cáli, mas que vive na Venezuela desde criança, diz que só volta para sua terra natal quando “não tiver mais nada para comer”. Milagros Sánchez, 48 anos, ex-bancária que se tornou manicure num salão de beleza na Colômbia, veio se despedir do marido e do filho. Os dois estão voltando para Caracas, vindo de Medellín, onde foram passar uns dias com ela. “Em dezembro eles virão morar comigo”, conta Sánchez.

Jonathan Ruiz, 25 anos, trabalhava com vendas na rodoviária da cidade venezuelana de Barquisimeto, a pouco mais de 500 quilômetros de San Cristóbal. Mas, com o êxodo de venezuelanos e a decadência do transporte local, largou o emprego e decidiu alugar uma van para fazer viagens semanais de Barquisimeto até a fronteira, com capacidade para trinta pessoas. “Tenho até lista de espera, todo mundo está indo embora. A maioria vai para o Equador porque não tem dinheiro para ir mais longe”, diz.

A manhã avança e o comércio de ambulantes vai tomando conta do lado venezuelano da ponte: aluguel de cadeira de rodas para as pessoas mais velhas que não conseguem atravessar a ponte a pé, venda de refrigerantes, cigarros e biscoitos. Funcionários de “agências de viagem” disputam passageiros que querem imigrar, a maioria deles jovens, desnorteados e temerosos com o que os aguarda do outro lado da ponte. “Só não fui embora ainda porque tenho três filhas pequenas”, diz Dayana Pérez, uma professora de 30 anos que viajou até Cúcuta para vacinar gratuitamente a filha de 4 meses. Em San Cristóbal não encontrou vacinas disponíveis, entretanto enfermeiras apareceram pedindo 100 dólares para vacinar o bebê “por fora”. “Quero que meu marido vá embora antes, para abrir caminho, mas ele diz que não quer ficar longe de nós. Eu continuo insistindo, porque tenho mais medo do futuro do que de perdê-lo”, explica Dayana, enquanto amamenta a pequena María Salomé num banco ao pé da ponte.

 

É aniversário de minha mãe, que faz 73 anos. Pela primeira vez em oito anos, consigo estar com ela nessa data. Conseguimos, por escambo, um bolo. Minha tia Rosa, irmã da minha mãe, traz a sangria, que vai substituir o champanhe na hora do brinde. Uma dúzia de cervejas é o presente do tio Liborio, irmão da minha mãe, de 76 anos. Cada convidado levou um pouco de comida, porque não há como alguém arcar sozinho com petiscos ou jantar para os quinze convidados.

Tia Rosa e tia Betty são as únicas seguidoras de Maduro na festinha e guardam silêncio quando meus primos, minha mãe e Liborio começam a reclamar da situação na Venezuela e das “humilhações que esse governo nos impõe”. Há um quê de decadência na comemoração, mas também de resistência. Uma espécie de orgulho por conseguirmos fazer a festa, apesar de todas as limitações que nos são impostas, mesmo a nós que somos, afinal, pessoas privilegiadas em comparação com muitos outros venezuelanos. Repetimos as mesmas palavras até o cansaço: escassez, crise, vida difícil… Mas não falamos do nó que sentimos na garganta quando nos damos ao luxo de esquecer um pouco as preocupações com a sobrevivência e redescobrimos nossas emoções.

Despedir-me de minha mãe é sempre difícil, mas dessa vez me afasto menos apreensiva, sabendo que ela não ficará sozinha e estará ao lado de tia Betty, a quem não encontro palavras para agradecer. Alguma inquietude, porém, ainda sobra em mim por causa desse arranjo de última hora para proteger Paulina, por causa da situação de minha família e de todos os venezuelanos. O que nos espera?

Em todo caso, tento disfarçar meus sentimentos e minha incerteza quando me despeço dela e dos familiares, antes de embarcar no carro que contratei para me levar de volta ao aeroporto de Maracaibo.

 

Por precaução, digo ao chofer que sou uma professora primária que vai tomar um voo doméstico. Qualquer outra explicação seria arriscada e desnecessária num país em que a pessoa que mora no exterior é imediatamente relacionada a um monte de dólares. A viagem transcorre com tranquilidade até que, uma hora e meia após a partida, o veículo começa a apresentar defeito. O motorista para e abre o capô, de onde escapa uma labareda forte que queima as mãos dele. Ele grita para que eu saia rapidamente do carro: “Corra, corra…” Ele teme que provoque uma explosão, pois no porta-malas há alguns galões de gasolina. Por fim, consegue controlar o fogo, mas não fazer o carro andar. Com medo de perder o voo, eu tento chamar um táxi. Encontro um com gasolina suficiente para me levar apenas até La Fría, cidade a uns vinte minutos de onde tivemos o acidente. Em La Fría, contrato outro motorista disposto a viajar até Maracaibo.

Como eu previa, a volta não é nada fácil. Uma mulher viajando sozinha num táxi não passa despercebida aos olhos de nenhum militar. A conclusão imediata é que, viajando assim, eu deva ter dinheiro, mesmo que o carro esteja amassado na lataria, com vazamento de óleo, amortecedor arriado, ar-condicionado enguiçado e a agulha da gasolina quebrada.

Em cada controle militar, o roteiro é quase o mesmo. Fazem um interrogatório tosco para tentar intimidar e uma revista, em busca de dinheiro ou comida. No sétimo posto de controle, uma oficial me pede que a acompanhe a uma sala, onde faz uma revista mais completa na minha mochila e me manda tirar a roupa, incluindo o sutiã, que é checado minuciosamente. Engulo a seco minha indignação.

Chego ao aeroporto faltando dez minutos para encerrarem o check-in do meu voo. A entrada do La Chinita está mais concorrida do que na minha chegada, com famílias recebendo pessoas ou despedindo-se delas. Agora há luz e o ar-condicionado funciona, mas pouco antes houve um corte de energia que afetou o sistema de controle de migração e a fila de passageiros do meu voo, o único do aeroporto, está parada.

Nas lojas duty-free da área internacional estão à venda chocolates e rum de produção nacional para clientes que, em sua maioria, pagam em dólares, pois não está funcionando o sistema de cartões de crédito. Também não há conexão no pequeno quiosque que vende água. A única loja com conexão não tem água, mas tem gelo. Me ocorre a ideia de comprar um copo de gelo (ao preço de 5 bolívares soberanos, pois é vendido separado do refrigerante) para deixá-lo derreter. Na hora de passar o cartão, a vendedora coloca um pedaço de papelão embaixo, antes de introduzi-lo na máquina. Em seguida, leva a máquina até certo ponto da loja, perto de uma parede, único lugar onde a conexão funciona. Sorridente e orgulhosa, ela me conta que a estratégia lhe permite vender mais que os concorrentes.

Então me vem à mente uma reflexão do dramaturgo José Ignacio Cabrujas, feita em 1995, quando a Venezuela atravessava uma dura crise econômica e social: “Achamos que somos um povo esperto, astuto, pícaro, com grande destreza e habilidade. […] Nossa história é a negação disso. Quando fomos espertos? O que fizemos para merecer esse qualificativo? Basta ver o país. […] Qual é a esperteza de um país que se encontra nesse gigantesco atoleiro, depois de esbanjar uma das mais colossais fortunas que se possa imaginar?”

No aeroporto, sorrio para a vendedora que, impaciente para atender aos demais clientes da fila, me aconselha: “Na Venezuela, princesa, é correr ou morrer.”

Paula Ramón

Paula Ramón, jornalista venezuelana, é correspondente da AFP em São Paulo.

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