vultos da saúde

O brasileiro cordial

Como um carioca, hoje quase desconhecido, transformou a OMS

Paulo Lyra
Candau e a primeira mulher, em Genebra: sua trajetória incluiu encontros com todo o espectro político do século, de Leonid Brêjniev a Ted Kennedy, de Fidel Castro a Georges Pompidou
Candau e a primeira mulher, em Genebra: sua trajetória incluiu encontros com todo o espectro político do século, de Leonid Brêjniev a Ted Kennedy, de Fidel Castro a Georges Pompidou CREDITO: ACERVO DA OMS, ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE_1950

Sete dias depois que o presidente João Goulart anunciou sua nomeação para ministro da Saúde, o médico Marcolino Gomes Candau, então com 51 anos, desembarcou no aeroporto do Rio de Janeiro. Corria o mês de julho de 1962. Candau vinha da Suíça, onde morava havia nove anos. Em entrevista ao repórter do Diário Carioca que o esperava na chegada, foi lacônico. Disse que ainda não tinha planos para anunciar. Candau fora escalado para integrar um ministério de notáveis. Entre os indicados, estavam Afonso Arinos (Relações Exteriores), José Ermírio de Moraes (Indústria e Comércio), Walther Moreira Salles[1] (Fazenda), Roberto Lyra (Educação e Cultura) e João Mangabeira (Minas e Energia). Quando os nomes foram aprovados pela Câmara dos Deputados, um requisito do regime parlamentarista de então, o jornal The New York Times noticiou o assunto na capa, sugerindo que encerraria a crise política que o governo enfrentava naquele momento. Fazer parte daquela equipe podia ser o auge da carreira pública. No dia seguinte ao seu desembarque no Rio, Candau tomou um avião para Brasília, a então jovem capital federal, para conversar com o presidente.

Durante os 68 dias no Ministério da Saúde, Candau, entre outras medidas, autorizou a construção do Hospital dos Jornalistas, no então estado da Guanabara. No dia 18 de setembro de 1962, pouco mais de dois meses depois da posse, o gabinete caiu e os ministros notáveis deixaram seus postos. Uma exceção era Candau. Naquela viagem a Brasília, ele foi dizer ao presidente João Goulart que não poderia aceitar o cargo – e não aceitou. Nunca foi ministro da Saúde do Brasil, nunca assumiu o posto e nunca tomou qualquer medida como tal, embora até o Diário Oficial da União informe que foi ministro por 68 dias e mandou construir aquele hospital. Na conversa com Goulart, Candau disse que não poderia ser ministro – ele não havia sido consultado antes do anúncio – porque precisaria de seis meses de aviso prévio para deixar o cargo que ocupava. Desde 1953, ele era diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), que começava a ganhar alguma proeminência internacional.

Candau acertou na sua escolha. Evitou integrar um ministério que não chegou a três meses de vida e acabou sendo o grande artífice da transformação da OMS. Em 1953, foi eleito diretor-geral da organização e ficou duas décadas no posto. É o mais longevo dirigente da história da OMS. Durante sua gestão, o orçamento cresceu de 9 milhões para 106 milhões de dólares, e a entidade começou a dar o salto que a transformou na organização que é hoje. Na pandemia do novo coronavírus, a maior crise sanitária que enfrenta desde sua fundação, a OMS teve um papel decisivo em defesa da ciência e das pesquisas, na difusão de informações confiáveis e na adoção de medidas de precaução.[2]

Na época em que rejeitou o ministério, Candau estava lidando com as consequências do escândalo da talidomida, um sedativo que gestantes tomavam sem prescrição médica para combater enjoos e, descobriu-se depois, produzia efeitos colaterais terríveis: causava má formação nos fetos. No correr do ano de 1960, começou a circular a informação de que bebês na Alemanha, na Bélgica e na Holanda haviam nascido com focomelia, uma anomalia rara que se caracteriza pela ausência, ou redução, de braços ou pernas. Foi o maior escândalo médico da história. Fotos de crianças deformadas circularam pelos jornais de todo o mundo. Os Estados Unidos nunca aprovaram a talidomida, que logo foi proibida em vários países da Europa e no Canadá. Em agosto de 1962, a médica Helen Taussig, fundadora da cardiologia pediátrica nos Estados Unidos, mandou uma carta para Candau pedindo que a OMS ajudasse a retirar a droga de circulação de outros países, onde o remédio era vendido com nomes diferentes. Era importante, disse ela, que a OMS passasse a ter um registro internacional de medicamentos, para que todos os países conhecessem os efeitos adversos, independentemente de seus nomes comerciais. O Brasil cassou a licença da talidomida em 1962, mas autorizou sua circulação controlada quase dez anos depois, quando se descobriu sua eficácia contra a hanseníase.



Na época, Candau e sua equipe estavam concentrados na erradicação da malária. As campanhas de eliminação de enfermidades ganharam impulso depois da Segunda Guerra Mundial, graças a extraordinários desenvolvimentos tecnológicos. Acreditava-se que a ciência já não tinha limites para enfrentar nenhuma doença contagiosa. Em 1955, dois anos depois de Candau tornar-se diretor-geral, os países-membros da OMS aprovaram a ambiciosa meta de erradicar a malária do planeta em cinco anos. A doença ocorria principalmente na zona rural, causava febre e calafrios e matava milhões de pessoas, com grande prejuízo para a agricultura. Campanhas de erradicação da doença se propagaram pelos países, substituindo os antigos programas de controle, que buscavam mitigar o impacto da malária por meio da drenagem de pântanos e administração de quinino aos enfermos. A campanha nunca deu certo.

 

Candau – ou “Candô”, segundo sua preferência pela pronúncia francesa, usada por seu pai, um francês basco – nasceu na Lapa, no Centro do Rio de Janeiro, morou em Ipanema e casou-se com uma moça do bairro que residia na Avenida Viera Souto, Ena Carvalho. Estudou na então Faculdade Fluminense de Medicina, em Niterói. Formado em 1933, decidiu envolver-se com saúde pública. Suas habilidades administrativas o levaram a trabalhar em várias cidades do interior. Em 1936, chefiou o Posto de Profilaxia Rural de Cachoeiras de Macacu, cidade a pouco mais de 100 km do Rio de Janeiro. A região era uma área agrícola em expansão, entrecortada pela Mata Atlântica e assolada pela malária e pela febre amarela. Dois anos depois, ele já ocupava o segundo posto da Secretaria de Saúde do estado e dava aulas na faculdade. Nessa época, pediu a Fred Soper, o diretor da Fundação Rockefeller no Brasil, uma bolsa para estudar na escola de saúde pública da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, considerada, já na época, a mais avançada na área. Soper, um epidemiologista nascido numa cidade de 10 mil habitantes no Kansas, prometeu-lhe a bolsa sob duas condições: antes, Candau teria que trabalhar no programa contra a malária no Nordeste brasileiro e perder 10 kg. Candau, que tinha um sobrepeso preocupante para a idade, aceitou o desafio. Passou uma temporada no Nordeste, de onde voltou 15 kg mais magro e pronto para estudar nos Estados Unidos.

A bordo do vapor Mauá, Candau e Ena aportaram em Nova York no dia 12 de agosto de 1940. Ele tinha 29 anos e ela, 25. A Segunda Guerra Mundial completaria 1 ano naquele mês, mas os Estados Unidos ainda não participavam do conflito. Dois meses depois do desembarque do casal, as tensões cresceram e o governo norte-americano começou a registrar todos os estrangeiros no país. O passaporte diplomático e o patrocínio da Fundação Rockefeller não isentaram Candau da medida: ele foi fichado e suas impressões digitais foram colhidas. Foi nesse mundo polarizado que as habilidades diplomáticas – e a sorte – iriam marcar a trajetória exitosa de Candau. Seis meses depois de sua formatura e da volta do casal ao Brasil, os Estados Unidos entraram na guerra. A indústria bélica de Baltimore atraiu 200 mil norte-americanos. O hospital e os laboratórios da Johns Hopkins foram colocados a serviço do esforço de guerra.

Na década de 1940, longe do conflito, Candau trabalhou em um programa financiado pelos Estados Unidos para melhorar a saúde dos “soldados da borracha” na Amazônia, o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia, depois expandido para todas as populações da região. Nesse posto, cresceu sua fama de gestor competente, que se consolidou quando se transferiu para o recém-criado Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp). Era uma agência bilateral – Brasil e Estados Unidos –, concebida inicialmente para promover o saneamento de regiões da Amazônia que produziam borracha e do Vale do Rio Doce, onde se explorava o minério de ferro e a mica, matérias-primas necessárias ao esforço de guerra. Nesse período, como se estivesse predestinado a se projetar no cenário internacional, apareceu numa reportagem publicada pela revista Time, que citou seu “rosto redondo” e fez menção elogiosa ao seu trabalho no Sesp.

 

Em 1945, quando ele já trabalhava havia um ano no Sesp, um brasileiro teve uma ideia que mudaria para sempre a trajetória de Candau e teria impacto na vida de 2 bilhões de pessoas. Naquele verão do hemisfério Norte, o paulista Geraldo de Paula Souza sentou-se para almoçar com um médico chinês, Szeming Sze, em São Francisco, na Califórnia. O Brasil e a China foram os únicos países que enviaram médicos para a Conferência de São Francisco, que oficializou a criação das Organizações das Nações Unidas (ONU). Entre goles e garfadas, Paula Souza e Szeming tiveram a ideia de criar, sob o guarda-chuva da ONU, uma organização global para cuidar da saúde. A proposta de última hora foi submetida ao plenário e aprovada. Nascia assim a OMS. Três anos depois, a organização saiu do papel.

Em 1947, Fred Soper deixou a Fundação Rockefeller para dirigir a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em Washington. Fundada em 1902, a Opas travava exaustivas negociações para tornar-se um braço regional da OMS no continente americano sem, no entanto, perder sua autonomia. Enquanto ocorriam esses desdobramentos lá fora, Candau continuou prosperando em sua carreira no Brasil. No mesmo ano de 1947, assumiu a superintendência do Sesp e foi escolhido como presidente do Congresso Brasileiro de Higiene. Dois anos depois, em 1949, criou a Escola de Enfermagem de Manaus. Dando vazão à sua visão humanitária, publicou um artigo na Revista do Sesp em que denunciava a falta de acesso à assistência médica da população rural e de trabalhadores informais.

Pouco depois, passou a lecionar no Instituto Oswaldo Cruz, que mais tarde seria integrado à Fiocruz. Foi seu último cargo no Brasil, desconsiderando o ministério-fantasma no governo João Goulart. Em 1950, por indicação de Paula Souza, Candau foi convidado para trabalhar na OMS, em Genebra, como diretor da Divisão de Organização dos Serviços de Saúde. Dois anos depois – mudou-se para Washington –, como subdiretor do seu padrinho Fred Soper, a quem chamava carinhosamente de “comandante”. Uma de suas tarefas era aprimorar as relações entre a OMS e a Opas. Ficou apenas catorze meses no posto. Em março de 1953, voltou para GenebraOMS. Tinha 42 anos.

A OMS era um organismo ainda indefinido, de futuro incerto. Sua função resumia-se a melhorar a atenção à saúde promovida pelos países em desenvolvimento. Candau sucedeu ao psiquiatra canadense Brock Chisholm, que não quis se candidatar à reeleição. Veterano da Primeira Guerra Mundial, Chisholm era um excelente orador e um defensor intransigente do secularismo, do planejamento familiar, da redução da pobreza e da assistência social, uma agenda pouco popular na época. Entre outros pontos de vista controversos, dizia que crianças não deviam ser encorajadas a acreditar em Papai Noel. Ganhou o apelido jocoso de “o homem bravo mais famoso e articulado do Canadá”. Na OMS, teve um papel fundamental na definição das atribuições da organização. Insistiu para que ela se chamasse “Mundial”, para colocar-se acima das divisões impostas pelas fronteiras, e não “Internacional”, como fora inicialmente proposto. Ajudou a definir o que a OMS entende por “saúde” como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.

Candau não era o favorito para o cargo de diretor-geral, e sim o coronel M. Jafar, do Paquistão. Oito candidatos foram apresentados ao Comitê Executivo da OMS, formado por dezoito países, no qual os Estados Unidos eram representados pelo mentor de Candau, Fred Soper. A Inglaterra apoiava Jafar. A França, a Bélgica e os Países Baixos apoiavam o italiano Giovanni Canaperia. A cada rodada, o candidato menos votado era eliminado. Nas rodadas seis, sete e oito, Jafar e Candau empataram com 9 votos cada um. Finalmente, no nono sufrágio, um delegado mudou de voto e Candau ganhou a eleição por 10 votos a 8. Talvez tenha havido um empurrão de Chisholm. Contrariando as regras, o então diretor-geral fez campanha aberta para Candau. A França e a Inglaterra, furiosas com o resultado, espalharam boatos sobre o brasileiro e ameaçaram derrubar sua candidatura no plenário da Assembleia Mundial da Saúde, que deveria referendar a recomendação do Comitê Executivo. Não conseguiram. Candau foi referendado por larga margem, 47 votos contra 16. Votaram contra, em sua maioria, países árabes e asiáticos insatisfeitos com a derrota do paquistanês.

No discurso de posse, Candau fez uma homenagem a Paula Souza, que falecera havia dois anos. O recém-eleito secretário-geral da ONU, o economista sueco Dag Hammarskjöld, participou da cerimônia. Hammarskjöld tinha algumas coisas em comum com Candau, a começar pelo fato de que também era um azarão. No primeiro dia de abril de 1953, quando um jornalista telefonou para informar-lhe que havia ganhado o posto, o sueco pensou que era um trote do Dia da Mentira. Hammarskjöld tinha 47 anos. Até hoje, ele e Candau são os mais jovens dirigentes eleitos da ONU e da OMS. Os dois se reencontraram várias vezes. Em julho de 1960, já no segundo mandato de ambos, estiveram juntos no Congo, para ajudar a estruturar o país, que se tornara independente da Bélgica. Candau queria treinar novos médicos e enfermeiros, pois muitos profissionais haviam emigrado em massa com medo da ameaça de guerra civil, que acabaria deixando 100 mil mortos. Ele estimava que seriam necessários quinze anos para que o serviço de saúde do Congo voltasse ao nível de antes da independência. Hammarskjöld tentava estabelecer um acordo entre as facções pró-Estados Unidos e o grupo pró-União Soviética, que estavam em conflito. Um ano depois, o sueco morreu quando voltava de negociações para um cessar-fogo. O dc-6 em que viajava caiu. Até hoje, há uma investigação sobre as verdadeiras causas do acidente.

Na mesma reunião de 1953 em que elegeram Candau, os países-membros da OMS discutiram a proposta de erradicação de outra doença: a varíola. Não era a primeira vez que se debatia o tema, mas foi a primeira em que uma proposta foi formalmente votada – e perdeu. Dois anos depois, no entanto, a OMS aprovou a campanha para erradicar a malária. Havia grandes esperanças de sucesso, sobretudo com as notícias auspiciosas da eficiência da aplicação do DDT – já usado na agricultura – para eliminar os mosquitos transmissores ao redor dos lugares de moradia.  Candau achava “maravilhosa” a nova geração de drogas contra doenças como tifo, hanseníase e tuberculose, e costumava elogiar o DDT e outros “poderosos” inseticidas.

(Milhões de toneladas de DDT foram usados no mundo todo e ajudaram a eliminar a malária da Europa e dos Estados Unidos. Com o passar do tempo, os mosquitos se tornaram resistentes ao DDT. Logo depois se descobriu que, além de eliminar insetos, ele também causava câncer. O DDT era a talidomida da vez. Em 1962, a revista New Yorker publicou três capítulos da obra Primavera Silenciosa, na qual Rachel Carson criticava duramente o uso indiscriminado de agrotóxicos e documentava, com base em resultados de pesquisas públicas e privadas, seu efeito negativo sobre plantas e animais. O presidente John Kennedy leu os manuscritos do livro, que se tornou um best-seller instantâneo e permaneceu muitos anos como uma das obras mais citadas sobre o assunto. Estava nascendo o movimento ambientalista moderno. Hoje, o uso de DDT na agricultura e no combate à malária foi abandonado na maior parte do mundo.)

A ideia de erradicar a varíola voltaria à pauta em 1959. Na época, Candau e a vasta maioria dos funcionários da OMS ainda tinham esperanças de erradicar a malária dentro do prazo estabelecido e continuavam contrários à ideia de começar outra campanha. Achavam que a varíola tinha que esperar. Literalmente, faltou combinar com os russos. O bloco socialista liderado pela União Soviética, que abandonara a OMS em 1949, anunciou sua volta à entidade em 14 de fevereiro de 1956. Onze dias depois, o líder Nikita Kruschev denunciou os crimes de Stálin no 20º Congresso do Partido Comunista. Era um novo cenário global e os soviéticos estavam interessados em atenuar a escalada da Guerra Fria. Com a intenção de abrir uma área de cooperação com os norte-americanos, apresentaram a proposta de erradicar a varíola, que então matava 2 milhões de pessoas ao ano. Num esforço derradeiro para evitar a dispersão dos esforços contra a malária, Candau advertiu à assembleia da OMS que a erradicação da varíola exigiria um alto gasto – cerca de 20 milhões de dólares, em valores de hoje.  Para sua surpresa, os países aceitaram a conta. A OMS ganhou uma nova missão: vacinar 1,1 bilhão de pessoas contra a doença.

Na lenta montagem da campanha contra a varíola, Candau, querendo compartilhar as responsabilidades de um possível fracasso, acabou convidando Donald Henderson, funcionário do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano, para chefiar o novo programa. Cético, Henderson recusou a missão. Só aceitou depois que o CDC informou que, se não aceitasse, seria demitido. Henderson não apenas assumiu o cargo como conseguiu trabalhar bem com os soviéticos. Levou anos de empenho, tal como se previra, mas foi um sucesso absoluto. Depois de matar 300 milhões de pessoas no século XX, a varíola foi erradicada em 1980 – no Brasil, não há casos desde 1973. Foi a única doença humana a desaparecer até hoje. A poliomielite, o sarampo e a raiva estão na fila, mas os prognósticos não são animadores. Em 2017, Bill Gates, um dos líderes globais da luta pela erradicação da poliomielite, chegou a anunciar que aquele seria “o último ano” da doença. Em agosto de 2020, a OMS anunciou a erradicação da doença na África, uma grande conquista, mas o vírus continua circulando na Ásia, que já registrou 102 casos neste ano.

 

Nos vinte anos em que Candau esteve à frente da OM, o número de países-membros aumentou de 81 para 138, entre eles várias ex-colônias que conquistaram a independência. Também na sua gestão, os diretores regionais da OMS passaram a ser eleitos pelos países de cada região, e não mais apontados pelo diretor-geral. Candau conseguiu ampliar as responsabilidades da OMS. Um grupo mais conservador propunha que a parte médica em seus aspectos mais acadêmicos, como a coordenação dos esforços globais para definir protocolos de tratamento e vacinação, deveria ficar a cargo da Unesco e das organizações não governamentais. A Unesco não contava com pessoal qualificado e a OMS ocupou o espaço no qual, hoje, é a maior referência mundial. A organização também passou a trabalhar com o controle de qualidade dos medicamentos, depois da crise da talidomida, e a coordenar pesquisas mundiais em áreas como câncer, doenças cardiovasculares, genética humana, imunologia e virologia.

Uma dúzia de países – a maioria do antigo bloco socialista – lançou selos comemorativos para celebrar a inauguração da nova sede da OMS em 1966, construída na metade do mandato de Candau, um imponente edifício de oito andares. O saguão principal do prédio ostenta um gigantesco mural do gaúcho Iberê Camargo, um projeto financiado pelo governo brasileiro. Candau encontrou-se várias vezes com o pintor, que realizou a obra de 7 por 7 metros durante a construção do prédio. Em novembro de 1964, Iberê Camargo escreveu uma carta a Candau em francês, explicando os detalhes da obra. Também fez perguntas sobre as madeiras disponíveis na Suíça. Explicou que ouvira dizer que o cedro suíço tinha boa qualidade. A dica lhe fora dada por um discreto conselheiro da embaixada para as Nações Unidas: João Cabral de Melo Neto. Se tudo desse certo, informou o pintor, ele começaria a trabalhar no mural em maio, passado o inverno europeu. Em abril de 1966, Candau informou à embaixada do Brasil, também em francês, que Iberê Camargo teve que interromper a pintura a óleo por causa da poeira da construção do prédio e do frio excessivo, que congelava as mãos. A obra final, em tons de vermelho, cinza e azul, chama atenção pelo abstracionismo radical. Aos que indagavam o que representava o gigantesco mural, com sua aparente falta de harmonia entre a pintura e o caráter técnico-científico da instituição, Iberê Camargo dizia: “Você, ao ver pela primeira vez um gato, se surpreendeu? Aceita as árvores? Acostume-se com as novas formas criadas, elas enriquecem o mundo. Além do mundo de Deus, existe o mundo do artista.” Dois anos depois, foi a vez de o “mundo de Deus” se manifestar. Em 1968, o papa Paulo vi mandou uma carta a Candau afirmando que “o ímpeto dado à OMS nessas duas últimas décadas por seus diretores, membros e especialistas, e a extensão e a qualidade do trabalho realizado, são promessas de que esta grande organização internacional continuará a desenvolver essa atividade em favor da humanidade”.

Candau saudava a todos com um sorriso. Abraçava e dava tapinhas nas costas. Tinha uma habilidade de dizer claramente o que acreditava sem alienar os que pensavam diferente. Sabia negar um pedido com maestria. Em 1961, escreveu uma carta em tom pessoal a Ernest Stebbins, reitor da escola de saúde publica da Johns Hopkins, para informar que não poderia ceder um funcionário da OMS à escola onde fez pós-graduação. “Não sei bem como responder ao seu pedido”, começa o primeiro parágrafo, seguido de elogios ao programa da universidade. No segundo parágrafo, volta ao tema: “Estive conversando com meus colegas sobre como responder ao seu pedido.” A palavra “não” somente aparece na 11ª linha, acompanhada de alternativas (a cessão não se consumou, mas o funcionário foi dar aulas em Hopkins depois do término de seu contrato com a OMS). Graças a essas habilidades diplomáticas, a OMS seguiu um curso independente das correntes políticas e foi até um espaço de aproximação de diferentes grupos. Todos confiavam em Candau, começando pelos que mais desconfiavam uns dos outros.

Com esse capital político, o brasileiro teve a oportunidade de abraçar algumas causas controvertidas. No início da sua gestão, preferia não tratar de planejamento familiar na OMS, mas paulatinamente adotou a agenda, apesar da resistência dos países mais religiosos. Ele também incluiu a OMS nas discussões sobre o uso de energia atômica e pediu que os países tomassem providências para evitar a exposição da população à radiação.

Candau teve encontros com todo o espectro político do século, de Leonid Brêjniev a Ted Kennedy, de Fidel Castro a Georges Pompidou. O convívio com presidentes, monarcas e chefes tribais exigia cuidados na apresentação. Em muitas fotos, ele era a figura que se vestia com maior formalidade. Numa visita a um projeto de saneamento num vilarejo no Norte da Índia, aparece com o paletó e o colete totalmente abotoados, ressaltando os quilos a mais. No bolso esquerdo, lenço dobrado no estilo “coroa”, com três pontas para cima. Raramente era visto em público de óculos, que usava apenas para leitura. Também se via pouco de seu cabelo, que, bem engomado, era penteado para trás, destacando a calva frontal que surgiu aos 40 anos. Seu traço estético mais marcante era o bigode lápis, bem negro, rigorosamente retangular, que flutuava sobre a boca sem cobrir o lábio superior.

Com exceção das recepções para o Comitê Executivo da OMS, para o qual abria as portas de sua casa à beira do Lago de Genebra, sua vida pessoal era discreta. Candau sofreu dois infartos, em 1966 e 1969, que não foram divulgados ao público e, inicialmente, nem à sua própria família. Em ambas as ocasiões, contra as ordens de seu médico, retomou prontamente o trabalho, inclusive participando da assembleia anual da OMS. Em maio de 1961, encomendou uma missa de ação de graças na Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, para celebrar as bodas de prata com Ena. Poucos meses depois, no entanto, veio a separação. Sua mulher não queria seguir vivendo na Suíça. Ela gostava de receber convidados. Quando encontrava feijão preto na cidade, servia feijoada. Tocava piano de ouvido, e Candau sempre insistia que se apresentasse para os convidados. Mas o Rio de Janeiro era o seu mundo. Depois de separada, trabalhou muitos anos como voluntária no Hospital Miguel Couto e organizou eventos para arrecadar fundos para alimentos e artigos de higiene destinados a doentes e familiares.

Em 1973, Candau deixou a OMS. Apoiou a ascensão de Halfdan Mahler, um dinamarquês carismático que combatera a tuberculose no Equador e na Índia. Mahler representava uma nova geração, que priorizava uma abordagem mais social e econômica, que depois ficou conhecida como “atenção primária à saúde”, uma mudança que encontrou muita resistência na OMS, onde muitos ainda defendiam a abordagem predominantemente vertical, de atacar uma doença de cada vez. Consta que alguns países queriam que Candau se candidatasse a um quinto mandato. Ele se recusou. “Estou velho (tinha 62) e preciso dar lugar a uma outra geração”, disse. Não estava velho demais, no entanto, para oficializar sua união com Sîtâ Reelfs. Casou-se com a suíço-holandesa com quem vivia havia vários anos. Reelfs trabalhava na OMS e falava oito idiomas, inclusive um perfeito português. Fumava muito e dizia-se descendente da família imperial russa. Também tocava piano muito bem.

 

Para a família, havia dois Candaus. Um era o homem que gostava de música, conversar, rir e comer bem. Dirigia seu Chevrolet azul por 63 km de Genebra a Lausanne só para comer poulet crémeux aux champignons (frango cremoso com cogumelos), um de seus pratos favoritos. Era também pai e avô austero, um “general”, segundo uma neta, sobretudo com os horários. Se o jantar era às 19 horas, as crianças tinham que estar pontualmente aguardando de pé ao lado da mesa, vestidas e banhadas. Havia um talher para cada parte da refeição e um copo para cada ocasião. Certa vez, uma das netas chegou a quebrar uma taça de cristal na boca, de tão apreensiva que estava com a rígida etiqueta. Nas viagens ao Brasil, gostava de ficar no sítio da família em Casimiro de Abreu, no interior do Rio de Janeiro. Num desses passeios, seu filho caçula, Nelson Candau, que trabalhava com teatro e cinema, sofreu um acidente de moto. Já era adulto, casado e tinha seus próprios filhos, que estavam no sítio. Ele sabia que o pai não aprovava motos – muito perigosas. Depois do acidente, voltou para casa fingindo que estava bem. Informou a todos que a família precisava partir, sem dar mais detalhes. Somente no carro, a caminho de um hospital, informou à família sobre o acidente. Preferia esconder a dor a levar uma bronca do pai.

Aposentado, Candau continuou morando em Genebra e era presença frequente nas reuniões da OMS. Para passar algumas temporadas no Brasil, comprou um apartamento num condomínio na Barra da Tijuca, que depois trocou por um imóvel em Ipanema, retornando ao bairro em que crescera. A casa onde morou na juventude ainda existe, na Rua Alberto de Campos, também em Ipanema. Em 1983, dez anos depois de deixar a OMS, Candau morreu de câncer no pulmão. O corpo foi cremado em Genebra e as cinzas foram espalhadas no jardim de sua casa. O New York Times e o Le Monde publicaram seu obituário. “Um brasileiro caloroso, combativo e perseverante”, que “não tinha medo de fórmulas de choque ou de ideias novas”, registrou o jornal francês.

“Pode haver um pequeno número de médicos de estatura comparável, mas nenhum que possa igualar sua contribuição à prevenção de doenças, promoção da saúde e, acima de tudo, ao cuidado de pessoas”, escreveu o ex-médico-chefe do Reino Unido, sir George Godber, na ocasião. Tinha uma admiração especial pelo brasileiro. “Candau era um homem cordial, despretensioso e amigável. Podia lutar ferozmente em defesa de sua equipe, mas não tinha nenhuma preocupação com o seu próprio status.” Suas qualidades intelectuais eram das mais elevadas, disse Godber, mas ele nunca foi o especialista condescendente que algumas pessoas de altas posições se tornam.

Por muitos anos, Sîtâ Reelfs guardou caixas com fotos e condecorações de Candau num apartamento fechado em Morges, uma pitoresca cidade às margens do Lago Léman, a 44 km de Genebra. Reelfs morava em um hotel para idosos na mesma cidade e havia pouco tinha reatado contato com os filhos e netos do primeiro matrimônio de Candau. Ela faleceu em março passado, aos 97 anos.

Em contraste com a sua projeção internacional, a informação sobre Candau no Brasil é quase inacessível. Em Brasília, sua foto aparece na galeria de 24 sanitaristas famosos do Ministério da Saúde, mas fica num hall privativo. No Rio de Janeiro, a Fiocruz tem 150 documentos no seu acervo eletrônico, mas é preciso fazer um pedido para acessá-los. Os textos em português são raros. Uma minibiografia apareceu na Wikipédia há quatro anos, dez anos depois da versão em inglês. As homenagens são modestas. A Universidade Federal Fluminense (UFF) lhe rendeu tributo numa recente comemoração no Dia Mundial da Saúde. No Rio de Janeiro, há um centro de saúde com o seu nome,  no bairro de Cidade Nova. Em Niterói, ele batiza uma discreta rua residencial de 230 metros e uma sala no Centro Universitário LaSalle. Não se conhece nenhum hospital, faculdade de medicina, cátedra, ou biblioteca que leve seu nome.

E, no entanto, foi graças a Candau e a seus sucessores que o vírus da varíola não pode ser mais encontrado na natureza. Só existe em dois laboratórios de biossegurança nível 4, um norte-americano e outro russo, guardados em freezers a -80ºC. A malária, no entanto, continua ativa e sua eventual erradicação necessitará do esforço de novas gerações de sanitaristas. Até hoje Cachoeiras de Macacu, a cidadezinha em que Candau trabalhou na década de 1930, tem uma das maiores incidências de malária no estado do Rio de Janeiro.


[1] Walther Moreira Salles é pai do fundador da piauí.

[2]  A atuação da OMS levou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a boicotar a organização, repetindo o mesmo gesto isolacionista que a União Soviética adotou em 1949. Em maio passado, Trump anunciou que deixaria a organização e, em julho, oficializou o afastamento da entidade, da qual os Estados Unidos são os principais financiadores. O presidente Jair Bolsonaro, como de costume, seguiu Trump e também ameaçou que o Brasil poderia abandonar a entidade. Acusou-a de atuar com “viés ideológico”. Até agora, no entanto, não tomou nenhuma providência nesse sentido. (N. R.)

 

Paulo Lyra

É jornalista. Atuou em jornais, revistas e agências do Brasil e do exterior, bem como em organizações ambientais e de saúde