questões político-eleitorais

O candidato da esquerda

Pouco conhecido, sem nunca ter feito vida partidária ou disputado votos, o ministro Fernando Haddad parte em busca dos militantes do PT, dos paulistanos e da prefeitura

Clara Becker
“O desafio é buscar a unidade perdida entre crítica e ação. A esquerda crítica não age e a que age não é suficientemente crítica”, diz Fernando Haddad, que prefere o pragmatismo da esquerda americana ao postulado da Escola de Frankfurt, que prega distância do poder
“O desafio é buscar a unidade perdida entre crítica e ação. A esquerda crítica não age e a que age não é suficientemente crítica”, diz Fernando Haddad, que prefere o pragmatismo da esquerda americana ao postulado da Escola de Frankfurt, que prega distância do poder ILUSTRAÇÃO: MAXIMILIANO BAGNASCO

Dezenas de professores, alunos e funcionários da Universidade Federal do Paraná protestavam nas imediações do Teatro Positivo, em Curitiba, numa tarde de agosto. Eles gritavam:

Da Copa, da Copa, da Copa
eu abro mão,
Eu quero 10% do PIB
para a educação!

Surpreendido pela obstrução da passagem, o motorista que conduzia o Omega preto a serviço do ministro da Educação, Fernando Haddad, tentou acelerar e fugir. O ministro, contudo, pediu para que parasse o carro. “Você vai abrir o vidro?”, perguntou um dos executivos do Grupo Positivo, que acompanhava Haddad até o aeroporto.

“Quais as reivindicações de vocês?”, perguntou o ministro. Na cacofonia que se seguiu, algumas palavras e expressões adquiriram nitidez: “precarização”, “ajuste salarial”, “sobrecarga dos professores”, “plano de carreira”, “laboratório”. Como todos gritassem ao mesmo tempo, Haddad pediu para falar com um líder. Os manifestantes não haviam elegido um porta-voz.

– Quero ouvir vocês, mas o governador Tarso Genro está me esperando em Porto Alegre – disse-lhes Haddad.

– O governador pode esperar! – gritaram alguns, dessa vez em uníssono.

– Mas tenho um voo para pegar. Façamos assim: pega o DCE, o reitor e os professores que eu atendo vocês lá em Brasília.

– E o dinheiro? – perguntou um, em tom de deboche.

– Eu pago.

– Mas que garantia a gente tem? – retrucou outro, incrédulo.

– A minha palavra.

– Palavra do Haddad? Queremos um documento assinado – disse um enragé.

– Mas vocês estão filmando! Já têm tudo registrado – argumentou o ministro, olhando para uma câmera.

Fernando Haddad fechou o vidro. Mas os manifestantes não saíram da frente do carro. O ministro abriu a janela de novo e pôs a cara para fora: “Nós não fizemos um acordo? Vocês já estão rompendo com ele?” Ainda que ressabiados, os manifestantes abriram passagem. O carro deu partida e eles voltaram a gritar.

O episódio não levou cinco minutos. Aliviado, o executivo perguntou a Haddad se sempre enfrentava protestos no mano a mano. “Não, é a primeira vez”, respondeu o ministro. Era a primeira greve em universidades federais que o ministro enfrentava em seis anos de gestão.

Minutos antes, falando à plateia no teatro, o ambiente era cordato. O ministro foi longamente aplaudido pelos 2 500 participantes do Encontro Internacional de Educação Sala Mundo. Haddad repetiu no discurso um dos seus mantras sobre a educação nacional: não podemos olhar só para a fotografia, temos que ver o filme.

A fotografia é terrível. O Brasil pegou o 53° lugar no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Pisa, de 2009. Dos 65 países que participaram, ficou entre os quinze piores em leitura, matemática e ciências. A foto mostra um quarto da população incapaz de compreender textos e fazer as quatro operações. Isso ocorre, entre outros motivos, porque quase 60% dos alunos que concluem o 3º ano do ensino fundamental têm dificuldade em calcular troco e ver as horas. Em leitura, 44% desses estudantes apresentam defasagem e 10% dos brasileiros são analfabetos absolutos. Apenas metade dos alunos conclui o ensino médio. É de 7,4 anos a média de escolaridade.

Já no Chile, que vive uma crise na educação, com passeatas continuadas contra a política do governo, 90% dos estudantes chegam ao fim do ensino médio e metade termina a universidade. A maioria das escolas tem jornada integral, a escolaridade é de onze anos e a taxa de analfabetismo não passa dos 3%. O Brasil tem vinte anos de atraso em relação à educação chilena. Em países desenvolvidos, gastam-se 13 mil reais por aluno ao ano, em escolas públicas. A despesa é de 3 mil reais no Brasil.

 

Para Haddad, ficar só nisso, na fotografia, é desinformar a opinião pública, não reconhecer o esforço do governo e, portanto, desestimular as melhorias. No filme que o ministro exibiu no teatro, o Brasil fica entre os três países que mais evoluíram na educação básica na década, pelos dados do Pisa. Na sua gestão, o orçamento do Ministério da Educação passou de 19 para 69 bilhões de reais ao ano. Há pouco mais de dez anos, o custo por aluno no ensino superior era onze vezes maior do que o da educação básica – e hoje é cinco vezes maior. Ele disse que a universalização do ensino no governo de Fernando Henrique Cardoso deve ser relativizada: “Qualquer um que entenda regra de três sabe que aumentar o número de vagas e diminuir o recurso para a educação diminui tanto o investimento por aluno como o salário do professor.”

Reconheceu que o analfabetismo fica perto de 10% da população, mas informou que há dez anos o índice era de 13,6%. Se antes 36% terminavam o ensino médio, hoje metade dos matriculados o conclui. A escolaridade passou de seis anos para sete e meio. Quarenta e oito mil docentes foram contratados na última década. O Brasil galgou a 13ª posição em produção científica, no quesito quantidade de publicações, e forma o dobro de mestres e doutores que formava em 2000. “E tudo isso no governo de um presidente que não tinha nem o fundamental completo”, observou Haddad.

“É claro que melhoramos”, disse o senador Cristovam Buarque, do PDT. “Estamos melhores do que vinte anos atrás, mas estamos mais atrasados do que há vinte anos. As exigências educacionais cresceram. O Brasil é a oitava economia do mundo, não basta mais a formação de uma elite trabalhadora. Se compararmos o crescimento da educação com o da indústria, bancos e exportações, veremos que a educação ficou para trás.” Para Cristovam Buarque, que foi demitido pelo telefone por Lula depois de doze meses confusos à frente da Educação, a gestão de Fernando Haddad deixa a desejar.

Na sede do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, na Praia do Flamengo, no Rio, o sociólogo Simon Schwartzman tentou combinar a fotografia com o filme e disse que a educação “melhorou um pouco, mas não há glória alguma em sair do péssimo para o muito ruim”.

O ministro Haddad acha que críticas como essas estão contaminadas pela disputa política e por divergências ideológicas. E o melhor é recorrer às estatísticas de grandes órgãos internacionais. Nessas cifras, o ensino nacional melhorou nos últimos anos.

Haddad costuma improvisar seus discursos com base nas dezenas de estatísticas que sabe. Ao chegar a Curitiba, perguntou ao chefe de gabinete, Leonardo Rosa, qual era o perfil da plateia, para quantas pessoas e por quanto tempo falaria. Rosa respondeu que haveria diretores e professores de escolas privadas e alguns secretários de Educação. O ministro deveria falar por meia hora, no máximo quarenta minutos, tempo que Haddad respeitou sem consultar o relógio.

Ele não gosta de atrasos, tem horror a batedores, nunca se senta à cabeceira de mesas, prefere pegar um voo de madrugada a dormir fora de casa, em Brasília, e está de dieta desde que machucou o joelho e teve que parar o tae kwon do. Devido à dieta, não comeu um único pão de queijo ou pedacinho de sanduíche a metro servido naquilo que os organizadores do simpósio chamaram de coffee break. Tampouco beliscou a caixa de doces mineiros, presenteada pela secretária de Educação de Araxá.

 

Entre Curitiba e Porto Alegre, a bordo de um Legacy da Força Aérea Brasileira, Fernando Haddad contou um pouco da sua história. Começou por Cury Habib Haddad, o avô que não chegou a conhecer, mas cuja foto leva na carteira. Ao ficar viúvo, o ancestral tornou-se padre da Igreja Cristã Ortodoxa no vilarejo em que morava, no Líbano. Logo foi apelidado de Cury Druso, tal o respeito com que era tratado pelos muçulmanos do lugar.

Estabelecido no Brasil, foi procurado por um cristão e um muçulmano que entraram em litígio por causa de uma faixa de terra. Mandaram uma carta pedindo que ele definisse a controvérsia. O padre druso deu ganho de causa ao muçulmano, e sua carta foi registrada em cartório como o documento que delimitava as fronteiras. “É pretensioso da minha parte, mas em momentos difíceis tento pensar no que ele faria”, disse Haddad no voo.

Khalil Haddad, o pai do ministro, estabeleceu-se em São Paulo aos 24 anos. Norma, sua mãe, filha de libaneses nascida no Brasil, formou-se no curso normal do Liceu Pasteur e foi dona de casa. Nascido em 1963, o ministro é o segundo de três filhos. Ele se lembra do primeiro livro laico que entrou na sua casa: a Enciclopédia Delta Júnior. A outra leitura disponível era o Evangelho, que a mãe, kardecista, lia semanalmente com os filhos. Até hoje, todos os dias, ele faz uma oração antes de dormir: “As pessoas me perguntam por que eu faço isso. Eu não sei, não sou religioso. Rezava quando menino e nunca deixei de rezar.”

Fez o primário e o secundário em escolas privadas. Meses antes de prestar vestibular, estava na turma do Colégio Bandeirantes que prepara alunos para a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A formação em ciências exatas, a facilidade com a matemática e o gosto pela física não deixavam dúvidas: seria engenheiro. Mas a inesperada condição de sem-teto fez com que, para defender a família, prestasse vestibular para direito. Sem uma orientação legal, seu pai assinara um contrato com cláusulas absurdas. Foi vítima delas e perdeu o único patrimônio, a casa.

“A vida da minha família foi farta sem ser fácil”, disse. “Faltou dinheiro em alguns momentos críticos. Era suficiente para viver bem, mas não acumulamos capital.” Era a primeira das muitas vezes que usaria a expressão, com a variação “acumulação primitiva de capital”.

No início dos anos 80, quando o Brasil era presidido pelo general João Figueiredo, Haddad entrou nas Arcadas. Todos os dias, saía a pé do largo São Francisco, cruzava a rua São Bento e ia à rua 25 de Março, onde ajudava o pai na loja de tecidos. O ministro costuma dizer que sua formação na rua dos comerciantes de origem levantina foi tão importante quanto a da USP: “Lá, quem não aprende rápido a fazer a leitura das pessoas, vai à falência. É toda uma economia baseada no crédito.”

Nesse ambiente, aprendeu a olhar para uma pessoa e dizer se ela saberia trabalhar, se daria calote ou se, mesmo com uma ficha péssima, honraria o compromisso. “Até hoje, não sei dizer de onde vem isso, mas é um conhecimento prático que funciona”, disse. Saía da loja e varava a noite fazendo as leituras obrigatórias da faculdade.

Fora do curso, Haddad se alinhava com a esquerda antistalinista, mas não aderiu ao trotskismo. “Não gostava do que se passava no socialismo real e julgava o pensamento trotskista meramente moralista”, contou. “O clima já era de distensão, era o governo Montoro em São Paulo. A juventude queria um mundo mais libertário na política e na vida privada.”

Por isso, quando viu os logotipos The New York Times e Pravda fundidos no “The Pravda”, achou que precisava conhecer a pessoa por trás daquela ideia. O autor da boutade era o colega mais velho Eugênio Bucci, e The Pravda, o nome da chapa com que concorria à presidência do Centro Acadêmico XI de Agosto. “Só o nome já era uma recusa do mundo bipolar”, lembrou. “The Pravda era um neologismo que recusava o status quo e sinalizava para uma sociedade emancipada, erótica e livre. Tinha um jogo de palavras com ‘depravado’.”

“Se o Augusto de Campos visse aquilo, diria que era um poema concreto: nós éramos muito debochados”, disse Bucci, numa manhã de agosto, no seu escritório na avenida Faria Lima. Bucci foi presidente da Radiobrás no governo Lula e agora tem uma coluna no Estado de S. Paulo. Quando era diretor de redação da revista Quatro Rodas, certa vez comentou com Haddad que não havia no Brasil uma tabela fidedigna com os preços de carros usados. O comprador tinha que pesquisar sozinho e, invariavelmente, ficava perdido. Professor do departamento de ciências políticas da USP, Haddad se dispôs a ir à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e tentar fazer a tabela com os técnicos de lá. “Foi assim que nasceu a Tabela Fipe, que virou um case mundial”, contou o ministro. “Até hoje o preço de seguro e o IPVA usam a Tabela Fipe como referência”, disse Bucci, folheando uma Quatro Rodas que pegou da estante.

Eugênio Bucci contou que o amigo é contido. “Todo mundo na juventude ficou bêbado de passar mal”, disse. “Não é que o Fernando fosse careta, nada nele tem corte conservador, basta ver a educação que dá aos filhos. Só não é dado a excessos comportamentais. É um cara que te transmite estabilidade.”

The Pravda ganhou as eleições. Bucci foi presidente do centro acadêmico e Haddad, com 21 anos, tesoureiro. “O XI de Agosto tinha restaurante, gráfica, era dono de ações, campo de futebol, estacionamento, alojamento de estudantes, e tínhamos que administrar contas, pagar salários”, lembrou. “A gestão do Fernando foi tão brilhante que todos concordaram que o próximo candidato tinha que ser ele.” Seu sucessor, de fato, foi Haddad.

 

Uma inquietação perseguiu Haddad durante a trajetória acadêmica: como um pensamento libertário, o da esquerda marxista, pôde se ligar a um dos regimes mais despóticos do planeta, o da União Soviética? Em busca de uma resposta, no 3º ano da faculdade já lia mais sobre economia do que direito. Bucci perguntou-lhe: “Por que você não estuda economia, então?”

Leda Paulani, professora de economia na USP, lembrou-se do dia em que conheceu “o menino que veio do direito” na lanchonete da faculdade. Haddad queria conversar sobre um texto que ela escrevera e ele achara maravilhoso. Tornaram-se amigos. Na época da pós-graduação, Haddad vivia lhe dizendo: “Ledinha, nós temos que ser socialistas.” Ou então: “Ledinha, nossos filhos vão ver o socialismo.” E ela respondia: “Sim, somos socialistas, mas como a gente põe isso em prática?”

Para Leda Paulani, dos seis livros publicados por Haddad, sua tese de doutorado em filosofia, “De Marx a Habermas: o materialismo histórico e seu paradigma adequado”, é o seu trabalho mais surpreendente. Haddad procurou fazer uma crítica a uma linhagem de críticas ao marxismo que brotou a partir dos anos 80, tendo Habermas como principal alvo.

Numa segunda-feira à tarde, na sua casa no Jardim Paulistano, apinhada de livros até o teto, o crítico Roberto Schwarz segurava nas mãos o livrinho Em Defesa do Socialismo, que o ministro publicou no 150º aniversário do Manifesto Comunista, de Marx e Engels. Comentou que a reordenação que Haddad fez dos esquemas de Marx era uma invenção sociológica muito curiosa, que merecia ser mais desenvolvida. “O Fernando tem independência intelectual e é muito inventivo”, disse. “Ele tem uma mistura de boa-fé e astúcia.”

Eles se conheceram em 1992, quando Schwarz publicou um artigo na Folha de S.Paulo, que depois serviu de prefácio ao livro O Colapso da Modernização, de Robert Kurz. Haddad o procurou para dizer que havia escrito algo bem semelhante antes, mas que foi necessário um autor alemão tratar do assunto para as pessoas darem ouvidos. Schwarz leu o artigo de Haddad e, de fato, a teoria estava lá. Ambos continuaram a se frequentar num jantar aos domingos, que alguns intelectuais marxistas organizam numa pizzaria de Pinheiros.

As finanças da família passaram por novo percalço em 1997. “O problema não foi a abertura econômica, a gente importava tecido”, disse Haddad. “Mas começou a ter muito contrabando, os preços desabaram, os ativos e o estoque junto”, disse. Na época, Haddad foi aprovado no concurso para ser professor de ciências políticas da USP. Convenceu o pai, que teve um derrame por causa do estresse, a fechar a loja. E conheceu outro economista de origem libanesa, João Sayad, que lhe foi apresentado por Leda Paulani.

 

Quando Marta Suplicy foi eleita prefeita de São Paulo em 2000, Sayad telefonou a ele, certa noite, perguntando se, caso convidado, Haddad aceitaria trabalhar na administração da petista. Haddad respondeu: “Aceitaria ontem.” No dia seguinte, Sayad ligou novamente e avisou que aceitara o convite para ser secretário das Finanças, e que Haddad seria o seu subsecretário.

Leda Paulani integrou-se à equipe, logo chamada de “Exército de Brancaleone do Sayad” em função das dívidas que herdou de Celso Pitta. “Aquilo era a sucursal do inferno, as finanças estavam complicadas no curto, médio e longo prazos, e a pressão das empreiteiras era brutal”, lembrou-se ela. “O Fernando foi fundamental nessas negociações. As estratégias dele de convencimento e de fazer acordos chegavam a ser engraçadas. Ele montou uma engenharia de um espera e outro recebe de tirar o chapéu.”

Usando uma artimanha jurídica, Haddad conseguiu instituir o imposto predial e territorial progressivo, uma das bandeiras do PT, o que lhe rendeu o apelido de jurista.

O deputado Paulo Teixeira, na época secretário de Habitação, convidou Sayad e Haddad para um longo sobrevoo de helicóptero pela periferia de São Paulo. A ideia era sensibilizar a equipe econômica para fazer investimentos sociais em sua área. Funcionou. Sayad e Haddad se assustaram com o monstro: um mar de cimento onde não se via nada do Estado. Durante dias, a trinca de economistas das Finanças não falou em outra coisa. “Aquilo foi um choque de realidade para um paulistano que saía da USP e morava no Paraíso”, disse Haddad.

Precisavam fazer alguma coisa. Um dia, João Sayad entrou na sala do subsecretário e perguntou de novo o que deveriam fazer. Haddad respondeu com outra pergunta: “Por que não fazemos uma Praça da República em cada bairro?” Foi esse o embrião dos Centros Educacionais Unificados, os CEUs, projeto implantado na prefeitura de Marta que hoje conta com 45 unidades e atende 120 mil alunos na periferia paulistana.

Fernando Haddad disse que sua relação com Marta não era próxima, mas era boa. A prefeita trocou três vezes o secretário de Educação e em todas as ocasiões o nome de Haddad lhe foi proposto como substituto. Nas três ele foi preterido. “Mas isso não nos causou nenhum embaraço”, disse o ministro.

A prefeita forçou a criação de novos impostos e aumentou gastos públicos, e João Sayad saiu do governo municipal após ficar por três anos. Haddad o acompanhou. A saída coincidiu com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. “Foi uma frustração enorme quando ninguém me convidou para o governo”, disse o ministro. “Passei janeiro num estado de dar dó: não saía do lado do telefone.”

O jornalista e professor André Singer, que era o porta-voz do novo governo, convidou amigos para comemorar o aniversário, em maio de 2003. Leda Paulani encontrou na festa o novo ministro do Planejamento, Guido Mantega, com quem tinha organizado um livro. Ele perguntou se a professora não gostaria de ir para o governo. “Eu larguei o pau na política econômica, ortodoxa até a medula, mais realista do que o rei”, lembrou ela, que hoje ri do episódio. “Ele sorria e dizia: ‘Calma, Leda, você está muito brava.’ Eu dizia que estava brava mesmo porque lutei a vida inteira pelas mudanças.”

Leda Paulani arrematou o acesso de fúria dizendo que o governo era tão incompetente que não reconhecia os talentos que poderiam participar dele. Catou Haddad e o largou na frente de Mantega, que não o conhecia, e foi embora. “Guido, pelo amor de Deus, eu não tenho nada a ver com isso”, disse-lhe Haddad, atônito.

Na semana seguinte, contudo, Mantega chamou Haddad para uma conversa. Pediu desculpas por não ter um cargo bom, mas que poderia oferecer-lhe uma assessoria. “Consiste em quê?”, perguntou Haddad. “Uma mesa e uma secretária”, respondeu o ministro. “Mas quem disse que eu preciso de mais do que isso para trabalhar com vocês?” Foi para o Ministério do Planejamento, em Brasília, e, com formação jurídica, ajudou a botar de pé a Lei de Parcerias Público-Privadas, as PPPs.

Tentou morar sozinho em Brasília, voltando periodicamente a São Paulo, e não conseguiu. Ana Estela, com quem está casado desde os 25 anos, e a filha menor, Carolina, de 11 anos, mudaram-se para Brasília com ele. Frederico, hoje com 19, voltou a viver em São Paulo quando foi aprovado no vestibular de direito da USP.

Perguntei a Leda Paulani se via contradição entre a formação marxista de Haddad e a sua atuação num Executivo, ao fim e ao cabo, burguês. A professora respondeu que não concorda com tudo o que ele faz, e ele sabe disso. “Ele quer ver as coisas acontecerem, não é capaz de ficar esperando. Não é à toa que se enfiou no Estado e nunca mais saiu”, observou. “Você pode até achar que ele está fazendo tudo ao contrário, mas ele vai te convencer que não.”

“O desafio da esquerda é buscar a unidade perdida entre crítica e ação”, afirmou o ministro. “A esquerda crítica não age e a esquerda que age não é suficientemente crítica”, disse Haddad, tentando desentupir os ouvidos, que sempre lhe fecham em aviões. Do ponto de vista teórico, Haddad se define como frankfurtiano. Diz filiar seu pensamento à Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer. Mas não segue o postulado da Escola de Frankfurt de manter distância do sistema de poder, preferindo o pragmatismo da esquerda americana.

 

Passava do meio-dia quando o ministro desembarcou em Porto Alegre, uma hora depois do horário previsto. “Será que vai ter suco no almoço? Já estou com hipoglicemia”, disse, ainda em jejum. Mas não o esperaram para comer o churrasco de ovelha no Palácio Piratini. Anunciada a sua entrada, ouviu-se o barulho de talheres sendo pousados nos pratos. Tarso Genro deu um abraço no ministro e, no microfone, brincou: “Em São Paulo, não sei se você se elege, mas aqui tu pode escolher a cidade!”

Tarso Genro convidou Haddad para ser seu secretário-executivo no Ministério da Educação quando ele estava no Planejamento. Fez isso depois de mais de dez anos de correspondência só no plano intelectual. Trocavam artigos, cartas, mas pouco se viram. “Ambos consideramos que o leninismo, enquanto teoria do partido, está superado, e achamos que o marxismo não pode ser encarado como a última filosofia do mundo, e sim como um instrumento filosófico para analisar a atualidade”, disse Tarso.

Ao assumir o cargo, logo que tomou contato com números e ideias do Ministério, Haddad apresentou o projeto de colocar 400 mil alunos na universidade. “Mas quanto isso vai custar?”, perguntou Tarso. “Nada”, respondeu Haddad. Desde 1991, instituições privadas se beneficiavam de isenção fiscal sem dar contrapartida ao governo. Com o Programa Universidade Para Todos, o ProUni, passaram a ter que oferecer bolsas de estudo.

“No fim do ano, o ProUni vai ter posto nas faculdades 1 milhão de jovens de famílias de até três salários mínimos”, disse Tarso Genro. “E nós fizemos isso sem crise, no diálogo e sem radicalismos histéricos.”

Com a crise do mensalão, Tarso Genro saiu do Ministério para assumir a presidência do PT. Antes, pediu ao presidente que colocasse Haddad no cargo. Quando viu que o filho tinha sido nomeado ministro, dona Norma telefonou e lhe perguntou, preocupada: “Mas, meu filho, você vai aceitar ser ministro com o governo nessas circunstâncias?” Ele respondeu: “Mãe, se não fossem essas as circunstâncias, nunca me ofereceriam o Ministério.”

Com o PT desmoralizado e caminhões de mudança saindo de Brasília, Haddad manteve-se fiel a Lula. Rodaram o Brasil juntos, inaugurando a primeira leva de obras da área educacional. Nas viagens, Haddad conversava com o presidente sobre sua área, comentando as outras só quando perguntado. Conversas sobre política econômica, assunto querido aos dois, preencheram muitas horas de voo.

“Tem um ditado árabe que diz que você só conhece de verdade uma pessoa depois que trabalhou com ela”, lembrou o ministro. “Eu fui conhecer o Lula no Ministério. É inspirador vê-lo no trabalho, tomando decisão, sendo convencido, convencendo, debatendo, exigindo, cedendo, concedendo.” E o presidente passou a gostar do ministro devido à clareza de ideias e operosidade. Uma vez, Lula lhe perguntou: “Você nunca votou em mim, não é, Haddad?” Ele respondeu que, exceto em 1982, quando votou no pedetista Rogê Ferreira, sempre votou em Lula. E acrescentou: “Mas sem nenhuma convicção.” O que lhe rendeu uma repreensão da mulher do presidente, Marisa: “Haddad! Como você diz uma coisa dessas?”

Um ano depois, Tarso deixou o cargo no partido e Lula o chamou para ver se ele queria voltar à Educação. Ele declinou e elogiou o sucessor. Lula, que pensava igual, ficou aliviado e chamou Tarso Genro para a Justiça.

 

Durante 2007, Haddad teve agenda de candidato e visitou todos os estados, percorrendo capitais, interior e rincões. Buscava a adesão formal de prefeitos e governadores às metas do Plano de Desenvolvimento da Educação. Em Rio Branco, ficou preso com Marina Silva na inauguração do primeiro elevador público da cidade. Em João Pessoa, o avião da FAB deu pane. Na Ilha de Marajó, recusou-se a montar um búfalo, transporte escolar de muitas crianças. O máximo que seus assessores conseguiram foi convencê-lo a tirar o paletó e a gravata, dobrar as mangas da camisa e vestir por cima a camiseta que ganhou.

Ao final da odisseia, conseguiu a assinatura de todos os 27 governadores e 5 563 prefeitos, firmando um acordo por metas básicas na Educação. “Quando você apresenta critérios republicanos universais, não há como se opor”, disse. “Fizemos da educação uma política de Estado. No MEC é proibido perguntar o partido político”, disse Haddad.

No seu inventário de realizações consta ainda a aprovação de cinquenta projetos de lei e duas emendas constitucionais, que necessitavam de quórum de três quintos favoráveis no Congresso, todas as assinaturas da oposição. “Foram mudanças estruturais, emendas complexas e nós conseguimos fazer uma política por consenso”, disse. Nessa ação, ganhou o coração de Lula, que começou a cogitar o seu nome para concorrer às eleições em São Paulo.

O calcanhar de Aquiles do ministro é o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, que apresentou uma série de falhas. Em outubro de 2009, a prova foi roubada da gráfica. Em dezembro, divulgou-se um gabarito errado. No ano seguinte, os cartões de resposta saíram com erros de impressão no cabeçalho, e provas apareceram com questões duplicadas e folhas repetidas.

O ministro disse que o roubo da prova deve ser o único caso em que a vítima, ele, teve que se explicar mais do que os criminosos. “A prova foi roubada da gráfica, que não é qualquer graficazinha não, é a maior gráfica do Brasil”, disse. “Os ladrões já foram condenados.” Ele considera esperável erros em exames desse porte. No final do ano serão mais de 6 milhões de alunos a fazer as provas, um número só inferior ao da China. Segundo Haddad, neste ano o SAT americano vazou por conta do fuso horário e o BAC francês também teve erros.

“O caso que mais me abalou foi o do livro didático, foi quando cheguei mais perto de entregar o cargo”, contou. “Nessa hora, pensei: este país não tem jeito”, disse. O livro em questão, Por uma Vida Melhor, destinado a jovens e adultos, afirmava que frases como “nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe” seriam exemplos da variação popular da língua. O exercício seguinte pedia que se passassem tais frases para a norma culta, uma outra variação. Com base nisso, colunistas acusaram o MEC de ensinar a falar errado.

Passava das nove da noite quando Haddad pousou em Brasília e foi informado de que a presidente Dilma o convocara para uma reunião no Planalto. Cansado, contava que pudesse ser representado, mas Dilma fez questão que estivesse presente. Eles se veem de três a quatro vezes por semana. Na primeira vez que se encontraram depois da eleição, ele tomou a iniciativa de esticar o braço para cumprimentá-la e ela se aproximou para que trocassem beijos, o que continua a ocorrer.

 

Ele usa os fins de semana para maratonas de reuniões, almoços e plenárias do PT, no intuito de se viabilizar como candidato do partido à prefeitura paulistana. Na falta de acordo, haverá uma prévia do partido marcada para o final de novembro. O seu maior adversário é a ex-prefeita Marta Suplicy, que tem apoio disseminado na base. Na direção, ele conta com a sustentação de grandes nomes: Lula, Dilma, José Dirceu.

As caravanas zonais do PT começaram na sexta-feira, 5 de agosto, no bairro paulistano do Tatuapé, e tomarão as noites de sexta, tardes de sábado e manhãs de domingo dos pré-candidatos até 30 de outubro. No final eles terão percorrido 36 diretórios e estima-se que terão falado para 10 mil militantes. Por constrangimentos da agenda de ministro, Haddad não pôde ir ao Tatuapé.

A primeira plenária da qual participou foi no dia seguinte, no diretório de São Miguel. Novato, contava ouvir primeiro os outros pré-candidatos. Mas lhe passaram de supetão o microfone. Ele falou sobre a sua gestão no MEC, elogiou os governos Lula e Dilma e propôs programas como o ProInfância, que cria creches em parceria com a prefeitura, e o Mais Educação, que prevê um segundo turno escolar com atividades extracurriculares.

No sábado, 27 de agosto, em Campo Limpo, periferia da Zona Sul paulistana, duas coisas o diferenciavam dos demais integrantes da mesa. Era o único que não havia sido eleito. E, tirando Marta, que vestia blusa com estampa colorida de mangas compridas e calça colada ao corpo, Haddad era o único que não usava a blusa para dentro do jeans com a chave do carro pendurada no cinto. O ministro não tem carro em São Paulo, sua máquina de campanha é precária e ele depende da carona de simpatizantes à causa para levá-lo às caravanas. Na maioria, são jovens universitários que Haddad nunca viu antes, com carros que, pela aparência, talvez tivessem dificuldade numa vistoria de trânsito.

As caravanas seguem sempre a mesma estrutura. Integrantes do diretório local expõem os problemas do bairro e cada pré-candidato tem direito a falar durante quinze minutos. Difícil é convencer o pessoal a suspender o café com bolacha para começar o debate.

Haddad, com uma postura impecavelmente ereta, brincava de tampar e destampar a caneta ou rodava a aliança no dedo enquanto ouvia seus adversários. Parecia nervoso, mas negou. Disse que, depois do seu batismo traumático, aprendeu na marra. Vez por outra puxava conversa com outro pré-candidato, o deputado Carlos Zarattini, sentado à sua esquerda.

O deputado foi o primeiro a falar: “O Lula não me pediu para desistir da candidatura. Pelo contrário, garantiu que apoiará da mesma forma e com o mesmo empenho o candidato escolhido pela militância do PT.” Em seu berço eleitoral, o deputado foi o mais aplaudido depois de Marta Suplicy, sempre ovacionada. “É isso aí: o PT é briguento, não aceita indicação de cima para baixo, de quem não pôs a mão na massa”, disse-me uma mulher ruiva, sentada ao meu lado. Ela lembrou que no fim dos anos 80, o Aloizio Mercadante era o candidato de Lula e das lideranças do PT. Ainda assim, Erundina ganhou nas prévias.

Uma mulher na fileira imediatamente atrás tinha outro tipo de preocupação: “Eu já ganhei um celular do Alfredo, o vereador, mas perdi. Estou precisando de um novo, esse aqui não dá. Vou pedir para um desses deputados aí.”

Haddad elogiou a militância, a gestão Marta (que sentada na ponta da mesa não parava de dar autógrafos) e buscou explicar, indiretamente, por que não participou da vida partidária. Contou que se formou em direito, economia e filosofia e trabalhou com Marta, Guido Mantega, Lula e Dilma. Apesar de já ter cortado termos como “clivagem nítida” e “dialética”, por vezes escorregou, considerando o público: “descentralização” talvez tenha sido um conceito abstrato em demasia para a intenção de levar mais Estado à periferia.

O deputado Jilmar Tatto, outro pré-candidato, pareceu transmitir com maior nitidez o que pretendia: “Não ganhamos sem a Marta, essa mulher magoada faz um estrago.” A senadora sorriu. Estava bem à vontade, com todos os pré-candidatos elogiando sua gestão.

Marta homenageou a presença de três gerações de mulheres petistas – uma senhora de andador, com sua filha e neta –, percebidas quando entrou. Disse que, assim como ocorria no governo federal, São Paulo precisava de uma mulher, gente que “pensa em detalhes”. Contou que, quando a prefeitura criou o uniforme escolar, ela pediu para ver e apalpar os tecidos. Escolheu o da marca Adidas, muito mais caro que os outros. “Os homens da minha equipe não concordavam com o gasto, mas eu insisti”, disse. “Qualidade é sinal de respeito. Tem que ser um tecido que dê para lavar, lavar e no ano seguinte ficar para o irmãozinho.” Concluiu de maneira assertiva: “Se tem alguém que tem chance de ganhar essa eleição sou eu. Não há outra opção de vitória para esta cidade.” Recebeu mais uma salva de palmas.

Eduardo Suplicy se enrolou no fio do microfone, tentou cantar, mas só conseguiu recitar o rap O Homem na Estrada, dos Racionais MCs. O desempenho, como era de se esperar, ganhou simpatias na plateia. Depois falou sobre o Programa Renda Mínima e fez uma enquete: “Quem quer fazer de São Paulo um modelo para o Renda Mínima levanta a mão.” Na plateia, a grande maioria levantou a mão. Na mesa, somente Haddad.

Ao fim, o ministro ouviu militantes. Uma adolescente reclamou que sua escola não permitiu que montassem uma comissão para festa de formatura. Um professor que abandonou a faculdade de física há vinte anos queria saber se poderia pedir reingresso. Uma menina estava chateada porque não fora avisada que haveria Olimpíada de Matemática no colégio. Entre um pedido e outro Haddad tirou muitas fotos e deu autógrafos. “Esse povo é muito acolhedor”, disse Haddad. E só se comprometeu a fazer o financiamento estudantil de uma jovem que disse não poder concluir a faculdade de direito por falta de dinheiro.

 

Uma pesquisa do Datafolha, divulgada em 5 de setembro, mostrou que Fernando Haddad oscilava entre 1% e 2% nas intenções de voto. Marta Suplicy, com 29%, lidera em todos os cenários. Mas três em dez entrevistados a rejeitaram. O maior trunfo do ministro está no poder de transferência de votos de Lula: 40% dos entrevistados disseram votar no candidato apoiado por ele. Para 26%, o apoio de Dilma também é importante.

Haddad passou várias horas da tarde e da noite do último domingo de setembro estudando pesquisas qualitativas sobre a candidatura à Prefeitura de São Paulo. Deixou-as para, junto com o filho Frederico, ir comer pizza com amigos. Contou a eles que 7% dos paulistanos sabem quem é ele. “É gente de elite, que lê jornais, provavelmente tucanos”, afirmou. Mas disse que isso não o incomoda porque um ano antes de uma eleição na qual José Genoíno chegou ao segundo turno ele era conhecido apenas por 3% da população.

Maria Elisa Cevasco, professora do departamento de letras modernas da USP, disse que venderia camisetas para ajudar na campanha de Haddad. Mas, brincando, indagou: “Fernando, quem vai ser o seu vice? Eu liguei para todos os meus amigos, chorando, depois que tive que votar no Michel Temer, mesmo indiretamente.” O ministro explicou que a orientação do partido é seguir a base aliada do governo federal.

Leda Paulani também brincou, mas foi contundente: “Fernando, se você começar a procurar igrejas para ler a Bíblia com a família, que nem o Serra, eu não voto em você.” Haddad retorquiu com outra blague: “Ledinha, eu só tenho 2% de intenção de voto e você ainda ameaça não votar em mim?!”

A mesa, além de animada, era enorme. Havia nela umas trinta pessoas do PT, do PSOL ou que costumavam votar nulo. Todas elas pareciam gostar do ministro, por um motivo ou outro. O que as unia, no entanto, era a incerteza quanto à possibilidade de, chegando a candidato do PT, ele vir a vencer as eleições. “Não vejo como fazer um prognóstico”, disse Roberto Schwarz.

Em 24 de agosto, sete dias depois do encontro em Curitiba,  Haddad recebeu o DCE e o comando de greve da federal do Paraná e de outras instituições que faziam mais um ato em frente ao Ministério. Desta vez gritavam:

Haddad, eu não me engano,
7% é proposta de tucano.

A UFPR não está mais em greve. Os estudantes foram por conta própria, não pediram passagem, nem marcaram audiência, de modo que o ministro os recebeu com pressa, pois tinha uma reunião com Dilma. Deixou o chefe de gabinete, Leonardo Barchini Rosa, para ouvir as reivindicações. Antes de sair, prometeu mais uma vez que mandaria as passagens para que, com audiência marcada, conversassem com calma. O MEC diz ainda não ter recebido dos estudantes o pedido de audiência com o ministro.

 

Dilma e Haddad foram à aula inaugural do curso de medicina do campus de Garanhuns da Universidade de Pernambuco. De lá, o ministro pegou um helicóptero até Caruaru e foi depois, num jato da FAB, a Salvador, de onde rodou mais de 100 quilômetros até Mata de São João. O destino final era o hotel IberoStar, na praia do Forte, onde acontecia o 4º Fórum Nacional Extraordinário dos Dirigentes Municipais de Educação. Mais de mil secretários e funcionários das Secretarias Municipais de Educação – público 90% feminino – o aguardavam.

“Eu vou pedir para as pessoas sentarem”, disse Cleuza Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, tentando acalmar a plateia. Haddad não conseguia começar a falar. “Gente, vamos sentar que eu prometo uma sessão de fotos depois”, repetiu ela, dessa vez em tom de súplica.

Terminado o discurso, várias senhoras avançaram em cima do ministro. Se fosse um conto do século XIX, o título seria “A revolta das anáguas”. Cleuza Repulho esgoelava-se, em vão: “Gente, o ministro vai tirar foto com cada delegação, esperem, ninguém quer que o ministro se machuque, quer?” Até apelou: “Vamos mostrar educação.” Nada surtiu efeito. Ninguém arredou pé do palco, que balançava com o excesso de peso. A sessão de fotos com mulheres penduradas no pescoço levou mais de uma hora. Ao fim, o ministro estava completamente descabelado, os olhos vermelhos e inchados de cansaço e a roupa amassada. “Legal o carinho, né?”, perguntou-me, meio sem jeito.

Os 48 anos, os cabelos levemente grisalhos caindo na testa, a pele morena, o 1,83 metro de altura e o pé número 45,5 explicam parte da cena. Outra parte pode ser explicada pela triplicação do repasse do governo federal para os estados e municípios.

No avião de volta a Brasília, Fernando Haddad lamentou que Dilma Rousseff não tivesse ido ao Fórum: “Teria sido emocionante ela no meio daquela mulherada”, lamentou-se. O jantar foi servido a bordo: um sanduíche frio de pastrami. Pela primeira vez em um mês, vi o ministro Haddad sair da dieta para comer um bombom Alpino.

“Uma vez, na aula de física, o professor falou que nada é indivisível”, contou, rindo. “Um colega levantou a mão e disse que não concordava, que o Alpino é indivisível. Essa é a diferença das ciências exatas para as humanas.” Chocólatra – seu único vício aparente –, disse não conseguir levar chocolate para casa: “Eu como todos.”

Em seguida, tirou os sapatos de couro preto que lhe apertavam, esfregou os pés um no outro, cruzou os braços apoiando-os na barriga e apagou. Seus assessores ficaram espantados. Nunca o tinham visto dormir em avião, quanto mais roncar.

Clara Becker

Clara Becker é jornalista, mora em Buenos Aires, trabalha para a Agência Lupa. É coautora dos livros The Football Crónicas e Los Malos

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