ficção

O castiçal florentino

Cheguei a pensar que o teatro fosse um inferninho, mas bastou examinar a placa com mais atenção pra me convencer de que era mesmo um lugar consagrado à arte de vanguarda, tão perdido naquele recanto de Copacabana quanto um templo pagão em plena cristandade

Paulo Henriques Britto
ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE_2012

Foi no verão, num período da minha vida que hoje, quando olho pra trás, me parece uma espécie de despedida da juventude, o último verão da minha juventude. Não que na época eu encarasse a coisa assim, na época eu me considerava adulto, vinte e tantos anos, morando sozinho no Rio, já formado e trabalhando no meu primeiro emprego, se bem que um emprego que estava longe de ser o ideal, que eu sabia que não seria meu emprego por muito tempo. Na minha última ida a São Paulo pra visitar a família, eu tinha sido entrevistado por uma firma de lá, aquilo sim seria um emprego. Mas eu não tinha tanta certeza quanto ao meu desempenho na entrevista, e no fundo também não sabia muito bem se queria mesmo ser aprovado, aliás nem se queria mesmo ser engenheiro, depois de largar pelo meio o curso de filosofia e embarcar num curso de engenharia, movido por um desses impulsos inexplicáveis que a gente tem na juventude, e me formar, contra as expectativas de todos, inclusive, e principalmente, as minhas. Nos anos da faculdade havia me habituado a morar no Rio, ir à praia nos fins de semana, tinha feito muitos amigos na cidade. Por outro lado, com a formatura, minha turma havia se dispersado um pouco, alguns ex-colegas tinham ido trabalhar em outras cidades, e mesmo com os que moravam no Rio eu já não tinha tanto contato; naquele verão em particular vários dos meus amigos mais próximos tinham viajado, e eu estava mais ou menos sozinho no meu apartamento, sem namorada, sem muito trabalho na firma, naquele intervalo comprido e meio parado entre o Natal e o Carnaval, e por isso eu saía mais do que de costume à noite, e bebia mais do que costumava beber. Uma sensação me dominava, uma sensação de espera, ainda que eu não soubesse exatamente o que estava esperando, ainda que eu não pudesse saber que estava esperando pelo verdadeiro começo da minha vida adulta, o fim da minha juventude.

Numa noite de sábado muito quente, fazia tanto calor que estava na cara que a chuva não podia demorar, o calor era tanto dentro do meu apartamento que resolvi sair, e quando vi estava indo ao cinema, um cinema de arte que havia perto de onde eu morava, era a estreia de um filme, um filme francês ou italiano que, segundo se dizia, a censura muito provavelmente ia proibir mais cedo ou mais tarde, proibir ou pelo menos cortar algumas cenas. Já não lembro se o filme foi ou não proibido, lembro só que a ameaça de censura acabou funcionando como a melhor forma de publicidade, de modo que quando cheguei no cinema a fila já se estendia até a esquina. Por um momento pensei em entrar nela assim mesmo, mas logo vi que a fila se desmanchava à medida que ia passando um funcionário do cinema dizendo: Infelizmente a lotação está esgotada, contamos com a sua compreensão. As pessoas se dispersavam em grupinhos desapontados, pares e grupos de três ou quatro, a maioria deles jovens, a discutir as alternativas. E as alternativas eram poucas, já eram quase dez horas e não havia outro cinema perto dali, não havia mais nada a fazer senão voltar pra casa e começar a ler o romance húngaro ou búlgaro que eu tinha comprado num sebo há alguns dias e ainda não havia aberto. Subindo a Barata Ribeiro, vi numa transversal um cartaz: o CASTIÇAL FLORENTINO. Não me lembrava de que havia ali um cinema ou teatro; me aproximei e li, em letras menores, no alto do cartaz: TEATRO MICROCEFÁLICO. Achei graça no nome e olhei pra entrada, uma porta estreita, espremida entre uma bilheteria e um daqueles barzinhos suspeitos que servem chope morno e aguado a mestres de obras suíços ou metalúrgicos suecos acompanhados de mulatas com minissaias minúsculas. Por um momento cheguei a pensar que o teatro fosse um inferninho, uma casa de striptease como tantas outras da região, mas bastou examinar a placa com mais atenção pra me convencer de que, por mais improvável que parecesse, era mesmo um lugar consagrado à arte de vanguarda, tão perdido naquele recanto de Copacabana quanto um templo pagão em plena cristandade. Pois em letras ainda menores estava escrito: CRIAÇÃO COLETIVA DO GRUPO EXPERIMENTAL ARTAUD VIVE. Olhei pra bilheteria, o espetáculo começava às 22 horas; consultei o relógio, eram cinco pras dez. Quando dei por mim estava tirando a carteira do bolso e entregando uma nota a uma velha com uma cara amarrada que ocupava quase toda a janela da bilheteria.

 

Entrei numa antessala minúscula e fortemente iluminada, que recendia a mofo. Um banco estreito contra uma das paredes, um bebedouro, uma porta com a palavra LAVATÓRIO e uma cortina. Não havia mais ninguém. Por um instante hesitei, não sabia se eu era mesmo o único espectador, caso em que sem dúvida o espetáculo seria cancelado, ou se não era isso, era só que as outras pessoas já tinham entrado. O cheiro de mofo era quase insuportável, cheguei a pensar em sair, mesmo tendo acabado de pagar o ingresso, mas suspirei fundo, dei quatro passos em direção à cortina e entrei na sala.

O palco vazio era iluminado por uma luz muito fraca, tão fraca que não dava pra ver se havia outras pessoas na plateia. Tateando, encontrei a última fileira e já ia me sentando quando reparei que o lugar estava ocupado. Perdão, cochichei, e passei pra fileira imediatamente à frente; apalpei o assento do banco, vi que estava mesmo desocupado e me sentei. Passaram-se um ou dois minutos, aos poucos minha vista se acostumou com a escuridão e percebi que a plateia estava tão vazia quanto o palco, ao que parecia só havia dois espectadores, eu e a pessoa que por um triz eu não havia sentado no colo dela. O silêncio era quase completo, quase, porque quem estava atrás de mim parecia estar fungando. Me concentrei naquele som, e alguns segundos depois não tinha mais dúvida de que era mesmo alguém chorando. Como nada acontecia no palco, depois de mais um ou dois minutos de espera não consegui me conter e olhei pra trás. Era uma garota, e estava chorando, não muito alto, como se não quisesse atrair a atenção de ninguém, mas chorando muito, chorando pra valer. Talvez fosse só minha impressão, mas achei que o choro havia aumentado depois que me virei; constrangido, na mesma hora desvirei a cabeça e fixei o olhar no palco vazio. Enquanto isso, o choro da moça aumentava, e minha cabeça foi girando devagar, quase de modo involuntário, embora eu sentisse que não devia olhar, não tinha nenhum direito de me meter no choro alheio, até que vi a moça claramente, uma garota de vinte anos ou pouco mais que isso, bonita, mas de aparência frágil, com uma roupa um tanto inusitada, um vestido muito decotado, que deixava os seios miúdos quase de fora, e uma espécie de chapéu ou touca; e no mesmo instante me dei conta de que ela estava usando um traje de época, que ela era certamente uma atriz, que aquela crise de choro era muito provavelmente o início do espetáculo, que estavam só esperando que eu dissesse alguma coisa à garota pra que a peça por fim começasse. Por isso perguntei a ela: Você está bem?

Pelo visto, era essa a deixa esperada pra que a ação tivesse início, porque foi só eu falar que a garota se levantou de repente e saiu pra sala de espera, soluçando de modo incontrolável. Por um minuto fiquei imobilizado, sem saber o que fazer; no palco vazio a luz mortiça não aumentava nem diminuía; então, entre curioso e irritado, me levantei também e saí da sala de espetáculo. A antessala agora estava também quase às escuras, e por pouco não esbarrei num vulto que vinha em sentido contrário: era a velha da bilheteria. Perguntei: Desculpa, mas não vai ter espetáculo, não? A velha bufou de irritação: Espetáculo? Pra uma pessoa só? Faça-me o favor! Reagi: Neste caso, quero meu dinheiro de volta. Mas a indignação da velha aumentava, enquanto ela tentava ao mesmo tempo jogar um xale em volta do pescoço e pendurar a bolsa no ombro, e um gesto atrapalhava o outro: E eu, que não vejo a cor do meu salário há dois meses? Quem é que vai me pagar, hein? O Ramón é que não vai ser. Respondi: Não sei quem é o Ramón, nem quero saber, demonstrando uma irritação que na verdade não era tão intensa quanto parecia; era como se eu próprio estivesse representando um papel que se esperava de mim, pensei. E insisti: Quero meu dinheiro de volta, por favor. Mas a velha, que finalmente tinha conseguido ajeitar xale e bolsa, abriu a porta e disse: Se o senhor quiser ficar aqui dentro, pode ficar. Eu estou indo pro Estácio, a essa hora! E olhou pra mim furiosa, segurando a porta entreaberta, como se eu tivesse culpa de ela morar no Estácio. Pensei em responder alguma coisa, mas desisti; a velha, pensei, era perfeitamente capaz de sair e me deixar trancado ali dentro por puro despeito.

Nisso ouvi uma voz atrás de mim, uma voz firme, com um nítido sotaque hispânico: Não liga pra dona Arminda não, que ela é assim mesmo. Virei, era um sujeito um pouco mais velho que eu, louro e grandalhão, acompanhado de outros jovens, entre eles a garota que chorava, todos usando roupas de época. O rapaz louro me estendeu a mão: Muito prazer, eu sou o Ramón. Nesse instante a velha saiu, batendo a porta com força, mas ninguém deu atenção a ela. Apertei a mão de Ramón e me apresentei; ele segurou minha mão com força, agradecendo por eu prestigiar o trabalho deles, dizendo: Lamento a gente ter que cancelar o espetáculo. Compreendo perfeitamente, respondi, olhando pra ele, mas com toda a atenção voltada pra garota, que continuava chorando baixinho e estava sendo consolada por um rapaz que estava abraçado a ela, sussurrando no ouvido dela, fazendo carinho nela o tempo todo. O rapaz, cabeludo e magricelo, aparentemente ainda mais moço que a garota, agia como se fosse o pai – ou melhor, até, a mãe – dela. As lágrimas da garota desmanchavam a maquiagem pesada e escorriam pelas bochechas negras de tinta. Ramón prosseguia, enquanto me levava a uma saída lateral do teatro: Além de devolver o dinheiro do ingresso eu queria convidar você pra tomar um chope com toda a trupe. Claro, com o maior prazer, respondi. E saímos do teatro, os atores ainda com os trajes cênicos, levando suas roupas normais em mochilas, todos falando ao mesmo tempo e se apresentando a mim, Muito prazer, disse um mulato quase tão alto quanto o Ramón, eu sou o Olavo. Oi, eu sou a Mara, obrigado por nos prestigiar, e a Mara, uma morena baixinha e espevitada, foi logo tacando um beijo estalado no meu rosto, quase encostando a boca nos meus lábios, e nisso entramos num bar a um quarteirão do teatro, que ao que parecia era frequentado pelos atores, porque eles chamaram pelo nome o garçom que veio juntar mesas e arrastar cadeiras assim que nos viu. Enquanto nos instalávamos, prosseguia a conversa cochichada entre a moça que já não chorava e o rapaz magricelo, que agora ajeitava com ternura os cabelos dela, castanhos e compridos, uma conversa unilateral, pois praticamente só ele falava enquanto ela escutava, fungando de vez em quando, mas agora já arriscando um ou outro sorriso tímido, exibindo os dentes pequenos e delicados. Nesse ínterim, o Ramón fazia os pedidos ao garçom: Chope pra todos e um guaraná pra menina, e pela primeira vez ouvi a voz da garota do choro, uma vozinha suave e musical: Eu também quero chope, e em seguida a Mara e o Olavo, como se tivessem ensaiado, disseram em coro: Mas tomarás guaraná, e em seguida todos riram, menos a garota e o Ramón, que ainda falava com o garçom: E uma pizza de mussarela, gigante, à francesa, dirigindo um olhar ao grupo, como se consultasse os outros, mas era um gesto puramente protocolar, ninguém fez nenhuma objeção, os pedidos foram feitos, o garçom se afastou e todos continuaram a falar ao mesmo tempo.

 

Era essa uma das coisas, vejo agora, que caracterizavam a minha juventude, esse período de minha vida que estava se encerrando, sem que eu soubesse disso, naquele verão: a disponibilidade total, que me fazia sair de casa pra ir ao cinema só porque estava fazendo muito calor em casa, e em vez de ir ao cinema comprar um ingresso pra uma obscura apresentação teatral e terminar a noite tomando chope com um grupo de pessoas totalmente desconhecidas. Não só desconhecidas, como também pertencentes a um mundo muito diferente do meu, pessoas que tagarelavam sem parar sobre coisas que me eram estranhas, rindo de comentários de todo opacos pra mim, trocando farpas bem-humoradas com um sentido que me escapava por completo. Só o Ramón fazia questão de me incluir, com um ou outro comentário explicativo, me informando a respeito do grupo, da possibilidade de utilizar uma sala numa igreja em Botafogo, perto de onde ele morava, agora que o Microcefálico havia se tornado inviável, e também a respeito dos atores – entre outras coisas, me disse que a moça chorona se chamava Antônia, por algum motivo o nome me pareceu absurdo no momento em que o Ramón mencionou, e, coisa ainda mais inexplicável, logo em seguida me pareceu perfeito, o único nome perfeitamente adequado a uma garota com aquele exato gesto de jogar pra trás os cabelos, aqueles precisos dentes miúdos que apareciam entre os lábios quando ela sorria ou falava. E aquelas pessoas não apenas eram desconhecidas e pertencentes a um mundo desconhecido como também pareciam não ter nenhuma curiosidade sobre mim, sobre o que tinha me levado a ser o único interessado em assistir àquele espetáculo naquela noite de sábado. Aliás, foi só por volta do terceiro chope que a Mara, não o Ramón e sim a Mara, perguntou meu nome, embora logo em seguida meu nome tenha sido eclipsado em caráter definitivo pelo apelido – o primeiro e único apelido que tive na minha vida, ainda que por pouco tempo – de D. P., surgido quando a Mara me apresentou ao garçom como o Distinto Público que o espetáculo do Artaud Vive tinha tido naquela noite memorável. E no entanto, embora eu tivesse perfeita consciência de tudo isso, a situação me parecia natural, eu aceitava tudo plenamente, aguardando até com uma certa paciência o momento – que (pensava eu) haveria de chegar mais cedo ou mais tarde – em que eu teria oportunidade de falar com a Antônia.

 

Mas isso acabou não acontecendo naquela noite; vários chopes depois, a Antônia, no seu segundo ou terceiro guaraná, começou a cochilar na cadeira, quando então o rapaz magro interveio na conversação geral: Gente, está ficando tarde, eu vou ter que puxar. Na mesma hora a Mara protestou: Ah, Binho, o que é isso, a noite é uma criança, mas aí o Olavo reforçou: Não, está todo mundo cansado, olha só pra Antônia, ela já está quase escorregando pra baixo da mesa, e a Mara: Isso é que dá, se encher de guaraná em vez de beber bebida de gente grande, e a Antônia endireitando-se na cadeira: Eu não estou com sono não, estava só descansando um pouco, comentário que provocou gargalhadas gerais, deixando a Antônia um pouco irritada, e o Binho na mesma hora foi se levantando e dizendo, Bom, eu vou pedir a conta pra ver quanto é a minha parte, se vocês quiserem continuar, tudo bem, mas aí o Ramón pronunciou-se: É, está ficando tarde mesmo, eu também estou cansado, e já está começando a chover, vamos embora antes que piore, e na mesma hora fez sinal pra o garçom trazer uma última rodada de chopes e a conta, embora a Mara protestasse: Mas amanhã é domingo, o que provocou uma réplica do Olavo: Por isso mesmo, amanhã todo mundo tem que estar cedo lá na missa senão o padre não cede a sala pra gente, o que provocou mais risos. A Mara insistiu: Até parece que alguém aqui acorda cedo algum dia, quanto mais no domingo, e virando-se pra mim acrescentou: Aposto que nem mesmo o D. P., que é engenheiro. Isso porque no meio da conversa daquela noite eu havia comentado que era engenheiro, o que despertou o interesse de Ramón por um motivo bem prático – eles estavam precisando de alguém que soubesse operar um gravador de rolo e editar uma fita com músicas e efeitos sonoros pra servir de trilha sonora do espetáculo, porque a nova versão da peça teria uma trilha sonora complexa. Eu tinha respondido que era perfeitamente capaz de fazer o que eles queriam, me oferecendo pra ajudar o grupo no que fosse necessário, uma oferta recebida por todos com muitas manifestações calorosas de gratidão e comemorada com mais uma rodada de chope. Agora o comentário da Mara fez o Ramón virar-se pra mim: E a tua oferta, continua de pé? Claro, respondi, vocês podem me procurar na semana que vem. E assim, enquanto nos despedíamos com abraços – e beijos, no caso da Mara, mas não da Antônia, que manteve a cabeça a alguns centímetros do meu rosto enquanto beijava o ar –, trocamos endereços e telefones anotados em guardanapos de papel, pois é claro que nenhum de nós tinha cartão de visita.

Foi então que teve início de verdade isso que estou chamando de despedida da minha juventude, a última vez em que mergulhei de corpo e alma num projeto que não era meu projeto, em que me dediquei com afinco a uma atividade que, como eu sabia muito bem, nada tinha a ver comigo. Afinal, o que eu entendia de teatro? O que eu tinha a ver com ensaios, adereços, bilheterias? Nada, é claro; e no entanto meu apartamento de Copacabana virou, ainda que por pouco tempo, um pequeno centro de atividade teatral ou, mais exatamente, um estúdio de sonoplastia improvisado; quase toda noite iam no mínimo três pessoas lá, o Ramón sempre, quase sempre o Olavo, que era o único que sabia alguma coisa a respeito de gravadores e microfones, de vez em quando outras pessoas que me eram apresentadas, com as quais eu conversava efusivamente, que depois se despediam de mim trocando telefones e endereços, e em seguida desapareciam pra todo o sempre, e o tempo todo eu tinha esperança de que viesse também a Antônia, embora jamais perguntasse por ela, jamais pronunciasse o nome dela, nem mesmo quando vinha o Binho, aquele rapaz franzino e estranho que pra mim representava acima de tudo a proximidade da Antônia, a possibilidade de estar com a Antônia.

 

Ede vez em quando de fato acontecia a coisa que eu esperava, tocava o interfone, eu ia atender e era ela, a Antônia, perguntando, O pessoal está aí?, e eu, Está sim, o Ramón e o Olavo chegaram agorinha mesmo, e a Antônia subia, eu ia abrir a porta, e lá estava a Antônia, com um seu traje infalível, vestidos longos de um tecido etéreo, quase tão fora de moda quanto o traje do personagem que ela representava na peça, vestidos comprados em brechós e outros lugares pouco convencionais, e um chapéu de aba larga na cabeça, com aquele ar de fragilidade e irrealidade que era um traço em comum entre ela e o Binho, que me fazia pensar nela sempre que eu via o Binho. E, de fato, parecia haver entre eles dois uma cumplicidade curiosa, não como se eles namorassem – eu não conseguia imaginar o Binho na cama com a Antônia, não por uma questão de ciúmes, veja bem, mas porque havia algo na relação entre eles que parecia não passar pelo plano do sexo, como se os dois fossem ex-colegas do jardim de infância, ou irmãos – mas não, também não era bem isso, nunca consegui descobrir exatamente o que era. O fato é que quando a Antônia aparecia lá em casa eu me esforçava mais do que nunca pra não demonstrar a atração que sentia por ela, pra não deixar transparecer que era ela o motivo principal de meu apartamento ter se transformado numa espécie de quartel-general do Artaud Vive. E na verdade não era difícil disfarçar meus sentimentos, porque eu era requisitado o tempo todo pra lidar com o equipamento, pra comentar sobre a qualidade do som e a duração de um determinado efeito sonoro, pra cortar e emendar uma fita, quando não estava me ocupando de comprar mais cerveja no botequim da esquina, porque essas sessões de trabalho de sonoplastia eram sempre regadas a cerveja, ou às vezes um baseado trazido pelo Olavo, de vez em quando uma garrafa de vinho branco trazida pela Mara, que gostava mais de vinho branco que de cerveja e que tinha discussões intermináveis com o Olavo, pois ela tinha opinião sobre tudo e sua opinião era quase sempre oposta à do Olavo ou a de quem quer que fosse. Eles às vezes aproveitavam aqueles encontros no meu apartamento pra discutir sobre o texto, que estava sempre sendo modificado, sofrendo cortes e acréscimos, eram cacos que surgiam num ensaio e eram incorporados à fala de um personagem, depois de longas discussões sobre o risco de que esse ou aquele acréscimo implicasse problemas com a censura. Mas no mais das vezes os atores se limitavam a tomar cerveja e conversar e ouvir música, ficavam mexendo nos meus discos, ouvindo uma faixa de um, outra de outro, até que a Antônia começava a dançar, quase sempre sozinha, o que era sinal inconfundível de que estava ficando bêbada – o que acontecia com facilidade, pois a Antônia ficava bêbada com dois copos de cerveja – e então o resto da trupe se divertia escondendo seu copo e, quando ela protestava e pedia seu copo de cerveja, repetindo em uníssono: Mas tomarás guaraná, o que sempre provocava hilaridade geral.

 

Numa dessas ocasiões, em que a Antônia havia bebido um pouco mais do que o normal e que a brincadeira do mas-tomarás-guaraná começava a ameaçar desdobramentos mais sérios, que talvez incluíssem uma crise de choro da Antônia semelhante àquela que eu já havia presenciado, real ou fingida, ofereci-me pra ir até o botequim comprar o guaraná de que tanto falavam, juntamente com mais umas cervejas, e pra meu espanto e felicidade a Antônia não só aprovou a ideia como também resolveu que ia comigo, pra me ajudar a carregar as bebidas. Na mesma hora o Binho fez menção de ir também, mas houve uma rápida troca de olhares entre ela e o Binho – e talvez o Ramón também, não sei por quê, mas tive a impressão de que ela olhou rapidamente pra o Ramón, e o Ramón pro Binho – o fato é que depois dessa troca de olhares, uma coisa muito rápida, sem dúvida, mas que me pareceu real, o fato é que depois disso o Binho, que havia chegado a se levantar, ou a fazer menção de se levantar, voltou a sentar-se, talvez um pouco contrariado – era difícil saber, porque o Binho parecia quase o tempo todo estar um pouco contrariado por algum motivo – e saímos só nós dois, eu e a Antônia, a Antônia e eu.

Era a primeira vez que eu me via a sós com a Antônia, eu pensava, enquanto esperava o elevador com ela, olhando pra ela bem de perto. Foi então que me dei conta da extrema brancura da Antônia, uma palidez que parecia impossível de encontrar numa garota em pleno verão carioca, uma palidez de quem jamais ia à praia, de quem nunca saía de casa sem chapéu, como se o sol de verão fosse uma ameaça constante à pele delicada dela. E percebi também uma outra coisa a respeito da Antônia, uma coisa talvez irrelevante, mas que na hora não me pareceu irrelevante, que era uma ligeira assimetria no rosto dela, um dos olhos era um pouco mais aberto que o outro, uma coisa que naquele momento me pareceu importante, talvez até crucial, embora eu não soubesse dizer por quê, se alguém me tivesse perguntado, e é claro que ninguém me perguntou nada. Entramos no elevador, e assim que começamos a descer vi que a Antônia estava tão constrangida quanto eu, certamente ela havia percebido que exercia um certo fascínio sobre mim, não era possível que nunca tivesse percebido uma coisa tão óbvia, se bem que, pensando bem, talvez não fosse tão óbvia assim, pois eu me esforçava pra não demonstrar meus sentimentos, evitava perguntar pela Antônia quando ela não estava presente, evitava olhar diretamente pra ela quando estava com ela. Mas a Antônia devia mesmo estar constrangida, porque assim que a porta do elevador fechou ela me perguntou: Que horas são? Uma pergunta que não tinha nenhuma razão de ser, ela não tinha nenhum motivo pra querer saber as horas; e eu, mesmo percebendo que a pergunta era completamente sem sentido, olhei pro pulso, mesmo sabendo que o relógio estava na gaveta da minha mesa de cabeceira, porque eu nunca usava relógio quando estava em casa, e respondi: Não sei, acho que deve ser umas oito, oito e quinze, por aí. Ah, disse a Antônia, e fez menção de dizer alguma coisa, mas nesse momento o elevador chegou no térreo, fui abrir a porta mas a porta se abriu antes disso, era a viúva do 5º andar com os dois poodles dela, então saí e fiquei segurando a porta do elevador enquanto a Antônia saía e a viúva e os dois poodles entravam, e quando finalmente soltei a porta a Antônia estava parada no hall olhando pra um ponto fixo na parede como se houvesse um relógio ali, e eu disse: Vamos lá? e ela ainda levou alguns segundos parada naquela posição, mas de repente virou-se pra mim e disse: Eu sempre quis tanto ter um cachorro, mas nunca tive. E olhou pra mim com tamanha tristeza que, sério, cheguei a me sentir um pouco culpado por a Antônia nunca ter tido um cachorro, embora quisesse tanto. Mas era o tipo de comentário que me deixava sem ter o que dizer; a única coisa que me ocorreu foi: Eu também nunca tive cachorro, nunca tive nenhum bicho de estimação, e olhei pra Antônia tentando estabelecer algum tipo de solidariedade com ela, afinal éramos duas pessoas que nunca tínhamos tido um cachorro, que diabo. Como ela não dissesse mais nada, parecendo mergulhar numa tristeza infinita, o jeito foi repetir: Vamos lá? apontando pro botequim. Ela fez que sim com a cabeça e seguiu na direção em que eu apontava, e eu fui atrás, tentando desesperadamente pensar em alguma coisa pra dizer, pra mim era importante, importantíssimo, dizer alguma coisa imediatamente, qualquer coisa, só pra quebrar aquele silêncio, e assim apressei o passo e alcancei a Antônia, dizendo: E aí, como é que estão indo os ensaios na igreja? O espaço de lá é legal? Antônia não respondeu de imediato, talvez por eu ter feito duas perguntas ao mesmo tempo, talvez por outro motivo qualquer, mas quando chegamos no bar e pedi as bebidas ela resolveu tomar o guaraná dela ali mesmo, e entre um gole e outro começou a falar, não exatamente respondendo as minhas perguntas, mas também não se esquivando delas, discorrendo de modo meio desconexo sobre o que representavam pra ela o Artaud Vive, a remontagem do Castiçal, o Ramón, a ideia de fazer teatro, seus projetos pro futuro, que não incluíam necessariamente, ela dava a entender, os outros membros da trupe. Acabei pedindo outro guaraná pra mim e fiquei ouvindo a Antônia falar, balançando a cabeça de vez em quando, sem ter o que dizer, sem ousar aproveitar aquele momento pra tentar alguma aproximação maior com ela, agora que me parecia mais claro que não havia nada entre ela e o Binho, entre ela e ninguém do grupo, agora que eu tinha uma oportunidade de conversar com ela a sós, uma oportunidade que eu vinha esperando há algum tempo, e que sabia-se lá quando ia voltar a surgir. E em vez de dizer alguma coisa, em vez de interromper aquela enxurrada de palavras com um comentário meu, a única coisa que eu conseguia fazer era olhar pros olhos da Antônia, confirmando que um era mesmo pouquinho menor que o outro, ligeiramente menor que o outro. Até que, num momento em que ela fez uma pausa pra beber o último gole de seu guaraná, em desespero de causa olhei de repente pra parede do botequim e vi que havia ali um relógio, e então disse à Antônia, apontando pra o relógio: Ó, são oito e vinte e cinco. A Antônia largou a garrafa no balcão e olhou mecanicamente pro relógio, mas tenho certeza que não registrou a hora, que não estava nem um pouco interessada em saber que horas eram, nem em qualquer outra coisa que eu dissesse; o olhar dela, vago e assimétrico, indicava que ela estava mergulhada em pensamentos que nada tinham a ver com as horas, nem com o botequim em que ela estava, nem comigo. Nossos guaranás já estavam terminados, as cervejas estavam dentro da sacola e só me restava pagar, recusar a oferta da Antônia de me ajudar a carregar as cervejas e voltar pro apartamento, o tempo todo pensando nas coisas que eu poderia ter dito mas que não tinha dito, e que agora não teria mais tempo de dizer, e ao mesmo tempo pensando que nada que eu pudesse ter dito poderia ter o efeito de fazer com que a Antônia se interessasse minimamente por mim.

 

Na verdade, a pessoa do grupo com quem eu conversava mais era o Ramón, principalmente nas vezes em que só ele vinha trabalhar comigo na montagem da fita, quando fazíamos uma pausa no trabalho pra abrir mais uma cerveja. Nessas ocasiões o Ramón às vezes ficava pensativo, e sendo uma dessas pessoas completamente extrovertidas pra quem ficar pensativo significava falar sem parar, ele começava a dizer, Sabes, D. P., e daí dava de discorrer sobre o grupo, os problemas com cada um dos atores, a nova montagem do Castiçal, suas relações com o padre da igreja em Botafogo. Ao que parecia, o padre dava total apoio às atividades do grupo, mas começava a enfrentar pressões de seus superiores hierárquicos, porque pra eles não era apropriado montar numa igreja uma peça experimental como aquela, uma peça que só não havia enfrentado problemas com a censura porque até então tinha sido apresentada apenas num teatro completamente não comercial, sem nenhuma divulgação na imprensa, porque se houvesse mais divulgação, que era precisamente o que Ramón estava tentando conseguir, aí as coisas poderiam se complicar pro lado do padre. E foi no decorrer de uma dessas conversas, ou melhor, de um desses monólogos do Ramón, os quais eu me limitava a pontuar de vez em quando com um Sei ou É, que ele me convidou a ir à igreja pra assistir a um ensaio geral: Afinal, D. P., a peça já está ficando pronta, é importante que conheças a sala, até pra testar o que já gravamos da trilha sonora, ver se a acústica é boa, se os nossos alto-falantes servem ou se vamos ter que arranjar outros. E eu: Claro, vamos sim, é só vocês marcarem o dia.

E desse modo teve início mais uma etapa do meu envolvimento crescente com o Artaud Vive. Passei a acompanhar os ensaios regularmente, a tal ponto que, pelo menos na igreja, comecei a ser visto como um membro da companhia, ainda que os verdadeiros membros sem dúvida tivessem consciência de que eu não era, nem jamais seria, um deles. Fosse como fosse, eu agora estava presente a quase todos os ensaios, até decorei boa parte das falas, tanto assim que uma vez em que o Ramón telefonou pra igreja dizendo que ia chegar atrasado fui escalado pra substituí-lo, ele era o diretor do espetáculo e também representava um papel secundário, o do Inquisidor, um papel não totalmente sem importância, quer dizer, até importante, de certo modo, mas com poucas falas, e foi só quando ele me pediu que quebrasse um galho e o substituísse enquanto ele não chegava, pra não atrasar o ensaio, que me dei conta de que já sabia de cor e salteado todas as falas do seu personagem, que não eram muitas nem muito longas, com exceção de uma, perto do final da peça, mas de qualquer modo eu havia decorado todo o texto, sem ter feito nenhum esforço consciente de decorar nada, sem nem sequer me dar conta de que havia decorado. Me saí tão bem como ator improvisado que quando o Ramón chegou, no meio daquela minha única fala mais longa, ele fez sinal pra que a gente continuasse, e eu interpretei o personagem até o final do ensaio, quando então fui aplaudido por todos, inclusive pela Antônia. Além disso, comecei a dar palpites, a fazer pequenas sugestões sobre o texto ou a montagem, sugestões que de vez em quando eram discutidas pelo Ramón e os atores, e em duas ou três ocasiões foram adotadas. Numa delas, a ideia que propus foi recebida com tanto entusiasmo que o Ramón chegou a me dizer, não de todo a sério, mas talvez também não apenas de brincadeira, que eu devia pensar na possibilidade de entrar pro grupo, um comentário que provocou risadas gerais, risadas das quais eu também participei; mas o fato é que fiquei mexido, na hora e por algum tempo depois. Afinal, eu não sabia o que fazer com a minha vida, quem sabe eu não podia me especializar nessas coisas técnicas de teatro, sonoplastia, iluminação? Mas naqueles dias intensos, eu evitava levar esses pensamentos até as consequências lógicas, evitava fazer planos pro futuro, evitava pensar em qualquer coisa que não fosse o dia a dia, pois a qualquer momento poderia chegar o resultado da entrevista, eu podia ser convocado a assumir um emprego de verdade, o que significaria, entre outras coisas, me afastar da Antônia, e no momento era esse o pensamento que eu queria evitar, mais do que qualquer outro. Agora as reuniões na minha casa eram menos frequentes, tudo acontecia na sala anexa à igreja em Botafogo, eu ia quase todas as noites à igreja, e quase sempre saía com o Ramón, ou com o Ramón e o Olavo, às vezes com o Artaud Vive em peso, e a coisa acabava virando uma espécie de festa, em que todos – menos o Ramón – bebiam demais, a Mara falava alto a ponto de se tornar inconveniente e lá pelas tantas começava a discutir com o Binho e o Olavo, enquanto eu procurava uma oportunidade de me aproximar da Antônia, uma oportunidade que quase nunca ocorria, e que quando ocorria nunca levava a nada de definitivo.

 

Um dia recebi um telefonema de um ex-colega da faculdade, me chamando pra uma festa de aniversário de uma ex-colega nossa, a festa era naquela noite, e meu primeiro impulso foi dizer que não, o convite estava sendo feito em cima do laço, eu podia muito bem dizer não, mas na mesma hora pensei bem e resolvi aceitar; afinal, o César tinha sido meu melhor amigo no tempo da faculdade, a festa era uma ocasião de rever o César e as outras pessoas daquele tempo. Fui. Era num apartamento enorme em Ipanema, na quadra da praia, o salão estava à meia-luz, música ao fundo, garçons de uniforme servindo canapés e uísque, e logo que entrei encontrei o César, que me recebeu com um forte abraço, Seu paulista filho da puta, se esqueceu dos amigos, hein? E o Luís Carlos, com a careca cada vez mais pronunciada, e o outro Luiz Carlos, o Luiz com Z, e a Tânia, e a Sandrinha, que fez o maior espalhafato quando me viu, ela que nunca quis nada comigo quando eu estava apaixonadíssimo por ela, a Sandrinha com um namorado que eu não conhecia, um sujeito bem mais velho que ela, que me cumprimentou secamente assim que ela disse quem eu era, e mais a Ana Paula, com quem eu tinha tido um rápido namoro no 3º ano, acompanhada do William, que agora era o namorado oficial dela, namorado não, noivo, o William, quem diria, aquele sujeito estranho que nunca namorava ninguém, teve uma época que neguinho chegou até a dizer que o negócio dele era homem, e apesar disso lá estava ele, noivíssimo da Ana Paula, a garota mais gostosa da engenharia, que coisa. A festa estava animada, na mesma hora engatei uma conversa com o Luís Careca e o Luiz com Z, uma conversa sobre trabalho, o Luiz com Z estava trabalhando na firma do pai, a firma estava indo de vento em popa, eles tinham acabado de assinar um contrato fantástico, coisa de muita grana, mesmo, iam ter que contratar mais gente: E aí, rapaz, tu não se interessa? Olha que eu ainda não chamei ninguém, você é o primeiro, pensei logo em você, está vendo? É, pode ser, Luiz, deixa eu pensar um pouco, depois eu te ligo, sim, respondi, mas sem muita convicção, e já ia falar sobre a possibilidade de trabalhar em São Paulo, sobre a entrevista, quando entrou na conversa o César: Pois eu estou trabalhando numa firmeca aí, pra começar até não está mau, mas acho que não vou ficar lá muito tempo não. Então comecei a achar que o César estava mais ou menos como eu, com um emprego nada satisfatório, pensando na possibilidade de arranjar um trabalho melhor, e ao mesmo tempo sem ter certeza absoluta, a certeza que tinha o Luiz, de que aquilo era mesmo o que ele queria fazer na vida, e enquanto o César falava pensei em dizer que eu estava na mesma que ele, cheio de dúvidas, que andava até cogitando fazer teatro, sei lá, me profissionalizar como especialista em sonoplastia e iluminação cênica, mas o César quando começava a falar não parava mais, principalmente quando bebia, e quando me dei conta já não havia mais oportunidade pra eu me abrir com ele, porque o assunto já tinha ido pra outro lado, e nisso a Tânia, a aniversariante, me chamou pra dançar, e enquanto dançava com a Tânia eu pensava o quanto aquele mundo, aquela festa regada a uísque escocês, num belo apartamento em Ipanema, era distante do mundo do Artaud Vive, em que as pessoas moravam em conjugados em Botafogo ou cabeças de porco em Santa Teresa e bebiam cerveja e guaraná, e no entanto o que eu mais sentia naquele momento era a falta da Antônia, era eu não estar dançando com a Antônia, que sempre dançava sozinha, e sim com a Tânia, uma garota tão legal, mas que não significava nada pra mim, e daí a pouco dei por mim chamando o César pra um canto e dizendo: Seguinte, estou saindo à francesa porque estou precisando pôr o sono em dia. O César tentou me convencer a ficar: Mas logo agora que a festa está começando a animar, rapaz, o Leco está vindo aí, ele me falou que vinha um pouco mais tarde mas vinha com certeza, há quanto tempo você não vê o Leco? Mas eu fiz pé firme: Não, cara, não dá não, eu estou mesmo pregado, mas uma noite dessas a gente sai juntos, eu, você, o Leco também, aliás diz que eu deixei um abraço pra ele, uma noite dessas a gente sai pra tomar um chope e pôr a conversa em dia, não é? Saí da festa de fininho e resolvi voltar pra casa a pé, era uma caminhada razoável, mas eu não estava cansado, ainda não era nem meia-noite, eu queria caminhar e pensar, pensar na vida, na Ana Paula, no César e no Luiz com Z, até na proposta de trabalho do Luiz, e quando dei por mim estava indo não pra casa e sim pro botequim perto do Microcefálico, o lugar onde eu havia pela primeira vez tomado um chope com o pessoal do Artaud Vive, e chegando lá não havia ninguém do grupo, e por algum motivo isso me deixou arrasado, comecei a imaginar que estariam todos juntos em algum lugar, certamente se divertindo muito mais do que naquela festa besta em Ipanema, e enquanto caminhava pra casa, no meio de uma garoa fina que começou a cair de repente, eu me sentia plenamente decidido a fazer teatro, a me profissionalizar como engenheiro de som e de luz, e a decisão me pareceu irrevogável, como parecem irrevogáveis todas as decisões que a gente toma depois de três uísques e antes dos 30 anos de idade.

 

Foi logo depois desse dia, talvez até no dia seguinte, me lembro que chovia muito, desde o dia da festa em Ipanema não parava de chover, eu estava em casa, ainda de manhã bem cedo, quando tocou o interfone, era o Binho; mandei subir sem entender direito o que o Binho vinha fazer na minha casa àquela hora, ele que era quem menos aparecia lá, e que não era de acordar cedo, como todo o pessoal do Artaud Vive, aliás. Ele tocou a campainha, fui abrir a porta e me assustei assim que olhei pra ele, o Binho estava molhado, molhado de chuva e de suor, os olhos vermelhos, claramente não tinha dormido aquela noite, e ele foi logo dizendo: A coisa está feia, D. P., o Ramón sumiu. E eu: Mas sumiu como? E ele: Saber ninguém sabe, mas a gente acha que ele deve ter fugido do país. E aí o Binho começou a me dizer um monte de coisas que me causaram o maior espanto, porque eu não sabia de nada daquilo, e ele ficou ainda mais espantado que eu de ver que eu estava espantado por não saber de nada, e enquanto ele falava e eu interrompia fazendo perguntas que ele achava óbvias demais pra serem respondidas fui aos poucos montando um quebra-cabeça gigantesco na minha cabeça, que o Ramón era um refugiado político, que estava no Brasil fugindo da polícia ou do Exército da Argentina, e agora a polícia ou o Exército daqui estava atrás dele também, ele devia ter escapulido pra algum país que não fosse a Argentina, e através do padre da igreja de Botafogo o pessoal do Artaud Vive tinha ficado sabendo que os telefones de todo mundo do grupo estavam grampeados, talvez até o meu, apesar de eu nem ser do grupo, era por isso que o Binho tinha vindo correndo falar comigo pessoalmente, era importante que eu não tivesse nenhuma conversa suspeita com ninguém pelo telefone. Eu queria dizer que não havia como eu ter uma conversa suspeita com ninguém, eu não estava sabendo de nada, eu não entendia nada de política, no tempo da faculdade eu era da turma dos alienados, nunca fiz política estudantil, nunca frequentei o diretório acadêmico, mas o Binho não me dava tempo, eu nunca tinha ouvido ele falar tanto, ele que não era de falar quase nada, antes que eu pudesse abrir a boca o Binho foi logo dizendo que o Ramón tinha falado a ele pra me pedir que eu substituísse ele, quer dizer, ele Ramón, não ele Binho, a peça estava com a reestreia marcada pra a próxima semana, eu era a única pessoa que podia substituir o Ramón, quer dizer, substituir o Ramón como ator, como diretor o Olavo ia ficar no lugar do Ramón, o Olavo na verdade já vinha atuando como assistente de direção há algum tempo, mas como ator era importantíssimo, era fundamental que eu ajudasse o grupo, pelo menos enquanto não conseguissem achar nenhum ator disposto a pegar aquele papel, que afinal não era um papel tão grande, não tinha tantas falas assim, mas era importante, tinha uma fala importante, e numa peça como aquela todo papel era importante, se eu não topasse o espetáculo ia ficar desfalcado, eu tinha que fazer aquilo pelo grupo.

 

Tudo isso foi dito de uma vez só, quase sem intervalo pra respirar, e minha primeira reação foi dizer: Não, você não vê que isso é uma loucura, rapaz, e eu lá sou ator? E ele: Você já quebrou nosso galho uma vez, lembra? Você se saiu muito bem, muito bem, todo mundo gostou, o Ramón até aplaudiu depois, você lembra? Porque se você não topar, se você não topar vai ser o fim, quer dizer, não é só O Castiçal, não, é o fim do Artaud Vive, entendeu? Porque se a peça não sair, o grupo vai acabar, sem o Ramón pra segurar as pontas e a gente desistindo do espetáculo uma semana antes da reestreia vai ser o fim, um tremendo balde de água fria, cada um vai pro seu lado, cara, você não pode deixar isso acontecer, você tem que ajudar a gente. Faz isso pelo Ramón, por mim, pela Antônia. E me olhou bem nos olhos, como se pra sublinhar o nome da Antônia, como se ele soubesse do meu interesse, da minha obsessão pela Antônia. Mas como que ele podia saber? Como, se eu nunca tinha me aberto com ninguém do grupo, muito menos com ele, que seria a última pessoa que eu ia falar sobre a Antônia? Ou era justamente por isso que ele tinha percebido, porque ele era o mais ligado à Antônia? Ou será que estava tão na cara a minha fixação na Antônia que todo mundo já tinha percebido? Mas o fato é que a estratégia dele deu certo, se era mesmo uma estratégia, foi só ele falar na Antônia e eu imaginar a reação dela quando soubesse que eu me recusava a ajudar o grupo pra que eu amolecesse na minha decisão de dizer não, e quando dei por mim eu estava dizendo: Me dá um tempo, deixa eu pensar um pouco, acabei de acordar, e ele: Pois eu não dormi nada essa noite, ninguém do grupo conseguiu dormir, o Ramón passou correndo lá em Santa Teresa no meio da noite, pegou umas coisas, avisou que estava pulando fora e deixou um bilhete com instruções, e uma das instruções era essa: convocar o D. P. pra fazer o papel do Inquisidor. Convocar, a palavra era essa, convocar. Tentei empurrar a coisa com a barriga: Binho, você está exausto, vai dormir um pouco, aqui mesmo na minha casa, dorme um pouco que depois a gente conversa sobre essa história, e ele: Não, você tem que me dizer agora que topa, daqui eu vou correndo pra Santa Teresa avisar o pessoal, e eu: Então volta pra casa, descansa um pouco e depois me telefona, e ele: Telefonar, nem pensar, não dá pra dizer mais nada pelo telefone, me diz agora que você topa, D. P., e a conversa se arrastou mais um pouco desse jeito, eu protelando mais por protelar, mas já sabendo que ia acabar dizendo sim, desde a hora em que ele falou na Antônia eu tinha certeza de que ia acabar topando, e por fim eu disse: Está bem, Binho, se é pro bem do povo e a felicidade geral da nação, diga ao povo que eu topo.

 

Os dias que se seguem estão meio atrapalhados na minha cabeça, tudo aconteceu tão rápido que já não me lembro quantos ensaios gerais foram, se dois ou três, talvez até mais, mas não muito mais porque a reestreia seria na semana seguinte, e não daria tempo pra muito mais que três. Lembro que chovia a cântaros, chovia que parecia que o mundo ia acabar, todo mundo chegava nos ensaios encharcado. Lembro em particular da última reunião com o padre, um italiano de seus 40 anos, argentino ou italiano, não sei dizer direito, não tinha o menor jeito de padre, se vestia mais ou menos como nós, jeans e camiseta, só que usava sapatos pretos em vez de tênis, um italiano ou argentino de fala lenta, com um sotaque que lembrava o do Ramón, dizendo que estava de fato sendo pressionado pela hierarquia, perigava de ele ser transferido de Botafogo pra alguma paróquia no subúrbio, tinha tido uma conversa muito desagradável com um membro da hierarquia, ele nunca dizia quem era, se era o bispo ou o quê, dizia só isso, um membro da hierarquia, tinha sido um verdadeiro interrogatório, uma inquisição – mas que ideia era aquela, disseram a ele, deixar a sala da igreja ser usada por um bando de maconheiros pra montar um espetáculo obsceno e subversivo, certamente uma peça que nada tinha a ver com a Igreja, que de certo modo até atacava a Igreja, afinal o personagem do Inquisidor era o vilão da peça, enfim, um grupo de subversivos que se fazia passar por trupe teatral, e um grupo liderado por um elemento estrangeiro, comunista, e ainda por cima judeu –, e ao dizer isso o padre soltou um risinho irônico, mas que ao mesmo tempo, isso eu percebi, era também um riso tenso, uma espécie de tique nervoso, e foi nesse momento que caiu a ficha, eu percebi que o padre também estava com medo, até ele, todo mundo estava com medo, a situação era séria. Mas, o padre insistiu, minha palavra está dada e vocês podem contar comigo, não vou arredar pé, enquanto eu estiver aqui na paróquia esta sala é de vocês. Nisso a Mara perguntou: Mas e o Ramón, onde é que ele está, o senhor está sabendo de alguma coisa? E o padre riu aquele riso nervoso outra vez, e disse: Fiquem tranquilos que o Ramón está bem, mas não me perguntem mais nada porque não posso dizer mais nada.

Me lembro acima de tudo do último ensaio geral, o mais tenso de todos, porque a qualquer momento o padre podia ser transferido e aí a gente ficaria sem sala, era o que todo mundo dizia na nossa última reunião antes do ensaio final, uma reunião no meu apartamento, que agora era de novo o lugar preferido pras reuniões, desde que o Olavo percebeu pela terceira vez um mesmo sujeito lendo o jornal ao lado da entrada de uma pensão que ficava bem em frente ao prédio de Santa Teresa, um sujeito estranho, com um bigode fino e óculos escuros, Só pode ser cana, insistia o Olavo, e daí em diante não houve mais reuniões no apartamento de Santa Teresa, e na igreja nem pensar, lá só mesmo os ensaios, qualquer conversa mais séria tinha que ser no meu apartamento. Na última reunião, na véspera do último ensaio, a reestreia seria no sábado, a Antônia parece que me abraçou com mais força do que antes, ou então fui eu que imaginei isso, não sei. No dia seguinte foi o ensaio final, eu estava muito nervoso no início, gaguejando, mas fui ganhando firmeza quando me dei conta de que as falas estavam todas gravadas na minha memória, sem o menor esforço as palavras apareciam na minha boca, e na minha única cena mais importante, na minha fala mais longa, em que eu contracenava com a Antônia, ela ajoelhada à minha frente, dirigindo uma súplica ao Inquisidor, e eu me negando a atender seu pedido, com uma veemência sádica que surpreendeu até mesmo a mim, quando terminei minha fala todos interromperam a ação pra me aplaudir, até mesmo a Antônia, principalmente ela, e nesse momento, em vez de sentir orgulho ou triunfo, o que me veio foi uma sensação estranha, que me lembrou aquele primeiro dia, parecia que tinha sido tanto tempo antes, e nem era tanto tempo assim, aquela vez em que entrei meio que por acaso no Teatro Microcefálico e por um triz não sentei no colo da Antônia, quando virei pra trás e perguntei se ela estava bem e por um instante tive a nítida sensação de que aquilo era a deixa que estavam esperando pra que tivesse início o espetáculo – pois nesse momento tive de novo aquela sensação, todos me aplaudindo, a Antônia me abraçando, até mesmo roçando os lábios no meu rosto, ela que, ao contrário da beijoqueira da Mara, evitava todo contato físico com os colegas da trupe, nesse momento, em vez da sensação de triunfo por estar sendo aplaudido e praticamente beijado pela Antônia, o que eu sentia, por mais absurdo que parecesse, o que eu experimentava era de novo aquela sensação muito forte de que tudo aquilo já estava planejado, tinha sido combinado de antemão. É difícil explicar agora o que senti naquele momento: era uma coisa forte, que não passava pela lógica, porém me percorria todo o corpo, dos pés à cabeça, a convicção de que eu estava só desempenhando um papel que havia sido escrito pra mim, todas aquelas últimas semanas, desde o dia que conheci o pessoal do Artaud Vive, tudo aquilo tinha sido um grande ensaio geral, todos os gestos e olhares e palavras que tinham sido dirigidos a mim, e os que os membros do Artaud Vive tinham trocado uns com os outros na minha presença, tudo havia sido cuidadosamente planejado, tudo estava voltado pra um determinado objetivo, e agora tinha chegado a hora, o momento que era a razão de ser de todos aqueles encontros, todas aquelas conversas: eu era o Inquisidor.

Naquela noite não dormi quase nada. De início fiquei relembrando cada um dos momentos das últimas semanas, revirando pelo avesso cada palavra dita, cada troca de olhares, tentando encontrar uma confirmação da minha sensação absurda de ter vivido, na vida real, uma peça previamente escrita; mas a partir de um certo momento fiquei indignado comigo mesmo, aquilo era paranoia, era fruto do clima frenético dos últimos dias, com o desaparecimento do Ramón, o nervosismo do padre, além da tensão natural antes de uma estreia, algo que provavelmente todos os atores costumavam sentir; afinal, a coisa não tinha toda a importância que eu estava lhe atribuindo, no frigir dos ovos era só uma montagem semiamadora, a publicidade era quase clandestina, uns poucos folhetos distribuídos em filas de cinemas de arte e em barzinhos da moda, a censura provavelmente estava cagando e andando pro Artaud Vive, eu ia só quebrar um galho pro Ramón, ajudar o pessoal do grupo, quem sabe conseguir comer a Antônia, ou até mais do que isso, namorar a Antônia, uma coisa que às vezes me parecia impossível, mas afinal impossível por quê, a Antônia era uma garota, talvez um pouco mais complicada do que a média, mas uma garota assim mesmo, e por que que ela não podia gostar de mim? Eu não era feio, ganhava meu dinheirinho, tinha até algum talento de ator, era perfeitamente possível que ela gostasse ou viesse a gostar de mim, e por aí afora; e assim foi que, em algum momento daquela madrugada, deitado na minha cama e olhando pro teto, tomei a firme decisão de dizer à Antônia que gostava dela, que amava ela e queria viver com ela, uma garota como ela a gente não pedia em casamento, isso não, seria uma caretice intolerável, era só juntar os trapinhos e pronto, era isso, a Antônia viria morar comigo, ali no meu apartamento em Copacabana, e eu ia produzir a carreira da Antônia, a carreira artística da Antônia, e em algum momento da madrugada, em algum momento dessa fantasia complicada, completamente exausto, adormeci.

 

Acordei cedo, já era dia claro, o sol tinha voltado finalmente, com o telefone tocando. Era um telefonema de São Paulo: meu pai, me avisando que eu tinha sido selecionado pra trabalhar na firma, a tal firma que havia me entrevistado; eu devia me apresentar pro trabalho o mais depressa possível. Me levantei às pressas, fiz a mala correndo, tomei um táxi pro Santos Dumont, peguei a ponte aérea e naquele dia mesmo, depois do almoço, me apresentei na firma, e comecei a trabalhar no dia seguinte. Menos de um mês depois conheci a Graciela numa festa; seis meses depois estávamos casados; um ano depois nascia a nossa primeira filha, a Fernanda, seguida de mais duas, a Natália e a Júlia; todas se casaram antes dos 25 anos; e amanhã nosso primeiro neto, o Bruninho, completa 1 ano de idade.

Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto é escritor e tradutor. Seu livro de poesia mais recente é Formas do Nada, lançado pela Companhia das Letras

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