esquina

O coronel morreu antes

Ubiratan Guimarães está morto. O preso sobreviveu.

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

Em dias normais, o engarrafamento que se forma na confluência da Avenida Washington Luís com a alça de acesso ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, é sinônimo de penitência para quem pretende viajar. Nas sextas e nas segundas-feiras, o nó se espreme ainda mais. Em início e final de férias ou feriados, chega ao estrangulamento. Para José Izabel da Silva Filho, quanto pior, melhor. E aquele início de semana prometia. Graças ao feriado espichado do 7 de Setembro, que este ano fez o favor de cair numa quinta-feira e despejou levas adicionais de passageiros em Congonhas, o movimento de retorno, na segunda-feira, anunciava-se caótico. Para os viajantes, uma via-sacra a ser percorrida com irritação. Para José Izabel, a redenção. Imaginou que venderia fácil o lote completo de 48 garrafas de água que leva diariamente para o funil metropolitano.

José Izabel da Silva Filho, de 55 anos, mora com a mulher no Morro do Piolho, a mil metros do aeroporto. Em dias de movimento, volta para casa sem carga nos ombros e com R$ 32 reais no bolso. Naquela manhã, havia acordado cedo e se preparava para assumir o ponto-de-venda quando a televisão deu a notícia sobre um coronel da PM assassinado com um tiro à queima-roupa. “Quando ouvi o nome do coronel Guimarães, nem me mexi, prestei bem atenção”, conta. “Quem tira cadeia aprende a ter certeza antes de decidir se uma coisa é ou não é.”

No caso, era. Ubiratan Guimarães, 63 anos de idade e 35 de corporação, fora encontrado nu, enrolado numa toalha de banho, com um tiro na barriga. Morreu sem chance de defesa ou revide e, segundo apontam as investigações, alvejado pela própria namorada, 23 anos mais nova. Foi uma morte chinfrim para quem chefiou a temida ROTA, a unidade mais truculenta da polícia paulista. Foi, também, um final insólito para o comandante do chamado “massacre do Carandiru”, o enfrentamento de uma rebelião de presos que, em 1992, resultou em 111 detentos mortos. Guimarães chegou a ser condenado a 632 anos de prisão por um júri popular. Recorreu da sentença e foi absolvido em fevereiro último. Não perdeu a liberdade um só dia. Sabia estar jurado de morte pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC. Morava com sete armas num apartamento da região dos Jardins.

“Você viu o que aconteceu lá com o homem?”, ouviu José Izabel logo que chegou ao cruzamento para vender água. A voz vinha de um carro às suas costas. Virou-se. Reconheceu o taxista, um ex-presidiário dos tempos do Carandiru. O ex-companheiro mais não disse, e seguiu viagem manhã adentro. “Como a vida é, hein? Ela dá mas ela também tira”, comenta o ambulante José Izabel da Silva, que era conhecido como “Monarca” no maior presídio da América Latina. Enquanto existiu, o complexo do Carandiru manteve uma taxa de homicídios intramuros mais elevada do que a da superviolenta Colômbia dos anos 90: 26 mortes por 10 mil detentos. José Izabel entrou no Carandiru aos 23 anos de idade, em 1975, e só saiu 26 anos depois, transferido para outro presídio, às vésperas da implosão do sombrio conjunto de nove pavilhões. Foram, ao todo, 9325 dias e noites.



 

José Izabel/Monarca, condenado a 56 anos e seis meses por dois homicídios e outros crimes, sobreviveu a tudo. Para tanto, seguiu ao pé da letra a regra prisional de que “a palavra da gente não dá curva”. Quando o PCC começou a germinar no Carandiru, e a aliciar lealdade junto às levas de criminosos que iam chegando, ele já era “o seu Monarca”, veterano da casa. Foi deixado em paz. Quando o coronel Ubiratan Guimarães chefiou a operação que matou 111 no pavilhão 9, Monarca fez como um vizinho de cela: deitou-se no chão do xadrez e aguardou o estampido. Estava com 40 anos, tinha dezessete de Carandiru e achou que sua vida acabaria ali, em meio aos 515 tiros disparados pela polícia, a maioria na cabeça dos detentos. Ouviu os estampidos que mataram os ocupantes da cela ao lado e, não sabe como, saiu ileso da chacina. É possível que Ubiratan Guimarães não tenha feito nenhum dos disparos, pois sofreu um acidente logo na invasão do pavilhão 9, e foi retirado enquanto seus comandados executavam as ordens. Mas, dos 121 acusados pelo massacre, ele sempre se comportou como o chefe da operação. Reivindicou para si a responsabilidade por tudo o que ocorreu, a começar pelas mortes.

Cinco anos atrás, já condenado, o coronel desfilou em jipe aberto na parada do 7 de Setembro, à frente dos veteranos da Revolução de 30 com quem não tinha nenhuma relação. Na época, as celas do Carandiru ainda abrigavam perto de 7500 detentos e mais de mil televisores. Monarca foi um dos presos que assistiu à transmissão do desfile em sua cela. “A gente ficou sem entender nada, ele de terno, desfilando e acenando de pé, e a gente preso”, relembra.

Mais recentemente, José Izabel da Silva Filho reencontrou Ubiratan Guimarães na tela da televisão. Sentado no sofá roto de sua casa, o ex-detento acompanhava o horário eleitoral gratuito quando viu o coronel pedir voto como candidato a deputado estadual. Vinha amparado no número de inscrição sinistro: [14] 111. Em 2002, a mesma senha de conotação explícita rendera-lhe assento na Assembléia Legislativa, com 56 mil votos. “Em homenagem a um amigo leal, a inscrição 14.111 não será mais usada”, anunciou no enterro o líder do PTB paulista, deputado Campos Machado, ao decretar a aposentadoria do número 111.

 

Apesar de ter um título de eleitor novinho em folha, ainda não foi desta vez que José Izabel pôde votar. Juridicamente ele ainda deve ao Estado, embora tenha cumprido a pena máxima prevista no Brasil – trinta anos – e passado para o regime de liberdade condicional, em janeiro de 2005. “Se ele cometer algum delito antes do término da condenação, volta para a cadeia para cumprir o que resta. A condenação permanece para efeitos jurídicos”, explica Sergio Zeppelin Filho, diretor da Penitenciária de Serra Azul II, para onde Monarca fora transferido depois da desativação do Carandiru.

Contrariando as estatísticas brasileiras, que apontam uma reincidência no crime da ordem de 50%, José Izabel conseguiu atravessar nove meses incólume. Quando deu entrada no Carandiru, tinha apenas quatro anos de escolaridade. Ao sair de lá, quase três décadas depois,continuava no mesmo ponto. “Eu até queria aprender um pouco mais”, ele conta, “mas o professor também era companheiro [presidiário], então não dava certo e desisti. Só passei a acompanhar a classe na penitenciária de Serra Azul, onde as aulas eram dadas por um professor de rua [não presidiário]. Depois, na unidade de Mongaguá, consegui aprender a fazer conta de divisão, que é a mais difícil. Saí de lá levando os cadernos como recordação.”

Segundo profissionais de reabilitação prisional (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais), a primeira visita à família tem tudo para ser a mais problemática. O preso chega em casa e se depara com uma penca de problemas, como filho doente ou contas a pagar. Para não decepcionar, freqüentemente perde a cabeça e vai tentar arrumar dinheiro rápido. “Na prisão fica muito claro o que é certo e o que é errado, mas na vida fora, não”, constata José Izabel.

José Izabel herdou da nora o ponto no cruzamento do aeroporto. Para sobreviver, faz bicos de pedreiro, carregador e o que aparece. Nunca mais quis passar na frente do que foi o Carandiru. Não comemorou a morte de Ubiratan Guimarães, registrada em presídios paulistas com panelaços nas grades. “Que jeito de morrer!”, exclama apenas.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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