ficção

O degas aqui

Em busca de um personagem pra chamar de meu

Reinaldo Moraes
Atravesso a rua. As aranga, os buzão, tudo parado na Teodoro. Ando, logo existo em cima das minhas pernas descongestionadas, com a alegria sádica do andarilho que não depende de condução. Falta que me fazem aqueles óculos phonokinográficos pra descrever as cenas banais que presencio ou das quais participo como coadjuvante no palco das calçadas, ao lado de atores e atrizes anônimos
Atravesso a rua. As aranga, os buzão, tudo parado na Teodoro. Ando, logo existo em cima das minhas pernas descongestionadas, com a alegria sádica do andarilho que não depende de condução. Falta que me fazem aqueles óculos phonokinográficos pra descrever as cenas banais que presencio ou das quais participo como coadjuvante no palco das calçadas, ao lado de atores e atrizes anônimos FOTO_DW RIBATSKI_2018

E cadê a primeira frase do meu romance? Sem primeira frase, não tem romance. O Strumbicômboli tem uma puta primeira frase: ‘Bom dia, ele disse à meia-noite em ponto.’ Puta primeira frase de romance. Pode não parecer, se não tiver um romance debaixo dela, como tinha no Strumbi. Mas era uma puta frase fertilizadora. Desde então persigo uma primeira frase com esse mesmo punch. Ó primeira frase do quinto caralho do apocalipse, em que canto tu te escondes, porra?

E segue o andarilho a ruminar frases que despeja numa fita de cromoferrite. Uma delas talvez seja a frase-maná, que, em se grafando, tudo dá.

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Reinaldo Moraes

É escritor, autor de Maior que o Mundo

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