anais das artes plásticas

O disforme

Com vidro, areia, sal, sabão, burros e urubus, Nuno Ramos tornou-se um dos mais respeitados artistas plásticos brasileiros

Bruno Moreschi
Para o crítico Alberto Tassinari, “Nuno Ramos usa a seu favor a falta de tradição reconhecida nas artes plásticas brasileiras. Ele tem a liberdade para esquentar, entortar ou fazer qualquer outra coisa com o material, até o momento exato que ele aguentar”
Para o crítico Alberto Tassinari, “Nuno Ramos usa a seu favor a falta de tradição reconhecida nas artes plásticas brasileiras. Ele tem a liberdade para esquentar, entortar ou fazer qualquer outra coisa com o material, até o momento exato que ele aguentar” FOTO: EDUARDO ORTEGA

Na festa de fim de ano, numa escola pública americana em Davis, na Califórnia, quatro meninos de 10 anos apresentaram uma peça intitulada Sopa Chinesa. Num dado momento, fingiram que apontavam ao acaso para alguém na plateia de pais, alunos e professores. A insistência foi tanta que o escolhido subiu ao palco. Para os alunos, o professor de biologia tinha um jeito estranho, combinação de uma altura desmedida com a timidez de um eremita. Mesmo ressabiado, permitiu que os moleques envolvessem seu pescoço com um guardanapo de pano branco. Nem bem prenderam o tecido, amassaram um tomate e quebraram doze ovos em sua cabeça, um por um. A plateia gargalhou. Impassível, o professor não se mexeu.

Dos quatro meninos endiabrados, dois foram expulsos da escola e os outros, suspensos. Um desses sortudos era um brasileiro, que, hoje, aos 49 anos, ainda se lembra com precisão do espetáculo. Não com orgulho de quem enfrentou as regras da escola e escapou da punição mais severa, mas com desconforto. Tem uma sensação estranha diante da recordação da gema, da clara, do tomate lambuzando o cabelo repleto de brilhantina. E, principalmente, porque aquele homem fora incapaz de se mexer diante da matéria que lhe escorreu pela cabeça.

Em março de 2009, ao lado do assistente Romulo Fróes e outros treze ajudantes, o artista plástico Nuno Ramos estava contente. E também apreensivo diante de uma inusitada tarefa: cobrir completamente de sabão artesanal um barco de pesca de 11 metros de comprimento e uma canoa de 7 metros. Como nunca havia trabalhado com a mistura de soda cáustica, sebo e óleo, o artista não sabia se o sabão iria grudar no molde de fibra de vidro que revestia os cascos.

Grudou. E o resultado foi mostrado na exposição “Mar Morto (Soap Opera 2)”, que ocupou os 700 metros quadrados da galeria Anita Schwartz, no Rio de Janeiro. Nuno Ramos não deixou de se perguntar, como sempre faz depois de suas peças prontas: e se não tivesse grudado no molde? Que aspecto teria? “Nas artes plásticas, nunca tenho pleno controle”, disse.

 

Foi de olhos arregalados que Nuno Ramos nasceu no antigo Hospital Matarazzo, em São Paulo. Nas horas que se seguiram, correu o comentário no hospital de que nascera uma criança tão bonita como um bonequinho. Quarenta dias depois, de volta a Assis, no interior do estado, o bebê ainda chamava a atenção. A mãe, Dulce Ramos, era obrigada a parar de amamentar para saciar a curiosidade de mulheres desconhecidas, que apareciam em seu quarto para conferir a beleza do recém-nascido. “Meses depois, ele cresceu e ficou normal, como qualquer outra criança”, lembrou Dulce Ramos, com uma sinceridade desconcertante, em seu apartamento no bairro paulistano de Pinheiros.

Com 6 anos, quando andava com a mãe, Nuno parou num muro, desabotoou as calças e fez xixi ali mesmo. Enquanto o líquido amarelado escorria pela calçada, um passante gritou: “O menino promete!” Ainda com as calças arriadas, Nuno chorou de vergonha.

Ele tem lembranças de infância menos constrangedoras. Samuel Pessoa era mais um parceiro de diversão do que apenas o avô materno, de nariz grande e espirro escandaloso, professor de parasitologia na Universidade de São Paulo. Certa vez, numa das costumeiras tardes em que eles tiravam uma soneca depois do almoço, com direito ao uso de pijamas, o avô tampou os olhos com as mãos e perguntou: “Já pensou, Nuninho, como é horrível ficar cego? Ficar no escuro para sempre?”

Nuno Ramos se lembrou do caso num artigo que publicou, em setembro de 2000, na edição em homenagem ao avô da revista do Instituto de Estudos Avançados, da USP: “Eu tapei meus olhos como ele, e logo procurei abri-los, aflito, mas sem querer ele tinha apagado a luz e eu achei que não estava mais enxergando. Ele riu muito disso, como se risse da morte.” Quando Nuno Ramos tinha 15 anos, seu avô começou a enlouquecer por causa de uma esclerose múltipla.

 

Numa manhã recente, ele mostrou, orgulhoso, uma jabuticabeira no jardim de sua casa, no bairro paulistano de Vila Romana. Ele ouvia as histórias do avô embaixo de uma árvore como aquela, sentado a seu lado numa pedra bruta e úmida. Num escritório-biblioteca, separado do resto da casa por um caminho de cimento, Nuno contou as histórias de seu avô com um sorriso no rosto. Entre a confusão de livros nas prateleiras e na mesa, ele estaria isolado das distrações do mundo exterior se não fosse o computador ligado, mostrando e-mails ainda não respondidos.

Sossego absoluto e sem as distrações da internet, ele só desfruta no seu ateliê, um galpão a 12 quilômetros dali. Raros são os dias de semana que Nuno não passa toda a tarde e começo da noite no estúdio, um espaço de 600 metros quadrados e pé-direito que ultrapassa os 5 metros, no Cambuci. O local é inóspito  e o artista gosta que seja assim. “Numa semana, contrato uma caçamba para jogar um monte de coisa fora, mas na outra já está novamente uma bagunça”, disse, com o orgulho de uma criança que se sujou de terra. “Devo ter uns dez martelos, vinte tesouras, quarenta trenas. Mesmo assim, às vezes, não encontro nenhum deles.”

Na entrada, há um corredor largo onde estão os restos do barco coberto de sabão que exibiu no Rio. Adiante, o estúdio se abre num imenso barracão com dez painéis que chegam a 4 metros de altura. Neles, está grudada uma enorme variedade de materiais. Quando os trabalhos são expostos, a plaquinha ao lado resume a mistura de espelhos, tecidos, folhas, plásticos, tinta, metais, resina e outras coisas com um sucinto “técnica mista”. Ele chama os painéis de “pinturas”. Quando os faz, sempre deitados no chão, vez ou outra precisa subir numa escada para ter uma visão geral do que está criando.

O engajamento político marcou a família de Nuno Ramos. O avô Samuel Pessoa viajou pela Ásia por três meses, em 1952, numa comissão internacional de cientistas para investigar um suposto ataque bacteriológico norte-americano na Coreia do Norte  e voltou com uma foto ao lado de Mao Tse-tung. Quando era diretor do Departamento de Saúde do Estado de São Paulo, proibiu a venda de Coca-Cola porque a empresa se negava a informar a fórmula da bebida. Em 1945, se candidatou a deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil, o PCB, teve 3 013 votos e não se elegeu. Aos 77 anos, durante a ditadura militar, foi preso pelo DOI-CODI e interrogado com os olhos vendados. Parcialmente surdo por causa da idade, penou para entender as perguntas, feitas aos gritos.

Nuno cresceu ouvindo a avó materna, Jovina Pessoa, chamá-lo de “reacionário”, sem que ele entendesse o porquê da acusação. Quando almoçava na casa dela, em Perdizes, não podia deixar nenhum resquício de comida no prato porque ela sempre dizia que “há muitas crianças morrendo de fome no mundo, Nuninho”. Um parente que ousou criticar Stálin quase levou uma bengalada. Em dia de aniversário, o Parabéns pra você, por ser uma tradução de Happy birthday, precisava ser seguido de alguma música brasileira. Só árvores genuinamente nacionais, como o pau-brasil e a pitangueira, cresciam no jardim. A avó Jovina recompensava com dinheiro os netos que decoravam o poema “Navio negreiro”, de Castro Alves. Num dos pagamentos, porém, abriu a carteira e jogou para o alto as notas, olhou fixamente Nuno e disse: “Isto é merda.”

Para orgulho de Jovina, a filha Dulce conheceu o pai de Nuno num congresso comunista, em Paris. Fugindo da ditadura de António Salazar em Portugal, o português Vitor Ramos mudou-se para o Brasil com a esposa. Durante cinco anos, moraram em Assis, até que o golpe de 1964 fez com que tivessem receio de morar numa cidade pequena. Na capital, ele se tornou professor de francês na USP.

Taciturno, muito por ser um exilado político, Vitor Ramos ficava grande parte do tempo na sua biblioteca, repleta de clássicos franceses. O ponto alto da carreira acadêmica foi, em 1971, quando aceitou o convite para dar aulas na Universidade da Califórnia, em Davis. Vitor e Dulce, acompanhados dos filhos Maria Guiomar, de 17 anos, Fernão, de 13, e Nuno, de 10, chegaram aos Estados Unidos no auge da contracultura.

Ainda moleque, Nuno experimentou maconha num trilho de trem que cruzava Davis. Não sentiu nada de especial, mas fingiu cambalear para ganhar a aprovação de uma menina que o acompanhava. De resto, aproveitou a liberdade e as casas sem muro para se divertir com travessuras. Com outros meninos, roubava cervejas e cigarros no supermercado e parava o trânsito, à noite, botando no meio do asfalto triângulos feitos de jornais enrolados.

De um acampamento, escreveu aos pais, sugerindo uma independência precoce: “O rancho é divertido, não se preocupem comigo. Já travei amizade com muitas meninas e um único menino. Eu já pesquei, andei a cavalo, nadei, fiz piquenique e fui à neve. Minha Polaroid vai muito bem, obrigado, mas eu errei quatro fotos e acertei quatro.” Nessa época, o garoto tirava boa parte das fotografias da família.

Diante de uma mesa redonda repleta de fotos, Dulce leu a carta do filho, imitando voz de criança. Vestindo um conjunto de blusa e calça de moletom rosa, ela garantiu que as bandejas repletas de balas de hortelã, iogurte e caramelo espalhadas pelos cômodos eram para as visitas de seus sete netos. Mas, em uma hora de entrevista, Dulce botou na boca onze balas, uma seguida da outra.

“Estávamos felizes nos Estados Unidos, nosso plano era ficar cinco anos”, disse. “Mas meus filhos começavam a pegar o ritmo norte-americano, e eu e o Vitor não reconhecíamos aquele jeito de viver como algo saudável.” Um ano depois da chegada aos Estados Unidos, a família retornou ao Brasil.

De volta a São Paulo, Nuno Ramos quis ser jogador de futebol. Aos 12 anos, jogava todas as tardes, driblando marmanjos com o dobro de sua idade no Clube Pinheiros. Hoje, se interessa por quase todos os esportes e tem Pelé, Tostão, Garrincha, Maradona, Ronaldo e Zidane no seu panteão. “Os únicos fenômenos de quem nunca gostei foram Schumacher, Senna, esse pessoal da Fórmula 1”, disse.

Aos poucos, incentivado pelo pai, trocou as chuteiras pelos livros. Fingia sentir febre para faltar à escola e ler Robinson Crusoé, que ele jura ter lido mais de dez vezes. Começou a falar que gostaria de ser um grande escritor. O pai aplaudia, pois queria o filho erudito como ele. Vitor Ramos publicou uma edição comentada de Os Lusíadas. A sua tese de doutorado foi sobre Cyrano de Bergerac, tema da peça do escritor francês Edmond Rostand, e a de livre-docência sobre o poeta e dramaturgo Jean Rotrou. Nessa última, escreveu: “O artista é acima de tudo semeador de enganos, e isto porque tem como ideal uma realidade que julga poder alcançar.” Em 1968, recebeu do governo francês o título de chevalier da Ordre des Palmes Académiques, por serviços prestados à cultura francesa no Brasil.

 

Na tarde de 2 de maio de 1974, uma quinta-feira, Nuno, com 14 anos, voltava para casa de um jogo de handebol, no qual seu time perdeu por uma surpreendente virada dos adversários no segundo tempo. Suado, foi direto para o banho. A sala da casa no Butantã estava cheia de amigos do pai, todos membros ou simpatizantes do Partido Comunista. Palmas, risadas, cantorias e vivas davam o tom da comemoração. Uma semana antes, começara do outro lado do Atlântico a Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura de Salazar.

Se em Lisboa o povo comemorava, Vitor Ramos estava preocupado, mesmo sabendo que a vitória significava a possibilidade de visitar sua terra natal. O telefone do pequeno corredor de entrada tocou, ele pediu licença aos amigos e foi atender. Do outro lado da linha, estava seu amigo Antonio Candido, o crítico literário e professor da USP. Os dois concordavam: a oposição ao regime militar brasileiro precisava conter os ânimos. “Caso contrário, os militares ficarão furiosos e muita gente do movimento será presa à toa.” Nem bem terminou a frase, Vitor Ramos disse suas últimas palavras: “Espere um pouco…”

Da cozinha, Dulce ouviu o marido interromper a conversa. Era tarde: um aneurisma cerebral fulminante derrubou-o no chão. A esposa gritou pedindo ajuda, mas os amigos demoraram para entender as súplicas. Com a ajuda do filho mais velho, Dulce carregou o marido até o carro de um vizinho e foram para um hospital.

“Conheci Vitor em Assis”, disse Antonio Candido. “Ele tinha acabado de chegar ao Brasil para casar com Dulce. No exato momento que ele interrompeu a conversa no telefone, a campainha da minha casa tocou. Era um casal de amigos. Abri a porta apressado, voltei a colocar o gancho na orelha, mas não ouvia a voz de Vitor. Apenas outras vozes assustadas. Imaginei que poderia ter acontecido a mesma coisa com ele: alguém apareceu em sua casa. Desliguei. Fiquei sabendo no outro dia de manhã que ele morreu falando comigo.”

No banho, Nuno ouviu barulhos, mas não chegou a suspeitar de nada. No desespero, antes de sair de casa, Dulce bateu na porta do banheiro e gritou: “Nuno, seu pai está passando mal!” Ele não ouviu. Cinco horas depois, a mãe retornou com a notícia de que seu pai morrera.

Ele passou a ler de cinco a seis horas por dia, em horários divididos entre literatura brasileira, norte-americana, francesa. Se não seguisse seu rígido plano de leitura, sentia-se mal durante o resto do dia. Ganhou de presente da mãe um fichário, que usou para escrever as informações básicas dos livros que lia, como o título original, a lista dos personagens e o resumo do enredo. Um dia, disse à mãe que havia feito uma conta: a da quantidade de páginas que deveria ler por dia, até completar 25 anos, para ter a cultura de Antonio Candido na mesma idade.

Para conseguir mais tempo para a leitura, Nuno Ramos fez dois pedidos a Dulce, em momentos diferentes. Primeiro, que a biblioteca do pai virasse o seu quarto. E depois, que queria ser transferido para uma escola mais fácil. “Por vacilo, permiti”, contou Dulce. De noite, ele datilografava um poema ou conto, que lhe pareciam ótimos. De manhã, relia o que fizera e a decepção era completa. “Mesmo após tantos livros lidos, o chamado da literatura não vinha”, disse. “Era como se a necessidade de me tornar um escritor estivesse me engolindo.”

Com a literatura encalacrada, flertou com a música. Antes de sair do Colégio Equipe  para ter mais tempo para ler , foi colega de classe de Arnaldo Antunes. Nuno Ramos subiu uma vez no palco com o amigo, que formara uma banda chamada Performática. Achou a experiência pavorosa e desistiu. Formou-se em filosofia, na Universidade de São Paulo, em 1982, mas não seguiu carreira acadêmica. Pouco antes, começou a pintar.

Das suas primeiras tentativas, guardou apenas um quadro, que está no apartamento de sua mãe. É um pastiche de Paul Klee que não faria feio numa sala de espera de dentista. A tela é azul e tem uma faixa amarela, larga e irregular, pintada com tinta acrílica  material que hoje considera “covarde”, por secar com facilidade.

“Lembro, no começo, de molhar a tinta na água e colocar no papel”, contou. “O líquido escorria e eu mexia a folha de um lado para o outro. Foi a primeira vez que tive a percepção de que gostava mesmo era da experiência da bagunça da matéria, de ficar na consistência das coisas.” O fato de não saber desenhar não incomodava. “Não era tão burro para achar que precisava disso para ser um artista”, disse. “Eu usava o pincel, só a tinta, a mão, qualquer coisa.”

Quando decidiu ser artista plástico, ele não perdeu tempo. Com tubos de tinta acrílica que lhe foram dados pelo artista e amigo José Roberto Aguilar, em menos de seis meses fez os oito quadros da sua primeira exposição individual. O físico e crítico de arte Mário Schenberg esteve presente no vernissage, mas, por causa da idade avançada, mal conseguia abrir os olhos.

 

Se do ponto de vista estético a primeira exposição não trazia novidades, ela serviu para que Nuno conhecesse quatro outros jovens. Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade o convidaram para integrar o grupo que pintava numa casa de número 7 no bairro de Cerqueira César. Ele ocupou a cozinha. Era tanta sujeira e tinta que pincéis sumiam no chão, cobertos por camadas de tinta que eles acumulavam a cada dia.

Todos haviam estudado gravura em metal com Sergio Fingermann, menos Nuno Ramos. Paulo Monteiro lembrou-se: “O que ele fazia no início era realmente tosco. O legal era que ele não se acanhava e fazia pinturas imensas.”

A Casa 7, como ficou conhecido o grupo, marcou a arte brasileira nos anos 80. Eles usavam o papel kraft como suporte e esmalte sintético, até porque não tinham dinheiro para comprar telas e tintas a óleo. O resultado eram quase sempre pinturas gigantescas, com pinceladas livres, o que foi entendido como uma afronta ao intelectualismo da arte conceitual em voga. O grupo ganhou elogios da crítica e teve boa aceitação no mercado de arte. A imprensa adorava a pose de rebelde do grupo, com seu jeito de banda de rock.

Mesmo durando pouco mais do que dois anos, a Casa 7 foi fundamental para que Nuno se enfronhasse nas discussões teóricas sobre arte moderna e contemporânea. “Tínhamos discussões bobas, mas necessárias, como quem era melhor: Picasso ou Matisse”, contou. Eles gostavam do abstracionismo do canadense Philip Guston, das obras feitas de madeira, palha e cinza do alemão Anselm Kiefer e das pinturas com cerâmicas quebradas do americano Julian Schnabel.

“Todo dia faço arte, seja pintando, escrevendo ou fazendo um filme”, disse Schnabel. A possibilidade de ser um artista que perambula em diversas áreas parece ter ecoado na mente de Nuno. Com o passar dos anos, ele voltou à literatura de ficção e à música, compondo canções, fez filmes, passou a escrever ensaios sobre futebol, teatro e música popular, e seguiu firme sua carreira de artista plástico.

Ainda que goste de estudar teoria, ele faz tudo isso sem teorizar muito. Nuno Ramos contou que, no ano passado, visitou sozinho uma cachoeira em Aiuruoca, em Minas, e foi repreendido por um morador. “Ele me disse que eu deveria ter ido com um guia turístico, que me explicaria a proposta da cachoeira”, e completou rindo: “Meu Deus, hoje até as cachoeiras têm proposta!”

Ele toca mal violão, mas adora compor. Gal Costa, Nina Becker e Mariana Aydar já gravaram canções suas. Para a revista serrote escreveu um ensaio no qual comparou Cartola (“harmônico e clássico”) a Nelson Cavaquinho (“ímpar, quase desagradável”).

Houve ocasiões em que Nuno precisou ligar para a mulher, Sandra Antunes, para perguntar como funcionava o aparelho de DVD. Mesmo pouco familiarizado com tecnologia, aliou-se ao amigo Eduardo Climachauska para filmar gigantescas caixas de som enterradas em covas e tocando samba.

Em seu ateliê, diante de suas carroças com pedras que expõe e vende, Climachauska comentou a versatilidade do amigo: “Um dia, ele quis filmar os rastros deixados por uma frente fria que começava na Patagônia, cortava parte do Brasil e desaparecia no oceano Atlântico. O projeto não deu certo. Mas ele acabou usando a ideia no livro Ensaio Geral, uma coletânea de seus textos. É impressionante: quase nenhuma ideia dele é perdida.”

Com a ajuda do diretor Gustavo Moura, Nuno e Climachauska zanzaram por quinze dias, pela periferia de Belo Horizonte, num caminhão carregado de enormes postes de madeira. Quando encontravam algum terreno abandonado, montavam um círculo de luz formado pelos postes. O filme Iluminai os Terreiros registra a estranheza causada pelo circo minimalista: os insetos frenéticos com o clarão e curiosos em torno.

Livre da ansiedade adolescente de se tornar escritor, Nuno Ramos escreveu três livros de ficção e dois de ensaios. Além de ter sido indicado para o Jabuti, Ó ganhou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2009, no valor de 100 mil reais.

A literatura de Nuno é cheia de imagens estranhas. Em O Pão do Corvo, ele escreveu que estar no elevador em movimento e ver a laje entre os andares é como observar “o branco dos olhos de uma pessoa em convulsão”. Num livro prestes a ser lançado, um homem-bomba recebe a seguinte descrição: “Sem paraíso prometido, para explodir de vez esta soma de vozes, hierarquizada em intervalos (oitavas, quartas, terças), com o único eco, bum, da minha solidão  vocês ouvem seu ruído espantoso? O deslocamento de ar? Os carros incendiados, os pedaços de carne humana, o sangue no asfalto, nas paredes? Outra solidão se vingará.”

 

Entre os melhores amigos de Nuno Ramos está uma trinca de críticos de arte, Rodrigo Naves, Alberto Tassinari e Lorenzo Mammì. Naves conheceu o artista em 1983, quando publicou um artigo dele sobre Arnaldo Antunes no suplemento que editava, o Folhetim, da Folha de S.Paulo. “Nuno, Beto, Lorenzo e eu gostávamos de conversar sobre arte, e tínhamos uma visão menos sectária do que acontecia na época”, disse ele. “Para muita gente era contraditório, por exemplo, gostar ao mesmo tempo de Iberê Camargo e Sergio Camargo.” Sobre Nuno, ele disse: “Há um provérbio francês que diz que um sujeito é burro como um artista. Mas isso não vale para o Nuno. Ele sempre foi uma pessoa de discurso articulado e não deve em nada nas discussões mais teóricas.”

Para Naves, “Nuno não sabe desenhar porque não precisa, ora bolas”. Num artigo de 1996, na revista Veredas, ele defendeu que a carência de domínio artesanal, na situação atual, poderia ser uma vantagem:

Nuno Ramos não é um artista nato. E nesses dias em que a arte tende a começar e terminar em torno de suas próprias questões, isso traz certas vantagens: torna as coisas mais difíceis, incorpora à forma artística um travo que lhe devolve a possibilidade de se mostrar como experiência, e não apenas como a proposição e solução de “problemas” estéticos legíveis. Nuno Ramos entrou para as artes plásticas porque quis, não porque pudesse  como quem conquista uma vaga num jogo que admira, mas de que desconhece os procedimentos e as exigências. E passou a jogar a seu modo.

Agnaldo Farias, o cocurador da 29a Bienal de São Paulo, no ano que vem, pretende incluir obras de Nuno Ramos. Ele concordou com Rodrigo Naves: “Desde que Leonardo da Vinci afirmou que pintura é coisa mental, a autoria de um trabalho não pode mais ser reduzida à dimensão artesanal de sua produção. Fosse assim, arquiteto não era artista, nem nenhum diretor de cinema.” Para ele, Nuno Ramos “é extremamente hábil em pensar, e seu desenho funciona magnificamente bem como instrumento de seu pensamento. Confundir o desenho com a capacidade de representação do visível é uma limitação. O desenho é uma forma de raciocínio”.

Lorenzo Mammì chegou da Itália para dar aula de história da música na USP e logo ficou amigo do artista. Ele tem uma certeza inabalável: “O Nuno é um dos maiores artistas plásticos brasileiros vivos. Sem dúvida nenhuma.”

Alberto Tassinari é o terceiro crítico de arte amigo de Nuno Ramos. Os dois se conheceram ainda na faculdade de filosofia, num grupo de estudos sobre a Crítica da Razão Pura, de Kant. Do lado de fora de um bar nos Jardins, mas embaixo do toldo para se proteger da chuva, Tassinari fumava enquanto explicava o nó da obra do amigo: “Ele usa a seu favor a falta de tradição reconhecida nas artes plásticas brasileiras. E cada obra sua parece atestar esse cenário ainda pouco demarcado. Nuno tem a liberdade para esquentar, entortar ou fazer qualquer outra coisa com o material, até o momento exato que ele aguentar. Ele também brinca com os gêneros. Faz painéis cheios de objetos que se expandem para frente, sugerindo uma escultura, mas os prende num painel retangular tal qual uma pintura.”

Tassinari completou: “A prova dessa carreira cheia de liberdade artística é ouvir as músicas compostas por Nuno. Elas são absolutamente tradicionais. Diante do respeito que a música brasileira carrega, aqui e no exterior, dificilmente conseguiria romper com tudo nessa área como ele faz nas artes plásticas.”

A chuva aumentou e Tassinari entrou no bar para comer um sanduíche. Deixou a sensação de que a “questão Nuno” parecia parcialmente resolvida. O seu amadorismo diligente transita por âmbitos ainda não explorados na tradição plástica brasileira. Ele é um virtuoso peculiar, aquele que faz da sua própria prática pessoal uma virtude.

A carreira de Nuno Ramos deslanchou em 1985, quando ele participou de quatro exposições. Ele, Rodrigo Andrade e Paulo Monteiro expuseram seus painéis com esmalte sintético no Paço das Artes, em São Paulo. A exposição ajudou os artistas financeiramente, já que o colecionador Fernando Millan comprou todos os trabalhos. Outra que se impressionou com a Casa 7 foi Aracy Amaral, então diretora do Museu de Arte Contemporânea da USP. E a ponto de organizar exposições do grupo no MAC e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Por fim, a 18a Bienal Internacional de São Paulo, lembrada até hoje por ter sido um corredor abarrotado de telas de grandes formatos, trazia sete pinturas de cada artista da Casa 7. Três das telas a óleo de Nuno foram pintadas no chão, influência assumida por ele do pintor americano Jackson Pollock. Um dos quadros foi exposto numa trienal de pintura na Índia e ganhou o grande prêmio. Desde então, Nuno nunca mais pintou com a tela na vertical.

Quatro anos depois, Nuno voltou a expor no pavilhão do parque do Ibirapuera, na 20a Bienal. “Sei que aquilo foi umas das coisas mais impressionantes que já fiz na minha vida, e deveria ter feito mais obras parecidas”, ele comentou. As “coisas” eram um conjunto impressionante de quatro pinturas, de 4 metros de altura por 2 de largura. Em vez de tinta tradicional, usou uma mistura de parafina, vaselina e tecido, que grudou ainda quente na tela. No último andar, sem climatização e abafado por causa do sol, a maçaroca passou a derreter ao longo dos dias, respingando no chão.

Um artista americano quis conhecer o autor da proeza visual. Era Frank Stella, que também expunha trabalhos na bienal daquele ano. Com 85 trabalhos no acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, e 66 na Tate Gallery, de Londres, Stella disse que Nuno poderia se tornar um astro mundial das artes plásticas. Ficaram amigos.

Em 1992, um trabalho de Nuno Ramos foi exposto numa mostra do MoMA e Stella, ao saber que o amigo brasileiro cogitava não comparecer à abertura, deu-lhe de presente uma passagem para Nova York. Há dois anos, em sua última visita ao Brasil, Stella veio assistir ao GP da Fórmula 1. Ainda empolgado com os trabalhos do brasileiro, levou Jean Todt, o então chefe da equipe Ferrari e atual presidente da Federação Internacional de Automobilismo, ao ateliê do artista e tentou convencê-lo a comprar uma obra. Todt não levou nada.

Certa vez, o marchand Marcantonio Vilaça ligou para o artista, emocionado com o que havia acabado de assistir na televisão, em uma de suas muitas viagens internacionais. Stella fora entrevistado e, quando perguntado sobre suas influências, respondeu que a maior delas vinha de um artista que provavelmente o repórter desconhecia, um brasileiro chamado Nuno Ramos.

 

A carreira artística de Nuno progredia, mas a arte não era sua principal fonte de sustento. Durante toda a década de 90, ele trabalhou na Suzano Papel e Celulose. Sua função era redigir cartas para os chefes com argumentos para lançar novos tipos de papéis. O meio período de trabalho permitia que continuasse com suas pinturas no resto do dia. Mas algumas vezes teve que trabalhar em período integral, para compensar eventuais descontroles no orçamento familiar. Na 46a Bienal de Veneza, por exemplo, teve que chegar à cidade um mês antes da inauguração para montar suas caixas vazadas de madeira com montes de cal. Para participar da 20a Bienal de São Paulo, vendeu o carro.

Uma vez, a porta de sua geladeira, daquelas antigas, brancas e arredondadas, quebrou, sendo preciso um alicate e uma chave de fenda para abri-la. Era tanto o esforço que ele pensava duas vezes antes de fechá-la. Ao guardar potes coloridos no porta-malas do carro, viu um cartaz que anunciava uma geladeira. O coração apertou. O valor era quase o mesmo do que acabara de gastar na loja de materiais artísticos.

 

Nuno Ramos se considera um “careta”. Com 21 anos, foi morar com a mulher e, quatro anos depois, já era pai de seu primeiro filho, João. Depois vieram Miguel e Vicente. A cocaína, droga com razoável circulação no ambiente das artes plásticas, nunca o atraiu. “Até cheguei a provar, mas aquilo me deixava mais ansioso do que já sou naturalmente.”

Sua única experiência alucinógena marcante aconteceu no Acre. Numa viagem a Porto Velho, acompanhado de um amigo, hospedou-se na igreja de um padre de esquerda, conhecido da família. Na cidade, frequentaram uma comunidade cujos moradores tomavam ayahuasca. Um dos responsáveis pelo ritual deu aos visitantes um litro do chá alucinógeno antes de seguirem caminho. Acampados em Maués, no Amazonas, beberam a mistura de uma vez só.

Nuno olhou para o amigo e teve a impressão de estar tendo uma conversa telepática. Em seguida, perambulou pela floresta completamente alucinado com a quantidade de vaga-lumes que brilhavam ao seu redor. “Definitivamente aquilo não foi uma bad trip“, reconheceu. Mesmo assim, decidiu nunca mais tomar ayahuasca. “Sei lá, gostei demais do efeito”, disse.

Sandra Antunes está casada há 26 anos com Nuno Ramos. Risonha, ela não para de jogar os cabelos de um lado para o outro. Os fios castanhos escondem uma tatuagem de um ideograma chinês, que simboliza “alegria”, feito bem no meio da cabeça. Um gatinho, como os que o marido desenha nos bilhetes que deixa para ela, está tatuado no antebraço direito. Morando na casa de seus pais no Rio de Janeiro, ela, com 15 anos, conhecera Nuno quando ele passou uns dias por lá na companhia do seu irmão mais velho, Arnaldo Antunes. “Não posso conversar com alguém que nasceu em 1964”, disse a ela o visitante de 19 anos.

Sandra passou a ir a São Paulo com frequência. Numa dessas idas, Nuno Ramos avisou em cima da hora que ele não poderia vê-la. Na abertura de uma exposição, na pizzaria Cristal, ela o encontrou acompanhado de uma menina. Nuno perguntou se Sandra iria ficar por mais tempo. “Respondi que sim”, ela lembrou. Ele levou de carro a menina para casa e voltou. “O primeiro beijo rolou naquele dia, eu com 17 anos e ele com 20.”

Sandra sofre de depressão. Em 1998, a doença piorou e Nuno cuidou dela. De dezembro daquele ano a junho de 1999, no pouco tempo livre, escreveu o relato sobre a impossibilidade de ajudá-la. O resultado foi o livro Minha Fantasma, com apenas 105 exemplares distribuídos entre amigos. Além do texto, há fotografias de Nuno deitado, nu, com salpiques de areia no chão de um apartamento vazio. Ele descreveu o corpo da esposa: “Ela fenece, isso sim, lenta, não um bicho mas um caule murcho, tombado, quase a terra onde o tronco vai beber novamente. Lança seus sinais duas vezes  pra que ela própria escute, uma vez, e outra pra que acreditem.”

Sobre os dias em que ela passava isolada, Nuno escreveu: “Seria tão fácil aproveitar dela. Qualquer um poderia. Qualquer um a levaria por uma palha, um raciocínio, um doce. Por isso achei melhor deixá-la no quarto trancada. E não apenas eu: nós todos a estamos vigiando em turnos alternados.”

Antes de publicar o livro, Nuno pediu autorização a Sandra. “Eu respondi que não tinha problema algum”, disse ela, sorrindo. “Aquilo era uma experiência dele, não minha. Além do mais, o texto me emocionou muito, é a coisa mais linda do mundo.” Na época do lançamento do livro, Nuno evitou falar muito com a imprensa. E não gostou dos poucos artigos que saíram sobre o trabalho.

 

Apesar das investidas literárias, musicais e cinematográficas, Nuno é conhecido como artista plástico. Entre os jornalistas brasileiros que cobrem a área, ele é uma unanimidade. O crítico da Folha de S.Paulo Fabio Cypriano disse: “O trabalho dele é formal, pois atua sobre a materialidade. Mas ao mesmo tempo é também conceitual, já que trabalha com ideias.” Gisele Kato, editora de artes plásticas da revista Bravo!, admira Nuno pela sua constante coragem em se arriscar: “Ele faz pintura, escultura, crônica e conto. Acompanhar sua trajetória exige da gente uma abertura às surpresas e uma disposição para o abandono de rótulos.”

O crítico d’O Estado de S. Paulo Antonio Gonçalves Filho escreveu na sua coletânea Primeira Individual, publicada pela Cosac Naify: “Dentro da bárbara mistura  chapas de cobre, espelhos, plástico, arame, folhas secas, estanho derretido, veludo, tinta acrílica , o que está em jogo é a própria materialização.”

Nuno Ramos também é um sucesso nas duas galerias que o representam, a paulistana Fortes Vilaça e a carioca Anita Schwartz. “Uma boa coleção de arte brasileira sem um trabalho de Nuno Ramos não é uma boa coleção”, afirmou Anita.

Varia bastante o preço de uma obra assinada por Nuno: de 4 mil dólares para os desenhos de 30 centímetros a trabalhos de até 250 mil dólares. É o caso da instalação “111”, montada pela primeira vez em 1992 na galeria Raquel Arnaud, em São Paulo. Feita como protesto após o massacre dos presos da Casa de Detenção do Carandiru, ela consiste em pedaços de jornal e folhas da Bíblia colados com asfalto e breu sobre paralelepípedos com os nomes dos mortos impressos em chumbo. Mesmo com trabalhos valorizados, Nuno Ramos não é um artista brasileiro tão conhecido no exterior como Beatriz Milhazes, Vik Muniz e Cildo Meireles. Apenas um quarto de seus colecionadores é de estrangeiros.

No mezanino do Galpão Fortes Vilaça, de frente para uma imensa pilha de obras de arte encaixotadas, a galerista Márcia Fortes disse: “Ele já teve bons momentos, como na Bienal de Veneza, mas a carreira do Nuno no exterior ainda não aconteceu. É um investimento muito alto levar suas peças maiores de avião ou navio para os Estados Unidos ou a Europa. Mas todas a vezes que fizemos isso, tivemos sucesso.”

Márcia Fortes aposta que 2010 será o ano que Nuno começará a conseguir a visibilidade internacional à altura do seu trabalho. Na Frieze Art Fair de 2009, sua galeria vendeu todos os desenhos de Nuno Ramos que levou, e voltou com mais encomendas. O magnata Jerry Speyer, dono dos edifícios Chrysler Building e Rockefeller Center, em Nova York, adorou o artista brasileiro. Só não levou um conjunto de pedras imensas, pois técnicos do Rockefeller o avisaram de que o chão do local poderia afundar com o peso da obra. Márcia Fortes completou: “No ano que vem, Nuno vai fazer uma ótima exposição em Londres que ainda não posso revelar detalhes. E, a partir daí, ele será representado por uma ótima galeria de lá.”

A falta de visibilidade no exterior não incomoda o artista. “Conquistei um espaço no Brasil em que consigo fazer tudo o que eu quero”, afirmou. Além das caixas de madeiras, das telas com vaselina e do livro perfurado à bala, Nuno Ramos fez Craca, escultura de alumínio fundido com moldes de conchas, ossos, peixes e flores. Há uma Craca no parque da Luz, ao lado da Pinacoteca do Estado de São Paulo, e outra no jardim do Museu de Arte Moderna da mesma cidade.

No Sesc Pompéia, no período que estava fascinado em construir fornos artesanais, fez uma exposição colocando num deles uma quantidade tão grande de sal que enchia um caminhão. Com o calor, o material pipocava, enquanto fumaça e vapor d’água saíam de dentro dos fornos. Na abertura da Paralela, em 2008, uma exposição que aconteceu no mesmo período da Bienal, esculpiu no chão uma gravura de Oswaldo Goeldi e encheu de óleo os vãos em baixo relevo.

Em 2006, o instituto paulistano Tomie Ohtake reservou o saguão e o 2º andar para que Nuno mostrasse o que bem entendesse. Na primeira reunião com os organizadores do museu falou que pretendia, dentre outras obras, ter uma sala repleta de burros de verdade. Falou com tal naturalidade que ninguém se surpreendeu. Os animais traziam nas costas caixas de som e se alimentavam de alimentos que emitiam barulhos. Vozes estranhas saíam do sal, um coro feminino do monte de feno, e da água, a canção Se todos fossem iguais a você, de Vinicius de Moraes.

A Sociedade Defensora dos Animais apareceu dias depois da abertura, mas os burros estavam sendo bem tratados, revezando-se de dois em dois, carregando um peso muito menor do que suportam e com as orelhas protegidas por protetores auditivos.

Faz parte do trabalho de Romulo Fróes procurar burros como os expostos em São Paulo. Com 38 anos, dores nas costas, marcas de queimaduras nas mãos e uma cabeça vítima de um vidro temperado que espatifou sobre ele, Fróes já cortou vidros grossos, aprendeu a fazer sabão caseiro e alugou urubus legalizados pelo Ibama, e trazidos do Sergipe, para uma exposição em Brasília.

Em 1992, aos 21 anos, ele soube por um amigo que um artista plástico precisava de um assistente por alguns meses. Tornou-se assistente fixo de Nuno Ramos e está ao seu lado há nove anos. Robusto (pesa 105 quilos e mede 1,93 metro), contou que algumas das maiores peças de Nuno não passavam pelo vão das escadas do prédio do comprador, e tampouco podiam ser levadas de elevador. Precisaram ser içadas da calçada até a janela dos apartamentos.

 

Mira Schendel, a artista plástica suíça radicada no Brasil, foi uma das interlocutoras mais prezadas por Nuno Ramos. Refugiada da Segunda Guerra Mundial, ela não suportava que alguém falasse bem da Alemanha. “Eles inventaram o nazismo…”, justificava. Em 1987, de volta de uma viagem a Berlim, ela contou a Nuno uma das peças que a vida lhe pregou. No país que tanto abominava, Mira foi ao médico por causa de um mal-estar e descobriu que estava com câncer no pulmão. Morreu quatro meses depois.

Na coletânea Mira Schendel: no Vazio do Mundo, há um texto de Nuno Ramos, no qual ele diz: “Em sua última viagem à Europa, me trouxe de presente um belo livro de Richard Long. Acho que se sentiu atraída pelo modo como Long ao contrário da land art americana, que trabalha com grandes deslocamentos de terra  altera todo o campo da paisagem com uma única linha de pedras enfileiradas. Se pudesse, acho que Mira faria isso com o ar, com o vento.”

Com o falecido Amilcar de Castro também teve uma amizade rápida e intensa. Numa exposição em que Nuno apresentava as pinturas tridimensionais, ele avisou que tinha aparecido para não gostar, mas acabou gostando muito. “Diferente do que todo mundo fala, não vejo briga entre os materiais de seus quadros, vejo amor”, disse então.

Sentado num sofá rasgado em seu ateliê, Nuno explicou por que as amizades de Amilcar e Mira foram tão importantes para ele: “Estar com os dois me mostrava que não estava pirando, que estava indo no caminho certo.”

Pouco antes de se levantar do sofá, Nuno citou o nome do alemão Joseph Beuys, artista europeu da segunda metade do século XX. Sua trajetória artística inclui blocos de gorduras expostas em museus. Em 1986, numa viagem à Alemanha, Nuno viu esses blocos. Achou que seu caminho também seria flertar com uma arte ainda num estado em formação. Uma mistura análoga àquela de ovo e tomate na cabeça do professor tímido de sua infância.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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