carta de Buenos Aires

O eterno naufrágio

Impressões da crise argentina depois de um ano em Nova York

Graciela Mochkofsky
Fala-se em recessão, mas percebe-se um consumismo desenfreado, sobretudo no meu bairro. Ninguém poupa, todos gastam. Com o atual nível de inflação, que sentido pode ter agarrar-se ao dinheiro? O que hoje se compra por 6 pesos logo se comprará por 10. Essa é uma lição que os argentinos aprenderam anos atrás, mas que se reatualiza para o benefício de novas gerações
Fala-se em recessão, mas percebe-se um consumismo desenfreado, sobretudo no meu bairro. Ninguém poupa, todos gastam. Com o atual nível de inflação, que sentido pode ter agarrar-se ao dinheiro? O que hoje se compra por 6 pesos logo se comprará por 10. Essa é uma lição que os argentinos aprenderam anos atrás, mas que se reatualiza para o benefício de novas gerações ILUSTRAÇÃO: LINIERS

Volto à Argentina depois de um ano no exterior. Um ano é muito tempo na Argentina. E ao mesmo tempo não é nada. Como escreveu V. S. Naipaul no ensaio “Argentina and the ghost of Eva Perón, 1972–1991”: “Talvez muito pouco do que acontece na Argentina seja notícia, porque não há movimento para a frente: nunca se resolve nada. A nação parece jogar um jogo consigo mesma, e a vida política é como a vida de uma comunidade de formigas ou de uma tribo da selva africana: cheia de acontecimentos, cheia de crise e de mortes, mas a vida é puramente cíclica, e o ano sempre termina como começa.”

É a noite de 6 de agosto, faz uma semana que o mundo está discutindo o novo default do país, o calote da dívida, e o governo nega que ele exista. O dólar blue (paralelo) está nas alturas, cotado a 12,80 pesos – estava a 8,90 pesos quando saí, no final de agosto de 2013 – e a inflação anual beira os 40%. O governo diz que está tudo bem, que estão exagerando; a oposição alerta que caminhamos para o colapso total. Ontem, Estela de Carlotto, líder das Avós da Praça de Maio, encontrou Guido, o filho de sua filha assassinada num campo clandestino em 1978. Guido tinha poucas horas de vida quando foi roubado; hoje tem 36 anos. Meio país chora de alegria por ela, por sua filha morta, pela criança perdida e pelo homem recuperado. Uma quadrilha de ladrões entrou na casa do jornalista Bobby Flores. Não dá para viver assim.

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Graciela Mochkofsky

Graciela Mochkofsky, jornalista argentina, é autora de Pecado Original: Clarín, los Kirchner y la Lucha por el Poder, pela Planeta

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