vultos da arqueologia

O evolucionista

Walter Neves – o pai de Luzia, crânio humano mais antigo das Américas – está se aposentando

Bernardo Esteves
“Se as pessoas soubessem o que custou para nossa espécie chegar a tamanha diversidade, se entendessem a complexidade do processo evolutivo, seriam mais tolerantes umas com as outras”
“Se as pessoas soubessem o que custou para nossa espécie chegar a tamanha diversidade, se entendessem a complexidade do processo evolutivo, seriam mais tolerantes umas com as outras” IMAGEM: J.R. DURAN_2017

Debruçada à beira de um buraco, a arqueóloga Marcia Arcuri revolvia a terra com uma colher de pedreiro. Ela estava no sítio arqueológico de Cerro Ventarrón, nos arredores da cidade peruana de Lambayeque, não muito distante do oceano Pacífico. A imensa pirâmide de barro que rasga aquela paisagem árida provavelmente serviu de centro religioso para populações que habitaram a região há mais de 4 mil anos, bem antes de o Império Inca ocupá-la. Cercado por barbante, o buraco um tanto raso continha cinzas e carvões produzidos possivelmente numa fogueira ritualística.

O pesquisador Walter Neves observava atentamente o trabalho da colega. “Dá para ser mais generosa, Marcia”, palpitou. A arqueóloga interrompeu a escavação e pegou uma ferramenta maior, na tentativa de extrair porções menos tímidas de sedimento. Neves parecia intrigado. “Na verdade, a gente não faz a mais puta ideia do que tem aí”, comentou, enquanto apontava para os possíveis vestígios de fogueira.

Ele figura entre os mais conhecidos – e polêmicos – estudiosos da pré-história brasileira. Ganhou projeção na década de 90 por ter estudado o crânio de Homo sapiens mais antigo das Américas. À época, jornais e revistas do mundo todo estamparam o rosto reconstituído de Luzia, nome que o próprio Neves deu à mulher ancestral, que viveu em Minas Gerais há cerca de 13 mil anos e morreu por volta dos 20 anos.

Aquela viagem de campo era a primeira do pesquisador à região de Lambayeque, que a paulistana Marcia Arcuri investiga desde 2007. Professora da Universidade Federal de Ouro Preto, a Ufop, e especialista em arqueologia pré-colombiana, ela vai escavar no Peru pelo menos uma vez por ano. Sempre que pode, leva alunos e colegas brasileiros. Na expedição de julho passado, estava animada com o reforço de Neves. “Walter é um monstro da arqueologia.”

De acordo com a pesquisadora, a maioria dos arqueólogos peruanos busca compreender principalmente as estruturas políticas e religiosas dos povos antigos. Daí se voltarem tanto para construções grandiosas, a exemplo daquela pirâmide – ou huaca, como dizem os locais. Já a equipe de Arcuri investiga, sobretudo, a vida cotidiana dos grupos humanos do passado. Por isso, escavava numa área mais marginal do sítio arqueológico, e não no interior da pirâmide. “Os peruanos estão interessados na cosmologia. A gente se preocupa com o que o povo comia e onde cagava”, resumiu Neves.

 

O cientista fez 60 anos em 17 de outubro e solicitou para o dia seguinte sua aposentadoria do cargo de professor titular no Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP, onde trabalha desde 1992. Por muito tempo, comandou dezenas de escavações e esteve à frente de estudos ambiciosos. No fim da carreira, porém, abriu mão do protagonismo. “Não tenho mais condições psiquiátricas de lidar com três coisas: escrever projetos, preparar relatórios e prestar contas dos gastos”, me disse quando o encontrei no Peru. Ultimamente, só se animava a embarcar em missões organizadas por colegas.

Voltando do jantar naquela noite, enquanto caminhava pelas ruas de Lambayeque, Neves confessou que escavar no Cerro Ventarrón não o empolgava tanto. O vestígio mais remoto da presença humana por lá remonta a 4,8 mil anos atrás. A partir de então, diferentes povos ocuparam o sítio até a época dos incas, no século XV. O cientista da Universidade de São Paulo prefere estudar grupos mais antigos. Na região que conhece melhor – a de Lagoa Santa, em Minas Gerais, cerca de 40 quilômetros ao norte de Belo Horizonte –, descobriu evidências humanas com mais de 10 mil anos. “Quando os caras começam a fazer cerâmica, perdem a graça para mim.”

Os cabelos de Neves, embora estejam em franco recuo, ainda são predominantemente negros. Cortados rentes à cabeça, destoam da barba grisalha. Houve um período – de mais fartura, certamente – em que o pesquisador os usou compridos. No Peru, foi ao sítio arqueológico trajando um colete azul com bolsos em profusão e uma velha calça cargo. Sobre a cabeça, exibia um chapéu sem abas com motivos coloridos, que trouxe da Geórgia, onde participou de uma escavação em 2002. Ali experimentou um dos momentos mais marcantes de sua carreira ao exumar os restos de um ancestral dos humanos modernos – um Homo erectus que viveu há 1,8 milhão de anos.

Em Lambayeque, o cientista se encarregou do “caderno de campo” – na realidade, um laptop em que tomava notas. “O registro bem-feito das escavações já é metade do caminho para a redação de um artigo científico”, explicou. “Nas notas, você descreve a metodologia do trabalho, diz quem fez o quê e registra o horário em que as tarefas começaram e terminaram, além de impressões gerais sobre o que se está escavando.” Quando não se encontrava ao laptop, Neves perambulava pelo sítio e acompanhava de perto as incursões de Arcuri e sua equipe, formada por uma dezena de professores, alunos e técnicos. Naquele dia, o pesquisador também se envolveu com outras atividades: peneirou sedimentos e “alisou um perfil” – função que consiste em aplainar a parede de um buraco escavado. “Não exige mais que dois neurônios”, ironizou enquanto executava a tarefa com uma colher de pedreiro, ferramenta de estimação que carrega desde os anos 80. Pouco antes, usara o mesmo utensílio para partir uma fruta e misturar o café com adoçante.

Natural de Três Pontas, no sul de Minas Gerais, Walter Alves Neves é filho justamente de um pedreiro com uma dona de casa. Em 1978, mostrou ao pai a foto da primeira escavação de que participou. O velho se emocionou, mas não propriamente de alegria. “Estou é triste”, disse ao caçula. “Lutei tanto nesta vida para você não pegar numa colher de pedreiro…” Na infância, Neves teve pouco acesso a revistas ou livros que o despertassem para a ciência. Mesmo assim, aos 8 anos, já queria ser cientista. Ele associa a descoberta da vocação a um desejo prosaico – o de saber o que havia atrás de um morro próximo à sua casa. “Eu sonhava toda noite com o diabo do morro, que ficava logo depois de um riacho onde costumávamos pescar.” O garoto insistia para que o levassem até lá, mas ninguém o escutava, o que lhe atiçava ainda mais a vontade de explorar o desconhecido. “Nunca ter pisado atrás daquele morro me fez ser cientista.”

O pesquisador só saciou a curiosidade décadas depois, quando visitou sua cidade natal e subiu a famigerada colina acompanhado de seu único irmão e da cunhada. Não se deparou com nada muito surpreendente: do outro lado, havia apenas uma sucessão de montanhas cobertas por cafezais.

 

O jeito mais preciso de definir Neves é chamá-lo de bioantropólogo. Ele se dedica a um ramo da antropologia que explora os aspectos biológicos de nossa espécie. A disciplina almeja compreender, por exemplo, a anatomia do Homo sapiens e sua relação com nossos primos vivos (chimpanzés, gorilas, bonobos) ou antepassados extintos.

Um dos principais recursos de que o cientista lança mão para estudar os fósseis é a medição rigorosa dos crânios – ou craniometria. A comparação entre resultados obtidos em diferentes localidades permite apontar padrões comuns a certos grupos humanos e entender como cada um deles se espalhou pelo globo. O pesquisador, porém, não se contenta em medir e descrever os crânios. Também procura saber quem eram esses indivíduos, do que se alimentavam, quais doenças contraíam e como enterravam os mortos. Para montar o quebra-cabeça, precisa recorrer a uma grande variedade de especialistas. Não à toa, sempre se cercou de colegas e alunos ora ligados à biologia e à geologia, ora às ciências sociais.

As pesquisas do bioantropólogo têm os dois pés na arqueologia, ciência que esmiúça a cultura dos povos antigos a partir dos vestígios materiais que deixaram. Por isso, não é raro (nem incorreto) vê-lo definido como um praticante dessa disciplina. A arqueologia, aliás, mostra-se ela própria um campo interdisciplinar por definição. Situa-se no cruzamento entre as humanidades, as ciências naturais e da terra e a estatística. Mas Neves – biólogo de formação – se considera acima de tudo um evolucionista. “Meus eixos de interesse têm sempre a perspectiva da teoria evolutiva. Essa é a linha mestra.”

 

Quando estava em campo no Peru, a equipe brasileira almoçava num restaurante localizado a algumas centenas de metros do sítio arqueológico. Era um lugar simples, de comida caseira, distante do refinamento que o bioantropólogo busca sempre que possível – ele costuma dizer que a vida não merece ser vivida sem glamour. Para compensar a refeição pedestre, providenciava uma garrafa de vinho do Porto, que abria depois da sobremesa. “Desde que frequentei o Império Britânico virei um inglês na Índia”, justificava-se. “Tem que ter meus chás, meus cafés e meu Porto.”

O pesquisador fazia alusão a seu primeiro emprego, como office-boy da Rolls-Royce no ABC paulista. Ele estava com 13 anos e, em companhia da família, havia se mudado de Minas para São Bernardo do Campo atrás de melhores oportunidades. Ficou na empresa automobilística inglesa por quase uma década e saiu como assistente de gerente. Volta e meia, relembra a imponência que predominava nos escritórios, o primeiro ambiente suntuoso de que fez parte. “Imagine: uma bichinha caipira trabalhando para o Império Britânico”, disse o cientista, gay assumido desde os anos 80.

Neves passava o dia na Rolls-Royce e estudava biologia na USP à noite. Em 1978, ainda aluno da graduação, foi contratado como técnico de laboratório no Instituto de Pré-História da universidade, hoje extinto. Só conseguiu certo conforto financeiro depois de virar pesquisador do mesmo instituto, em 1981 – ano em que entrou no doutorado. Na ocasião, estudava os sambaquieiros, grupos pré-históricos que se espalharam pelo litoral brasileiro, de Santa Catarina ao Espírito Santo.

Numa van, enquanto retornava do sítio arqueológico para o hotel em Lambayeque, o bioantropólogo contou que foi demitido da USP em 1985, poucos meses depois de defender sua tese de doutorado. Ele atribui a demissão ao corporativismo de colegas que se opunham à introdução de métodos mais modernos na arqueologia nacional – bandeira que Neves e outros pesquisadores, também demitidos no mesmo período, levantavam.

A querela acabou sendo a primeira de inúmeras altercações do professor com acadêmicos de diversas vertentes. Ele não esconde, por exemplo, a animosidade que reserva à maioria dos arqueólogos do país. Critica-os notadamente pela falta de embasamento teórico e pelo uso de métodos inadequados. “A arqueologia brasileira é medíocre”, sentencia. Também dialoga mal com os cientistas sociais, a quem acusa de terem medo das ciências da vida.

Naturalmente, a desconfiança é recíproca, e a menção a seu nome pode gerar contrariedade em alguns círculos. “Às vezes, o Walter aponta de maneira bastante violenta as coisas que considera erradas. Não por acaso, já chocou várias pessoas e fez muitos inimigos”, pontuou o geneticista gaúcho Francisco Salzano, professor aposentado de 89 anos e um dos ídolos de Neves. Pesquisadores tidos como antagonistas do bioantropólogo – caso do americano Charles Loring Brace e do argentino Rolando González-José – não quiseram se pronunciar sobre o brasileiro.

 

Após a demissão na USP, o cientista mineiro ingressou no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, e ajudou a implantar um núcleo de pesquisa em antropologia ecológica, que estuda os humanos a partir de sua relação com o ambiente. Na cidade amazônica, viveu seis anos intensos, ao lado de um grande amor: o publicitário Wagner Fernandes, seu primeiro marido.

Em 1988, Neves recebeu um convite para representar o museu num evento na Suécia. Aproveitou a viagem e esticou até Copenhague, na Dinamarca, onde realizou um velho sonho: conhecer o acervo que Peter Lund, pioneiro da paleontologia no Brasil, coletou em Lagoa Santa, na primeira metade do século XIX.

Depois de herdar parte da fortuna de um comerciante de tecidos, Lund saiu de Copenhague com a missão de recolher amostras da fauna brasileira para o Museu Real de História Natural de seu país. Em 1835, acabou se estabelecendo em Lagoa Santa. Ali, durante uma década, explorou centenas de grutas, interessado principalmente nos imensos mamíferos que habitaram a região, mas se extinguiram, como as preguiças-gigantes, os tigres-dentes-de-sabre e os gliptodontes, parentes do tatu tão grandes quanto elefantes.

Nos últimos anos em Lagoa Santa, o dinamarquês também se deparou com vestígios dos povos remotos que ocuparam a área. Numa única gruta – a Lapa do Sumidouro –, encontrou trinta esqueletos humanos. Muitos estavam ao lado de fósseis da fauna extinta. A descoberta deixou no ar uma questão: será que os humanos haviam convivido com aqueles animais portentosos?

Em Copenhague, Neves pôde medir quinze crânios coletados por Lund. Depois, analisou os dados com o argentino Héctor Pucciarelli e chegou à sua conclusão mais importante. Constatou que aqueles crânios ostentavam aspectos muito distintos dos que definem as atuais populações indígenas do continente americano. Propôs, assim, que pelo menos duas ondas migratórias ocuparam as Américas. Primeiro, a do povo de Lagoa Santa – com feições similares às dos africanos e aborígenes australianos contemporâneos, o grupo não deixou descendentes. Em seguida, a dos que originaram os índios de hoje – uma gente com traços ditos mongoloides, que se assemelhava aos habitantes atuais do nordeste asiático. Tanto num caso quanto no outro, os migrantes teriam vindo a pé pela Beríngia, porção de terra que unia a Sibéria ao Alasca (o nível dos mares era bem mais baixo naquela época). “Quando o Héctor e eu percebemos que as medidas dos crânios não equivaliam às dos atuais índios americanos, achamos que tínhamos feito alguma cagada”, recordou o bioantropólogo. “Revisamos os cálculos e só então nos convencemos de que era um grande resultado.”

Na van, ao evocar sua demissão da USP, o cientista garantiu não guardar rancor do episódio. “Se não me mandassem embora, eu não teria ido para o Museu Goeldi, não teria medido os crânios do Lund e não teria feito minha grande descoberta.” Ele foi readmitido por concurso na universidade sete anos depois da demissão, agora no Instituto de Biociências.

 

No início da década de 70, a arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire comandou uma missão franco-brasileira na região de Lagoa Santa. Sua equipe fez escavações numa área de 300 metros quadrados, situada dentro de uma gruta, a Lapa Vermelha IV. Lá, em 1974, topou com os restos de um esqueleto, incluindo o crânio, a 11 metros de profundidade. Tratava-se de uma mulher jovem que morrera em circunstâncias desconhecidas e não havia sido sepultada. Era aquela que, duas décadas depois, ganharia o nome de Luzia.

Pedaços de carvão encontrados na mesma camada que o fóssil tinham entre 14 mil e 18 mil anos. Por equivalência, a equipe concluiu que o crânio exibia idade semelhante. Mais tarde, porém, o francês André Prous – aluno de Laming-Emperaire que participou da missão e se tornou professor da Universidade Federal de Minas Gerais – demonstrou que não convinha usar os carvões para datar a descoberta. É que o crânio, antes de ser soterrado por sedimentos, rolara de uma camada mais alta para uma mais baixa.

Laming-Emperaire morreu subitamente em 1977, sem ver a data do fóssil corrigida. Foi vítima de um vazamento de gás ao tomar banho num hotel em Curitiba. Vinte anos antes, seu marido, José Emperaire, já havia morrido de maneira acidental, durante uma escavação na Patagônia chilena. “Madame Emperaire morreu completamente equivocada”, comentou Neves. Se a datação inicial estivesse correta, acrescentou, seria uma evidência irrefutável da presença humana nas Américas há pelo menos 14 mil anos. “Em outras palavras: seria a prova de que existiu no continente um grupo mais velho que o povo de Clóvis.”

O bioantropólogo se referia à população que, por muito tempo, foi considerada a primeira a habitar as Américas. Clóvis é o nome da cidade no Novo México, Estados Unidos, onde se achou uma ponta de lança junto a ossos de mamute no início da década de 30. Posteriormente, a peça teve sua idade estimada em torno de 13 mil anos. Vestígios parecidos encontrados em outros sítios arqueológicos indicaram que a América do Norte havia sido ocupada naquela época por tribos nômades oriundas da Sibéria, que caçavam grandes mamíferos, como bisões e mamutes.

Ocorre que, de uns tempos para cá, a primazia do povo de Clóvis vem sendo questionada. Tanto na América do Norte quanto na do Sul, arqueólogos têm encontrado indícios da presença humana anterior a essa cultura. Muitos especialistas, porém, recebem tais achados com descrédito. Até agora, o único sítio arqueológico anterior a Clóvis reconhecido de forma quase unânime pelos cientistas é o de Monte Verde, no sul do Chile, onde abundam evidências da presença humana há pelo menos 14,6 mil anos.

 

Os estudos de André Prous estabeleceram a idade de Luzia em aproximadamente 13 mil anos. Ela seria, portanto, contemporânea ao povo de Clóvis – e seu crânio, o mais antigo já descoberto nas Américas. Mas a afirmação deve ser relativizada em virtude das incertezas que envolvem a datação, que ainda é objeto de debate entre os cientistas. Não há meios de precisar a idade do fóssil, já que seu colágeno não foi preservado.

Atualmente, o crânio de Luzia integra o acervo do Museu Nacional, que pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Neves teve acesso a ele apenas em 1995, quando pôde definir suas características morfológicas. Antes, precisou colar os ossos para reconstituí-lo, pois estava todo fragmentado. “É uma casca de ovo, nem dá para fazer uma réplica.” Durante as medições no museu, um aluno do pesquisador comentou que aquela era a Lucy brasileira. Fazia menção ao fóssil de uma fêmea de australopiteco de 3,2 milhões de anos que, encontrada na Etiópia, confirmou o fato de esses ancestrais dos humanos já serem bípedes. Neves rebateu o comentário e tratou de abrasileirar o nome: o exemplar mineiro se chamaria Luzia.

Quatro anos depois, repentinamente, a imprensa começou a procurar o cientista para falar sobre o crânio. Ele logo entendeu o motivo do zum-zum-zum: sem que o pai de Luzia soubesse, a BBC havia realizado uma tomografia computadorizada do fóssil no Museu Nacional e a levado para Richard Neave, especialista britânico em reconstrução de faces. Com base no exame, Neave esculpiu o rosto provável de Luzia. “Ela tinha cara de africana e australo-melanésia, como eu já havia concluído em relação aos crânios de Lund”, relembrou Neves, sem esconder a satisfação.

Em 1999, fazia uma década que o bioantropólogo e Pucciarelli haviam publicado seu modelo das ondas migratórias, primeiro na revista brasileira Ciência e Cultura e, depois, em periódicos estrangeiros. O argumento da dupla sobre a ocupação das Américas ganhou alguma força à medida que esqueletos com as mesmas características de Luzia eram descobertos não só em diversos pontos do território nacional como na Colômbia, no sul do Chile, no México e nos Estados Unidos. As evidências se acumularam e hoje a hipótese de Neves e Pucciarelli se assenta sobre a análise de centenas de indivíduos.

Ainda assim, o modelo está longe da unanimidade. Estudiosos o veem apenas como uma das muitas opções para explicar o povoamento do continente americano, não necessariamente a mais provável. A reticência se deve, em parte, ao fato de a hipótese não ter sido corroborada por ferramentas genéticas que vêm ganhando importância nas pesquisas arqueológicas. Mais precisas e acessíveis do que nunca, as técnicas responsáveis pela extração de DNA dos fósseis se tornaram indispensáveis para elucidar a identidade dos primeiros americanos.

Por ora, a maioria dos levantamentos genéticos sobre o assunto não sustenta as postulações de Neves e Pucciarelli. Foi o que me explicou André Strauss, ex-aluno do bioantropólogo que se especializou no estudo do DNA para reconstituir a história de populações antigas: “Uma boa parcela desses trabalhos indica que o primeiro povoamento das Américas aconteceu há uns 16 mil anos por um pequeno grupo que não tinha conexões genéticas profundas com o de Lagoa Santa.” Ou seja: o povo de Luzia parece não ter deixado rastros no DNA dos índios atuais.

 

Walter Neves vê com antipatia resignada a importância que a genética adquiriu no debate sobre a ocupação das Américas – tendência que ele chama de “ditadura do DNA”, baseada às vezes em análises contestáveis dos dados moleculares. Com suas pesquisas ancoradas na medição de crânios, o cientista se enxerga como o primo pobre dos pesquisadores da pré-história americana. “Qualquer estudo de morfologia craniana é considerado o cocô do cavalo do bandido, em pó”, exagerou.

De fato, alguns colegas colocam em segundo plano a técnica privilegiada pelo mineiro. “É preciso aceitar que os dados genéticos se mostram bem mais poderosos que os dados ‘quase genéticos’ fornecidos pela morfologia dos crânios”, escreveu num e-mail o bioantropólogo alemão Lars Fehren-Schmitz, de 41 anos, que capitaneia um laboratório de DNA das populações antigas na Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Para ele, o cientista da USP só leva a sério as evidências dos estudos genéticos quando favorecem seu modelo. Fehren-Schmitz acha “meio teimosa” a posição de Neves nessa discussão. “Adoraria vê-lo colaborar mais com os geneticistas.”

O brasileiro sabe que, se continuar confrontando a turma da genética, jamais conseguirá de seus pares o apoio inconteste à sua hipótese de ocupação do continente. “É difícil admitir, mas meu modelo só vai deslanchar caso venha a comprovação pelo DNA fóssil.” Apesar disso, e embora pertencesse a um departamento de genética na USP, o bioantropólogo nunca incluiu o estudo do DNA antigo entre as principais linhas de atuação de seu laboratório. De certo modo, perdeu o trem da história.

Um ex-aluno de Neves pode ser o responsável por reverter a situação. André Strauss, paulistano de 33 anos, cabelos pretos e olhos azuis, se graduou em geologia e ciências sociais antes de embarcar para a Alemanha a fim de se aprofundar no estudo do DNA antigo. “Esse tipo de análise é a maior revolução técnica que a arqueologia presenciou desde a datação por carbono-14, surgida na década de 40”, resumiu. O jovem cientista, que retornou da temporada alemã em meados de 2017, lamenta que o levantamento genético das populações de Lagoa Santa não figurasse entre as prioridades do grupo de Neves. “É quase uma negligência não transformar aquele laboratório no principal centro latino-americano de extração de DNA antigo.”

Hoje o rapaz está à frente de um estudo que tenta extrair DNA de esqueletos encontrados em sítios arqueológicos do Brasil. Também apresentou para a Fapesp, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, um projeto que prevê uma “atualização metodológica” no laboratório do cientista veterano. Seu plano é incorporar ali técnicas para analisar o DNA antigo e criar cópias digitalizadas dos fósseis.

 

Destronar de vez o modelo de Clóvis e comprovar o seu próprio acabou se convertendo na maior prioridade da carreira de Walter Neves. Desde cedo, ficou claro que o cientista só lograria êxito se tivesse mais e melhores dados. Além de datar e analisar o material já colhido por outros pesquisadores e guardado em museus, precisaria promover ele mesmo novas escavações em Lagoa Santa.

A região é um celeiro de tesouros arqueológicos. Em incursões sucessivas realizadas desde os tempos de Peter Lund, encontraram-se por lá restos de pelo menos 250 esqueletos de povos que enterravam seus mortos nos abrigos calcários – uma coleção inigualável para quem investiga os primeiros habitantes das Américas. Não à toa, Neves arquitetou um plano de pesquisa monumental, uma verdadeira operação de guerra, com muita gente e fartos recursos financeiros. “Só faria sentido escavar em Lagoa Santa se fosse em grande estilo”, me explicou. A Fapesp abraçou a ideia e, de 2000 a 2009, injetou 2,4 milhões de reais na iniciativa, que pretendia compreender quando e de que maneira os humanos chegaram ao continente. Daí ficar conhecida como Projeto Origens.

O bioantropólogo tratou de arregimentar um grupo multidisciplinar para a empreitada. Convocou, por exemplo, o geoarqueólogo paulistano Astolfo Araújo, que fazia doutorado no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, onde agora leciona. O estudante ficou chocado ao ver o professor no MAE. A instituição, afinal, é a herdeira do extinto Instituto de Pré-História, que havia demitido Neves em 1985 e abrigava alguns de seus inimigos figadais.

O criador do Projeto Origens também necessitava de um pesquisador residente em Lagoa Santa para coordenar as escavações. Pensou no mineiro Luís Beethoven Piló, geomorfologista que estuda a evolução da paisagem na região. Falando de Belo Horizonte, onde atua numa empresa de consultoria, Piló contou que alugou uma casa nas proximidades do sítio arqueológico e ali morou por três anos e meio. “Era praticamente de frente para a Lapa do Sumidouro, a caverna em que Lund mais trabalhou no fim de suas pesquisas.”

As escavações aconteciam durante as férias de julho, quando professores e alunos se livravam das aulas em suas respectivas universidades. No primeiro dia de campo, o bioantropólogo juntou a equipe e fez uma preleção. Disse que provavelmente desenterrariam indivíduos sepultados havia milhares de anos. “Gostaria que vocês resgatassem esses mortos com muito respeito”, recomendou. A cada fim de tarde, Neves reunia os colegas para discutir os achados mais recentes.

Se não estava tomando notas ao computador, o cientista circulava pelo sítio e conversava com os pesquisadores. O arqueólogo Mark Hubbe, que àquela altura era doutorando do bioantropólogo na USP, mencionou uma idiossincrasia do orientador quando o entrevistei. “Às vezes, no meio de uma escavação, por volta das onze da manhã, um balde descia ao buraco com uma xícara do chá importado do Walter.”

 

O Projeto Origens e as escavações que continuam a ser feitas em Lagoa Santa, agora sob o comando de André Strauss, permitiram ampliar significativamente o entendimento sobre os povos que ocuparam a região. Tudo indica que comiam vegetais e bichos de pequeno ou médio porte, como peixes, roedores, porcos-do-mato e tatus. Os esqueletos e crânios recolhidos exibem as mesmas características de Luzia e puderam ser datados com um detalhamento inédito em sítios do continente. Ficou claro para os pesquisadores que grupos humanos habitaram os abrigos calcários da área cerca de 12 mil anos atrás. E que, há 11 mil anos, começaram a enterrar seus mortos ali – costume mantido até pelo menos 8 mil anos atrás.

Só na Lapa do Santo, um dos três abrigos escavados durante o projeto, exumaram-se dezenas de cadáveres. Lá se descobriu o mais antigo caso de decapitação nas Américas. O crânio em questão foi sepultado junto de duas mãos decepadas, uma virada para cima e a outra para baixo. Encontraram-se igualmente crânios de adultos enterrados com corpos de crianças e vice-versa. Ou crânios incrementados por dentes extraídos de outros indivíduos. Os cientistas ainda não têm – e provavelmente nunca terão – uma boa explicação para esses fatos.

Dúvidas à parte, sabe-se que os diversos tipos de sepultamento evidenciam duas coisas: os primeiros ocupantes de Lagoa Santa passaram por transformações culturais; tais grupos se diferenciavam entre si. Por isso, faz mais sentido referir-se a eles como os povos de Luzia, no plural.

No decorrer das escavações, os pesquisadores também descobriram uma peça curiosa de arte rupestre: uma figura humana gravada em pedra, que se destaca pelo pênis empinado. Em tom de gozação, a equipe de Neves a apelidou de Taradinho. Num artigo de 2012, publicado na revista americana PLOS ONE, os cientistas relataram a descoberta e descreveram o membro como “um falo superdimensionado”. Já numa entrevista para o Programa do Jô, o bioantropólogo preferiu defini-lo como “um caralho maravilhosamente grande”. Com cerca de 10,6 mil anos, o Taradinho é a mais antiga arte gravada em pedra de que se tem notícia nas Américas.

O Projeto Origens possibilitou, ainda, resolver a dúvida levantada por Peter Lund sobre o convívio dos humanos com os animais gigantes de Lagoa Santa. Os pesquisadores não localizaram novos fósseis de mamíferos extintos, mas mandaram datar ossos achados anteriormente e constataram que os bichões estiveram por ali há pelo menos 10,4 mil anos – o suficiente, portanto, para terem topado com os povos de Luzia.

A ousada iniciativa do bioantropólogo já rendeu mais de 200 trabalhos acadêmicos, entre artigos, capítulos de livros e papers apresentados em congresso. Nenhum outro esforço brasileiro de pesquisa arqueológica gerou tantos frutos. A empreitada, porém, trouxe certa amargura para Neves, uma vez que as escavações nunca se depararam com vestígios humanos contemporâneos a Luzia ou mais velhos. “Falhei em demonstrar que houve uma ocupação pré-Clóvis na região de Lagoa Santa”, lamentou o cientista. “Talvez não existam mesmo sítios anteriores a Clóvis na América do Sul”, prosseguiu, em tom resignado. Em seguida, questionou: “Somos nós que não conseguimos encontrar sinais muito antigos da presença do homem nas Américas ou são os registros arqueológicos que estão nos dizendo algo que não queremos aceitar?”

 

Parte do material coletado em Lagoa Santa teve como destino a reserva técnica que o pesquisador montou no Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH), criado por ele próprio na USP. O precioso acervo está armazenado em caixas metodicamente etiquetadas, num espaço climatizado e com umidade controlada. São dezenas de crânios e ossos, além de ferramentas de pedras lascadas e vestígios da fauna e da flora antigas.

“Lá tem material para décadas de trabalho”, assegurou o arqueólogo Pedro Tótora da Glória, um homem calvo, de barba cheia, que acabou de completar 36 anos. Integrante do grupo de Neves desde o começo do Projeto Origens, ele é um dos beneficiários do acervo que ajudou a constituir. Lidera uma pesquisa que tenta desvendar o que os dentes e ossos fossilizados ensinam sobre o estilo de vida e a saúde dos povos de Lagoa Santa.

O LEEH ocupa um conjunto de salas no 2º andar do Instituto de Biociências. O ambiente principal é amplo e decorado com um esqueleto humano e diversos crânios de Homo sapiens e seus parentes. Sobre as bancadas e mesas, destaca-se uma profusão de cacos de ossos que aguardam tratamento. Em meados de agosto, dois crânios amarelados e semiesfacelados esperavam ser reconstruídos com cola escolar. Pesquisadores, técnicos e estudantes da graduação ou da pós frequentam o lugar. O bioantropólogo já orientou vinte dissertações de mestrado e sete teses de doutorado, mas vinha arrefecendo o ritmo no fim da carreira. Nos últimos sete anos, teve apenas uma aluna de mestrado.

“Walter às vezes abria a porta de seu gabinete, colocava a cabeça para fora, espiava o que estávamos fazendo e gritava: Paper! Depois, retomava suas atividades”, contou a arqueóloga Mercedes Okumura, ex-aluna de doutorado. O bioantropólogo cobrava dos estudantes que escrevessem artigos científicos e, assim, incrementassem seus currículos. Queria ter um laboratório de nível internacional. O clima, pode-se imaginar, era competitivo. “Quem sobreviveu à pressão realizou trabalhos importantes”, disse Pedro da Glória. O renomado professor vivia dizendo que é um cientista medíocre e cobrava dos alunos que o superassem. Estimulava o crescimento intelectual deles e não parecia se sentir ameaçado quando se destacavam. “Ciência é generosidade”, costumava apregoar.

Debochado, dava apelido aos estudantes e fazia piada tanto com a própria sexualidade quanto com a dos interlocutores. Em 2006, a revista G Magazine, destinada à comunidade gay, o entrevistou. “Um cientista fora do armário”, anunciava a chamada de capa. Sem nenhum embaraço, Neves recomendou aos pupilos que lessem a matéria e deixou um exemplar da publicação no escaninho do laboratório, com uma página marcada. “Quando você abria a revista na parte indicada, via um imenso moreno pelado”, rememorou o ex-aluno Mark Hubbe, às gargalhadas. 

 

Paulistano, Hubbe descende de alemães e passou sete anos no laboratório do bioantropólogo. Hoje, aos 38, leciona na Universidade Estadual de Ohio. Dos Estados Unidos, por Skype, apontou uma das principais contribuições do antigo mestre: formar pesquisadores com uma visão globalizada da ciência. “A antropologia biológica é pouquíssimo desenvolvida no Brasil. Conta com menos de dez doutores, muitos orientados pelo Walter.” Só no departamento da universidade em que Hubbe atua, existem doze professores da disciplina. “Tem mais massa crítica aqui do que em todo o território brasileiro.”

Vários dos doutores que Neves formou dão continuidade às suas linhas de pesquisa e implantaram filiais informais do LEEH pelo país. É o caso de Danilo Vicensotto Bernardo, professor na Universidade Federal do Rio Grande, no litoral gaúcho, e de Mercedes Okumura, pesquisadora do Museu Nacional, no Rio. Ambos já orientaram o mestrado de estudantes que estão entre os primeiros netos acadêmicos do cientista sexagenário.

Quando lhe indagavam qual o melhor curso de pós-graduação em bioantropologia no Brasil, Neves respondia de bate-pronto: “O aeroporto de Guarulhos.” O pesquisador estimulou alguns pupilos a se especializarem no exterior, em áreas nas quais ele não é treinado. O paraense Rui Murrieta, de 51 anos, foi o primeiro aluno que o cientista encorajou a estudar fora. Ele cursava antropologia em Belém quando Neves sugeriu que enveredasse pela ecologia humana aplicada aos estudos evolutivos, tema que o bioantropólogo pretendia incorporar às suas pesquisas no Museu Goeldi. Murrieta aceitou o desafio e fez mestrado e doutorado numa universidade americana, a do Colorado. Ao retornar, prestou concurso na USP e se tornou colega do ex-professor, integrando-se a seu laboratório.

 

Walter Neves programou se aposentar um dia depois de comemorar 60 anos (mas seu desligamento ainda não havia sido publicado no Diário Oficial paulista até a conclusão desta edição). Quando perguntei por que decidiu parar tão cedo, o cientista revelou ter sido diagnosticado com a síndrome de Burnout, estado crônico de exaustão física e mental causado pelo estresse no trabalho. Disse, ainda, que já não consegue acompanhar as novidades de sua disciplina. “É hora de passar o bastão.”

Ele não pretende, no entanto, abandonar por completo a vida acadêmica. Seguirá executando as tarefas que mais lhe dão prazer, como ir a campo em projetos organizados pelos colegas. “Ao menos uma vez por ano, necessito mexer com terra.” Em março de 2018, deverá viajar para Moçambique. Vai atrás de vestígios de hominídeos que viveram ali há 2 milhões de anos. Será a primeira vez que trabalha na África.

O ex-aluno Rui Murrieta já se dispôs a montar um gabinete para Neves próximo ao dele. Mas defende que o professor se afaste do laboratório, evitando fazer sombra ao novo chefe. “Ele precisa entregar a chave”, opinou. Caso contrário, corre o risco de virar uma eminência parda como o antropólogo Claude Lévi-Strauss, que manteve seu gabinete no Collège de France até os 100 anos. “Ninguém tinha coragem de tirar o velho de lá”, brincou Murrieta.

Assunto para Neves não vai faltar. A arqueologia é uma ciência lenta e a consolidação dos dados recolhidos em campo pode demorar muitíssimo. O bioantropólogo contou que ainda está publicando resultados de escavações feitas em 2009. “Mesmo se não escavar mais nada, disponho de material para redigir artigos pelos próximos dez anos.”

O pesquisador também planeja dedicar-se às atividades de divulgação científica, que sempre ocuparam espaço importante em sua carreira. Ele costuma lidar bem com repórteres e, desde que morava em Belém, gosta de escrever para o grande público. À época, assinava uma coluna sobre evolução no jornal O Liberal. Neves encara esse tipo de ação como um exercício de cidadania. “Se as pessoas soubessem o quanto custou para nossa espécie chegar a tamanha diversidade, se entendessem a complexidade do processo evolutivo, seriam mais tolerantes umas com as outras.”

Autor de livros para leigos – como O Povo de Luzia, que escreveu com Luís Beethoven Piló –, o cientista já fez curadoria de exposições em museus. É dele a concepção da mostra sobre evolução humana no Espaço Catavento, em São Paulo. “Às vezes, a visito só para observar a reação do público”, confidenciou.

Faltava-lhe discorrer mais sobre ciência no meio audiovisual. A lacuna começou a ser preenchida neste ano, quando o pesquisador passou a estrelar vídeos curtos para a TV USP. Disponíveis também na internet, são produzidos no LEEH, frequentemente com o professor sentado e de crânio na mão.

Numa quarta-feira de agosto, o cientista gravou duas aulas de quinze minutos. Parecia nervoso de início, mas ficou à vontade assim que ligaram a câmera. A segunda aula, que discutia as semelhanças entre humanos e chimpanzés, saiu num só take. “Você é demais!”, elogiou a diretora Mônica Teixeira, ao constatar que o professor falara por quinze minutos cravados. Neves deu uma risada e disparou: “Estamos com o cu calibrado!”

 

O bioantropólogo marcou a última entrevista para esta reportagem num restaurante italiano que frequenta em São Paulo – o mesmo aonde Adriane Galisteu, Marília Gabriela e Miguel Falabella costumam ir, a julgar pelas fotos no mural do estabelecimento. Naquela segunda-feira de agosto, a temperatura mínima prevista era de 11 graus. Sem tirar o cachecol à mesa, o pesquisador pediu espaguetine com azeite trufado e amêndoas. Depois, finalmente evocou sua grande história de amor, que prometia me contar desde a viagem ao Peru. “Venho de um noivado, cinco casamentos e um funeral”, sintetizou, um tanto sarcástico.

O caso mais marcante foi o do primeiro marido, Wagner Fernandes, o publicitário paulista que se mudou com Neves para a Amazônia quando o cientista ingressou no Museu Goeldi. “A gente se amava como quem ama a luz do sol. Saíamos abraçados pela Belém dos anos 80 e nada que as pessoas pudessem fazer nos abalaria.” Fernandes ajudou a fundar o Grupo de Apoio à Prevenção a Aids, pioneiro do gênero no país. Ironicamente, contraiu o vírus hiv, e o idílio ganhou ares de tragédia. Quando os sintomas iniciais da síndrome apareceram, em 1988, o professor cuidou do parceiro, sem interná-lo. Para tanto, contava com as orientações das redes de ativismo contra a doença. Conseguiu manter o publicitário vivo, em casa, por quatro anos. “Foi meu maior experimento científico”, afirmou, com a voz embargada. Ele gostaria de escrever um livro a respeito do companheiro morto. “Quando eu contar a história de Walter e Wagner, ninguém mais vai pensar em Romeu e Julieta.”

O pesquisador declarou jamais ter sofrido preconceito na academia por sua orientação sexual. “Fui discriminado às vezes pelo fato de ser inteligente e trabalhador, mas nunca por ser gay.” Sobre seu quinto casamento, que dura quatro anos, preferiu manter a discrição. Informou apenas que o parceiro é mais jovem do que ele.

 

Vários ex-alunos de Neves logo irão se enfrentar no concurso que escolherá seu sucessor e futuro coordenador do laboratório na USP. “Não será fácil substituí-lo. Walter tem sapatos muito grandes para se preencher, como dizem nos Estados Unidos”, avaliou Mark Hubbe, o ex-pupilo que hoje leciona em Ohio. “Não creio que exista, dentro ou fora do Brasil, um candidato com a visão, o carisma e o ecletismo teórico dele.”

Já o geoarqueólogo Astolfo Araújo acha que a sucessão está bem encaminhada. “Walter se cercou de pessoas competentes. Os estudantes ruins não sobreviveram a seu crivo, e agora há muita gente capaz de ocupar seu posto.” Segundo Danilo Bernardo, o paulistano que virou professor em Rio Grande, Neves manifestou com clareza o desejo de ver todos os ex-alunos disputando a vaga. “Nenhum de nós pode recusar o chamado.”

Organizado pelo Instituto de Biociências, o concurso foi aberto a qualquer pesquisador com doutorado em arqueologia biológica ou áreas afins. O salário inicial é de 10 670,76 reais e a prova escrita – primeira etapa da seleção – ainda não tem data para acontecer. “Difícil bater meus alunos”, previu Walter Neves no restaurante, lembrando que os estimulara a publicar desde a iniciação científica. “Vai ser uma briga belíssima.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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