memórias da Síria

O exemplo e a esperança

Com dois amigos e mochila nas costas, um jovem arquiteto descobre a ditadura síria

Guilherme Wisnik
Em fotos onipresentes na Síria, o ditador Hafez al-Assad aparece ladeado pelos filhos. Basel, <i> the example </i>, era o herdeiro político até morrer em um acidente de carro; Bashar, <i> the hope </i>, assumiu o poder com a morte do pai, em 2000
Em fotos onipresentes na Síria, o ditador Hafez al-Assad aparece ladeado pelos filhos. Basel, the example , era o herdeiro político até morrer em um acidente de carro; Bashar, the hope , assumiu o poder com a morte do pai, em 2000 FOTO: ANDRÉS SANDOVAL_2012

Volto a olhar agora para as esculturas funerárias de Palmira, todas frontais, em posição hierática e com os olhos arregalados. Parecem figuras em transe, espantadas pela visão de algo terrível ou sublime. Esculpidas em altos e baixos-relevos sobre pedra, são um enigma na história da arte, já que sua rigidez extática não combina com o naturalismo greco-romano que está na base de toda a arte e arquitetura da antiga cidade, importante entreposto na rota das caravanas entre a Pérsia e o Mediterrâneo. Penso nessas figuras, e no meu próprio espanto ao vê-las catorze anos atrás nas tumbas de Palmira, ao ler agora sobre uma das maiores matanças na história recente da Síria: o massacre de mais de mil detentos no Presídio Tadmor (nome aramaico de Palmira) em 1980, como retaliação à tentativa de assassinato do presidente Hafez al-Assad por integrantes da Irmandade Muçulmana. Em janeiro de 1998, quando visitei as ruínas da chamada “Noiva do Deserto”, as referências funerárias me remetiam ao passado longínquo, e flutuavam na dimensão do mistério. Impossível não pensar agora na persistência daqueles olhos arregalados, demonstrando uma convergência sinistra entre adoração e tragédia.

Cruzamos a fronteira da Turquia para a Síria em Kilis, numa região nada turística. Éramos eu, Elaine Ramos e Andrés Sandoval, estudantes universitários, em uma viagem de mochileiros que começou na Europa, mas derivou impulsivamente para o Oriente Médio, muito por influência dos filmes iranianos que Leon Cakoff começava a exibir em São Paulo naquela época, sem que tivéssemos tempo ou intenção de investigar antes o que poderíamos encontrar ali. Pois se o Iraque e a Palestina ocupavam o noticiário internacional da época no Brasil, da Síria pouco ou nada se falava.

De Gaziantep para Kilis fomos em um ônibus, e de lá para a fronteira em uma Kombi, lotação na qual, no entanto, só embarcamos nós três. Já era noite, e víamos apenas a extensa cerca de arame farpado ao fundo, com luzes verdes pontilhando o horizonte escuro mais ao longe, do lado sírio. No posto de fronteira, apenas um soldado que não falava uma palavra de inglês, e que nos serviu seguidas rodadas de chá, olhando nossos passaportes como se fossem brinquedos exóticos. Uma mulher de burca preta chorava do lado de fora, encostada ao muro. O policial apenas sorria. Dentro da pequena cabine, as paredes estavam todas forradas por fotos variadas das mesmas pessoas: um senhor ao centro, ladeado por dois jovens. O kitsch colorido dessas fotos, parecendo um mural de escola, abrandou a nossa apreensão. Ficamos olhando demoradamente para esses três sujeitos posando sempre em situações diferentes, ora com roupas militares, ora civis, com óculos escuros ou claros, e alternando flores e armas nas mãos. Depois de algum tempo entendemos que a decisão de sair dali e entrar no país cabia apenas a nós. Aceitamos a quinta rodada de chá, pegamos os passaportes sobre a mesa e caminhamos pela noite em direção às luzes verdes. Era Ramadã, o mês sagrado do Islã.

Do lado sírio não há cidade nesse ponto da fronteira. Homens em grupo discutiam ao redor de carros estacionados. Negociamos arduamente uma corrida até Alepo, que virou uma espécie de leilão encenado entre eles. Não escolhemos o motorista. Um deles é que resolveu nos levar, abrindo as portas de um carro pequeno, com muitas luzes e bugigangas penduradas por colares de conta entrelaçados, formando verdadeiros lustres. Fomos espremidos ali, mas embalados por uma música alta, bem percussiva, que acendia as luzinhas internas do carro em desenhos ritmados, parecendo ajudar o movimento sempre em frente. A essa percussão veio se somar a frenética buzina disparada pelo nosso motorista a partir do momento em que entrou na cidade, dando a impressão de que todos os passantes eram seus amigos ou conhecidos, e precisavam ser saudados. Ele parecia ainda mais feliz do que nós por chegar a Alepo.

Pedi que nos levasse ao hotel Al-Yarmouk, tentando pronunciar o nome da rua. O hotel era uma indicação do Guide Arthaud que eu havia comprado em Paris um pouco antes. Na categoria “barato”, o Yarmouk era o mais simples. “Nenhum charme, mas com muitos quartos espaçosos”, dizia o guia, e completava: “É o preferido dos russos.” Achei ideal para nós, chegando assim sem reserva tarde da noite e com pouco dinheiro. A rua era uma viela estreita, que o nosso carro desbravou em alta velocidade, com todas as luzinhas piscando e a buzina no máximo. Não foi preciso tocar a campainha. Um homem barbudo saiu de dentro do hotel e abraçou demoradamente o nosso motorista. Fiquei sem saber se era coincidência o fato de se conhecerem tão bem, ou se os sírios eram sempre assim, efusivamente afetivos. Na fachada, um letreiro escrito em árabe e em russo me deu a certeza de que a travessia tinha terminado bem.

Dentro do hotel, no entanto, a realidade não combinava com a descrição do guia. Mesmo considerando que o Yarmouk não teria nenhum charme, eu custava a acreditar que aquela espelunca de blocos de concreto sem reboco poderia constar em um guia de viagens internacional. Além da rispidez do homem barbudo, que eu supus ser o sr. Yarmouk, o problema principal era o frio. Estávamos no alto inverno, e o que nos foi oferecido como proteção noturna era apenas uma mantinha fina. Sistema de aquecimento? Nem pensar. O vento frio vazava por todas as frestas das janelas de alumínio mal construídas. Tentamos fazer valer nossos direitos, alegando que no guia de viagens não havia qualquer referência à falta de calefação, o que era totalmente inaceitável. O homem não se abalou com os argumentos, que eu não sei nem se entendeu completamente, mas resolveu, de qualquer forma, nos presentear com o seu próprio aquecedor elétrico, feito com uma serpentina incandescente. Mas essa esmola não abalou nossa revolta. Com frio, e convictos de estarmos sendo enganados, eu e Elaine chamamos Andrés para dormir na nossa cama, somando as finas cobertas ao aquecedor compartilhado, e ainda bradamos indignados: “Vamos pagar por um quarto apenas.” Nessa hora o homem barbudo deixou de lado qualquer lapso de gentileza. Enquanto íamos nos recostando os três em uma cama estreita, ele, de braços cruzados em posição firme diante de nós, fez menção de chamar a polícia e, caprichando no inglês, decretou seguro: Tri no. Two mister no. Nessa hora percebi que atrás dele, na parede do quarto, aquelas mesmas três figuras que vimos no posto da fronteira também nos miravam de forma inquisidora. Usavam boinas e fardas militares com óculos Ray-Ban, contrastando com um desenho de pôr do sol estilizado atrás deles, cujos raios de luz se transformavam em flores e asas de águias, em um crepúsculo laranja.

Como dormimos muito mal, e o hotel não oferecia café da manhã, saímos cedo às ruas procurando o que comer. Ali, logo percebemos que em Alepo quase tudo está escrito também em russo, e que aquele não era o Al-Yarmouk. Aquele hotel, do qual nem sei o nome, e que apelidamos de “Tri no”, era certamente de um amigo do taxista, que também não era exatamente um taxista. Será que aqui é mesmo Alepo? Uma incerteza paranoica me tomou naquela hora. Não era possível estar seguro quanto a muita coisa naquele lugar, em que o único turismo que parecia haver era o russo, e guiado por razões comerciais.

A mesma sensação de instabilidade nos tomou uma semana depois, quando, ao voltar de Palmira para Damasco – aonde já havíamos chegado dias antes, e nos instalado devidamente –, o ônibus quebrou de noite no deserto, e os passageiros tiveram que continuar a viagem como pudessem, abandonados à sua própria sorte. Terminamos entrando com uma pequena multidão em outro ônibus que passou na estrada e chegou lotado a uma estação rodoviária diferente daquela que conhecíamos em Damasco. Ali ninguém parecia compreender nem o nome do nosso hotel nem o da rua em que ele se localizava, nem sequer o nome da praça principal da cidade, Al-Marjeh, que parecia ser a referência mais segura. Aqui é mesmo Damasco? Ficamos errando por um tempo dentro de uma Kombi sem conseguir responder a essa pergunta, com uma sensação de desamparo maior do que a se estivéssemos perdidos dentro de um labirinto. Pois o labirinto, afinal de contas, pelo menos tem uma saída.

O labirinto é um elemento central na experiência diária de uma cidade árabe. Ainda mais no caso de estrangeiros, para quem a dificuldade de compreender o desenho sinuoso das ruas se soma à incompreensão do idioma e dos códigos culturais e sociais. Com 20 e poucos anos, fizemos uma viagem inesquecível – a Síria nos proporcionava a imersão num universo rico e estranho –, mas conhecemos as coisas de um modo certamente muito contemplativo e externo, ainda que não formatado pelo turismo. As únicas figuras realmente familiares para nós eram aqueles três homens que apareciam em todas as fotos estampadas nas cidades, desde a guarita do posto policial de fronteira. Não sabíamos quem eram, mas os reencontrávamos a todo momento, em outdoors, cartazes colados em muros, banners e bandeirolas pendurados nas ruas ou nas janelas, porta-retratos e calendários expostos dentro de lojas, restaurantes e hotéis, e mesmo em cartões ou pequenos selos vendidos em papelaria, como se fossem figurinhas de craques de futebol. Mas, como eu não conhecia os seus nomes e os seus papéis na vida nacional – embora pudesse intuí-los –, tratava-os carinhosamente como se fossem pessoas próximas, saudando-os a cada reencontro previsto, como que a comemorar ao menos uma certeza naquele lugar: a de que eles reapareceriam na próxima esquina.

Com o passar do tempo, percebi que abaixo das fotos dos nossos inseparáveis companheiros de viagem apareciam por vezes, além de palavras em árabe, duas singelas expressões em inglês. Elas designavam cada um dos dois jovens que compunham o trio. A um deles era associada a palavra the example (o exemplo), e ao outro the hope (a esperança). Exultei de alegria. Eles tinham nome! Nomes que traziam consigo esboços de personalidades. A partir daí, nossa proximidade evidentemente aumentou. Eu os encontrava nas ruas ou dentro das lojas, e já podia identificá-los de maneira mais apropriada. E de fato agora as coisas faziam um certo sentido. Pelas fotos, The Example parecia ser uma figura decidida, com postura afirmativamente agressiva, usando muitas vezes traje esporte, e mirando sempre em direção ao futuro; The Hope, em contraste, tinha a expressão perdida, com olhos claros, bigodinho ralo e bochechas rechonchudas, como que a clamar em segredo: “Tirem-me daqui, por favor, eu não queria nada disso…”

Foram poucas as pessoas com quem conseguimos estabelecer contato maior e desenvolver uma conversa prolongada. Perguntas sobre política eram sempre desviadas com risadas ou piadas metafóricas, que nos deixavam sem saber se era terminantemente proibido falar qualquer coisa a respeito, havendo o risco de escutas por toda parte, ou se as pessoas achavam esse um tema profundamente desinteressante. E, se perguntássemos sobre a identidade daqueles três homens tão onipresentes nas ruas e nos interiores públicos das cidades sírias – o que fazíamos sempre que possível –, recebíamos em resposta o mesmo riso evasivo e complacente, como que a insinuar que isso era algo com o que não deveríamos nos preocupar.

Um dia, na rua, Andrés conheceu Ahmed Fadhel, um arquiteto com quem conversou mais demoradamente, e que gentilmente nos convidou para jantar na sua casa aquela noite. Ele morava dentro da cidade velha, em um apartamento que se abre para as costas de um dos mercados cobertos, um lindo pátio que eles chamam de caravancerá. Fadhel era muito bem-humorado, e mantinha a mesma atitude evasiva dos sírios quando perguntado sobre política. Antes do jantar, nos levou para um tour pela cidade antiga, descrevendo o traçado original de Damasco, os elementos remanescentes de cada período histórico, as sucessivas transformações dos templos romanos em islâmicos, e as diferenças entre a arquitetura omíada e a turco-otomana. Ele não queria falar do presente, apenas do passado: um complexo acúmulo de estratos sobrepostos que montam o presente como um grande quebra-cabeça. A diferença, agora, é que começamos a conhecer algumas das peças desse jogo.

Depois do jantar, Fadhel nos colocou em seu carro, e seguimos pelas vielas estreitas do mercado até avenidas maiores e suburbanas, na direção do monte Qassioun, que delimita Damasco na direção noroeste. Chegamos até o topo de uma estradinha sinuosa, com um vento gelado e apenas uma barraca vendendo sopa de favas com cominho, que ele nos serviu como um grande manjar, dizendo ser muito superior à comida da sua casa. Aos nossos pés, Damasco era um pipocar de luzes na noite, com algumas claras e outras verdes, me fazendo lembrar a visão da Síria que tivemos ainda na fronteira da Turquia. Ali, no alto do monte Qassioun, foi a primeira vez que não vi nenhum cartaz ou foto dos nossos três companheiros de viagem. Estávamos, dessa vez, realmente sós.

The Hope? The Example? Fadhel ria como uma criança, dizendo o quanto eram infames esses qualificativos. A “família real” síria é muito cínica, disse ele de repente. Estranhamos o tom subitamente franco da conversa. Ele prosseguiu: “A Síria é uma ditadura disfarçada de república laica e socialista.” Em alguns minutos nos explicou a tomada do poder nos anos 60 pelo partido Baath, supostamente de esquerda, e a ascensão de Hafez al-Assad após um golpe militar, reprimindo violentamente desde então qualquer forma de oposição, o que fez da Síria esse país estranhamente pacífico, tal como podíamos comprovar. Assad era de uma minoria alauita em um país predominantemente sunita, nos contou Fadhel, e criou-se uma coalizão de poder baseada no nacionalismo pan-arabista, no poderio militar e no apoio externo da União Soviética e posteriormente do Irã. Assad era, evidentemente, o senhor postado no meio dos dois jovens em todas as fotos que vimos até então espalhadas pelo país. Isto é: o centro daquela trinca. E os outros dois, como era de se prever, os seus filhos: Basel e Bashar. A história política da Síria não me pareceu, naquele momento, muito diversa da trajetória de vários outros países do Terceiro Mundo tomados por golpes militares e ditaduras. O que mais me abalou naquela noite foi a revelação, feita afinal por Fadhel, de que Basel al-Assad, o filho mais velho do presidente, conhecido até então por nós como The Example, havia morrido quatro anos antes em um acidente automobilístico. Era um grande playboy que se vangloriava de seus títulos de equitação, disse ele, e acreditou que sua Mercedes pudesse voar como um avião.

Demorei a me recuperar do choque. Hoje penso naquilo que Freud chamou de “estranhamente familiar”. Apesar de morto, Basel seguia presente no cotidiano de todos como um exemplo espectral e absurdo, sobrevivendo também na imagem fantasiosa que criei dele sem querer. E Bashar, que não seguiu carreira militar para cursar medicina com especialização em oftalmologia, tendo feito pós-graduação em Londres, onde se casou com uma inglesa diplomada em literatura francesa, havia se tornado de um dia para o outro o próximo herdeiro do trono: a grande esperança da nação. Em que pese o sacrilégio da metáfora cristã aplicada a esse caso, para olhos latinos como os meus, aquilo era a própria imagem da Santíssima Trindade, composta pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo.

Com a morte de Hafez al-Assad em 2000, Bashar de fato cumpriu a promessa de se tornar o sucessor do trono, transformando a esperança em realidade. Essa farsa, no entanto, acaba de mostrar a sua face trágica. Pois, contrariando tanto a sua biografia ocidentalizada quanto a impressão ingênua que tive naquele tempo, por meio de fotos, de um sujeito melancólico que preferia no íntimo não estar envolvido na tentativa de lavagem cerebral do povo sírio, Bashar al-Assad se mostrou um ditador equivalente ao pai, disposto a usar todas as formas de violência para conservar o poder. Impermeável ao impulso de abertura política trazido pela Primavera Árabe, ele passou a reprimir violentamente todas as manifestações populares – inicialmente pacíficas –, levando a Síria a uma guerra civil.

Termino de escrever este texto no momento em que, após a deserção de altos oficiais até então leais ao regime, a guerrilha urbana entra em Damasco e em Alepo, transformando as ruas em nuvens escuras de pneus queimados, os telhados em esconderijos de atiradores e o céu em um campo de helicópteros armados. Numa ação de envergadura inédita até então, rebeldes não inteiramente identificados realizaram um atentado bem-sucedido contra a sede do organismo de segurança nacional, no Centro da capital, matando quatro autoridades do primeiro escalão, entre os quais o cunhado do presidente e o ministro da Defesa. Depois de dezesseis meses de conflitos difusos, os combates parecem tomar rumos decisivos, indicando a iminente desintegração do regime, o que já pode ter ocorrido quando você estiver lendo estas linhas.

Notícias de fugas em massa de civis pelas fronteiras, de torturas e estupro de crianças pelo país e de prostituição de jovens sírias na Turquia se somam ao fechamento de embaixadas em Damasco. As grandes preocupações internacionais, neste momento, são o possível uso de armas químicas pelo governo na fase final da guerra civil, a dificuldade de se saber quem assumirá o poder no país após o término de um conflito em que todas as possibilidades de uma transição negociada foram desperdiçadas, e um possível transbordamento das disputas internas para países vizinhos como Líbano e Iraque.

O contexto sírio é diferente do que se viu em revoltas anteriores da Primavera Árabe, em especial na Tunísia e no Egito. Apesar das razões evidentes para o descontentamento da população local em relação à dinastia Assad, no conflito sírio atores externos ganharam maior relevo, uma vez que as forças políticas de oposição no país foram brutalmente silenciadas durante as últimas décadas, sobretudo após o terrível massacre de Hama, em fevereiro de 1982, quando foram assassinadas entre 2 mil pessoas, segundo fontes oficiais, e 40 mil pessoas, segundo ONGs e jornalistas que estiveram no lugar. A Irmandade Muçulmana acabou banida.

O possível inverno da Primavera Síria é tratado com apreensão mundial porque coloca em causa elementos delicados do jogo de forças contemporâneo e atualiza velhos fantasmas. Elementos que escapam à identidade nacional, tais como disputas étnicas e religiosas que refletem e ecoam rivalidades regionais, dificultam saídas diplomáticas e aceleram a guerra civil. Os alauitas sírios se alinham ao regime islâmico do Irã e ao Hezbollah libanês, ambos xiitas, em oposição às monarquias sunitas da Arábia Saudita e do Catar, que armam grupos opositores como o Exército Livre da Síria. Um Comando Militar Comum formado por desertores militares de alta patente anuncia sua formação na Turquia, que aspira à liderança regional e a ser um modelo político de convivência entre o Islã e a democracia. Suspeita-se que extremistas islâmicos (jihadistas) estejam entrando na Síria, o que termina por colocar os Estados Unidos, que há meses vêm pedindo a renúncia de Assad, em uma posição de alinhamento com o fundamentalismo, ainda que em defesa da democracia.

Apesar da condenação ocidental à repressão de Bashar al-Assad, nenhum país parece defender uma posição clara, uma vez que, junto à reivindicação básica dos manifestantes sírios por democracia e justiça, agrupam-se interesses diversos – religiosos (a maioria sunita que se sente discriminada por Assad), de classe (as elites de Damasco e Alepo que até há pouco apoiavam o ditador) e regionais (a disputa de Israel e de parte dos países árabes com o Irã). As grandes potências fazem um jogo ambíguo entre as posições que aparentemente defendem e aquelas com as quais realmente se comprometem, enfraquecendo o plano de cessar-fogo aprovado por elas próprias no Conselho de Segurança da ONU e conduzido pelo ex-secretário-geral Kofi Annan.

Outra particularidade do conflito sírio, apontada por analistas como Patrick Seale, é o modo como ele atualiza os termos da Guerra Fria, opondo Rússia e China aos Estados Unidos e à Europa. Historicamente aliada ao Baath e à família Assad, a Rússia tem na Síria um importante (e último) posto de influência na região, tal como eu pude comprovar no microepisódio do hotel Al-Yarmouk. A China, consumidora do petróleo iraniano e refratária, por razões políticas domésticas, a intervenções externas que levem a mudanças de regime em outros países, veta sistematicamente, com a Rússia, as resoluções do Conselho de Segurança que preveem sanções militares e econômicas contra Assad.

Que futuro aguarda a Síria e o Oriente Médio, depois de tamanha turbulência? O mundo que se libertou do “fim da história” parece aguardar tal resposta, no espelho do seu próprio rosto sem face.

Quando vejo as imagens dos combates em Damasco, que começam a pipocar agora na internet e nos jornais, lembro-me menos dos passeios que fiz por lá, ou dos lugares que visitei, e mais da sensação de rodar ao léu dentro de uma Kombi clandestina, sem saber ao certo em que cidade estava. Ao perceber agora que, de certa forma, talvez eu nunca tenha saído completamente daquela Kombi, tenho vontade de pedir ao motorista que volte de marcha a ré até Palmira para que eu possa encarar novamente os olhos esbugalhados das estátuas em suas câmaras mortuárias, e dizer-lhes de súbito, como quem devolve o enigma: devora-me ou te decifro.

Guilherme Wisnik

Guilherme Wisnik  é arquiteto e ensaísta, autor de Estado Crítico: À Deriva nas Cidades, da Publifolha

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