despedida

O funcionário que não pediu perdão

Condenado por cumplicidade em crimes contra a humanidade, Maurice Papon é enterrado com a Légion d'honneur no peito

Mario Sergio Conti
O ex-ministro: 1600 ordens de deportação de judeus, 220 deles crianças, que foram para Auschwitz
O ex-ministro: 1600 ordens de deportação de judeus, 220 deles crianças, que foram para Auschwitz FOTO: PHOTOPRESS_POLARIS_OTHER IMAGES

O ancião falava com vigor, no tribunal do júri da cidade de Bordeaux, capital do departamento da Gironda, no interior da França. Porte altivo, ele cravou os olhos muito azuis no promotor e lhe disse bem alto, quase aos gritos: “O senhor vai entrar para a História – mas pela entrada de serviço!” Parecia ser ele o acusador, no julgamento de 1998, e não o réu. A frase, de dicção senhorial, informa alguma coisa sobre quem a disse, o alto funcionário, ex-deputado e ex-ministro Maurice Papon. Aos grandes de França, aos filhos de famílias ilustres, aos altos funcionários que serviram à República com denodo, aos Papon, enfim, caberia conduzir o país e, nessa condição, entrar triunfalmente nos anais da História. Aos outros caberia, quando muito, a porta dos empregados.

Maurice Papon teve uma carreira exemplar. Cursou boas escolas, formou-se em direito e ciências políticas, serviu no 2º regimento de infantaria colonial, em Trípoli, e apoiou a Frente Popular. Durante a ocupação da França pela Alemanha, foi secretário-geral da Gironda e dirigiu o Serviço de Questões Judaicas do regime colaboracionista de Vichy. Com a Liberação, ele exibiu um certificado mostrando que, desde o início de 1943, militava clandestinamente na Resistência.

A vida prosseguiu e Papon galgou postos. Foi administrador da Córsega, serviu na Argélia e De Gaulle o condecorou com a Légion d’honneur. Em 1958, foi nomeado chefe de polícia de Paris, cargo que ocupará durante oito anos. Foram tempos difíceis. Em 1961, ele comanda pessoalmente a repressão de uma manifestação pela independência da Argélia. No ano seguinte, sob suas ordens, a polícia ataca outra passeata, essa de protesto de argelinos. Vieram tempos mais amenos e gloriosos. Papon se elegeu deputado e prefeito e, por duas vezes, foi nomeado ministro.

Entre o fim da Guerra e o início dos anos 80, cultivou-se com afinco a narrativa heróica dos feitos da Resistência. Inventado por De Gaulle, e sacramentado no dia mesmo da retomada de Paris, no discurso que o general fez no Hotel de Ville (“Paris martirizada, mas Paris liberada! Liberada por ela mesma, liberada pelo seu povo, com o concurso da França inteira, da França que luta, da única França, da verdadeira França, da França eterna!”), o mito de que o regime de Vichy não teve nada a ver com a França estava disseminado por praticamente todas as instituições. Houve algumas fissuras, como o documentário A tristeza e a piedade, mas nada que botasse abaixo a imagem que o grosso da França fazia de si mesma.



Papon completara 70 anos. Era ministro do Orçamento. Estava prestes a entrar na História pela porta da frente. Resolveu então fazer uma inspeção fiscal nas finanças do jornal Le Canard Enchaîné. A inspeção fazia sentido, do ponto de vista da autoridade: o Canard é um jornal satírico que investiga a fundo a vida dos poderosos, e os irrita a mais não poder. O semanário revidou investigando a vida de Papon. Teve início uma dinâmica que levou ao verdadeiro Papon.

Descobriu-se então que, entre 1942 e 1944, o então secretário-geral da Gironda assinou as ordens de prisão e deportação de 1 500 judeus, inclusive 220 crianças. Documentos mostraram que os presos foram internados no campo de Drancy, nos arredores de Paris. De lá, foram encaminhados a uma misteriosa destination inconnue. O destino desconhecido ficava na Polônia. Era o campo de extermínio de Auschwitz.

Os fatos começaram a fazer sentido. Foram mais de quinze anos de revelações, pesquisadas por jornalistas, historiadores e, sobretudo, descendentes das vítimas do alto funcionário da Gironda. Ficou-se sabendo que, muito provavelmente, o certificado de que Papon integrara a Resistência era uma fraude. Soube-se que De Gaulle tinha pleno conhecimento de que Papon não fora resistente e ordenara a deportação de judeus. Soube-se que, na repressão da manifestação de argelinos em Paris, em 1961, morreu mais de uma centena de civis, e que Papon mandou que seus corpos fossem jogados no Sena.

Só em 1997 familiares dos deportados conseguiram levar Maurice Papon ao tribunal do júri da Gironda. Isto porque os fatos foram conhecidos aos poucos. E eles mostravam que não apenas Papon se saía mal. O presidente socialista François Mitterrand, por exemplo, também fora funcionário de Vichy. De fato, a maioria dos franceses vivera pacificamente durante o governo do marechal Pétain. Os resistentes foram mais do que raros; foram exceção.

O julgamento de Papon começou em outubro de 1997. Esperava-se que ele terminasse até o fim do ano. As audiências continuaram por 1998 adentro; janeiro, fevereiro, março… Dia após dia, os depoimentos eram transcritos pelos jornais e analisados na televisão. O processo não foi uma catarse coletiva. Mas jamais, antes, o comportamento dos franceses durante a Ocupação foi analisado com tanta profundidade. Em abril, saiu o veredicto: ele foi condenado, por “cumplicidade em crimes contra a humanidade”, a dez anos de prisão.

Não houve quem se rejubilasse com a decisão. Os familiares das vítimas consideraram a pena branda. Seus advogados a viram como uma crueldade contra um ancião. Nos jornais e nos meios políticos, a percepção geral é de que a punição veio tarde demais. E que, na prática, ela pouco adiantava como exemplo de combate ao anti-semitismo.

A novela não terminou aí. A defesa apelou. Em 1999, na véspera da decisão de última instância acerca da sua prisão, Papon fugiu para a Suíça. Foi detido num hotel e recambiado para a França. Só então começou a cumprir pena, na prisão de La Santé. A defesa fez um apelo ao presidente François Chirac para que concedesse a graça, permitindo que ele cumprisse a pena em casa, em função da idade avançada. Chirac não concedeu a graça presidencial. Só depois de três anos na prisão, com base no atestado de uma junta médica, dizendo que a sua prisão era incompatível com seu estado de saúde, ele pôde cumprir a pena em prisão domiciliar. A decisão foi bastante contestada. Mas não havia o que fazer, judicialmente.

O caso não acabou aí. Papon foi fotografado usando a Légion d’honneur, que lhe havia sido cassada, em 1999, e a foto foi publicada numa revista. Ele foi acionado judicialmente, para que não a usasse mais.

Maurice Papon jamais admitiu ter sido um criminoso. Ele reconheceu ter assinado as ordens de prisão e deportação, mas dizia “não saber” que os deportados seguiam para Auschwitz e para a execução. Para juristas franceses, a decisão estabeleceu um princípio importante: a autoridade é obrigada a saber, não pode alegar desconhecimento, as decorrências dos seus atos. Como nunca reconheceu seus crimes, ele jamais pediu perdão às suas vítimas, ou aos parentes delas.

Papon morreu no sábado, 17 de fevereiro passado. Antes, fez com que seu advogado, Francis Vuillemin, prometesse zelar para que fosse enterrado com sua comenda pregada no peito. “Mantive a minha promessa”, disse o advogado, depois do enterro. “A cruz de comandante da Légion d’honneur, colocada pelas mãos do próprio general De Gaulle, vela sobre a alma de Maurice Papon pela eternidade afora.”

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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