despedida

O funeral do ETA

A extinção do grupo nacionalista armado e as cicatrizes de uma era de terror

Ricardo Viel
Nos muros de Hernani, cidade do País Basco, o extinto grupo terrorista ainda é reverenciado com frases como “Viva ETA” (Gora ETA) e “Muito obrigado ETA” (Mila Esker ETA)
Nos muros de Hernani, cidade do País Basco, o extinto grupo terrorista ainda é reverenciado com frases como “Viva ETA” (Gora ETA) e “Muito obrigado ETA” (Mila Esker ETA) FOTO_ANDER GILLENEA_GETTY IMAGES

Viajei em maio ao País Basco para assistir à cerimônia de dissolução do último grupo nacionalista armado da Europa, o ETA. Em Cambo-les-Bains, cidadela na região basco-francesa com menos de 7 mil habitantes, ao lado da fronteira espanhola, observadores internacionais, seguidos por jornalistas, como eu, acompanharam no dia 4 daquele mês à “teatralização”, como qualificaram alguns espanhóis, do fim da organização terrorista cuja violência assombrou a Espanha por quase meio século.

O ato de dissolução não foi oficialmente convocado pelo ETA, nem poderia ter sido, pois nenhum Estado daria autorização a terroristas para chamar a imprensa e reunir pessoas em certo local. A cerimônia, realizada na Villa Arnaga, uma quinta que pertenceu ao dramaturgo francês Edmond Rostand, o autor de Cyrano de Bergerac, foi a culminância de um processo de pacificação iniciado em 2011 por grupos da sociedade civil e incentivado por personalidades mundiais, como Kofi Annan, ex-secretário-geral da onu, e Michel Camdessus, ex-diretor-gerente do FMI. Foi Camdessus, aliás, quem leu em francês o comunicado que confirmava que o ETA havia deixado de existir e que se buscava agora uma solução “global, justa e duradoura” para o País Basco – o texto também foi lido em basco, espanhol e inglês.

Porém, mais do que assistir ao ato em Cambo-les-Bains, o propósito de minha viagem era conversar com quem viveu de perto a violência do ETA – sigla da expressão Euskadi Ta Askatasuna, que significa País Basco e Liberdade em euskera, o idioma local. Nos cinco dias em que percorri cerca de 600 quilômetros, entre Bilbao, San Sebastián, Guernica, Hernani, Legorreta, Tolosa, Zarautz e Getxo, a maioria das conversas que tive ocorreu em bares, cafés, restaurantes, tabernas e comedorias. Não foi por simples conveniência. “A vida na Espanha se faz nos bares”, me disse certa vez um amigo. De fato. Há muita diferença de caráter e costumes entre um basco, um catalão, um galego e um espanhol do resto do país. Porém, algo não muda em nenhuma das dezessete comunidades autônomas da Espanha: a importância desses lugares onde podemos ir para tomar um café, beber uma cerveja, comer alguma coisa ou simplesmente ler os jornais e saber das novidades. A escritora Rosa Montero, nascida e criada em Madri, diz que os bares são a “pedra essencial” da cultura espanhola, uma “espécie de modesta igreja laica comunal”. “Quanto sofrimento mais haveria na Espanha sem esses bares, sem esses lugares de proteção onde sempre conseguimos que alguém nos olhe?”, indaga.

Nos anos de terrorismo, contudo, os bares espanhóis não serviram apenas como locais de acolhimento: também foram cenários de conspirações e brutalidades. No bar La Cepa, em San Sebastián, no País Basco, um candidato do Partido Popular à prefeitura da cidade, Gregório Ordóñez, foi executado na hora do almoço. Na mesma rua, a sua família afixou uma placa a fim de recordar o crime. Mais tarde, foi retirada. No muro quase em frente ao bar há uma faixa escrita em euskera, mas a única coisa que entendo é a sigla ETA. Dois homens fumam encostados à parede e peço que me traduzam a frase. “Não sei”, responde um deles. “Você não é daqui?”, questiono. “Sou, mas é uma besteira o que está escrito. Não vale a pena falar nisso.” O outro homem diz que todos estão exaustos de falar “nisso”.

Nisso o quê? Apesar da dissolução do ETA, ainda há muito receio da parte dos bascos em falar sobre o movimento armado, e não são menores os temores com relação a discutir em público a política separatista. Edurne,[1] jovem conhecida de um amigo, me havia contado que até pouco tempo não se falava, nem sequer em família, “sobre essas questões”. “Quando muito, se falava com alguém muito próximo. Só agora as pessoas começam a dizer o que pensam.” Um fotógrafo que também estava na cerimônia do fim do ETA me contou que, nos anos 80, um amigo francês lhe perguntou por que, nos bares, algumas pessoas falavam tão alto e outras, quase cochichando. Ele respondeu: “Quem fala em voz alta está discutindo futebol. Quem fala em voz baixa está conversando sobre política.”

Em Guernica, a pequena vila bombardeada em 1937 pelos nazistas em apoio aos republicanos de Francisco Franco, estive na Arrano Taberna, um local abertzale (patriótico, no idioma basco) – ou, sem meias palavras, pró-ETA. Fotos de membros da organização que estão presos foram penduradas nas paredes do lugar, que também exibe camisas da corrida de rua feita anualmente para arrecadar fundos para a causa separatista. Os guardanapos trazem estas palavras impressas em euskera: “Presos de volta para casa.” Em uma caixinha sobre o balcão, o cliente pode deixar um donativo às famílias dos encarcerados. O rapaz que atende é marroquino e me diz que, no andar de cima do bar, realizam-se reuniões para falar de política. Dias antes havia sido feito ali uma recepção para um etarra (membro do ETA) que, após vários anos na prisão, ganhara a liberdade.

 

O ETA foi criado em 1959, em Bilbao, a cidade mais populosa do País Basco, por estudantes radicais que defendiam a independência e a cultura do território. O movimento contou com ampla simpatia dos bascos nesses primórdios, uma vez que a ditadura franquista lhes proibia qualquer manifestação cultural própria, inclusive o uso do idioma. Em meados dos anos 60, na esteira do sucesso da Revolução Cubana, o ETA adotou a luta armada. Em 1968, fez a primeira vítima, um guarda civil, morto com cinco tiros. No início, os alvos dos etarras eram quadros do Exército (inclusive alguns torturadores) e pessoas próximas ao governo franquista, entre elas qualquer membro das forças de segurança do Estado. Em 1973, realizou o seu atentado mais ambicioso e perfeitamente logrado. Na chamada Operação Ogro, explodiu o carro onde estava o almirante Luis Carrero Blanco, primeiro-ministro da Espanha e natural sucessor de Franco. Para conseguir matar o político, o ETA cavou um túnel em Madri até o ponto onde passaria o carro. A explosão de 75 quilos de dinamite teve tal impacto que o veículo foi arremessado no pátio de um convento. Nas décadas seguintes, as ações terroristas do ETA se ampliaram, sendo que mais de 80% dos atentados aconteceram depois do fim da ditadura de Franco, que morreu em 1975.

Quando a democracia foi finalmente restabelecida no país, com as eleições de 1977 – a primeira desde a Guerra Civil entre 1936 e 1939 –, centenas de membros do ETA que estavam presos foram anistiados. Em 1978, a nova Constituição deu autonomia às diferentes comunidades que a reivindicavam, como o País Basco. Mas, nos anos seguintes, as desavenças entre o braço militar do grupo separatista e seu braço político terminaram por gerar uma cisão: vários integrantes se desligaram por entender que havia chegado a hora de abandonar as armas. Os que adotavam a posição oposta, contudo, ampliaram a violência, espalhando o terror na Espanha por meio de sequestros, ataques com carros-bomba, atentados e extorsões. Além de membros do Exército, da Guarda Civil e de alguns partidos políticos, passaram a ser alvo juízes, jornalistas, empresários, ativistas contra a violência e até a população civil em geral.

Em 1987, um carro-bomba explodiu no estacionamento de um hipermercado em Barcelona matando 21 pessoas e ferindo 45. Foi o maior atentado realizado pelo ETA. Dois anos depois, o grupo anunciou uma trégua para negociar com as autoridades, mas após três meses de conversas em Argel, capital da Argélia, nenhum acordo foi obtido, e os terroristas voltaram a atuar. Apenas nos anos 90, a sociedade basca conseguiu vencer o medo e a apatia e criou várias associações civis pela paz, como Basta Ya! e Gesto por la Paz. Na mesma época, enquanto as ruas das principais cidades espanholas enchiam-se de gente em manifestações contra o terrorismo, o ETA sofria os maiores golpes da inteligência policial, que prendeu alguns de seus líderes tanto na Espanha como na França. Após anunciar um cessar-fogo em 2006, a organização negociou com o governo espanhol um acordo de paz, que foi, porém, rompido por um atentado no aeroporto de Madri que matou duas pessoas. Em 2010, o ETA fez a sua última vítima: um policial francês que interceptou, numa cidade próxima de Paris, alguns terroristas que viajavam num carro roubado.

Dias depois de uma conferência internacional realizada em outubro de 2011 no País Basco francês com mediadores de vários países, o ETA emitiu um comunicado anunciando que abandonava definitivamente a atividade armada e propunha diálogo. Mas apenas no ano passado a organização revelou à polícia francesa o local onde escondia grande parte do arsenal ainda em sua posse. Em maio último, em Cambo-les-Bains, foi concluído o longo processo de pacificação. Um dia antes do ato na vila francesa, os terroristas anunciaram, num comunicado difundido por um jornal basco, que, como seu ciclo histórico e sua função tinham chegado ao fim, o grupo “dissolvia-se no povo”.

 

Da cidadela francesa, sigo até Legorreta, cidade com cerca de 1 400 habitantes no meio da província basca, onde vive a mulher do político socialista Juan María Jáuregui, assassinado pelo ETA. Em 2000, por volta das onze e meia da manhã de 29 de julho, sábado, dois homens dispararam dois tiros na nuca do político e ex-governador da província de Guipúscoa, dentro da cafeteria El Frontón, em Tolosa, cidade vizinha de Legorreta.

“Naquela época não tínhamos portão automático em casa, então fui até a garagem para abrir o portão para Juan Mari”, conta Maixabel Lasa, viúva de Jáuregui, enquanto caminhamos pela praça da vila onde vive. “Ele tirou o carro e já na rua abaixou o vidro e me disse: ‘Maixabel, sonhei que me matavam.’ Eu respondi: ‘Não diga besteira.’ Uma hora depois, quando eu estava secando o cabelo, o telefone tocou. Era a minha irmã. ‘Onde você está’, ela perguntou. ‘Em casa, claro. Você ligou para a minha casa.’ E ela disse: ‘Então não saia daí.’ Entendi na hora o que tinha acontecido.” Pergunto se os dois rostos pintados num muro próximo da sua casa são de membros do ETA. “Sim, estão presos. Um é daqui da vila, um rapaz que foi pego com meia tonelada de explosivo. Vai passar muito tempo na prisão. O outro é de uma aldeia próxima”, diz. Nos muros, há vários grafites de apoio aos separatistas e com pedidos de liberdade para os presos.

Quando, em 2001, o governo basco criou a Secretaria de Atenção às Vítimas de Terrorismo, Lasa foi convidada para assumir a chefia da nova pasta. Os assassinos de seu marido foram presos e, em 2004, condenados cada um a 39 anos de prisão. Em 2011, Lasa conheceu os assassinos do seu marido, que haviam se desligado do ETA e estavam dispostos a pedir perdão à família. “O encontro durou mais de três horas e quando acabou eu disse à mediadora: tirei um peso enorme de minhas costas. Sempre achei que todos nós merecemos uma segunda chance. Aquelas pessoas tinham feito coisas horríveis, mas reconheciam isso e não voltariam a fazer.” Na tarde que passou no presídio, foi ela quem fez mais perguntas. Quis saber se os assassinos conheciam o marido, se sabiam que ele fora preso durante o franquismo e tinha se posicionado contra as torturas nos presídios. “Eles não sabiam nada sobre Juan Mari, foram apenas cumprir uma ordem.” Quis saber também se teriam executado o plano, caso ela estivesse ao lado do marido na cafe-teria. “Eles disseram que não alteraria nada, que foram com uma missão e para eles isso era indiferente. De fato, ele não estava sozinho.”

Meses depois do encontro no presídio, um dos presos manifestou interesse em assistir à cerimônia feita anualmente em homenagem a Jáuregui. A administração penitenciária consultou a viúva, que deu sua autorização. Em 2014, acompanhado de um funcionário do presídio, o ex-terrorista Ibon Etxezarreta chegou em Legorreta com um ramo de flores. “Eram treze cravos vermelhos, que simbolizavam os anos sem o meu marido, e um cravo branco, que significava o novo ano, como ele me explicou. Fiquei gelada quando falou aquilo”, conta Lasa. Após a cerimônia, o preso pediu para ser levado ao monte onde as cinzas do político haviam sido lançadas. Ela se prontificou a acompanhá-lo, pois era a única que sabia o lugar exato. Conversaram bastante naquele encontro e ainda continuam a conversar. “Quando ele deixa a prisão temporariamente no final do ano ou em algum feriado, sempre me telefona e tomamos um café.”

Despeço-me de Lasa e me dirijo a Tolosa, para ver o lugar onde mataram o seu marido. O Frontón fica numa zona bem concorrida da cidade e está fechado – só reabriria dois meses depois. O prédio pertence à prefeitura, que renova a cada cinco anos a concessão do espaço a particulares. Do outro lado da rua, entro em um bar. Um homem de cabelo grisalho coloca moedas em uma máquina caça-níquel. Um grupo de senhoras conversa numa das mesas. Na ponta do balcão, sentado numa banqueta, outro homem lê o jornal. Na primeira página, a manchete diz: “O ETA já não existe.”

Peço algo para comer e encontro uma desculpa para puxar conversa com o senhor que acaba de dobrar o jornal. Tenho sorte, ele está disposto a falar. Conta que era amigo de Jáuregui. “Falei com ele na sexta-feira antes do atentado e combinamos de almoçar na segunda. Sempre que vinha do Chile, onde estava trabalhando, ele me telefonava. Eu dizia para ele ter cuidado. Mas, como era uma pessoa que falava com todo mundo, tinha amigos em todos os partidos políticos e tinha contribuído para impedir a tortura de presos, ele achava que estava blindado. Naquele sábado, a moça que trabalhava na minha casa chegou esbaforida e me disse: ‘Mataram um homem no Frontón.’ Desci correndo, eu moro a metros daqui. Quando entrei a polícia tinha acabado de chegar. Ele já estava morto, não havia o que fazer. E aquele almoço que combinamos nunca aconteceu.”

Empresário, vinculado ao Partido Nacionalista Basco (que defende a separação do território, mas é contrário à violência), o homem, próximo dos 60 anos, me diz que também foi vítima dos terroristas. Uma das principais formas de financiamento do ETA, além dos sequestros, era a extorsão de empresários. Quem não pagasse o “imposto revolucionário” era designado como traidor e passava a ser um potencial alvo do grupo. “Nunca dei uma peseta, mas conheço muita gente que deu e entendo os motivos”, conta. “Como eu não quis pagar, eles passaram a me ameaçar por telefone. Sabiam onde a minha mulher cortava o cabelo, onde as minhas filhas estudavam. Uma das vezes que me ameaçaram fui falar com a polícia, que me deu uma arma para eu me proteger. Ia até um monte treinar pontaria, mas por sorte nunca precisei usá-la.”

Calcula-se que mais de 10 mil empresários foram chantageados pelo grupo terrorista. “Um dia descobri que quem passava a eles informações a meu respeito e de minha família era o cunhado de um amigo meu”, continua o empresário. “Essa é a questão. Havia aqui muita gente que colaborava com eles. Por exemplo, quem foi que avisou que o Juan Mari tinha chegado do Chile? Quem o viu entrar no bar e ligou para os assassinos?” O homem que transmitia ao ETA informações sobre o político e sua família ainda mora em Tolosa. “Sempre nos encontramos. Hoje mesmo, aqui nesta rua, nos cruzamos. Como você pode imaginar, não tenho vontade de abraçá-lo, mas também não penso em lhe dar um soco. Nem poderia agora, por causa das costas”, diz, sorrindo, enquanto aponta para as suas muletas encostadas na parede. “Mas sempre olho nos olhos dele, que baixa a cabeça e segue caminhando.” Pergunto se posso publicar a história que me conta. “É para o Brasil, não é? Não tem problema, mas prefiro que não cite o meu nome.”

 

Sigo até Zarautz, cidade de 23 mil habitantes na costa do golfo de Biscaia, para conversar com o jornalista Gorka Landaburu. Eu não o conhecia pessoalmente, mas já o havia visto na televisão falando das sequelas que um atentado do ETA tinha deixado nele. Quando o avistei, através da enorme janela de vidro da cafeteria Euromar, eu o reconheci imediatamente. Chamei-o pelo nome, Landaburu se aproximou de mim, abrindo um sorriso sob o bigode grisalho, e me estendeu a mão – faltava-lhe o polegar. “O que quer beber?”, perguntou em seguida, e sugeriu que conversássemos no terraço para que ele pudesse fumar.

Filho de bascos exilados na França, Landaburu nasceu em Paris, mas no final da adolescência se mudou com um dos irmãos para Zarautz, o lugar que os pais tiveram que abandonar. Embora a redação da revista que ele dirige atualmente fique em Madri, nunca quis sair de Zarautz. Por isso, aos 66 anos, roda semanalmente quase mil quilômetros, viajando da capital até a cidade onde mora, e vice-versa. “Costumo dizer que vivi duas ditaduras, a de Franco, que expulsou a minha família, e a do ETA, que quis me expulsar. Nunca pensei em ir embora, achei que deveria ficar aqui e lutar pela paz”, diz, enquanto acomoda o fumo no cachimbo com o dedo indicador direito – privado da última falange.

Para segurar o copo de vermute, Landaburu precisa da ajuda da mão esquerda, cujos dedos anular, médio e indicador tampouco têm o terço final. Gesticulando, conta: “Eram umas onze e pouco da noite. Naquela época, eu era presidente da associação desportiva e, quando saía de uma reunião no clube, ouvi a rajada. Corri para a rua e vi o carro – um carro vermelho, eu lembro nitidamente – arrancar. Entrei no bar e era um espetáculo dantesco. Sangue por todo lado, vários corpos no chão, parecia um filme sobre Al Capone. O barbeiro aqui da cidade tinha levado um tiro na testa e parte do seu cérebro estava visível. Um dos garçons, que até hoje anda por aí arrastando a perna, teve o pescoço atravessado por uma bala e se salvou por milagre. Uma coisa dessas a gente não esquece. Fiquei dois meses sem dormir depois de ter visto tudo aquilo. Acho que me marcou mais do que o atentado cometido contra mim.”

A chacina que Landaburu relata aconteceu num bar a poucas quadras de onde estamos conversando, em 1980, o ano mais sangrento da história do ETA, quando quase 100 pessoas foram assassinadas em toda a Espanha. Naquela noite em Zarautz morreram cinco pessoas, quatro delas guardas de trânsito (os alvos principais das balas), e feriram-se gravemente outras cinco. “Aqui aconteceram coisas muito duras, e este é um país muito pequeno, onde todo mundo se conhece. Não é fácil, mas é preciso continuar a vida”, conclui.

Quando ainda morava na França, Landaburu conheceu e deu apoio a alguns dos fundadores do ETA. “Um dos meus irmãos fez parte daquele ETA romântico que defendia a cultura, a bandeira, mas não assassinava”, revela. A primeira ameaça que o jornalista recebeu por criticar o uso da violência como método foi em 1983. “Eu era chamado de canalha porque dizia e escrevia que um crime era um crime, um assassinato era um assassinato, e nenhuma morte se justificava para salvar uma pátria.” Também foi ameaçado por um grupo de paramilitares – organizados pelo Estado para enfrentar o terrorismo, na chamada “guerra suja” –, por criticar o modo como o governo espanhol conduzia o combate ao terrorismo. Em 2000, começou a andar com guarda-costas, depois que seu nome apareceu numa lista de possíveis alvos do ETA descoberta pela polícia. Antes disso, teve a casa atacada por um coquetel molotov, viu o seu nome pichado em um muro na rua onde mora e recebeu gravatas pretas pelo correio – insinuação do que ele usaria em seu funeral. “Enterrei muitos amigos”, afirma, e cita seis nomes em sequência. “Dez dias antes de ser morto, nesta praça, um amigo, José Luís López de Lacalle, disse para mim e o meu irmão: Cuidado, eles vêm atrás de nós.”

Lacalle, jornalista do El Mundo, foi assassinado com quatro tiros em maio de 2000. Um ano depois, o alvo foi Landa-buru. Em 15 de maio, seu guarda-costas apalpou, como sempre fazia, a correspondência enviada ao jornalista e não viu problema algum no envelope de uma revista que chegava todos os meses. “Saí do banho como Deus me pôs no mundo e, quando passei pela escrivaninha, não sei por quê, decidi abrir aquele envelope”, conta. “Sorte minha que eu estava em pé, porque o choque da explosão não me pegou em cheio, o que teria ocorrido se estivesse sentado.” Os terroristas tinham copiado perfeitamente o formato do envelope da revista, inclusive a logomarca da publicação. Dentro colocaram 110 gramas de dinamite, que fizeram o jornalista tombar para trás. “Quando percebi o que tinha acontecido, pensei: ‘Me pegaram.’ Depois, no hospital, disse que eles tinham se equivocado, pois destruí-ram as minhas mãos, cegaram um dos meus olhos, mas não me cortaram a língua. E eu seguiria falando, porque minha profissão é falar.”

Desde 2002, Landaburu comemora dois aniversários: o dia em que nasceu e o dia em que sobreviveu ao atentado. Há seis anos, já não precisa ir acompanhado de seguranças às festas. Pergunto se, durante os quase doze anos que andou escoltado, frequentava a cafeteria Euromar. “Vinha muito aqui, claro. Tentei levar uma vida normal. Ia a todos os lugares. Saía para encontrar os amigos, para jantar. Só aos domingos, dia de folga dos guarda-costas, eu ficava em casa.” Assim como Maixabel Lasa, o jornalista participou de um encontro com terroristas arrependidos. No final da conversa com sete deles, dois se aproximaram e contaram que faziam parte do comando que lhe havia enviado a carta-bomba. E pediram perdão. “Eu disse que os achava corajosos por estarem naquele processo, porque entrar no ETA é fácil, mas sair é muito difícil. E também disse: ‘Farei o possível para que saiam o mais rápido possível da prisão.’”

Landaburu pensa que é preciso fomentar a convivência depois de tanto terror, mas sem esquecer nem minimizar o que aconteceu. “Não tenho rancor nem ódio, que não servem para nada, só fazem mal para a própria pessoa”, diz. “Mas não vamos esquecer o que aconteceu. E temos que falar de tudo. Dos assassinatos, das torturas nas prisões, da guerra suja do governo. Falo disso há 25 anos. Mas quem fez mais mal aqui foi o ETA, não só matando, mas exercendo pressão, semeando o medo nas pequenas vilas. A esquerda abertzale [pró-ETA] tem que fazer uma autocrítica e dizer que matar foi um erro e não serviu para nada.”

 

Minha última parada é em Getxo, uma cidade litorânea próxima de Bilbao. Encontro-me com o advogado Paul Rios, que atuou de perto nas negociações que levaram o ETA a anunciar em 2011 o fim dos atentados. Seu trabalho nessa área começou há 25 anos, quando tinha 18, era treinador de um time de basquete e algumas atletas lhe perguntaram por que o pai de uma delas tinha sido morto. A dúvida das meninas o levou a tomar a decisão de atuar como voluntário numa organização que lutava pela paz no País Basco. “Convivi com a violência durante toda a minha infância e adolescência”, diz. “Vê a primeira casa laranja atrás da árvore? Era o quartel da Guarda Civil. Ali colocaram uma bomba debaixo de uma escada de pedra e, quando um policial passou, ela foi detonada. Naquela outra casa mataram um juiz quando ele saía de casa para levar o filho ao colégio. Um dia, quando eu ia para a escola, encontrei um artefato de lança-granadas que não tinha explodido. A 300 metros daqui, num café, um etarra deu um tiro na cabeça de um suposto traficante na frente de todo mundo. Existe aqui um trauma social causado pela violência que atingiu a todos. Até hoje, quando vemos uma blitz policial, ficamos nervosos.”

Para Rios, há poucas chances de o pesadelo do terrorismo separatista voltar a acontecer. “Uma organização como o ETA precisa de um alimento social para existir. E agora, acho, esse alimento não existe mais. Temos uma economia forte, uma sociedade com muita igualdade e bem-estar. Depois de tanta violência, a sociedade basca se tornou amiga da paz. O único risco que vejo vem do meio familiar dos presos e de seus amigos, onde há muita insatisfação e frustração. O que pedimos durante tanto tempo aconteceu. Hoje estamos melhor do que ontem.”

Duas questões dominam agora o debate no País Basco, dividindo as opi-niões. Uma delas é a política do governo central de afastar os presos do eta dos seus familiares ao colocá-los em prisões distantes, a maioria delas no sul da Espanha. A recente mudança de governo – no começo de junho, o socialista Pedro Sánchez foi escolhido primeiro–ministro do país, após a destituição do conservador Mariano Rajoy – pode alterar essa medida , uma vez que o novo líder espanhol manifestou ser favorável a uma revisão da política penitenciária.

Outro tema quente é o da “batalha pelo relato”. Como será contada a história desses anos? Como serão explicadas as várias décadas de terror aos que não as viveram, e que versão dominará? O debate passa, inclusive, pela terminologia a ser usada: deve-se falar em “conflito basco” ou apenas em terrorismo do ETA? O ETA, por sua vez, seria um grupo terrorista ou um movimento armado? Foi derrotado pela sociedade civil e pelo governo espanhol ou decidiu se dissolver por decisão de seus líderes? Um estudo recente realizado pelo governo basco apontou que 60% dos universitários da região consideram insuficientes as informações que recebem sobre o período. Metade deles desconhece episódios fundamentais da história recente do País Basco, entre eles os atentados sangrentos e os principais sequestros, praticados tanto pelo ETA como por paramilitares.

 

O ato de dissolução do ETA está inserido nessa disputa pela versão que sobreviverá e será contada no futuro. O governo espanhol não enviou representante nenhum ao encontro e tentou minimizar a sua importância. “Acho bom que se dissolvam, nunca deveriam ter existido. Mas estaremos zelando para que não contem histórias que ocultem a história verdadeira”, declarou Rajoy na época da cerimônia de dissolução formal do ETA em Cambo–les-Bains, à qual ele naturalmente não compareceu.

“Eu vejo esse ato final como um circo”, disse por telefone o filósofo e escritor Fernando Savater, nascido na cidade basca de San Sebastián, onde vive. “Eles querem dar um pouco de dignidade, como se fosse a rendição do Japão na Segunda Guerra. Mas o ETA já não existe, acabou em 2011. É co-mo um funeral atrasado.” Savater foi perseguido durante anos pelo grupo armado. Foi também uma figura importante dos movimentos cívicos dos anos 90. “Naquele momento, conseguimos mostrar que nem todos da esquerda no País Basco éramos separatistas, e isso deu um respaldo para o governo.” Para ele, o ETA não se dissolveu porque quis, mas foi asfixiado pela sociedade civil e pelo Estado. “Mas agora querem nos fazer acreditar que foram eles que trouxeram a paz.”

Leio no jornal El País uma reportagem que apresenta as estatísticas da violência dos terroristas bascos: 854 mortos, 6 389 feridos, 86 sequestros (com 10 mortos), 700 atentados (224 deles por resolver), 297 presos detidos atualmente, 3 300 pessoas sob a proteção do Estado. Para alguém que não viveu de perto essa história, assimilar a magnitude desses eventos trágicos é uma tarefa difícil, tanto mais que a Espanha é um lugar pacífico, onde é difícil assistir a um episódio de violência urbana. Neste país habitado por mais de 46,5 milhões de pessoas, em 2016 ocorreram 292 assassinatos – 15% deles crimes contra mulheres. Ou seja, ocorreram 0,63 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes (a cifra no Brasil, em 2016, foi de 30,3 homicídios para 100 mil habitantes, quase cinquenta vezes maior). Na União Europeia, só a Áustria registra menos mortes violentas do que a Espanha.

 

Na livraria do aeroporto de Bilbao, noto que o romance Patria, apesar de ter sido lançado há dois anos, é ainda o número 1 em vendas no local. A atendente da loja comenta: “É muito bom, deveria ser leitura obrigatória nas escolas.” Escrito por Fernando Aramburu, também nascido em San Sebastián, o livro aborda a questão do terrorismo do ETA e seu impacto na vida das pessoas comuns. A obra vendeu mais de 700 mil exemplares na Espanha, recebeu importantes prêmios literários – inclusive o Lampedusa, na Itália –, e será adaptada pela hbo, que fará uma série de tevê. Apesar disso, a crítica não foi unânime a respeito do livro. O escritor foi acusado, principalmente por separatistas, de ser superficial e parcial ao contar a história de duas vizinhas cuja amizade é destruída depois que o marido de uma delas é assassinado pelo ETA, onde o filho da outra milita.

Na ficção de Aramburu, alguns anos depois da separação, as amigas acabam se cruzando um dia no centro da vila. “Elas avançavam em linha reta uma em direção da outra. A pequena multidão que estava na praça percebeu. As crianças, não. As crianças continuaram brincando e dando gritos. Entre os adultos formou-se, rapidamente, um grupinho que comentava. Olha, olha, tão amigas que eram. O encontro produziu-se na altura do coreto. Foi um abraço breve. As duas se olharam nos olhos por um instante antes de se separar. Se disseram alguma coisa à outra? Nada. Não disseram nada.” Nos dias em que estive no País Basco tive uma breve ideia do que esses silêncios escondem.

[1]* Alguns nomes e sobrenomes de pessoas citadas nesta reportagem foram omitidos a pedido dos entrevistados.

Ricardo Viel

Ricardo Viel é jornalista brasileiro radicado em Salamanca.

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