cartas

O futebol na berlinda e uma declaração de amor

BURGUESES, GRANDES E PEQUENOS

A opinião de Lêdo Ivo sobre Oswald e seu romance proletário é maliciosa (“Chá com veneno”, piauí_77, fevereiro). Oswald de fato conhecia proletários, pois convivia com anarquistas como Oreste Ristori desde moço. Para fazer os camponeses de Marco Zero, efetivamente fez trabalho de campo numa fazenda de sua namorada na época, onde ficou três meses escondido durante a Revolução de 32. Agora, o fato é que Oswald não tinha paciência com o pequeno-burguês (como Lêdo Ivo) e só suportava o grande burguês (Washington Luís, quando presidente da República, foi seu padrinho de casamento) ou o proletário.

LÚCIO EMÍLIO DO ESPÍRITO SANTO JÚNIOR_BOM DESPACHO/MG

 

TOSTÃO E JOÃO



Boa análise do Tostão (“Obrigação e retrocesso”, piauí_77, fevereiro). O mais importante foi falar do João Saldanha. O gaúcho Saldanha era admirado e idolatrado por nós, os cariocas. O João “sem medo” era botafoguense, porém – sempre existe um porém – flamenguistas, tricolores e vascaínos eram seus fãs.

O Saldanha foi a nossa válvula de escape contra a ditadura. Ganhou todos os jogos da eliminatória de 1969 e o Tostão estava lá, com Pelé, Gérson, Jairzinho, no Maracanã com seu maior público (mais que 170 mil torcedores), e ganharam do Paraguai por 1 a 0.

O Mano que foi dissolvido pelo tal Marin deveria aproveitar e se lembrar do João Saldanha quando o Havelange ligou e disse que a comissão técnica da Seleção de 1969-70 estava dissolvida, e o nosso gaúcho-carioca mandou na canela do outro posudo João: “Eu não sou sorvete para ser dissolvido” – e foi em frente como comentarista e cronista de rádio, jornal e televisão. Saravá.

LÉO NASCIMENTO_ITATIAIA/RJ

 

NOTA DA REDAÇÃO: Também somos fãs do Saldanha. Sobre o nome da editora – Alvinegra – e a estrelinha que indica o fim das reportagens, melhor nem falarmos.

 

Parabéns pelo excelente artigo “Obrigação e retrocesso”. Bem escrito, lúcido, crítico, independente e com esbanjamento de conhecimentos técnico e tático sobre futebol. Considero Tostão um craque em todas as funções e o tenho como pessoa generosa, mas daí a achar Felipão bom técnico é excesso de generosidade.

Felipão sempre foi um dos precursores do “futebol pegado”, chegando muitas vezes às raias da violência para parar as jogadas. E caracterizou-se, junto com Parreira, pelo “futebol de resultados”. Seus títulos brasileiros foram, na maioria, conquistados assim. Na atual comissão técnica só falta o Zagallo, o “Forrest Gump” do futebol brasileiro.

CARLOS KOBYLKO_RIO DE JANEIRO/RJ

 

No atual futebol brasileiro, não há grandes meias-armadores, grandes centroavantes e grandes textos. Tostão é exceção. Entretanto, escrever sobre futebol parece ser uma extensão do próprio jogo e, mesmo quando o cara é muito bom, mesmo quando o cara é muito melhor do que os outros, não dá para vencer sempre.

Tostão exagera ao enxergar na tal “obrigação de ganhar” citada por Felipão e Parreira algo que pode abrir portas para uma reedição do “Ame-o ou deixe-o”. A expressão usada pela nossa nova dupla de comandantes remete muito mais às “feras do Saldanha”, até porque o problema é o mesmo: falta de identidade entre Seleção e torcida. A participação brasileira na Copa de 66 fora frustrante e os primeiros amistosos realizados depois disso não animaram ninguém. Logo depois de aceitar o convite da CBD, mãe da atual CBF, a primeira atitude de João Saldanha foi apelidar seus 22 convocados de “as feras do Saldanha”. Ele garantia que, definida e motivada, a Seleção Brasileira não tinha como perder para ninguém. A “obrigação de ganhar” de Felipão e Parreira vai mais por esse caminho.

Tostão também acerta a trave quando afirma que Felipão não deve ser visto como ultrapassado por ter ido mal nos dois últimos times de prestígio que comandou, Chelsea e Palmeiras. Mas esse argumento simplifica as críticas ao técnico. O que faz de Felipão um treinador ultrapassado é a forma com que monta seus elencos, o jeito como escala seus times e a maneira como os coloca para jogar. Depois da Copa de 2002, o único título que Felipão conquistou foi a recente Copa do Brasil, pelo Palmeiras. Além de ser um titulozinho para lá de vagabundo, sua já pequena importância ficou ainda mais reduzida com o rebaixamento do time à segunda divisão – fracasso que teve em Felipão seu responsável principal.

Quanto à saída de Mano Menezes, paciência. Como seu currículo não tem nada de mais, tudo indica que Mano tenha virado técnico da Seleção por motivos políticos. Daí que ninguém pode reclamar por ele ter sido demitido pelas mesmas razões. O retrocesso não está na saída de Mano. O retrocesso está na volta de Felipão.

Mas como foi craque de bola e é craque no texto, Tostão acerta muito mais do que erra e ganha muito mais do que perde. Na condição de assinante da revista desde o primeiro número, e devido à indigência dos textos sobre futebol que dominam a imprensa especializada, me sinto no direito de lançar a campanha “Só um Tostão já vale mais que 14 reais mensais”. Que tal Tostão todo mês na piauí?

JORGE MURTINHO NETO_SÃO CAETANO DO SUL/SP

 

BELO MONTE E OS SINGELOS

No atinente à reportagem de capa da piauí_77 (“A onça e a barragem”, fevereiro), penso como a opinião de Raoni, por mais respeitável que seja, possa estar sendo influenciada por aqueles que não têm interesse no desenvolvimento sustentável da tão combalida região Norte do país, onde as pessoas morrem por doenças de há muito erradicadas nas cidades. E, por óbvio, com o amadurecimento de nossas instituições, desde o início da década de 90 do século passado, há muitas formas de se fiscalizar qualquer crime ambiental que possa ser cometido quando da implementação da Usina de Belo Monte. Já está mais do que na hora de não permitir que opiniões singelas, desprovidas de maior estudo, venham a impedir o crescimento da região Norte, verdadeira Sibéria brasileira.

JOSÉ CLÁUDIO MARQUES BARBOZA JR._BRASÍLIA/DF

 

Recebi com surpresa o fato (inédito?) de que, além de elefante, cinema e futebol, havia índio no Carnaval de piauí. A princípio, me animei com a possibilidade de ler a primeira reportagem de destaque desta revista a ter pisado em terra indígena. O texto corria razoavelmente bem, até que um sinuoso “S” o desviasse do caminho ainda na quarta página (pág. 23 da revista).

Ao cotejar o que seriam as controvérsias em torno da “questão energética” implicada na construção de Belo Monte, a matéria cometeu omissões simplesmente imperdoáveis. Para começar, afirma que a geração de energia pela usina, “dizem os especialistas do setor”, não é “nem de longe” suficiente para suprir o crescimento previsto da demanda no país. Ora, quem são esses “especialistas”? Seriam os logo em seguida apresentados Mauricio Tolmasquim (representante do governo) e seu mentor (ex-governo) Luiz Pinguelli Rosa?

O repórter dirá que apresentou a “versão dos críticos” na voz (aparentemente solitária) de Celio Bermann (curiosamente, o único que não presidiu um órgão governamental). Ora, mas será mesmo que, após toda a pesquisa que a reportagem revela, seu autor não tomou conhecimento da existência de um “Painel de Especialistas”, composto por dezenas de cientistas de diversas áreas e instituições, autores de uma das publicações independentes mais importantes disponíveis sobre os (reais) impactos da usina? Em seguida, a reportagem afirma que 34 aldeias “foram beneficiadas” pela Norte Energia, com compensações previstas como contrapartida socioambiental. Nenhuma menção aos atrasos, descumprimentos de condicionantes, ações judiciais e paralisações das obras movidas pelos indígenas locais e amplamente divulgadas pelos movimentos sociais da região.

Para concluir, o repórter evoca o vídeo crítico de um “grupo de atores da TV Globo” (ele preferiu chamá-los assim a simplesmente “Movimento Gota D’Água”), destaca apenas um dos argumentos apresentados pelo grupo (o de que a construção da usina afetaria o Parque do Xingu, “rio abaixo”) e os corrige (aos moldes do vídeo comandado pelo engenheiro e professor da Unicamp, Sebastião de Amorim, e seus papagaios), dizendo que “na verdade, o parque se encontra a 1 300 quilômetros a montante da usina”. Diante de tudo isso, é difícil elogiar a apuração antropológica certamente melhor sucedida. Sabe-se que a revista tem certo gosto em chegar antes ou depois dos fatos. O que não esperava, contudo, é que ela também se enveredasse na omissão destes.

ROBERTO ROMERO_BELO HORIZONTE/MG

 

MOSQUITO ARROGANTE

Não gostei do tom arrogante com que Michael Specter (“A solução do mosquito”, piauí_76, janeiro) pintou o Brasil para seus leitores norte-americanos: o laboratório em Juazeiro, no Brasil, é fétido, as pessoas aqui não reclamam de mosquitos transgênicos e o impacto que se teme lá não importa aqui no Brasil, onde as leis seriam menos rígidas do que as americanas só porque nos Estados Unidos não se sabe se o mosquito transgênico será considerado remédio ou animal!

É tão normal assim algo ser testado no Brasil para depois ser usado no “mundo ocidental rico”?

LEO AGAPEJEV DE ANDRADE_CARAGUATATUBA/SP

 

LINDA LINDSAY

Tive uma doce surpresa quando peguei a edição de fevereiro e vi na capa: “Gata em tela quente. Três semanas infernais no set com Lindsay Lohan”. Sou apaixonada por ela (Lindsay é tão bonita, gostosa e tem uma vida pessoal tão interessante) e me maravilhei ao ver que vocês publicariam algo sobre ela (“É isso que dá escalar Lindsay Lohan para seu filme”, piauí_77, fevereiro). Perguntei-me: o que a piauí publicaria sobre Lindsay Lohan?

Cheguei à conclusão que vocês podem ter publicado o artigo porque ele repercutiu muito, ou porque mostra os bastidores de um set, ou porque mostra como é gravar um filme com orçamento pequeno, ou porque a Lindsay é bonita, gostosa, tem uma vida pessoal muito interessante, e no meio do artigo tira o roupão e faz uma cena de sexo, ou talvez por tudo isso junto e misturado.

A foto que ilustra o artigo é maravilhosa, derreto-me toda quando vejo Lindsay Lohan mandando beijinhos (Ah! Se ela mandasse um desses para mim). Obrigada por alegrar minha Quarta-Feira de Cinzas.

ANNA CLAUDIA VIOLIN_VALINHOS/SP

 

CANINOS

Elucidadora a matéria sobre o que todos nós nos tornamos (“O cru, o cozido e o cérebro”, piauí_77, fevereiro), pelo que nós um dia comemos, mas faltou uma triangulação mais enfática com nossas arcadas dentárias, as quais, concomitantemente, nos fornecem pistas fundamentalizantes de nossos cardápios majoritários prediletos, bem como nossa anatomia interna, na extensão espantosa do comprimento de nossos intestinos, para ficarmos num delgado exemplo.

Aliás, o meu dentista atual me apelidou de “pistacídeo bípede”, alertando-me que, pela minha dieta, meus dentes seriam limados em menos de vinte anos de uso diário, dada a minha predileção por destroçar alimentos usando, pasmem, os próprios dentes, em oposição ao mingau alimentar preferido pela maioria.

CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ_LONDRINA/PR

 

PERGUNTA DA REDAÇÃO: O que é um pistacídeo? Que dentista dá apelidos a seus pacientes?

 

LESA-PÁTRIA

Não sei se foram os excessos das festas, a preguiça natural da época ou a expectativa de férias, mas a piauí_76 foi muito, muito ruim:

  1. Sem Chegada, nunca antes na história da revista (sim, eu li todas). Um novo ano, segundo mandato do Obama, volta da inflação, Corinthians campeão do mundo, ninguém chegou?
  2. Quase 20% das páginas editoriais dedicadas a quadrinhos muito mais ou menos.
  3. “Os descontentes do porto” dando tiro para todos os lados sem uma linha condutora para o leitor, um verdadeiro sambinha do crioulo doido.

Salvaram-se a foto da capa, o mosquito transgênico e o legado do Niemeyer.

Ainda bem que a 77 me tranquilizou, recuperando o padrão. Ou quase: chamar o Tostão de Marin na legenda da ilustração do Loredano é crime de lesa-pátria.

WANDERLEY RODRIGUES_RIO DE JANEIRO/RJ 

 

NOTA DA REDAÇÃO: A edição 69, de junho, também não tinha Chegada. A legenda da imagem que ilustra o artigo de Tostão reproduz uma frase do próprio texto. Houve ruído, mas ainda não estamos chamando Marin de meu louro.

 

COREIA DO NORTE

Na Chegada da piauí_77, de fevereiro, o edifício explodido na figura norte-coreana reproduzida parece ser o Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, e não, como afirma a legenda, a Casa Branca, sede da Presidência.

DANIEL NOGUEIRA LEITÃO_SANTIAGO/CHILE

 

NOTA DA REDAÇÃO: Nosso líder Kim Jong Un diria que todas as estruturas que servem ao capitalismo se equivalem. Diria, mas não disse, o que nos força a admitir que você está coberto de razão. Tentamos explodir o departamento de checagem, mas nos confundimos e acertamos a turma da Chegada.

 

FÉRIAS

Eu, piauí_77, edição de fevereiro, vim passar quatro dias na serra das Araras, RJ, e foi o suficiente para que me lessem, relessem e até que me usassem para matar mosquitos e desviar formigas. Uma lagarta felpuda passou por cima da boca da Lindsay Lohan e uma manga do pé se misturou com o suco do cérebro de elefante. Até de piteira para um cigarrinho servi. Estou feliz na rede, espero que me esqueçam aqui.

LUÍSA POLLOR_RIO DE JANEIRO/RJ

 

CRACK

O sr. Roberto Pompeu de Toledo, na matéria “Do outro lado da Lua” (piauí_56, maio de 2011), usa expressões como “Janaína começou a se prostituir aos 10 anos”, o que é um erro, visto que uma criança não se prostitui, mas sim é abusada sexualmente. Prostituição diz respeito ao ato de uma pessoa adulta, consciente de sua escolha de fazer sexo em troca de dinheiro ou bens. Uma criança não pode fazer essa escolha, e quando em ato sexual com um adulto, está sendo abusada e violentada, o que é crime.

MARIANA MOURA_ SÃO PAULO/SP

 

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