questões sul-americanas

O impasse colombiano

Protestos desafiam o governo e as classes dirigentes a transformar o país

María Teresa Ronderos
Policiais detêm manifestante durante protesto em Bogotá, na Colômbia, em 12 de junho: dos 50 milhões de habitantes do país, 21 milhões são pobres e 7,5 milhões estão na miséria; em algumas cidades, cinco em cada dez pessoas passam fome
Policiais detêm manifestante durante protesto em Bogotá, na Colômbia, em 12 de junho: dos 50 milhões de habitantes do país, 21 milhões são pobres e 7,5 milhões estão na miséria; em algumas cidades, cinco em cada dez pessoas passam fome CREDITO: JUAN BARRETO_2021_AFP

Tradução de Sérgio Molina e Rubia Goldoni

“Quero lutar agora para que as gerações que vêm depois de mim tenham as oportunidades que eu não tive”, diz o jovem Jacobo, ex-soldado e arte-educador, em um vídeo gravado por estudantes de literatura da Universidade do Valle, em Cáli, na Colômbia. O gestor cultural Juan David faz eco a Jacobo (os sobrenomes foram omitidos no vídeo, por razões de segurança): “É uma forma de dizer ao país que nós cansamos e queremos, de fato, que as novas gerações não tenham que lidar com tudo o que estamos vivendo, que elas sejam felizes, que tenham oportunidades de trabalho e de estudo.” “Oportunidades” é a palavra repetida pelos jovens que participam dos maiores e mais longos protestos da história recente da Colômbia.

Os cinquenta dias de manifestação foram a expressão nas ruas da greve nacional decretada a partir de 28 de abril por centrais sindicais de setores nevrálgicos da economia, como o do Porto de Buenaventura, o principal do país, e o dos caminhoneiros. Aos grevistas juntaram-se movimentos estudantis e grupos organizados em torno do Acordo de Paz, firmado em 2016 entre o Estado e a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc): vítimas do conflito armado interno que durou 52 anos, comunidades indígenas e de afrodescendentes que pedem paz e investimento em seus territórios, defensores do meio ambiente, entre outros.

Os protestos transformaram as ruas das cidades em locais de festa. Houve orquestras de música clássica em Medellín, bailarinos em Cáli, blocos fantasiados em Bogotá e malabaristas em Bucaramanga. Enfrentando a barreira policial, um trio de drag queens, com o torso coberto por fitas isolantes amarelas com a palavra peligro (perigo), subiu as escadarias que dão acesso ao prédio do Congresso, na capital, e em meio aos homens pesadamente armados do Esquadrão Móvel Antidistúrbios fez um show de vogue dance para as milhares de pessoas aglomeradas em frente, na Praça Bolívar, que aplaudiram com entusiasmo. Bandeiras de todos os movimentos tremularam até em cidades pequenas. Os cartazes traziam, além das palavras de ordem, mensagens bem-humoradas. “Se minha mãe reclama que eu não faço nada, imagine a mãe do Duque”, dizia um deles em Barranquilla, referindo-se ao presidente Iván Duque, eleito pelo Centro Democrático, partido mais próximo da direita.

O movimento, que em junho já esmorecia, foi uma espécie de primavera colombiana, semelhante à que ocorreu em alguns países árabes em 2010 e 2011. Conectados com o mundo, os jovens acrescentaram slogans universais às demandas locais, evocando as reivindicações feministas e dos transgêneros, bem como as dos que lutam em defesa do meio ambiente. Membros das comunidades indígenas e negras marcharam de suas terras até as capitais para se reunir às manifestações contra a corrupção, a repressão e a desigualdade social – “o 1% mais rico”.

“Os jovens estão se rebelando contra setores privilegiados que trocam favores e fazem negócios entre si, em detrimento das oportunidades que poderiam ser dadas a eles, os jovens”, disse à piauí o vereador Diego Laserna, do Partido Verde em Bogotá. Segundo uma pesquisa feita em maio pelo jornal El Tiempo e a empresa Cifras & Conceptos nas treze principais cidades colombianas, 63% das pessoas entre 18 e 32 anos disseram ter participado de alguma forma das manifestações e 84% se sentem representadas pelo protesto coletivo. Previsivelmente, a maioria disse não confiar nem no Estado nem na Polícia Nacional.

 

Depois de novembro de 2019, quando um projétil disparado pelo capitão de uma tropa de choque matou Dilan Cruz, de 18 anos, que protestava pacificamente em Bogotá, as forças de segurança da Colômbia nunca mais foram vistas da mesma forma, e os jovens colombianos passaram a nutrir um forte rancor em relação aos policiais. O rapaz tornou-se um símbolo dos que lutam contra as injustiças do Estado.

Em setembro do ano passado, durante uma nova série de manifestações, o advogado Javier Ordóñez, de 45 anos, morreu em decorrência das descargas excessivas de uma arma de eletrochoque, próximo a um Comando de Atenção Imediata (CAI, pequenos postos policiais em todas as cidades colombianas). Sua morte provocou outra onda de protestos. A polícia reagiu de maneira brutal, e a população respondeu queimando mais de quarenta CAIS. Dessa vez, os jovens também responderam aos policiais com deboche. Hay que estudiar, hay que estudiar, el que no estudie es Policía Nacional, cantaram eles, diante das tropas de choque. De novo, a resposta das forças de segurança veio com brutalidade.

Na última leva de protestos, deflagrada em quase todo o território nacional a partir do final de abril passado, a própria repressão policial desproporcional foi o combustível que inflamou as multidões.

Sobre as ações policiais, as ONGs colombianas Temblores, Indepaz e Paiis apresentaram um relatório detalhado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que, depois de difíceis tratativas com o governo, visitou o país entre 8 e 10 de junho, para verificar a situação dos direitos humanos durante os protestos. O relatório coletou, de 28 de abril a 31 de maio deste ano, “pelo menos 184 situações em que a polícia operou com armas de fogo no contexto dos protestos”, durante os quais setenta pessoas foram atingidas e pelo menos vinte morreram “em decorrência de impactos de disparos de armas de fogo, supostamente ativadas pela Polícia Nacional”. Também registrou 193 casos de uso de armas de baixa letalidade contra manifestantes que causaram lesões oculares em 62 pessoas e a morte de outras cinco, entre elas dois idosos, “por condições relacionadas à inalação de gás lacrimogêneo”. Houve ainda oito casos de ações com armas Venom, capazes de lançar, de uma só vez, trinta granadas (de fumaça ou de atordoamento por ruído ou luz), o que pode ser fatal se o disparo for feito na direção de um corpo. Até 22 de junho, de acordo com a Indepaz, um total de 74 pessoas haviam sido mortas durante os protestos.

De acordo com a Procuradoria-Geral da Colômbia, foram documentadas as mortes de vinte pessoas, entre elas a de um policial, um capitão e um funcionário da própria instituição. Também segundo a procuradoria, houve notificações de quatrocentos desaparecimentos durante os atos. Até 16 de junho passado, 84 pessoas ainda não tinham sido localizadas.

A Fundação para a Liberdade de Imprensa da Colômbia registrou 91 agressões físicas a jornalistas, algumas delas graves, como os tiros que atingiram dois repórteres de um canal comunitário em Cáli.

As manifestações foram mais violentas na região sudoeste, sobretudo em Cáli, a terceira cidade mais populosa do país, com 2,3 milhões de habitantes, onde os ventos da mudança se misturaram aos resquícios da criminalidade e à pobreza – 221 mil pessoas caíram abaixo da linha da miséria de 2019 a 2020, segundo dados do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (Dane). Foi isso, sem dúvida, que levou muitas delas às ruas, para pedir socorro.

Nos protestos na cidade, entrelaçaram-se vários fios, como descreveu um funcionário do Estado, que pediu para não ser identificado, por razões de segurança. Lá estavam os estudantes e jovens trabalhadores, como Jacobo e Juan David. Estavam as gangues, que cobravam “pedágio” das pessoas para passar nas vias bloqueadas pelos manifestantes e atacavam postos policiais, sintonizadas com a raiva geral contra a polícia e a sensação de não futuro. Estavam os policiais, muitos sem treinamento para atuar em manifestações, e os militares de baixo escalão, que, na ausência de um comando civil capaz de orientar sua ação nos protestos, sentiram-se acuados e partiram para a agressão. Estavam os “escritórios” – nome escabroso dado às células homicidas do narcotráfico –, distribuindo fuzis, a fim de distrair a polícia e liberar corredores para transportar a droga bloqueada pelas restrições da pandemia. E estavam os milicianos de grupos criminosos que ainda se autonomeiam “guerrilheiros” e aproveitaram para insuflar os protestos.

 

Para quem acompanha de longe a situação da Colômbia, a explosão social pode ter parecido uma incongruência. Como assim? A Colômbia não assinou um acordo de paz com a guerrilha há apenas cinco anos? Por que tanto clamor por paz nas manifestações, se o acordo foi, de modo geral, bem-sucedido, pois, segundo as próprias cifras oficiais, 13 088 dos 13 998 guerrilheiros que entregaram as armas continuaram a respeitar o processo?

Além disso, as instituições criadas pelo Acordo de Paz prosseguem sua tarefa com conquistas evidentes. A Justiça Especial para a Paz (JEP), encarregada de julgar os crimes de todos os atores durante o conflito, conseguiu, por exemplo, que os líderes das Farc admitissem terem sequestrado milhares de pessoas e serem responsáveis por crimes que permanecem impunes, como a morte do candidato presidencial Álvaro Gómez Hurtado, em 1995. A JEP documentou mais de 6 mil execuções extrajudiciais de civis feitas pela força pública, quando se calculava que fossem metade disso. A Unidade de Busca de Pessoas Dadas como Desaparecidas (UBPD) acrescentou dados sobre 19 698 corpos não identificados aos sistemas de buscas, ampliando assim a possibilidade de contabilizá-los entre os mais de 80 mil desaparecidos que a terrível guerra interna colombiana deixou. Por último, a Comissão da Verdade tem recolhido milhares de testemunhos de todas as partes para esclarecer o que ocorreu – e entregará seu relatório no final do ano.

Em parte, o próprio Acordo de Paz explica os recentes protestos. Como tem reiterado o ex-alto-comissário para a paz, Sergio Jaramillo, um dos arquitetos da estratégia que encerrou a guerra com as Farc, “o fim do conflito prenunciava um cenário de mobilização social, pois, num país com uma desigualdade como a nossa, uma das maiores do mundo, isso era de se esperar”. Em outras palavras, uma vez feito o Acordo de Paz, as pessoas, agora sem medo de serem tachadas de subversivas, se sentiram mais à vontade para exigir os seus direitos. Mas os protestos nasceram também por outro motivo: operários, camponeses e estudantes acusam o governo de ter sabotado deliberadamente o processo de paz.

Os avanços no desarmamento de mais de 70 mil homens e mulheres, ao longo dos últimos vinte anos, desde os paramilitares desmobilizados com a chamada Lei de Justiça e Paz, em 2005, até os guerrilheiros das Farc que abandonaram suas fileiras, motivaram a criação de várias iniciativas cidadãs: coletivos que procuram desaparecidos, associações dedicadas a retirar minas do campo, mulheres que denunciam o abuso de seu corpo pelos homens durante as batalhas, organizações de justiça e de camponeses que reclamam a terra roubada pelos grupos armados e seus cúmplices. A lista é longa.

Todos celebraram a paz. Na região do Cañón de las Hermosas, no Sul da Colômbia, por exemplo, as pessoas viviam sob o domínio do terror. Eram expropriadas cotidianamente pelos soldados do Exército, as crianças corriam para se esconder ao ouvir os bombardeios, e os guerrilheiros cobravam taxas sobre qualquer atividade. Em 2019, as coisas haviam mudado: conversei com líderes de cooperativas camponesas que plantavam café orgânico na região e conheci jovens que aprendiam fotografia. Essa paz havia custado muito, e eles não querem perdê-la.

O governo Duque e sobretudo os porta-vozes mais destacados do seu partido no Congresso dizem que o acordo foi uma farsa. A senadora Paloma Valencia, da ala mais à direita do partido do presidente, foi nomeada para o Conselho Nacional da Paz e desmente os números oficiais do próprio governo, assegurando, contra todas as evidências, que apenas mil guerrilheiros se desmobilizaram. É a cloroquina colombiana: o país inteiro sabe que o dado é falso, mas a direita continua espalhando a mentira.

Ao mesmo tempo, apesar do discurso militarista do governo, a insegurança só aumenta. Em 2020, foram cometidas 76 chacinas de civis, a pior cifra em seis anos, segundo o relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. A mesma entidade registrou o assassinato de 133 defensores dos direitos humanos. “No trabalho de campo que realizamos na Fundación Ideas para la Paz, prefeitos, líderes sociais, vítimas e populações locais coincidem em afirmar que houve um aumento da presença das forças militares que, no entanto, não se traduziu necessariamente em melhores condições de segurança”, escreveu, em maio, Juan Carlos Garzón, pesquisador dessa fundação, um think tank criado por empresários.

O governo ao qual todos se opõem é o encabeçado por Iván Duque, que aos 44 anos é o presidente mais jovem da história recente da Colômbia. Eleito por uma coalizão conservadora em agosto de 2018 e sem nenhuma experiência executiva de alto nível, seja no setor público, seja no privado, Duque chegou à Presidência ungido pelo mandatário mais popular das últimas décadas, Álvaro Uribe Vélez, e vem governando à sombra dele.

Depois de comandar o país entre 2002 e 2010, Uribe concorreu ao Senado e levou para lá um grupo considerável de seguidores para fazer oposição aos esforços de paz de seu sucessor, Juan Manuel Santos, que governou de 2010 a 2018. Em 2016, no plebiscito para referendar o recém-assinado Acordo de Paz, o uribismo conseguiu que o “não” ganhasse por uma diferença de 0,4% dos votos. Santos voltou à mesa de negociações para tentar incluir os pontos criticados pela oposição, obteve grande apoio internacional e conseguiu salvar o acordo, em seguida aprovado pelo Congresso. No mesmo ano, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. A legitimidade do acordo, contudo, ficou abalada. Aproveitando-se dessa fenda, o partido de Uribe, o Centro Democrático, levou o desconhecido Duque à Presidência.

Isso se traduziu, na prática, num vazio de liderança, o que a população tem constatado de forma ainda mais dramática com a enorme crise provocada pela pandemia. São frequentes os desencontros entre os ministros e os recuos nas políticas anunciadas. Opositores, colunistas e caricaturistas pintam um presidente que, embora se exiba todos os dias na televisão, vive desligado da realidade e parece somente escutar o círculo radical que o cerca e seu mentor Uribe.

O Comitê Nacional de Greve, que representa as vozes mais formais da mobilização, vem exigindo do governo, desde junho de 2020, seis ações para enfrentar a emergência sanitária. Entre elas, a regularização dos trabalhadores da saúde (pois 70% têm contratos temporários), o pagamento de um salário-mínimo a 30 milhões de pessoas por seis meses para que possam sobreviver à retração forçada da economia durante a pandemia, subsídios aos pequenos produtores agrícolas e à folha de pagamento de pequenas e médias empresas, além da isenção da taxa de matrícula para os estudantes do ensino superior.

Todavia, em abril passado – quase um ano depois –, Duque ainda não tinha respondido a essas reivindicações e, apesar de incluir em seu projeto de reforma iniciativas como a isenção de matrícula para universitários e técnicos, fez questão de não apresentá-las como concessão às demandas do comitê e das mobilizações estudantis. Estava empenhado em não ceder em nada ou, pelo menos, parecer que não estivesse cedendo.

Sentindo-se mais forte do que era, o governo apresentou em 15 de abril ao Congresso uma reforma tributária, enquanto na Colômbia mais de 67 mil pessoas choravam seus familiares mortos pela Covid-19 e o desemprego passava de 18% nas principais cidades (sendo mais alto ainda entre jovens e mulheres). Foi a gota d’água para o deslanche da greve, dos protestos e das passeatas.

 

Alguns não acharam a reforma tributária tão regressiva como a interpretaram os movimentos sociais. A proposta incluía um imposto de 5% sobre os ganhos mais altos de pessoas físicas (em investimentos ou ações) e o aumento do imposto sobre o patrimônio dos mais ricos por dois anos. Também revertia as vantagens concedidas a empresas na reforma anterior, feita em 2019 pelo próprio governo. Além disso, cobrava impostos de beneficiários de superaposentadorias – 58% do gasto social está comprometido com o pagamento de pensões, e os aposentados que ganham mensalmente mais de 10 milhões de pesos (cerca de 13 mil reais) consomem quase nove vezes os recursos destinados ao grupo que recebe o equivalente a um salário-mínimo (cerca de 1,2 mil reais).

Por outro lado, a reforma ampliava a cobrança de imposto de renda de pessoas com salários relativamente baixos, tornando a declaração obrigatória para quem ganha acima de 2,5 milhões de pesos mensais (cerca de 3,3 mil reais), quando atualmente o valor é de 4,5 milhões de pesos mensais (cerca de 6 mil reais). Fora isso, não reduzia subsídios para  megainvestimentos e zonas francas.

A reforma foi recebida com ceticismo também devido à falta de transparência nos gastos extraordinários no início da pandemia, por mais que o governo ressaltasse seu esforço para auxiliar famílias em condição de pobreza, como a devolução que fez a pessoas de baixa renda do Imposto sobre o Valor Agregado (IVA). De acordo com um estudo do Observatório Fiscal da Pontifícia Universidade Javeriana, divulgado em junho do ano passado, “não se sabe ao certo se os gastos anunciados foram de fato realizados”, pois os números oficiais eram substancialmente superiores aos dos contratos assinados e às descrições de muitos gastos, demasiado genéricas.

Quase ao mesmo tempo em que a reforma tributária foi apresentada, soube-se que a Colômbia ganhara 3,5 milhões de novos pobres em relação a 2019, uma consequência da crise provocada pela pandemia. Dos 50 milhões de habitantes do país, 21 milhões são pobres (ganham menos de 460 reais por mês) e 7,5 milhões estão na miséria (seus ganhos são insuficientes para comprar os alimentos necessários para viver). Em algumas cidades, cinco em cada dez pessoas passam fome.

Todos esses fatores se somaram: o aumento vertiginoso da pobreza e do desemprego; as injustiças que saltaram aos olhos quando o conflito político com as Farc saiu do primeiro plano; a determinação de milhares de organizações de impedir que os esforços pela paz sejam arruinados; um governo impopular e de liderança fraca, incapaz de proteger os líderes comunitários nas áreas onde a guerrilha se desmobilizou e com dificuldades para a negociação; e uma juventude que adotou a agenda global contemporânea, ambientalista, libertária, redistributiva e inclusiva. Reunido tudo isso, ocorreu uma explosão social como nunca se viu na Colômbia.

“O copo transbordou”, disse Sergio Fajardo, pré-candidato à Presidência pela Coalizão da Esperança (de centro), em conversa com a piauí. “Os sucessivos escândalos de corrupção e a desigualdade crescente abalaram a legitimidade das instituições e provocaram a perda de confiança por parte da população. Uma geração mais educada, mais consciente, que enfrenta uma vida cheia de incertezas, sem perspectivas de emprego e muitos obstáculos para estudar se rebelou contra um governo que não a escuta.”

As manifestações e a greve logo obtiveram vitórias políticas. O governo de Duque teve que recuar na reforma tributária da qual tinha urgência para acalmar os mercados, que estão financiando um déficit fiscal insólito para a Colômbia, de 7,8% do PIB em 2020, podendo passar dos 9% em 2021. O ministro da Fazenda caiu, e poucas semanas depois foi a vez da ministra de Relações Exteriores, que refutou as críticas da ONU e de várias nações estrangeiras às graves violações dos direitos humanos feitas pelo governo na repressão de um movimento majoritariamente pacífico.

Para responder às críticas internacionais, Duque – que não é candidato à Presidência, pois a reeleição não é mais permitida na Colômbia – gravou uma espécie de autoentrevista em inglês e a distribuiu nas redes sociais. Acusou com veemência Gustavo Petro, principal líder da oposição de esquerda e candidato à Presidência, de estar por trás da “conspiração” que impulsionou a mobilização social. Na visão de Duque, o rival político quer frear a recuperação econômica e impedir que o governo possa cuidar dos mais pobres, provocando o descontentamento que lhe garanta a vitória nas eleições de maio do ano que vem.

O ministro da Defesa, Diego Molano, afirmou repetidas vezes que dissidências das extintas Farc – uma minoria de guerrilheiros que não aceitou o processo de paz ou o abandonou depois que foi assinado, continuando a cometer crimes em algumas regiões do país – estavam por trás dos protestos, justificando assim a repressão violenta do governo.

 

Forçado pela magnitude das críticas e o baixo apoio popular – somente 18% das pessoas aprovam sua gestão, segundo pesquisa do instituto Invamer divulgada em maio –, o governo Duque aceitou negociar. Não é uma tarefa fácil, porque o Comitê Nacional de Greve é multifacetado. Formado inicialmente pelos principais sindicatos de trabalhadores, agricultores e pensionistas – entre eles a Central Unitaria de Trabajadores (CUT) e a Confederación Geral del Trabajo (CGT) –, o Comitê ampliou sua representação para incluir organizações sociais e líderes estudantis. Com isso, ganhou em complexidade e deixou de ter um porta-voz claro.

A pressão econômica da greve também ficou maior. A interrupção das atividades dos caminhoneiros e do Porto de Buenaventura, além das barreiras organizadas pelos manifestantes e sindicalistas (bloqueio de rodovias e piquetes impedindo a entrada de pessoas e produtos nas principais cidades) provocaram em maio passado, segundo o think tank Fedesarrollo, prejuízos entre 4,8 quatrilhões e 6,1 quatrilhões de pesos (entre 6,4 bilhões e 7,8 bilhões de reais).

Em 24 de maio, o governo e o Comitê de Greve anunciaram um pré-acordo para suspender a paralisação e os bloqueios, em troca de mínimas garantias para os protestos e evitando apelar à proteção do Exército. A ideia era iniciar depois, num ambiente mais calmo, as negociações em torno dos pontos que o comitê reivindicara um ano antes. A trégua, porém, durou pouco. Tão logo o porta-voz do governo acertou os termos negociados, o presidente submeteu o acordo à revisão ministerial, o que levou o comitê a abandonar as negociações, em 6 de junho.

Apesar da evidente debilidade da liderança presidencial, o Comitê de Greve saiu sem concessões concretas, e a mobilização social, como era de se esperar depois de tantos dias, perdeu força. Contribuiu para isso a percepção de que o custo econômico dos protestos estava sendo muito alto para a frágil economia colombiana, que acabara de iniciar uma retomada no primeiro trimestre do ano e em seguida teve que voltar a se fechar parcialmente, por causa de uma nova onda de contágios, a mais virulenta até agora, que dia após dia vem batendo recordes de mortes – até 22 de junho, a Colômbia era o décimo país com mais vítimas da Covid-19, com 100 582 mortos. O desabastecimento e o repúdio público aos bloqueios e ataques violentos a bens públicos e privados também deixaram a greve sem fôlego.

Duque está preparando uma nova reforma tributária a fim de dar sinais claros que acalmem os mercados financeiros e portadores de títulos da dívida. Por ora, os economistas do governo acreditam que poderão financiar o déficit fiscal deste ano com títulos nacionais e internacionais. É difícil, mas a Colômbia tem a seu favor um histórico de país bom pagador e de condução cautelosa das suas finanças. O país, entretanto, precisa provar aos credores internacionais que está disposto a aumentar a arrecadação e reduzir os gastos, controlando sua dívida pública, que em 2020 chegou a 65% do PIB, muito acima da média dos anos anteriores. Deve subir mais ainda em 2021, segundo especialistas.

O grande desafio agora é político. Conforme a avaliação do independente Comité Consultivo de la Regla Fiscal, que monitora o Estado para que não gaste mais do que arrecada, há uma defasagem entre as demandas sociais e os recursos disponíveis: “Alcançar esse equilíbrio exigirá esforço de todos, incluídos os grupos da sociedade que historicamente contribuíram abaixo de suas possibilidades.”

É improvável que um governo fraco como o atual consiga convencer esses grupos mais privilegiados a aumentar sua contribuição de forma substancial. De fato, antes da eclosão dos protestos, muitos dirigentes dos próprios partidos da coalizão governista já haviam alertado que barrariam no Congresso alguns dos pontos mais progressistas da reforma.

Portanto, é provável que a nova reforma apenas consiga, na melhor das hipóteses, aplacar os ânimos no país e acalmar os credores internacionais por algum tempo. A verdadeira batalha sobre quem entrará com os recursos para estabilizar a economia e como eles serão distribuídos para responder ao clamor de um país pobre e dos mais desiguais da América do Sul será travada na campanha para as eleições presidenciais de 2022, que acaba de começar.

A corrida já mostra uma enorme fragmentação. Foram lançados mais de trinta pré-candidatos, a maioria sem partido. As candidaturas não estão todas definidas, mas, a julgar pela intensidade dos protestos, deverá ser uma disputa turbulenta.

É o que prenuncia a história recente de enfrentamento armado, de expansão do crime organizado e dos apelos de uma geração de jovens pobres que exige participar de um país que lhes dê oportunidades para não seguir os passos da anterior e acabar nas fileiras de um novo conflito violento.

Eis a escolha diante da qual se encontra a classe dirigente colombiana. Se conseguir estender pontes e procurar soluções às demandas legítimas da nova geração, acreditando que o desenvolvimento de seus talentos é a maior riqueza, talvez a anunciada paz com crescimento econômico possa vir a acontecer. Se, por outro lado, ignorar e silenciar essas aspirações, empurrará todos novamente à violência, e isso num momento em que o caminho do autoritarismo volta a seduzir o mundo – e a América do Sul não é exceção.

María Teresa Ronderos

É jornalista colombiana, diretora do Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (Clip) e professora da Fundación Gabo. Publicou Guerras Recicladas (Aguilar).

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