carta da Bolívia

O índio contra o império

Enquanto articula uma frente antiamericana com a Venezuela e o Irã, o presidente Evo Morales diz que, se a Petrobras não investir no país, confiscará os campos de gás da companhia

Consuelo Dieguez
“Acho que os brasileiros deveriam eleger o presidente da Petrobrás, e ele deveria eleger o presidente do Brasil, já que a Petrobrás manda mais que o Lula”, disse Evo Morales
“Acho que os brasileiros deveriam eleger o presidente da Petrobrás, e ele deveria eleger o presidente do Brasil, já que a Petrobrás manda mais que o Lula”, disse Evo Morales FOTO: NOAH FRIEDMAN RUDOUSKY_2007

Às 6h30 da manhã de quarta-feira, 5 de setembro, os termômetros da base aérea militar da cidade de El Alto, a cerca de vinte minutos de La Paz, marcavam 1 grau Celsius. Um vento glacial e cortante fazia a temperatura parecer ainda mais baixa. No portão de entrada, soldados tentavam se proteger com ponchos e gorros. Um deles, soltando fumaça pela boca, se aproximou para saudar os visitantes. Um velho táxi levou cinco minutos para ir dali a um barracão branco, onde uma inscrição em vermelho avisava tratar-se da sala VIP da base. As frestas nas portas e janelas de alumínio deixavam penetrar o ar gélido, o que fazia da sala uma câmara frigorífica. Logo na entrada, havia um desconfortável jogo de sofás, com braços de madeira e estofado de courvin. Num deles, acomodava-se um homem magro, de barba e cabelos negros já um pouco grisalhos, que vestia um terno de tecido fino demais para o frio e uma camisa sem colarinho, fechada até o pescoço.

O homem magro cobria a boca e o nariz com um lenço. Pelos seus olhos arregalados, percebia-se o enorme esforço que fazia para respirar. A base aérea estava a mais de 4 000 metros de altura, o que dificultava a respiração, especialmente para os recém-chegados. E Abdollah Zifan, carregando o caudaloso título de Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Islâmica do Irã na República Bolivariana da Venezuela, desembarcara em La Paz apenas cinco horas antes. Numa das cadeiras à sua frente estava Mohamad, um jovem iraniano de olhar preocupado, que servia de intérprete ao embaixador, cujo conhecimento do espanhol limita-se a gracias e buenos días.

A porta da sala se abriu. Junto com uma rajada de vento, entrou um homem alto, forte e sorridente. Era Julio Montes, embaixador da Venezuela, uma das figuras mais respeitadas pelo governo boliviano, a ponto de ocupar um gabinete no palácio presidencial, onde despacha quase diariamente. O embaixador cumprimentou o seu colega iraniano e se dirigiu a um balcão de madeira, no qual um garçom preparava chá de coca e café. Montes foi juntar-se a dois pilotos da Aeronáutica e ao chefe da casa militar da Bolívia, general Ramiro Orellana, com quem gracejou, dando-lhe tapinhas nas costas.

Completou-se assim o pequeno grupo que, dali a pouco, viajaria com Evo Morales. No trajeto, o presidente boliviano liberaria recursos para municípios dos estados de Oruro e Cochabamba, no quadro de um programa chamado Evo CumpleBolívia Avanza. O embaixador venezuelano conferiu os documentos que trazia numa pasta de papel amarela. Eles detalhavam o total de recursos que seriam distribuídos naquele dia e as obras a serem realizadas com as doações. Havia uma razão especial para a sua presença: o Evo Cumple é integralmente financiado pelo governo da Venezuela, que, em um ano, já doou 40 milhões de dólares para a Bolívia. O embaixador não escondia o seu orgulho, e mostrou o talão de cheques, de capa azul-escura, com a marca do Banco Unión da Venezuela, na qual se lia: Conta corriente en dólares – Programa Evo Cumple. Duas folhas do talão já traziam a sua assinatura. Uma delas no valor de 230 mil dólares, para a prefeitura de Vinto, em Cochabamba, e outra no valor de 72 648 dólares, para Corque, em Oruro.

“O presidente Evo Morales orienta para onde vão os recursos, e nós damos o dinheiro”, explicou o embaixador. “Fazemos um convênio com os municípios, para tornar as doações legais, e o ministério da Fazenda abre uma conta fiscal.” Montes enumerou de cor os benefícios do programa: em um ano foram construídas 127 escolas e completadas 850 obras diversas. “Em 60% dos municípios bolivianos”, disse, “há pelo menos uma obra financiada pelo Evo Cumple.”

O embaixador desdenha as críticas da oposição boliviana, que afirma que o dinheiro da Venezuela, além de não entrar no orçamento da União e não passar pela aprovação do Congresso, seria usado para comprar os prefeitos, em troca de apoio ao governo federal. “Esse programa é fundamental para os bolivianos mais pobres”, defendeu Montes. “O dinheiro ajuda a desenvolver a infra-estrutura no país.” Ele contou que o presidente Evo Morales costuma fazer pelo menos três viagens, semanalmente, para entregar os cheques venezuelanos. “Eu o acompanhava em todas elas, mas, em função das críticas, reduzi a minha participação.”

Eram 7h30 quando o presidente Evo Morales entrou na sala. Vestia calça azul-escura e uma casaca no mesmo tom, com bordados indígenas na lapela e nas mangas – característica de todas as suas roupas. Ele é mais alto e mais magro do que parece nos jornais e na televisão. Em voz baixa, e sorrindo timidamente, desculpou-se pelo atraso de meia hora. Foi apresentado ao embaixador do Irã pelo da Venezuela, que assumiu o papel de mediador no encontro. O grupo de oito pessoas, incluídos os dois pilotos, embarcou no jatinho da Força Aérea Boliviana. O presidente sentou-se de frente para o embaixador da Venezuela. Ao seu lado, acomodou-se Abdollah Zifan, tendo o intérprete à sua frente. Na presença do presidente, o embaixador iraniano pareceu recuperar o fôlego. E explicou as razões da sua visita à Bolívia:

“Presidente, o Irã já possui uma cooperação bilateral com a Nicarágua, e seria muito bom nós também trabalharmos juntos. O presidente Hugo Chávez pediu ao presidente Mahmoud Ahmadinejad para ajudar a Bolívia. Os nossos países têm um potencial muito grande, mas as oportunidades não têm sido aproveitadas.” Sem esperar comentários, continuou: “Podemos fazer um trabalho conjunto com o Irã, a Bolívia e a Venezuela. Temos condições de organizar aqui grandes complexos agroindustriais. Vendemos máquinas agrícolas para a Venezuela por 6 000 dólares, enquanto as americanas custam 20 mil. E podemos importar toda a produção de vocês, seja de cacau, soja ou café. Na conversa com o presidente Ahmadinejad, o presidente Chávez falou da necessidade de fortalecer a Alba [Alternativa Bolivariana para as Américas, um mercado comum em oposição à Alca, proposta pelos Estados Unidos]”. O embaixador iraniano fez uma pequena pausa, olhou pela janela do avião e comentou que, como La Paz, Teerã também era cercada por montanhas. Logo voltou ao assunto: “Nosso presidente pensa também em criar aqui um complexo petroquímico. Com isso, daríamos um grande valor agregado ao gás boliviano”.

O avião presidencial é desprovido de qualquer luxo. Além de algumas mantas de lã, havia apenas uma almofada, de veludo vermelho, sobre a poltrona do presidente. Os quatro homens estavam sentados bem próximos, mas, ainda assim, o ruído do motor obrigava o intérprete a falar alto, para poder ser ouvido pelo presidente. Morales, que até então se limitara a assentir com a cabeça, aproximou-se um pouco mais do intérprete, demonstrando o seu interesse pela questão específica do gás. Animado, o embaixador disse: “O Irã apóia a integridade e a independência da Bolívia. Temos boas possibilidades no campo da defesa militar. Juntos, podemos impedir o avanço dos imperialistas”. E fez uma confidência: “Não creio que o presidente Bush possa deixar o Iraque. Os Estados Unidos não sabem como sair de lá. Eles reconheceram que, sem a ajuda do Irã, não podem fazer nada, e nós ainda não decidimos se vamos dar essa ajuda”.

Morales quis saber como o Irã conseguiria fazer frente aos Estados Unidos. “Nós podemos enfrentar os Estados Unidos porque há 28 anos resistimos à pressão americana”, respondeu Zifan. Disse então o motivo político da sua visita: “Vamos apoiar o avanço dos países latino-americanos vizinhos da Venezuela. Será um grande golpe nos norte-americanos. Diga as prioridades de vocês: nós precisamos fortalecer essa relação. Se deixarmos os americanos tranqüilos, eles avançarão mais. Sabemos o que vocês estão sofrendo”.

Naqueles dias, a conversa com o embaixador iraniano foi uma das poucas razões de alento para Evo Morales. O seu governo se via às voltas com protestos nas ruas de Sucre, no estado de Chuquisaca. Sucre é uma pequena cidade colonial, cuja população é majoritariamente branca, descendente de espanhóis – los blancones, como são chamados. Ela deixou de ser a capital do país, em 1899, numa guerra contra La Paz que provocou algumas centenas de mortos de ambos os lados. A cidade é um dos maiores centros de resistência a Evo Morales. O pretexto para as manifestações foi a decisão do governo de retirar do projeto da nova Constituição, em discussão pela Assembléia Constituinte, a proposta de retorno da sede do governo para a antiga capital.

Diante do desemprego, da pobreza e da falta de infra-estrutura básica na maioria dos municípios, a mudança da capital deveria ser uma preocupação secundária. A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul. Tem um Produto Interno Bruto de 10 bilhões de dólares, e a renda per capita é de 1 150 dólares. A taxa de crescimento da economia não superou os 2% no primeiro semestre, ao passo que a inflação, até agosto, atingiu 8%, contra uma média de 5% nos últimos anos. A soma de baixo crescimento econômico com turbulência política fez a popularidade do presidente cair, em agosto, de 61% para 57%. Nas regiões mais pobres, no entanto, ele é venerado: na cidade de El Alto, o índice de aprovação ao seu governo é de 88%, e chega a 82% em La Paz. Em contrapartida, na rica Santa Cruz, a aprovação desaba para 27%.

Até o ex-presidente Carlos Mesa, um dos líderes da oposição a Morales, considera imprópria a polarização em torno da mudança da capital. “A Bolívia teria de gastar 8 bilhões de dólares na transferência e, mesmo que dispusesse desses recursos, não poderia se dar ao luxo de empregá-los numa questão secundária”, afirmou Mesa, um homem alto, de barba grisalha e ar aristocrático, numa conversa em seu escritório, no último andar de um prédio moderno, no centro de La Paz.

Evo Morales acusa a oligarquia branca de usar a mudança da capital para desestabilizar seu governo. Ao insuflar os conflitos regionais, a oposição tem conseguido atrasar a discussão sobre a reforma da Constituição que, junto com a nacionalização do gás, foi uma bandeira da campanha de Morales à presidência. Ao prometer um texto constitucional que garantisse maiores direitos aos indígenas, a reforma agrária e um maior controle do capital privado, Evo Morales elegeu-se presidente, em dezembro de 2005, com 54% dos votos, margem inédita na história boliviana. “A oposição sabe que o apoio que o presidente recebe da população mais pobre vem da confiança de que ele promova mudanças radicais, através da nova Constituição”, analisou o jornalista Maurício Quiroz Terán, jovem sorridente e afável, diretor da agência de notícias Fides, uma das mais antigas da Bolívia.

Dois dias antes da viagem a Cochabamba, Morales fizera uma análise das pressões que vem sofrendo, na primeira entrevista que me concedeu. Na ante-sala de seu gabinete no Palácio do Governo, decorada com móveis e espelhos estilo Luís XVI, acomodado numa poltrona de seda estampada, ele falou que a burguesia reage porque não se conforma em perder os seus privilégios. “A elite, a oligarquia branca, queria continuar sacando eternamente o dinheiro do Estado”, disse, falando baixo e pausadamente, com a mão encobrindo parte dos lábios. “Os maiores empresários bolivianos devem 2 bilhões de dólares ao banco estatal. Tomaram o dinheiro emprestado e nunca pagaram.” Afirmou que os governos anteriores, nos últimos dez anos, distribuíram 10 milhões de hectares de terra, basicamente para empresários ou aliados. Agora, em um ano e oito meses de governo, ele disse ter distribuído 5,5 milhões de hectares, todos para famílias pobres. “Por razões como essa, a elite quer me tirar do poder.”

Não seria novidade. A história política boliviana é marcada por uma sucessão de golpes militares, de juntas de governo, presidentes que não terminam o mandato e rebeliões frustradas. Desde a independência, em 1825, o país passou por 23 golpes militares, teve uma média de um presidente a cada dois anos, e viveu 97 anos sob regimes ditatoriais.

Tendo as manifestações de Sucre como epicentro, o país tem agora dois pólos – o Altiplano, onde fica La Paz, e que é a base de apoio de Morales, e a Media Luna, na fronteira com o Brasil, onde ficam os cinco estados mais ricos, que contestam Morales. No Altiplano concentra-se a maior parte da população indígena, dos mineiros e dos plantadores de coca. Na Media Luna estão as maiores indústrias e os grandes empreendimentos agroindustriais. Os seus representantes querem que a Constituição lhes garanta maior autonomia, o que significa a retenção de uma fatia maior dos impostos arrecadados. Além disso, eles rejeitam a reestatização de minas e empresas, como quer o governo, e a reeleição ilimitada do presidente, nos moldes do que é feito na Venezuela, também prevista no projeto constitucional.

A queda-de-braço entre Morales e seus oponentes se dá também no Congresso. O partido do governo, o MAS – Movimiento al Socialismo -, tem folgada maioria na Câmara dos Deputados, enquanto a oposição predomina no Senado. Assim, o que uma das casas aprova, a outra desautoriza, provocando ziguezagues e semiparalisia na administração pública. Carlos Mesa, que se tornou presidente da Bolívia, em 2003, com a queda de Gonzalo de Lozada, derrubado por uma rebelião popular, acredita que o país corre o risco de um novo enfrentamento. “O Estado está a cada dia mais frágil e a sociedade, cada vez mais dividida”, disse ele. “A esperança de unir o país estava na nova Constituição, mas um acordo parece cada vez mais distante.”

O sociólogo Franco Gamboa Rocabado, observador das Nações Unidas na Assembléia Constituinte, um jovem de óculos e com os cabelos penteados para trás fio a fio, acredita que a discussão da nova Constituição tem erros de origem. “A Constituinte foi instalada com dois problemas graves”, declarou ele, durante uma conversa em um café, no centro de La Paz. “O primeiro foi a ausência de pactos prévios com todos os setores da sociedade. O segundo é que o MAS, o partido do governo, nunca teve uma proposta que unisse o país.” Para Rocabado, os 54% de votos para Morales provaram que a população “quer que as mudanças sejam feitas em condições pacíficas, mas é preciso entender que as transformações só poderão ser feitas em longo prazo”.

Há críticos mais extremados. “Evo quer todo o poder para ele. Essa é a mentalidade do MAS, que sofre a influência da esquerda mais radical, e sonha com o partido único nos moldes da antiga União Soviética”, disse Carlos Toranzo, cientista político de expressão séria, em seu escritório no Instituto Latino-Americano de Investigações Sociais, instalado em um casarão inglês cercado por um bem cuidado jardim. Segundo Toranzo, o presidente foi seduzido pelas idéias de Hugo Chávez, e tenta repetir na Bolívia a experiência venezuelana.

Evo Morales rejeita todas essas análises. “Nós estamos buscando o consenso, mas a direita não quer negociar”, disse. “É um diálogo de surdos. Eles não respeitam os acordos que fazemos. Os meus opositores só sabem repetir que é preciso derrubar esse índio de mierda. Como se pode chegar a um acordo com esse tipo de gente?” O presidente se ajeitou na poltrona, passou a mão nos cabelos negros e vaticinou: “Eles podem até tentar. Mas é impossível que consigam frear o processo revolucionário que está ocorrendo na Bolívia. Eu acredito na força do povo, que luta por seus direitos. Os movimentos populares são independentes e têm consciência de que a hora da mudança chegou, quer a direita queira ou não”.

O cientista social Ricardo Calla, consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, avalia que, ao contrário da ruptura defendida pelo presidente, a Bolívia precisa de conciliação. “Morales era o presidente com mais condições para negociar acordos que este país já teve. No entanto, ele nunca utilizou esse poder. Ao contrário, o que ele fez foi acirrar a discussão entre direita e esquerda, entre índios e brancos.” Para Calla, um homem magro, agitado e de raciocínio rápido, Morales perdeu a oportunidade de isolar a direita mais radical, representada pelos empresários de Santa Cruz, contrária a qualquer mudança, e tentar uma aproximação com a parte da elite que estaria disposta a fazer concessões.

Ocorre que o MAS só está unido em torno da plataforma das eleições. O partido é uma dissidência da Falange Socialista Boliviana, fundada em 1987, que seguia os modelos da esquerda clássica. Como em outros países, a esquerda entrou em crise com a queda do Muro de Berlim. Na Bolívia, houve um elemento adicional: dezenas de minas fecharam, e a Central Obrera Boliviana, a poderosa COB, viu esvanecer a sua maior base de apoio. O MAS, que surgiu em 1999, como braço político do sindicato dos cocaleros, acabou se transformando no desaguadouro de todos os órfãos políticos. Nele se refugiaram oriundos do comunismo, marxistas independentes e defensores da luta armada. “O MAS é uma frente na qual cabe tudo, desde líderes da esquerda radical até dirigentes sindicais, camponeses e índios”, afirma o sociólogo Franco Gamboa Rocabado. “E eles têm dificuldade em se entenderem.”

Para Calla, a esquerda boliviana não se modernizou. “Ela continua com a mentalidade da Guerra Fria e defende Fidel Castro”, disse. A esquerda no Brasil e no Chile, em sua opinião, entendeu o significado do mercado. Mas, na Bolívia, ela defende uma forte intervenção do Estado na economia, o que dificulta a entrada de novos capitais para o país. Evo Morales, de acordo com Calla, é o único que consegue unir o MAS. Essa consciência do seu poder o levou a acuar a ala mais à direita do partido, os “técnicos”. Essa ala acusa o presidente de ter nomeado militantes sem preparo no ministério, preferindo líderes indígenas e sindicais. A sua ex-ministra da Justiça, Casimira Rodriguez, por exemplo, era dirigente do sindicato das empregadas domésticas.

Às 8 horas da manhã, o jatinho presidencial pousou na base aérea de Cochabamba. Na sala de espera, o embaixador da Venezuela pediu para ver os jornais: todos traziam manchetes das confrontações em Sucre. Julio Montes vestia uma calça cinza-escura e elegante jaqueta cinza-clara. O embaixador é um homem jovial e expansivo, que parece à vontade em todos os ambientes. Em contraste com Evo Morales, que não disfarça a sua natureza tímida, discreta e desconfiada, Montes circula e fala com desenvoltura. Às vezes, parece que é ele o presidente da Bolívia. Evo Morales afastou-se para atender ao celular, mas foi possível entreouvir parte da sua conversa. “Eles não querem diálogo, eles querem conflito”, reclamou, referindo-se, provavelmente, aos líderes da direita em Sucre. O presidente desligou o telefone e tentou disfarçar a sua preocupação, convidando a pequena comitiva para o café da manhã.

O grupo acomodou-se em várias caminhonetes Toyota, presenteadas à Bolívia pelo governo venezuelano. Os automóveis seguiram pelas ruas acanhadas e poeirentas da cidade e estacionaram na frente de um restaurante, um imenso galpão cujo interior abrigava uma profusão de espelhos, esculturas de gesso em forma de flores e anjos, pintadas em um dourado berrante, que sobressaíam nas paredes vermelhas. Sobre um grande móvel de madeira barata, figuras de elefantes dividiam espaço com um Cristo Redentor de cerca de 1 metro de altura. Três mesas foram arrumadas no salão, forradas por toalhas de náilon com motivos rendados, cobertas por um plástico transparente. Os talheres, descasados, repousavam ao lado dos copos de vidro de geléia.

À comitiva presidencial agregaram-se os motoristas das caminhonetes e alguns militares. O presidente sentou-se à mesa central e brincou com o embaixador da Venezuela: “Embaixador, o senhor está à minha direita”. Julio Montes revidou, sorrindo: “Fique tranqüilo, presidente, o senhor está à minha esquerda”. Em frente ao presidente, o embaixador do Irã, discretamente, limpava os talheres com o guardanapo de papel. Uma sopa insossa de milho e batata – o café da manhã à moda local – foi servida em grandes tigelas, acompanhada por gordas e gordurosas costelas de lhama e pedaços de frango. “Em La Paz, se vive para bailar, aqui se vive para comer”, gracejou Morales diante da enorme tigela à sua frente. O presidente não falou mais durante a refeição: enterrou a cabeça no prato e devorou tudo com evidente prazer. Apenas o embaixador iraniano, que sorvia a sua sopa devagar e em pequeníssimas colheradas, quebrou o silêncio, sugerindo que se abrisse um restaurante iraniano em La Paz, como o que existe em Caracas.

Depois do café da manhã, a comitiva retornou à base aérea, onde um helicóptero militar Super Puma, de fabricação francesa, estava a postos para levá-los à cerimônia de entrega dos cheques. O embaixador Julio Montes apontou para a aeronave e disse: “Seu helicóptero, presidente”. Ouviram-se algumas risadas, já que a aeronave fora cedida pelo Exército venezuelano para os deslocamentos de Morales. Seis militares venezuelanos, vestidos com macacões verdes e bonés vermelhos, assumiram o comando da aeronave, que, às 9h45, decolou de Cochabamba, para pousar, uma hora depois, num campo de futebol em Vinto. Uma pequena multidão se aglomerava à espera do presidente. Quando ele desceu do helicóptero, foi cercado pela massa que gritava o seu nome. Os seguranças, atarantados, tentavam afastá-lo da multidão. Foi levado de carro à praça principal, onde fora montado o palanque. A temperatura era de 30 graus.

O presidente foi recebido com uma chuva de confetes e um colar de flores. Ao lado dos embaixadores do Irã e da Venezuela, sob um sol de lascar, assistiu a um desfile de estudantes, ouviu a apresentação da banda da Polícia Nacional e os discursos dos políticos locais. “O presidente está trabalhando pelo povo, não está só, nós somos o seu exército”, disse o prefeito de Vinto para os índios e mestiços que se espremiam na praça. “O presidente veio trazer um presente de 230 mil dólares para a nossa comunidade”, continuou o prefeito. “Com esses recursos, doados pela embaixada da Venezuela, e com o apoio da embaixada de Cuba ao nosso programa de alfabetização, vamos melhorar as condições de vida da população.” O povo respondeu com aplausos e gritos.

Evo Morales pegou o microfone. “Antes que os meios de comunicação me critiquem, quero avisar que o embaixador do Irã está aqui porque temos uma relação não só com a América Latina, mas também com a África, a Europa e o Oriente Médio”, disse, num tom mais apropriado a uma conversa do que a um discurso, e quase sem gesticulação. “O dinheiro que os americanos mandam para cá subsidia os partidos dos vende-pátria. Já o dinheiro da Venezuela ajuda a construir escolas e quadras de esporte. Estamos trabalhando desde as 5 da manhã, e a oposição, que não está acostumada a trabalhar, nos acusa de comprar prefeitos.” A multidão aplaudia com mais vigor. O presidente concluiu o discurso recordando aquele que considera o maior feito do seu governo: a nacionalização do gás e do petróleo: “Antes da nacionalização, nosso país arrecadava apenas 300 milhões de dólares em impostos. Agora recolhemos 2 bilhões de dólares, recursos que estão ajudando a mudar a Bolívia”.

A nacionalização do gás e do petróleo, decretada em 1º de maio do ano passado, foi a ação mais retumbante do governo Morales. Ela serviu para mostrar ao seu eleitorado – composto, em sua maioria, pela população mais pobre da Bolívia – que ele estava rompendo com o passado “neoliberal” e “neocolonial”. Ao transformar a nacionalização num feito espetacular, o presidente assustou a Petrobrás e o governo brasileiro.

“A idéia inicial era fazer um ato para a população boliviana, comunicando a nacionalização e o aumento, de 30% para 60%, dos impostos das empresas que exploravam o gás”, contou o jornalista Mauricio Quiroz Terán. “Mas aí vieram os espetáculos para a mídia, como cercar o campo de San Alberto, da Petrobrás, com tropas do Exército.” Segundo Terán, foi a Venezuela quem cedeu o sinal de satélite para as televisões transmitirem ao vivo a ocupação. Também foi Hugo Chávez quem emprestou os uniformes, as armas, os óculos e os capacetes usados na ação pelos soldados bolivianos. “Aquilo tudo parecia meio cômico, uma espécie de show, porque sabemos que nossos soldados não têm aquelas roupas, aquelas armas e nem aqueles óculos de Rambo”, disse o jornalista. “Eles pareciam uns marines.”

O gesto acabou sendo mais forte que o ato em si. “Morales falou em nacionalização, mas nenhum campo de gás foi confiscado até agora, tanto que todos os contratos para exploração foram renovados”, afirmou, em seu escritório numa movimentada rua de La Paz, o engenheiro boliviano Carlos Miranda Pacheco, homem alto e corpulento, consultor na área de petróleo e gás. “O que houve foi apenas um justo aumento de impostos das companhias que exploram o combustível.” Mesmo a recompra da refinaria da Petrobrás pela YPFB – Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos -, que tanto mal-estar causou ao governo brasileiro, não teria sido, na avaliação de Pacheco, um negócio ruim para a estatal brasileira. Afinal, a Bolívia pagou 112 milhões de dólares por uma refinaria de 38 anos, que a Petrobrás comprou por 109 milhões de dólares e explorou durante dez anos.

Pacheco imprimiu algumas tabelas que mostram o comportamento da produção de gás e petróleo na Bolívia. Elas revelam que a produção de gás se manteve estável, entre 2005 e 2006, e a de petróleo caiu um pouco. “A produção já vinha caindo”, disse Pacheco. “Agora era o momento de as empresas acelerarem a produção, mas, pela incerteza quanto ao cumprimento dos contratos, elas estão apenas mantendo a produção atual.” O problema é que a Bolívia chegou ao seu limite de venda de gás. O Brasil está consumindo os 30 milhões de metros cúbicos por dia que lhe cabem, pelo acordo do gasoduto Brasil-Bolívia. Com isso, sobra pouco para o consumo local e a exportação para a Argentina, com a qual o governo de Morales se comprometeu a entregar 27 milhões de metros cúbicos de gás por dia, a partir de 2010. “Como a Bolívia vai entregar esse gás, se as empresas não estão investindo para aumentar a produção?”, pergunta Pacheco. Para cumprir o que prometeu aos argentinos, o país teria de dobrar a produção em três anos, o que parece improvável. “Tudo isso poderia ter sido evitado, caso tivesse havido menos espetáculo e mais negociação”, conclui o engenheiro.

Enquanto esperava pelo fim da cerimônia em Vinto, o embaixador da Venezuela, com um colar de flores no pescoço, em um canto do palanque, dizia que o Brasil deveria colaborar mais com a Bolívia. “É uma lógica de países irmãos”, disse Julio Montes. “Não há por que a Petrobrás não ajudar a Bolívia nesse momento”. Ele contou que a companhia de petróleo da Venezuela se associou recentemente à YPFB. “Estamos investindo 60 milhões de dólares na prospecção e exploração de petróleo, ao norte de La Paz. É a primeira vez que Venezuela explora petróleo em outro país.” A YPFB, segundo o diplomata, tinha sido tão esvaziada que era considerada uma empresa residual. “Por que a Bolívia não pode ter uma empresa de gás e petróleo? É isso que o Brasil deveria compreender, e fazer como a Venezuela, associando-se à companhia para ajudar na sua recuperação.” Embora reconheça que o presidente Lula tenha procurado se aproximar de Chávez, Montes acha que o Brasil quer se firmar como um líder mundial, afastando-se dos vizinhos. “O Brasil hoje está muito mais próximo do México do que dos vizinhos da América do Sul”, avaliou.

Ao meio-dia e meia, o helicóptero venezuelano com a comitiva presidencial seguiu para a aldeia indígena de Corque, no Altiplano. Da aeronave, era possível avistar o imenso lago Poopó, um dos maiores da Bolívia, e também o pobre vilarejo de Orinoca – onde nasceu o presidente, em 1959 -, que ele apontou para o embaixador do Irã. Ali, segundo o presidente, não havia luz nem água encanada. Seus pais, Dionisio Morales Choque e Maria Mamani, eram índios aymaras e viviam da plantação de batatas. Dos sete filhos dos Morales, apenas três sobreviveram. A fome e a pobreza eram tamanhas que o pequeno Evo, muitas vezes, comeu cascas de laranja e de banana atiradas pelas janelas dos ônibus pelos passageiros. Aos 13 anos, o menino fundou na sua comunidade um time de futebol, o Fraternidad, do qual era o capitão. Para comprar bolas e uniformes para o time, tosava lhamas e vendia a lã. As secas e as geadas constantes, porém, obrigaram sua família a mudar-se para a região do Chapare, em Cochabamba, tornando-se plantadora de coca, como a maioria dos indígenas do lugar.

Aos 18 anos, Morales sonhava em entrar para universidade, para estudar jornalismo, mas conseguiu concluir apenas o segundo grau. Cochabamba foi o seu berço sindical. A conscientização política veio através do choque de ver um líder da região ser queimado vivo, durante a ditadura de Garcia Meza, nos anos 80. Foi quando ele se juntou a um grupo de jovens e passou a apoiar o sindicato dos cocaleros. Em 1981, sua paixão por futebol o levou a ser nomeado secretário de esportes do sindicato. A sua capacidade de organizar grandes concentrações esportivas fez com que fosse promovido a diretor. Em 1988, já era um líder reconhecido, atuando na Federação dos Cocaleros, na qual ajudou a promover as marchas e fechamentos de estradas e de cidades inteiras – os bloqueos – em defesa dos direitos dos camponeses e mineiros. Em 1997, a sua popularidade era tanta que se elegeu deputado.

Uma hora depois, o helicóptero aterrissou num descampado, onde a banda da Polícia Nacional estava a postos. Uma grossa nuvem de poeira ergueu-se do chão no momento da descida, mas não foi o suficiente para afastar a pequena multidão que se formara, à espera de Morales. Era a primeira vez que a aldeia de Corque recebia um presidente. E, para orgulho dos seus 3 000 moradores, o presidente era um índio como eles. “Raiaia Evo!”, gritava a multidão em coro, o que, na língua quéchua, quer dizer “Viva Evo!”.

O palanque para a cerimônia fora instalado no centro da aldeia, onde se ergue uma igrejinha de torres brancas e a prefeitura. O caminho até lá é de terra, ladeando humildes casas de adobe. Àquela hora do dia, o calor e a secura, além da altitude, tornavam penosa a caminhada. A comitiva pôde ao menos se proteger do sol, passando sob os arcos de madeira e tecido colorido que os indígenas sustentavam no trajeto, criando um festivo corredor pelo qual todos seguiram sob uma chuva de confetes. Morales sorria timidamente, enquanto era agarrado, abraçado e beijado pelos moradores que conseguiam romper o bloqueio da segurança. “Nunca houve um presidente como ele”, disse uma índia de idade avançada, enquanto aplaudia, emocionada, e chamava o presidente. “Ele está fazendo muito por nós.” Como ela, todos os moradores se vestiam de verde, a cor da comunidade local.

A chegada de um indígena ao poder foi uma enorme mudança. Até a revolução nacionalista de 1952, liderada por Víctor Paz Estenssoro, os indígenas bolivianos viviam quase como servos. Não tinham direito sequer à identidade, e diferenciavam-se apenas pelas cores das roupas, uma para cada aldeia. Eram proibidos de votar e de ocupar cargos públicos. Em algumas cidades, caso de Sucre, eram impedidos de sentar na praça principal. “Até 1952, havia um apartheid em relação aos indígenas, uma cisão entre os eurodescendentes e os nativos”, afirmou o cientista social Ricardo Calla. Ele explicou que, mesmo com a revolução, os índios continuaram às margens da sociedade e fora do poder. Com o tempo, passaram a freqüentar a universidade e a exigir os seus direitos, embora permanecessem na camada mais pobre. Apesar de, atualmente, 62% da população serem mestiços, o preconceito contra os índios ainda é grande. “A chegada de um indígena ao Palácio do Governo é um avanço histórico”, concede Carlos Mesa. “Pela primeira vez, os indígenas sabem que podem ascender a um alto cargo no Estado. Qualquer boliviano pobre, não instruído, sabe que as portas do poder estão abertas, e isso é muito positivo.”

Evo Morales adotou o discurso indigenista apenas na campanha presidencial. “Ele era um líder sindical cocalero“, diz Calla. “Sua aproximação com o movimento indígena foi pragmática.” Assim que tomou posse, aos 46 anos, Morales abriu as portas do Palácio para os indígenas. Em seu ministério, há quatro índios, entre eles o ministro das Relações Exteriores e o das Águas. A ligação com os movimentos indígenas veio por meio do vice-presidente, Álvaro Garcia Linera, um ex-adepto da luta armada que militou, ao lado do líder indígena Felipe Quispe, no Exército Guerrillero Túpac Katari. Ele esteve preso por sete anos, e, curiosamente, é um legítimo representante dos blancones: tem os olhos claros e um doutorado em matemática nos Estados Unidos.

No livro La Revolución de Evo MoralesDe la Coca al Palacio, de Pablo Stefanoni e Hervé Do Alto, que retraça a trajetória política do presidente, Álvaro Linera dá a seguinte explicação sobre esse processo de inclusão dos índios bolivianos: “O discurso indígena tem uma retórica arcaica, mas a prática é moderna. O próprio Felipe Quispe afirmou certa vez que eles são índios pós-modernos, querem tratores e internet”. Por essa razão, algumas das principais políticas públicas de Morales visam levar a modernidade aos indígenas, representada por hospitais, escolas e telefones. “Evo Morales significa a quebra de um imaginário e um horizonte de possibilidades para os indígenas”, avalia Linera. “É uma mudança importante”, concorda Juan de Dios Yapita, homem baixo e moreno, de origem aymara, diretor do Instituto de Língua e Cultura Aymara. “Minha preocupação é que não se crie um clima de ressentimentos”, disse. “Não avançaremos em uma cultura de ódio entre brancos e índios.”

Em Corque, porém, o sentimento da população indígena era de hostilidade em relação aos brancos. O senador Santos Tito, do MAS, ajudava a inflamar a platéia: “Devemos nos unir para sair do mau momento. Queremos desenvolvimento econômico e cultural. Temos riquezas, mas os neoliberais só pensam neles e nunca nos outros. Os ponchos verdes, os verdadeiros donos dessa pátria, munidos e armados ideologicamente, vão defender a democracia e a Assembléia Constituinte”. O prefeito de Oruro, Luis Alberto Aguillar, conclamou os indígenas a reagir: “Os ponchos verdes marcharão para a cidade de Sucre, para fazer respeitar a Assembléia Constituinte e acabar com qualquer golpe dos oligarcas. A democracia nos custou sangue e lágrimas. Vamos lutar para defender Evo Morales na presidência. Os outros prefeitos estão conspirando contra a democracia. Nós estamos apoiando o progresso do povo”. “Raiaia Evo!”, gritava a multidão.

O presidente – ele também vestindo um poncho verde, que ganhou de presente – entusiasmou-se e fez um discurso de uma hora e meia. “O presidente Hugo Chávez está travando uma dura batalha, uma luta permanente pela liberação da pátria grande, que incluiu a Bolívia. Vemos a Venezuela e o Irã lutarem por seu povo. Os Estados Unidos acusam o Irã de ter fábrica de armamentos nucleares. Mas o Irã não se submete aos Estados Unidos. Esses países são acusados de tudo. Também me acusaram de narcotraficante, de cocalero e de Bin Laden andino. Os grupos oligarcas estão voltados para prejudicar a Assembléia Constituinte. Mas os movimentos populares, os camponeses, pedem uma nova Constituição. E o que nós queremos com isso? Queremos um país onde não haja discriminação.” A multidão aplaudiu.

“Quando colônia”, prosseguiu o presidente, “quem mandava era o representante do rei, que chegava da Espanha. Agora quem nos domina é a burguesia e a oligarquia. O que nós queremos é que não sejam o rei, o clero e as famílias da burguesia que mandem. Queremos o poder do povo soberano. Esse poder está na Assembléia Constituinte.” Depois do discurso, o presidente desceu para uma marcha no meio do povo, ao som da banda de música. Seguiu-se o almoço, novamente de sopa de milho com costelas de lhama – que o embaixador do Irã, dessa vez, recusou polidamente. Às 3h30 da tarde, a comitiva partiu em direção a La Paz. Esgotado, Morales dormiu em toda a viagem, enquanto o embaixador do Irã não largava, por um momento sequer, o tubo de oxigênio oferecido pelos oficiais venezuelanos.

Nos dois dias seguintes, Sucre foi sacudida por novas manifestações, que obrigaram o governo a suspender por um mês os trabalhos da Constituinte. O temor era de que se produzisse um enfrentamento sangrento nas ruas da cidade. A presença do embaixador do Irã na Bolívia, noticiada discretamente pelos jornais, também causou embaraços. Um diplomata disse que a entrada do Irã na América Latina causaria turbulência com os Estados Unidos, podendo afetar todos os países da região. “Cuba trouxe a União Soviética para o continente, e Chávez está trazendo agora o Irã”, disse. O jornal chileno El Mercurio publicou um extenso artigo sobre o assunto, afirmando que o presidente Ahmadinejad estaria decidido a reforçar as suas relações latino-americanas, reabrindo embaixadas no Chile, na Colômbia, no Equador e no Uruguai. O artigo mencionou também a intenção do Irã de reatar laços com a Bolívia. “Até o momento, os Estados Unidos apenas observam. Mas a situação poderá mudar se essa relação avançar sobre temas tabus para os americanos, como a transferência de ajuda nuclear para a Venezuela”, analisou o jornal.

Às 6 horas da manhã do sábado, dia 8, as luzes na Praça Murillo, onde fica o palácio presidencial, estavam acesas. O Palácio Quemado, como é chamado, é uma imponente construção neocolonial de cor ocre, com janelas verdes. Logo na entrada, está um enorme salão com um pé direito de cerca de 15 metros. Ali, um oficial do Exército fazia uma preleção para uma pequena tropa, formada por índios e mestiços. “Temos de ter orgulho de nossas origens”, catequizava. “Somos originários, o que quer dizer que somos donos desta terra. Temos de ter orgulho da nossa pátria. Não podemos pensar que somos um país subdesenvolvido como querem nos fazer acreditar.” Ao lado deles, abria-se um arco de mármore branco e preto, que dá passagem a duas alas de escadas, também em mármore, que levam até o 3º andar, onde fica o gabinete do presidente. No teto do salão, uma imensa clarabóia traz pintado o escudo da Bolívia: um condor, ramos de louro e de oliva.

Às 6h15, o presidente estava sozinho em seu gabinete, decorado com sofás azuis e uma mesa em estilo colonial espanhol, cercada por cadeiras forradas de veludo. Numa das paredes, havia um quadro com uma imagem de Che Guevara. Na parede oposta, um outro, no mesmo estilo, retratava o próprio Morales. Da enorme janela do gabinete avistava-se o Congresso, do outro lado da calçada, completamente apagado. O presidente aparentava grande serenidade, apesar da semana difícil. Ele se sentou em um dos sofás para a nossa terceira entrevista. O seu tom de voz era baixo e tranqüilo, lembrando mais o de um padre no confessionário do que o de um político. Vestia um casaco de lã xadrez, azul e preto – sempre com detalhes indígenas -, calça preta e tênis azul-marinho. Achou graça quando perguntado sobre quem escolhia as suas roupas. “Sou eu mesmo”, respondeu. “Gosto de me vestir. Gosto de roupas. Alguns estilistas também me dão roupas de presente.” Em seguida, elogiou o meu vestido, listrado em preto e branco: “Qué rica estampa de zebrita!”, exclamou, tocando a manga do vestido. Quando perguntado por que nunca se casara, desconversou: “Na verdade sou casado há muito tempo. Sou casado com a Bolívia”.

Em seguida, falou de temas menos triviais. Com as mãos cruzadas sobre os joelhos e a cabeça um pouco baixa, começou a explicar as difíceis relações com o governo americano: “Temos diferenças profundas com os Estados Unidos. Agora eles não podem mais mudar ministros aqui na Bolívia, como costumavam fazer. Eles não podem mais mandar o FMI e o Banco Mundial imporem as suas políticas econômicas. A democracia agora não é submetida aos Estados Unidos”. O presidente explicou que o novo modelo econômico boliviano se baseava na recuperação dos recursos naturais do país, e em uma presença maior do Estado na economia. Depois, ele falou sobre o adiamento da Assembléia Constituinte, provocado pelos conflitos em Sucre. “É um movimento de grupos fascistas, racistas, que não aceitam que os pobres e os indígenas tenham direitos. Mas a gente pobre me apóia. Você foi testemunha. O que você viu em Corque e em Vinto acontece em toda a Bolívia. Lamentavelmente, esse comportamento da direita atrasa a aprovação da nova Constituição, tão importante para o nosso futuro. Mas estamos preparados para enfrentar essas reações. Os militares estão conosco. Eles não querem a divisão do país.”

E quanto ao Brasil? Por que as relações estão crispadas? “Eu continuo admirando muito o presidente Lula”, respondeu. “A única coisa que posso garantir é que não vai faltar gás ao Brasil. Nós temos cumprido nossos contratos, mas a Petrobrás não está investindo aqui”, afirmou, sem demonstrar rancor. Mesmo sem alterar a voz, contudo, ele mudou o conteúdo do discurso: “O Brasil tem de investir mais. Temos escassez de gás e temos cumprido nossos contratos. Esperamos com paciência que o país vizinho faça investimentos. Mas a espera não vai ser eterna. O Brasil explora alguns campos de gás aqui. Mas não come e não deixa comer. Se a Petrobrás não investir para recuperar os volumes de produção, vamos confiscar os campos da estatal brasileira. E faremos o mesmo com outras companhias que se comportarem dessa forma”.

Morales passou a mão nos cabelos e continuou a crítica à Petrobrás e ao Brasil, mantendo a mesma expressão tranqüila do início da conversa. “Acho que os brasileiros deveriam eleger o presidente da Petrobrás, e ele deveria eleger o presidente do Brasil, já que a Petrobrás manda mais do que o Lula”, afirmou.

Os problemas com o Brasil vão além da crise com a Petrobrás. No final de setembro, o governo boliviano rescindiu um contrato de 200 milhões de dólares com a empresa Queiroz Galvão, responsável pela construção de uma estrada no sul do país. Máquinas e equipamentos da companhia foram confiscados pela justiça. O governo boliviano acusa a construtora de ter feito uma obra irregular e cheia de problemas. Um consultor da companhia em La Paz defendeu a empreiteira, afirmando que a empresa seguiu rigorosamente o projeto do governo. “É uma questão política: o governo quer culpar a empresa pelo erro deles”, disse o consultor.

Outro conflito foi com o empresário Eike Batista, dono da EBX, que teve suspenso seu direito de construir uma termelétrica que funcionaria a base de carvão vegetal. “Ela ia destruir o meio ambiente. Aquele era um projeto que não trazia qualquer benefício para o país”, disse o presidente. “Não queremos investimentos desse tipo.” O projeto foi transferido para uma companhia indiana, que utilizará gás em vez de carvão. Ainda assim, Eike Batista pretende voltar a investir na Bolívia. Sua idéia é explorar gás para a geração de energia.

Quanto ao alinhamento com o Irã e a Venezuela, contra os Estados Unidos, tratado com o embaixador Abdollah Zifan, Morales foi categórico: “Essa marcha antiimperialista já começou. Antes, quando surgia um líder latino-americano, os Estados Unidos patrocinavam golpes. Agora não podem mais fazer isso. Não queremos o confronto. Mas que não façam chantagens e nem imposições. Isso não vamos aceitar!”

Eram quase 7 horas quando o presidente pediu licença para encerrar a entrevista. Na praça Murillo, a guarda presidencial se reunia para a troca da bandeira. Dez minutos depois, as luzes do gabinete de Morales se apagaram. Logo em seguida, ele entrou, apressado, no carro oficial, um Corolla preto, e rumou para a base aérea de El Alto. O seu destino era Caracas, onde os seus interlocutores seriam o presidente Hugo Chávez e o embaixador do Irã na Venezuela. Na praça Murillo, os soldados saudavam a bandeira: “Viva a Bolívia!”, gritaram em coro.

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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