carta da venezuela

O inferno de Maracaibo

A vida cotidiana num país em ruínas

Paula Ramón
Algumas calçadas têm tanto lixo que precisamos caminhar no meio da rua. Vemos uma loja aberta, depois um semáforo funcionando. A luz voltou. Pessoas sentadas na frente de suas casas insultam Maduro ou desenvolvem teorias sobre os apagões.
Algumas calçadas têm tanto lixo que precisamos caminhar no meio da rua. Vemos uma loja aberta, depois um semáforo funcionando. A luz voltou. Pessoas sentadas na frente de suas casas insultam Maduro ou desenvolvem teorias sobre os apagões. CRÉDITO: MERIDITH KOHUT_2019

A cidade está quase deserta e parece mais marrom do que de costume, com seus jardins secos, os prédios sujos e abandonados. Os locais que representavam a prosperidade de Maracaibo agora refletem apenas sua ruína. Três semanas atrás, vários lugares foram saqueados durante um apagão sem precedentes na Venezuela, o que ampliou ainda mais a imagem da devastação. Há três dias, a cidade está novamente sem energia elétrica. É o início da tarde do dia 27 de março, quarta-feira, e o sol está tão forte, o ar tão denso e a cidade tão destruída e vazia que tenho a sensação – que não me abandonará enquanto estiver aqui – de que estou vivendo o final dos tempos. Maracaibo parece ter chegado ao fundo do poço, ainda que seja difícil saber onde o poço acaba na Venezuela.

O conjunto residencial El Rosal, onde mora minha cunhada, é um retrato da decadência, com a pintura desbotada das fachadas e alguns carros sem pneus espalhados pelo estacionamento. Já não vive tanta gente nos prédios: muitos moradores deixaram o país em busca de outra vida. Há pelos menos cinco anos não ponho os pés aqui, e me impressiona o lixo acumulado perto da entrada, o abandono geral e o vazio do estacionamento, o mesmo onde antes eu tinha que me esforçar para encontrar uma vaga.

El Rosal é uma construção de linhas retas, composta por dois blocos de apartamentos, no formato de dois Us deitados, colados um no outro em sentidos opostos. Visto do alto parece uma aranha de quatro patas esculpida na pedra. Na parte interna do U, estendem-se corredores que levam aos apartamentos. Daqui debaixo, avisto moradores encostados nas muradas dos corredores, parados ou conversando entre si, talvez porque seja mais fresco ficar ali do que dentro das casas.

Como os elevadores estão estragados, subo os sete andares arrastando uma mala de 14 quilos. O interfone fica na entrada do corredor, protegida por uma grade. Mas o interfone também não está funcionando. Sou obrigada a gritar o nome de minha cunhada: “Júliaaaaaaaa!” Ela aparece logo. Enquanto se aproxima, percebo que ainda preserva, aos 52 anos, a silhueta bem definida, curvilínea, nem magra nem gorda, mas seu rosto começa a acusar as marcas da vida difícil que tem levado nos últimos anos. Está vestida de camiseta e short – e parece menos arrumada do que na minha lembrança. Quando se aproxima, apesar de seus cabelos estarem presos, noto alguns fios brancos. Fica claro que ela parou de pintá-los faz tempo. “Me desculpa receber você desse jeito”, diz, me abraçando. “Tem muitos dias que não consigo nem lavar a cabeça.”

Meu sobrinho Juan Pablo, de 14 anos, único filho de Júlia, me cumprimenta às pressas e pede licença para ir jogar bola na quadra do prédio. “A quadra está cheia porque não tem luz”, ele grita, da porta.

Júlia se separou de Pablo, meu irmão mais velho, há mais de uma década, mas eu continuo chamando-a de “cunhada”. Em 2003, quando estava grávida, ela se mudou para El Rosal com meu irmão. Eles tinham acabado de mobiliar esse apartamento que compraram no prédio de classe média depois de muita economia. Iam começar uma nova fase da vida. Meu irmão não ficou muito tempo com ela, mas, para minha mãe, Júlia sempre foi a nora ideal.

Conversamos um pouco na sala, e abro minha mala para entregar alguns produtos que trouxe de São Paulo: sabonetes, cremes, chocolates e roupas. Tento fazer com que pense que são presentes supérfluos, para ela não achar que a irmã mais nova do seu ex-marido está lhe fazendo favores. Mas eu sei bem que aquelas coisas são muito úteis, pois há escassez de tudo na Venezuela. É muito mais coisa do que Júlia imaginava receber. Antes de embarcar, perguntei por telefone o que queria que eu levasse do Brasil. Talvez por vergonha, ela tinha me pedido apenas um filtro solar e alguns produtos para tratar as espinhas do filho.

Os moradores que restam no prédio estão quase todos em casa. Pode-se ouvir o movimento deles nos corredores, onde aproveitam a brisa que chega do lago de Maracaibo, visível a distância. A construção aberta deixa o prédio bem fresco – é uma vantagem importante da construção numa cidade tão quente. Alguns vizinhos conversam, outros apenas olham para o vazio. No apartamento em frente, na outra ponta do U, a família cozinha em uma pequena churrasqueira presa na parede do corredor. “Como a luz não volta, devem estar preparando toda a carne ou o frango que tinham guardado, para não estragar”, explica minha cunhada.

Três semanas atrás, Júlia teve que dar as suas reservas de comida para conhecidos, pois não teria como conservá-las. O país ficou às escuras por cinco dias. Na versão oficial, o apagão iniciado em 7 de março ocorreu devido a uma sabotagem ao sistema elétrico da Usina Hidrelétrica Simón Bolívar, conhecida como Guri, a mais importante do país. Desta vez, o blecaute já dura três dias. Sempre que falta eletricidade, ninguém sabe quando voltará, pois o governo nunca dá notícias sobre o reestabelecimento do serviço (mesmo que desse, eu não ficaria sabendo, pois minha linha de celular está sem conexão).

Na Venezuela, por causa da escassez de alimentos, as pessoas passaram a estocá-los. Quando havia algum produto disponível, corriam para comprar o máximo que podiam – e guardavam. O inesperado e longo apagão do início de março pôs a perder quilos de carne, de frango e alimentos que exigiam refrigeração. Vi numa esquina restos de quatro hallacas – uma espécie de pamonha recheada que os venezuelanos fazem em dezembro e depois congelam – que devem ter sucumbido ao corte de energia. Parece um lixo banal, mas ninguém no país jogaria fora quatro hallacas. Como os apagões ficaram cada vez mais frequentes, as pessoas passaram a comprar menor quantidade de produtos. O que criou um novo grande problema para a população: se o estoque é menor e acaba mais rapidamente, se nem sempre os produtos estão disponíveis por causa do desabastecimento, como fazer para comer?

 

É desesperador. E talvez tenha sido o desespero que levou centenas de pessoas a invadirem shopping centers, hotéis, padarias e lojas e carregar tudo o que podiam, incluindo fios, tomadas e outras partes da infraestrutura, em alguns casos reduzindo o interior dos locais a um amontoado de escombros. Quase nenhum desses comércios saqueados reabriu as portas. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas quebrando portas de aço e vidraças, carregando roupas, sapatos e eletrodomésticos, acendendo pequenas fogueiras dentro dos estabelecimentos comerciais para quebrar o breu. As imagens me lembraram as do Caracazo, uma revolta popular seguida de saques ocorrida em Caracas, em fevereiro de 1989, em protesto contra um pacote econômico do então presidente Carlos Andrés Pérez. Hugo Chávez via no Caracazo a semente de sua “revolução”. Em 2012, num encontro com a imprensa, ele descreveu a revolta como a única forma de um povo “que estava pedindo comida e saúde ser ouvido”. E acrescentou, recorrendo ao seu habitual carisma: “E o que os líderes fizeram, os líderes entre aspas, trancafiados no Palácio de Miraflores, foi mandar aos militares metralhadoras, chumbo e morte.”

“Dava para ouvir, daqui de casa, muitos gritos durante o apagão, sem falar nas viaturas policiais, que passavam o tempo todo”, conta Júlia. “Estava tudo escuro, dava medo, chegamos a pensar que podiam até começar a entrar nos prédios para roubar.” Estamos no corredor, aproveitando a brisa do fim de tarde.

Quando a noite começa a cair, é possível entender que esse medo não é infundado. Não se vê quase nada, exceto as luzes de celulares, aqui e ali. De repente, os vizinhos da frente resolvem acender uma tocha ao lado da churrasqueira. A labareda espalha uma luz forte pelo andar. Do corredor, avistamos o horizonte da cidade, imersa na escuridão. Em alguns prédios há pontos de luz. Júlia se antecipa à minha pergunta. “São prédios que têm geradores”, diz.

Como meu celular continua sem conexão, deixo o aparelho na cozinha, para servir de lanterna para minha cunhada, que prepara o jantar. Mais tarde ficarei sabendo, pelo site da ONG NetBlocks – que monitora a disponibilidade da internet nos países –, que naqueles dias 85% do país ficou sem conexão. Empresto meu computador para que Júlia e seu filho carreguem os seus celulares. Nem pergunto se eles têm velas, pois seria absurdo gastar o dinheiro escasso com isso. Sinto vergonha por não ter trazido de São Paulo uma lanterna – eu achei que eles tivessem pelo menos uma.

Enquanto amassa as arepas, o tradicional pão de milho – que agora, com a migração dos venezuelanos, começa a aparecer no Brasil –, Júlia me coloca a par da vida dos seus irmãos e sobrinhos. Sua família, de origem pobre, é de Dabajuro, uma pequena cidade do estado de Falcón a 140 quilômetros de Maracaibo. Suas quatro irmãs se dedicaram ao comércio e, com esforço, entraram para a classe média. Nos últimos anos, porém, com o agravamento da crise no país, três delas e quatro de seus sobrinhos mais velhos emigraram para Colômbia, Equador e Panamá. Uma das sobrinhas de Júlia veio morar com ela, depois que os pais, antes prósperos lojistas, mudaram-se para Santiago de Cali, na Colômbia, onde ganham menos de um salário mínimo.

Crisbel, a sobrinha, tem 18 anos e estuda ciências contábeis numa universidade privada, pois a pública, a Universidade de Zulia, onde minha mãe e eu nos formamos, deixou de ser uma opção por causa da insegurança, falta de professores e deterioração das instalações. Mesmo na faculdade particular de Crisbel as aulas são constantemente interrompidas, seja por causa de falhas nos serviços públicos, seja porque o professor resolveu deixar a Venezuela.

Juan Pablo também não tem aulas há três dias e ignora quando elas recomeçarão. Está no 3º ano do ensino médio [corresponde no Brasil ao 9º ano do ensino fundamental], mas não sabe coisas básicas, como os pontos cardeais ou as capitais dos estados venezuelanos e dos países da América do Sul. “Não sei se quero estudar. Para que fazer universidade, se depois vou ter que lavar pratos em outro país?”, responde, quando aconselho que ele se dedique mais aos estudos. Seu desânimo é evidente até no jeito de andar, com a cabeça e os ombros curvados, e eu me pergunto se isso está relacionado à adolescência ou se é uma consequência do estado das coisas no país.

Júlia serve o jantar, e comemos quase no escuro – há apenas uma rala luminosidade que entra pela porta. É preciso economizar a bateria do telefone. Depois de algumas horas no escuro, os olhos se acostumam e passam a enxergar melhor o que antes estava escondido na penumbra. Crisbel lava os pratos, cuidando para não desperdiçar a água armazenada em garrafões de 5 litros. Cada um de nós tem meio copo d’água para escovar os dentes. O apartamento de três quartos da minha cunhada reflete a ruína geral. Os móveis estão em mau estado e os eletrodomésticos, bastante envelhecidos. Os lugares mais frescos para dormir são a sala e um quarto onde está instalada uma rede. Como sou visita, cabe a mim a honra de dormir na rede. No prédio vizinho, o gerador emite um ronco forte.

 

Acordo cedo, e o ronco do aparelho continua, incessante. Um vento fresco bate no meu rosto e, de olhos semicerrados, suponho que a luz voltou e que colocaram um ventilador no quarto de madrugada. Era apenas imaginação.

No passado, em Maracaibo, os cortes de água eram frequentes – mas não os de luz. Trinta anos atrás, na casa de meus pais, tínhamos apenas uma caixa-d’água de cimento no telhado. Em dado momento, minha mãe resolveu reagir à escassez. Primeiro, comprou outra caixa-d’água, de plástico, para aumentar a capacidade de armazenamento. Depois, substituiu a caixa-d’água de cimento por outra maior. Por fim, na última década, transferiu as duas caixas para dentro da garagem, a fim de evitar que lhe roubassem a água, infração que estava se tornando comum na cidade.

Também Júlia instalou uma caixa–d’água em seu apartamento, há alguns anos. Com capacidade para 500 litros, a estrutura ocupa metade da área de serviço. De início, foi apenas uma precaução, mas com o tempo a caixa-d’água tornou–se algo indispensável. Nos últimos anos, a água da rua deixou de chegar ao conjunto residencial. O condomínio precisou cavar um poço artesiano para abastecer os apartamentos, segundo um cronograma de fornecimento. Primeiro, enche-se a caixa central dos dois blocos; em seguida, a água é transmitida durante um par de horas aos prédios, para que os vizinhos encham suas caixas-d’água, baldes e/ou garrafas. É o que Júlia faz, quando a água finalmente volta a fluir: ela não só enche sua caixa na área de serviço como também a máquina de lavar roupa – cuja água será usada para lavar a roupa à mão –, várias garrafas de plástico e um balde de 50 litros que coloca no box de um dos banheiros.

Com o apagão, entretanto, as bombas hidráulicas do condomínio deixaram de funcionar, e fazia cinco dias que Júlia não recebia uma gota d’água sequer. A reserva da máquina de lavar roupa foi a primeira a acabar. Depois, terminou a água guardada no balde no banheiro. Ela teve, então, que instalar uma mangueira na parte inferior da caixa na área de serviço para retirar a água dali. Assim, toda manhã, minha cunhada senta num banquinho, abre a chave conectada à mangueira e enche pacientemente uma dezena de garrafas de 5 litros. É a água do dia, que servirá para o banheiro e os trabalhos na cozinha. Embora a tarefa seja cansativa, principalmente no calor, Júlia não se queixa, diz apenas que gostaria de saber quando a eletricidade e a água vão voltar, para ela poder lavar o cabelo, que usa sempre preso.

A geladeira, desligada há três dias, começa a cheirar mal. Júlia a deixa semiaberta e examina a pouca comida que resta para saber se ainda resiste à falta de refrigeração. Em Maracaibo, cidade com altas temperaturas o ano inteiro, o impacto da falta de eletricidade é muito maior que em San Cristóbal, nos Andes venezuelanos, cidade natal da minha mãe e onde vivem seus parentes. O sol em Maracaibo arde sempre tão intenso que, quando eu era criança, achava bonitos os dias cinzentos e nublados.

Tomamos o café da manhã com arepas, queijo e café preto. “Não tem leite”, desculpa-se Júlia. Há uma razão para que todas as refeições tenham queijo: é preciso comê-lo antes que estrague. Meu sobrinho se levanta, o rosto sempre sério. Mais um dia sem aula, sem ver a turma da escola, sem energia, sem internet, sem água. Peço que me acompanhe até a casa de minha mãe. Ele aceita.

A última vez que estive na casa foi em agosto do ano passado, quando vim a Maracaibo para tirar minha mãe da cidade e levá-la para junto dos irmãos, em San Cristóbal, a 450 quilômetros daqui. Doente e sozinha, ela havia piorado muito nos últimos anos. Eu acreditava que o clima ameno de San Cristóbal e a companhia das irmãs seriam benéficos a ela, mas a saúde de Paulina só piorou – e nunca saberei se foi por causa dos problemas que tinha desde a juventude ou se em consequência da vida num país que tem submetido tanta gente a provas tão difíceis. Aquela foi nossa última viagem juntas.

 

Desde que saí da Venezuela, há nove anos, desenvolvi um pânico recorrente: estava sempre à espera de uma ligação com a notícia da piora do estado de saúde de minha mãe – e, então, talvez não houvesse tempo para encontrá-la com vida. Foi o que aconteceu, mas de uma maneira ainda mais inesperada.

Em 4 de dezembro liguei de manhã para minha mãe, como fazia diariamente, e percebi que ela não estava pronunciando as palavras com clareza. Pedi, então, que minha tia Rosa a levasse ao médico, com urgência. Como minhas contas bancárias na Venezuela tinham sido bloqueadas depois de um decreto do governo que limitou as transações no país para quem mora no exterior, precisei transferir dinheiro para a família em San Cristóbal. Imediatamente, fiz a primeira remessa – e várias outras se seguiram durante o dia, porque, com a inflação em disparada e a mudança contínua dos preços cobrados pelos serviços, a quantia nunca era suficiente.

O médico que conseguiram suspeitava que minha mãe tinha sofrido um pequeno AVC, mas ele precisava de exames para confirmar o diagnóstico. Porém, o único local de San Cristóbal que dispunha de equipe médica para realizar os exames não estava funcionando. Teríamos que esperar. À noite, liguei de volta para me inteirar da situação. A cuidadora Clara estava me contando que minha mãe acabara de jantar e parecia tranquila, quando ouvi o grito da minha tia.

Era madrugada quando apanhei um táxi em São Paulo, rumo ao aeroporto de Guarulhos. Como quase todas as companhias aéreas suspenderam suas viagens para a Venezuela, tive que pegar um voo para Bogotá, de onde segui de avião para Cúcuta, também na Colômbia. Cheguei às duas da tarde e tomei um táxi até a ponte internacional Simón Bolívar – na fronteira com a Venezuela. Meus primos estavam me esperando ali. A pé, atravessamos a ponte. Pude ver, embaixo da ponte, pessoas atravessando o rio Táchira, com água pelo pescoço, rumo à Colômbia, bem à vista dos guardas nacionais e oficiais de migração colombianos. “Os coiotes cobram das pessoas para passar ilegalmente e dividem o dinheiro com os guardas”, contou um dos primos que costumava atravessar a ponte semanalmente para comprar alimentos em Cúcuta.

“Paulina estava cansada”, disse minha tia Rosa logo que cheguei ao velório. Tia Rosa e eu nunca fomos muito próximas, mas ultimamente conversávamos todo dia por telefone, e ela me acolheu imediatamente, como se, além de me confortar, quisesse me proteger. No fundo, sabia que eu me sentia culpada por ter me mudado para o Brasil e deixado minha mãe na Venezuela, sozinha.

 

Foram meus primos que cuidaram do velório e dos trâmites burocráticos. Quando uma pessoa morre em casa, tudo é mais complicado, eles me disseram. Como, além disso, a morte de Paulina tinha ocorrido à noite, conseguir um atestado de óbito – sem o qual funerária nenhuma aceitaria levar o corpo – foi algo muito difícil. Eles acabaram encontrando uma funerária que dispensou provisoriamente o atestado, que tinham acabado de obter na manhã daquele dia, depois de implorarem ao último médico que atendeu minha mãe.

A funerária estava instalada numa sala muito simples, pintada de azul, no meio da qual tinham colocado o caixão, pequeno para um adulto. Havia quatro vasos com flores não muito bonitas nos cantos e algumas velas. Por causa da escassez de tudo no país, o caixão era alugado. A funerária alternava os únicos dois que tinha. Quando morreu, Paulina estava com sua malha favorita, mas a malha fora furtada, e no caixão portava apenas um vestido simples, escolhido por uma prima. Eu não conseguia parar de pensar em como minha mãe ficaria irritada com tudo aquilo. “Que funeral medíocre, que café sem gosto, quantos erros ortográficos no obituário. Que diferença do funeral de seu pai”, eu podia ouvi-la reclamar. Vinte e cinco anos atrás, meu pai, de fato, teve um funeral bem diferente, daqueles com enormes coroas de flores, saídas de não se sabe onde, que abarrotaram a sala do velório. Ironicamente, o preço dos dois velórios foi o mesmo: 40 mil bolívares soberanos. O de meu pai tivemos que financiar em quatro parcelas. O de minha mãe paguei à vista. Custou 74 dólares, o equivalente em dezembro a 39 960 bolívares (em dezembro, 1 dólar equivalia a 540 bolívares no mercado paralelo; no final do mês passado, 1 dólar estava valendo 5,2 mil bolívares). “Para você ver que economia estável: cobraram o mesmo preço 25 anos depois”, brincou meu primo.

Mostraram-me três caixas para escolher em qual delas eu preferiria guardar as cinzas de minha mãe. Todas eram grandes e feias. Uma reproduzia o caixão horrendo e tosco em que ela estava. Optei por uma caixa de madeira natural, porque ela odiava imitações. O problema era a cruz numa das laterais. Nos últimos anos, Paulina estava tão aborrecida com Deus que meus primos ficaram com receio de me contar que tinham encomendado uma missa.

Concordei com a cremação por não ter outra opção. Meu irmão mais velho contou que Paulina sempre dizia que queria ser cremada, mas eu não me lembro disso. O aluguel do caixão terminava pouco antes do ritual. Então, os familiares mais próximos foram chamados para conferir a identidade do morto. Eu não esperava ver minha mãe exposta ali, fora do caixão, às portas do forno, totalmente desprotegida, como se estivesse dormindo. Não consigo definir bem o que senti, foi mais forte do que tudo, como se a tristeza, a dor, o desespero e a revolta se manifestassem ao mesmo tempo em mim, com grande intensidade. Meus primos tiveram que me arrancar à força daquele lugar horrível.

Tia Rosa, uma mulher sem instrução que criou cinco filhos, entendeu de forma intuitiva que, com a morte de meu pai e de minha mãe, e com a mudança de meus dois irmãos para o Chile, a Venezuela e a família poderiam se tornar para mim uma abstração. “Filha, você tem que voltar, porque aqui continua tendo sua família, sua casa e seu país”, me disse ela, pouco depois do velório, lançando mão de seus dons de mãe protetora para ressignificar meu vazio. Desde então continuamos a conversar por telefone todas as semanas, numa aproximação que minha mãe talvez aprovasse.

Demorei a tomar uma decisão sobre as cinzas, não sabia o que fazer, foram dias em que eu não tinha muito controle sobre as coisas nem sobre mim mesma. Não podia levá-las comigo para o Brasil porque isso exigiria um trâmite burocrático impossível de fazer naquele momento. Como meu irmão Pablo queria conservar as cinzas, tia Rosa fez uma espécie de altar e colocou-as ali, com uma foto de mamãe, uma vela que fica sempre acesa e um copo com água para as almas do purgatório.

 

Caminho com meu sobrinho em Maracaibo, em direção à casa onde cresci e de onde me mudei há quinze anos. Toda vez que vinha de visita, minha mãe me recebia com “um cafezinho com leite”, como ela dizia, e algum doce.

Para proteger os seus braços já muito curtidos pelo sol, Juan Pablo veste uma malha, apesar de fazer 30 graus. É meu sobrinho mais próximo, ou o menos distante. Depois da morte da avó, Juan Pablo começou a me escrever com frequência e, embora tímido e monossilábico, tornou-se uma presença constante. Durante nossa caminhada de 3 quilômetros, ele me explicou como baixar séries ou músicas em plataformas alternativas e como fica irritado quando sua mãe o impede de sair sozinho, com medo de que algo aconteça a ele.

Algumas calçadas têm tanto lixo que precisamos caminhar no meio da rua, mas o risco de ser atropelado é praticamente zero, já que quase não passam carros. Vemos uma loja aberta, depois um semáforo funcionando. A luz voltou ao bairro, talvez à cidade inteira. Algumas pessoas sentadas na frente de suas casas ou das lojas insultam Maduro ou desenvolvem teorias sobre os apagões. Mas o silêncio predomina. Parece um domingo.

Chegamos à casa de minha mãe, e de fato há luz. Ligo o ar-condicionado. As caixas ainda têm água. Incrível. Parece que escuto a voz de Paulina, dizendo: “Viu só? Minha casa é muito bem-feita, por isso nunca quis me mudar para um apartamento.” E ela tinha razão, devo reconhecer de novo. (Como era difícil eu dar razão a ela, e agora não faço outra coisa.) Aproveito para tomar um banho e, pensando em Júlia com certo remorso, lavo a cabeça.

Convenço Juan Pablo a me ajudar a abrir as caixas com livros e discos que deixei quando fui embora da Venezuela. Logo descubro que os cupins se apossaram de tudo, atacando com especial sanha os livros de Francisco Herrera Luque, um dos melhores escritores do país, de quem meu sobrinho nunca ouviu falar e cujos principais romances históricos eu li nas aulas de castelhano quando era mais nova do que ele. Cem Anos de Solidão e O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, sobreviveram, mas também não estão entre as referências de Juan Pablo, que apenas ouviu falar do autor colombiano. Ele me promete que vai ler esses livros, bem como alguns outros de seu avô, morto faz um quarto de século e de quem herdou o prenome.

Depois de meu sobrinho escolher alguns livros e eu guardar os que vou trazer comigo, levamos o restante para a frente da casa, onde vou acumulando o lixo à medida que limpo os quartos e mergulho em lembranças.

Juan Pablo me traz de volta à realidade ao avisar que tem gente na frente da casa. Vejo duas mulheres com um menino tentando enfiar as mãos por entre a grade para alcançar as caixas. Perguntam se vou jogar aquilo fora. Respondo que sim, mas só mais tarde. Elas pedem as caixas, e eu explico que contêm apenas livros com cupins e lixo. Dou a elas umas blusas e, para o menino, uma bola. Elas insistem em pedir as caixas. “Com certeza tem alguma coisa”, dizem. O quarteirão está praticamente vazio e, por isso, decido não abrir o portão. Tenho medo que a situação saia do controle. Acabo convencendo-as a ir embora. Mais tarde, coloco tudo na calçada e em menos de cinco minutos surgem três pessoas, que começam a vasculhar tudo.

Quando termino a limpeza, a casa me parece bem menor. Meu sobrinho sorri pela primeira vez quando proponho tirarmos uma selfie para mandar para seu pai, que ele não vê há dois anos. A companhia de Juan Pablo amenizou minhas emoções e me impediu de chorar ao voltar à casa de minha mãe. Ele me fala de sua rotina, de como se sente pobre por não ter Netflix e da garota de quem gosta, Maria, que não sabe dos sentimentos dele. Tento reduzir sua frustração e lhe apresentar alguma perspectiva. Conto que, quando o pai dele e eu éramos pequenos, tivemos que ajudar em casa e passamos por poucas e boas. Mas logo percebo que nada disso interessa a ele, pois estamos em outra Venezuela, que parece não ser uma continuação daquele passado. Naquele tempo, ainda se podia dizer que a vida no país “era dura, diferente e feliz”, como canta Joaquín Sabina.

Na hora de me despedir da casa, evito maiores cerimônias para não mortificar Juan Pablo com meu luto. Antes de ir embora, atravesso a rua para conversar com Enrique, o herdeiro da oficina mecânica em frente, tempos atrás o comércio mais movimentado e luxuoso do quarteirão. Ele me conta que agora só tem um cliente. “Sua mãe não teria aguentado isso”, diz, se referindo aos apagões sucessivos. Ele pensa que Paulina ainda está em San Cristóbal, pois resolvi não contar aos vizinhos sobre a morte dela, para evitar que a notícia da casa abandonada se espalhasse e pudesse haver um saque ou mesmo uma invasão.

Enrique e eu nos conhecemos faz muito tempo, mas é a primeira vez que trocamos algumas palavras para além de um tímido cumprimento. Temos a mesma idade, mas éramos de classes sociais tão diferentes que parecia estarmos separados por uma rua imensamente larga e impossível de ser atravessada. Meus pais não tinham dinheiro para serem clientes da oficina dos pais dele, que circulavam pela cidade com carros do último tipo e moravam num prédio de luxo à beira-mar. A crise também não os perdoou. A última vez que ele trocou sua caminhonete foi há muitos anos, seus tios emigraram para a Espanha e, depois da morte do pai, faz o que pode para manter o negócio familiar. “Está cada vez mais difícil”, diz.

 

Juan Pablo e eu voltamos a El Rosal a pé, novamente. As calçadas continuam vazias. Muitos prédios e algumas casas parecem abandonados. Minha sorveteria preferida não existe mais, como também a maioria dos locais que eu costumava frequentar uma década atrás. Aqui ficava tal coisa, ali tal outra, vou recitando para meu sobrinho. “Aqui não tem nada”, ele diz, cabisbaixo, e compreendo que está um pouco irritado de ter que lidar não só com uma cidade em ruínas, mas também com as ruínas do meu passado.

Quase todas as lojas continuam fechadas, mesmo depois de restabelecida a energia elétrica. Encontramos um mercado aberto e, depois de passar o cartão cinco vezes, a conexão funciona e consigo comprar um refrigerante não muito gelado para Juan Pablo. Ao contrário das últimas vezes em que estive em Maracaibo, percebo que há mais alimentos nas prateleiras, inclusive de marcas tradicionais. Os preços, porém, são mais altos que no Brasil. Uma latinha de refrigerante, por exemplo, custa 3,80 reais; uma cartela de ovos, 19 reais; um pacote de 900 gramas de leite em pó, 30,40 reais. A sensação é que, dado o agravamento da crise, o governo não está mais controlando os preços e faz vista grossa para as remarcações.

Há mais de um ano, Júlia conseguia arcar sozinha com as despesas da casa. Agora, seu salário quinzenal de 18,50 dólares (cerca de 73 reais) como enfermeira só dá para comprar 1 quilo de queijo, 1 quilo de leite em pó e uma cartela de ovos. Por causa da disparada de preços, meu irmão começou a mandar dinheiro toda semana para ela. Sem essa ajuda, Júlia e Juan Pablo não teriam o que comer. Minha cunhada é grata por isso, mas não se sente muito confortável com o fato de depender tanto de alguém que no passado fez da sua vida um tormento.

No caminho passamos por uma enorme academia de ginástica de luxo, cujo estacionamento – vigiado por dois seguranças – está lotado. A construção nova, toda envidraçada e com colunas de cores vibrantes, contrasta com os edifícios arruinados em volta. Só deve ser frequentada pelos ricos que restaram na Venezuela, penso, quando vejo uma mulher loira de rabo de cavalo, top e legging cinza, pedalando uma das bicicletas ergométricas.

Chegamos à casa da minha cunhada, e lá também a luz voltou, há poucos minutos. Mas o estado psicológico de terror é constante, as pessoas estão sempre em pânico pela iminência de um novo corte. Minha linha telefônica começa a funcionar, e as mensagens pipocam no WhatsApp. Um grupo de colegas venezuelanos, que vivem no país e fora, é minha única fonte de informação. Mas o serviço telefônico é tão instável que perco a paciência e desisto de saber o que está acontecendo na Venezuela.

Quase não ouço ninguém falar, nem nas filas de supermercado, de Juan Guaidó, autodeclarado presidente interino em janeiro pela Assembleia Nacional, da qual ele é presidente. As poucas referências a Guaidó feitas pelas pessoas têm um tom de frustração. “Vamos bem, vamos bem”, é a frase que Guaidó repete o tempo todo. “Vamos bem coisa nenhuma!”, diz a vizinha da minha cunhada. Crisbel, a sobrinha de Júlia, aproveita e mostra às gargalhadas os memes que entram no seu WhatsApp ironizando a frase que o jovem político de oposição escolheu como lema. Numa das montagens, ele aparece afundando num atoleiro com as mãos para o alto e exclamando: “Vamos bem!” Outra mostra o ator Robert Downey Jr. com expressão de cansaço, e embaixo a legenda: “Lá vem o Guaidó com seu ‘Vamos bem’.” Também não vi propagandas nem grafites com o nome dele nos lugares por onde andei. Parece que as obsessões locais no momento são, de fato, a eletricidade e a água.

Maduro, por sua vez, gera uma catarse verbal nas pessoas. “Psicopata”, “anormal”, “filho da puta” e “desgraçado” são palavras que costumam acompanhar o nome do presidente. “Que é que vocês vão racionar mais, se nunca temos luz, Maduro psicopata?”, comentou um vizinho com quem cruzamos na escada.

Jantamos na sala com as duas luminárias acesas, um desperdício de luz. O único quarto com ar-condicionado está gelado e, por causa das minhas alergias, prefiro dormir outra vez na rede.

Na manhã do dia seguinte, quando eu acordo, Júlia já está amassando as arepas na cozinha. Hoje ela não engarrafou água, a bomba da caixa está funcionando. Ainda há luz. Posso abrir a torneira para escovar os dentes! Podemos usar a descarga e beber água gelada! Sim, mas é preciso se precaver e racionar, porque o prédio ainda não conseguiu bombear a água do poço, processo que exige horas ininterruptas com eletricidade. Portanto, Júlia diz que vai esperar um pouco mais para lavar a cabeça.

 

Como Juan Pablo continua sem aulas, eu o convido para ir comigo ao shopping center. Minha cunhada me dá algum dinheiro que lhe resta em espécie para tentarmos ir de ônibus. Caminhamos até a avenida e esperamos debaixo de uma árvore que serve de ponto improvisado. Um velho extremamente magro varre a calçada. Usa uma camiseta vermelha com o lema Pa’lante Comandante [Adiante, Comandante], lançado na última campanha eleitoral de Chávez, em 2012, quando, apesar de estar com câncer, ele encarou uma nova reeleição. Venceu a disputa, mas não chegou a tomar posse.

Desistimos do ônibus, que não chega, e pegamos um micro-ônibus – ou o que resta dele. Como algumas coisas não mudam na Venezuela, o motorista ouve uma salsa no último volume. Os bancos do veículo e algumas peças estão quebrados e sente-se um forte cheiro de combustível. O cobrador segue gritando o clássico bordão “costas contra costas, liberando a frente”, para que as pessoas se amontoem no fundo do veículo, no qual cabem apenas uns vinte passageiros sentados.

O shopping Lago Mall, às margens do lago de Maracaibo, não foi saqueado, mas há um caminhão blindado da tropa de choque da Guarda Nacional estacionado na porta. Dentro, parece mais animado que as ruas da cidade, apesar da iluminação e do ar-condicionado precários e das poucas lojas abertas. O shopping ainda tem salões de cabeleireiros, e o mais espantoso para mim não é que estejam abertos, mas que haja clientes. É conhecida a vaidade do povo da Venezuela, com seus concursos de beleza.

Nos fundos do shopping, há um pequeno bulevar margeando o lago. Quando foi inaugurado, era cenário para fotos e namoros. Agora não há ninguém ali. Avisto duas pessoas num pequeno bote tentando pescar nas águas que a indústria petrolífera vem poluindo há décadas. O lago não cheira mal, mas há bastante lixo no calçadão que o margeia.

Juan Pablo e eu nos sentamos num banco protegido do sol pela sombra das palmeiras. Conto a meu sobrinho que, quando eu e meus irmãos erámos crianças, nossos pais nos levavam a um enorme parque a poucos quilômetros dali, onde fazíamos piqueniques aos domingos. Brincávamos com o cachorro, mamãe nos servia sanduíches, meus irmãos jogavam bola e eu, num hábito pouco admirável, arrancava flores. Era o passeio simples e econômico de uma família de classe média baixa, mas que, agora, seria um luxo para minha cunhada, seja porque o transporte público degringolou e não há dinheiro para os lanches, seja porque as pessoas estão ocupadas com coisas mais urgentes.

Depois de esgotar as histórias de infância que conto para meu sobrinho, não sei mais o que fazer no shopping center. Não posso comprar nada para ele porque as máquinas de cartão bancário não funcionam, nem minha conexão de internet. Chegou, então, a hora de voltar. Sem ônibus à vista, caminhamos. “Eles continuam com a história da sabotagem em usinas hidrelétricas. Mas, que nada, amigo, as turbinas é que estão estragadas”, comenta um homem com outro, na porta de uma oficina mecânica. Na falta de explicações sólidas, todos inventam teorias que permitam racionalizar os cortes que vêm sendo feitos há uma década, mas agora chegaram a um ponto dramático.

Em 2009, quando várias regiões do país ficaram às escuras ao mesmo tempo, Hugo Chávez criou o Ministério do Poder Popular para a Energia Elétrica e anunciou a reconfiguração da Corporação Elétrica Nacional (Corpoelec), que ele havia inaugurado apenas dois anos antes. Também havia lançado a Missão Revolução Energética, um de seus programas sociais, que, na verdade, apenas financiou a substituição das tradicionais lâmpadas incandescentes por outras de baixo consumo. Como em 2010 os problemas persistiam, Chávez lançou o Fundo Elétrico Nacional com um investimento inicial de 1 bilhão de dólares.

Mas os apagões continuaram. O governo pôs a culpa do fenômeno em fios desencapados, nas andorinhas, nos ratos e em um cabo mordido por uma iguana que nos memes era representada como Godzilla para fazer justiça a tamanho estrago. Depois, culpou os sabotadores. Em 2016, Maduro pediu aos venezuelanos para não usarem os secadores de cabelo, atentando contra as cabeleiras longas e lisas, no estilo miss, muito estimadas pelas mulheres do país. Agora os responsáveis pelos apagões são o “Império” (como chamam os Estados Unidos), os franco-atiradores e os “ataques eletromagnéticos”. Tudo isso ocorre – com muito de tragédia e um pouco de ridículo – num país de 30 milhões de habitantes que conta com a quarta maior hidrelétrica do mundo, fornecedora de energia, inclusive, para o estado de Roraima.

Alguns acreditam no que o governo diz, outros não. Minha tia Rosa faz parte do primeiro grupo. Quando as comunicações foram restabelecidas e conseguimos nos falar ao telefone depois de alguns dias no escuro, ela se apressou a me contar sobre as sabotagens. “São capazes de tudo para tirar o Maduro do governo”, disse. Minha tia tem 80 anos, não para de trabalhar e costumava ir com frequência à vizinha cidade colombiana de Cúcuta para fazer compras, tarefa exaustiva que lhe tomava o dia inteiro. Quem sou eu para dizer no que ela deve acreditar?

 

Embora haja comida disponível nos mercados, Júlia compra alimentos só para o dia, ou para no máximo dois dias, a fim de evitar desperdício, caso haja novo corte de energia. Como há luz, vamos às compras. Ela decide levar um frango para os próximos almoços. Eu compro meio quilo de queijo.

Quando o dinheiro em espécie ficou escasso, as pessoas recorreram aos cartões de banco para fazer seus pagamentos nas lojas e mercados. Depois, à medida que os problemas de conectividade dificultaram o uso dos cartões, os negócios adotaram a transferência bancária do cliente para o comerciante. Assim, na hora da compra, compete ao cliente conseguir uma conexão para efetuar o pagamento. Se ele consegue e faz a transferência, depois disso precisa enviar o comprovante via mensagem de texto ou WhatsApp.

Durante o apagão, com as conexões e os bancos virtuais em pane, o país abraçou o dólar em espécie como tábua de salvação. Apesar da dificuldade para obtê-la e de seu custo alto, a moeda americana passou a ser usada de forma aberta. Até o carregamento da bateria dos telefones era pago em dólares: alguns comércios que dispõem de gerador elétrico cobravam 1 dólar por dez minutos de recarga. Como o governo fazia de conta que não via, muitos mercados passaram até mesmo a organizar uma fila específica para pagamento em dólares.

A dolarização está tão difundida que nos mercados populares do Centro de Maracaibo já não aceitam as notas de 1 dólar, porque são consideradas de pouco valor. Quem ainda as recebe são os revendedores de gasolina – outro bem muito escasso na cidade –, que vendem 1 litro do combustível por 1 dólar. É um negócio muito lucrativo, visto que, se fosse respeitado o preço oficial, com 1 dólar seria possível comprar, inacre-ditavelmente, mais de 5,2 mil litros de gasolina, no final de abril. Na Venezuela tudo foi atingido pela corrupção, e tudo pode ser capitalizado.

“Em breve nos cinemas, só na Venezuela, O Apagão 3 – Os Últimos Sobreviventes”, diz uma brincadeira na internet, na forma de um trailer de filme, que prevê um terceiro e apocalíptico blecaute. “Só rindo mesmo. Senão, fazer o quê?”, Júlia afirma, ao me mostrar o filminho. Mas logo abandona a risada, esboça um olhar preocupado e pergunta, talvez para si mesma: “Será possível que venha um terceiro apagão?”

O WhatsApp, o meio preferencial de informação com o colapso da imprensa tradicional, avisa que sim. A irmã de Júlia, que mora no extremo leste do país, diz que leu num grupo de mensagens que o novo corte de luz vai começar ainda hoje, 29 de março, às nove da noite, e vai durar três dias. A angústia das pessoas aumenta a cada suposição que é feita.

No fim da tarde, num piscar de olhos, tudo se apaga.

Júlia corre para desligar os aparelhos. “Se a luz voltar, perigam queimar”, grita. Mas a luz não voltaria nem naquela noite, nem nos próximos quatro dias.

“É O Apagão 3”, diz minha cunhada, e não consigo evitar uma gargalhada. Rimos as duas e levamos banquinhos até a entrada do apartamento, no corredor, onde ficamos batendo papo até que a noite cai e tudo fica escuro.

 

A resiliência de Júlia é admirável. Nos dias que passei com ela, vi como surfou sem se queixar em um oceano de penúrias. Ela mal conseguia lavar algumas peças de roupa à mão. Tomava banhos rápidos em cima de uma bacia para recolher a água que caía e usá-la na privada, que só recebia a descarga duas ou três vezes por dia. E tem o ponto de honra dela: não ter lavado os cabelos há mais de uma semana. Júlia também não se importa mais com os cabelos brancos e as manchas na pele. Mantém o sorriso e o jeito doces de sempre. De vez em quando, um pouco de tristeza e de cansaço recaem sobre o rosto dela, tentando apagar sua beleza, em vão.

“Maduro!”, grita alguém, enquanto seguimos conversando no corredor. E, de imediato, outros respondem: “A puta que te pariu.” E mais uma vez: “Maduro!” E a resposta é a mesma: “É a puta que te pariu.”

Ainda está quente, apesar de ser noite. Maracaibo – antes conhecida como a cidade mais fria da Venezuela por causa da popularização do ar-condicionado – agora parece uma panela de pressão, já que os aparelhos não são ligados. Um amigo me escreveu contando que seu bebê de poucos meses tem constantes irritações de pele por causa do calor. Uma amiga disse que os piolhos estavam infestando a cabeça de sua filha pequena, porque sem água era impossível combatê-los. “A energia elétrica não é tão necessária, mas a água, sim”, diz Júlia. Ela está preocupada por só ter o suficiente para dois dias de uso mínimo.

Os vizinhos do apartamento da frente voltam a acender a tocha. “Esse prédio é uma favela vertical”, define Juan Pablo, que aparece por um instante no corredor. Júlia me diz que ele reclama de tudo, especialmente do prédio, que acha tão vergonhoso que não convida os amigos para visitas. É verdade que o conjunto residencial dá sinais de colapso. Além de as paredes externas estarem descoloridas, as internas estão sujas e riscadas. Ofertas de fornecimento de água e de geradores elétricos dominam os murais na entrada do condomínio. Os elevadores estão interditados por falta de peças de reposição. Alguns animais de estimação e até mesmo seres humanos fazem suas necessidades nas escadas. Nas áreas comuns, o lixo se acumula devido à coleta precária. Apesar de tudo isso, ainda resta no condomínio um porteiro. E o síndico se mostra prestativo para resolver algum problema mais grave.

Num impulso, como se acabasse de lembrar de alguma coisa urgente para fazer, Júlia se levanta e vai até a cozinha para preparar o frango. “Com sal, consigo conservá-lo até o almoço de amanhã.” Um cheiro forte de fritura toma conta do apartamento. “Dona Paula não teria aguentado isso”, diz ela, referindo-se à minha mãe. O uso de frituras é comum em Maracaibo, mas não era na casa da minha cunhada. Nos últimos meses, porém, passou a ser um recurso cada vez mais frequente, pois permite economizar óleo, que é reaproveitado várias vezes. “Também uso a mesma panela, sem sujar outras, por vários dias, assim poupo água.” É uma sorte que o gás encanado não esteja em falta em Maracaibo.

 

Não é só em casa que Júlia enfrenta desafios, mas também no trabalho. Enfermeira no pronto-socorro do maior hospital público da cidade, o Hospital Universitário de Maracaibo, ela está acostumada a lidar com situações difíceis, embora diga que não se preparou para “isso”. Ano passado, quando houve um corte de energia, quatro enfermeiras, uma delas amiga muito próxima de Júlia, tiveram que se revezar para bombear manualmente o ar em dois pacientes na UTI. Era noite, o gerador não funcionava e elas nem podiam ver direito o rosto dos doentes. Um deles morreu, apesar de aquelas mulheres não terem interrompido a bomba de ar um segundo sequer, durante toda a noite. “Você faz ideia de como é cansativo apertar uma bomba de ar sem parar?”, pergunta Júlia. “Agora, imagine o que é ter que carregar, às escuras, pelas escadas, um paciente que acabou de morrer.”

A decrepitude dos hospitais não se revela apenas nos momentos de apagão: é uma constante, e se agrava dia após dia. Há crianças que esperam por cirurgias sempre adiadas, pois os médicos não querem correr o risco de serem surpreendidos na hora da operação por um corte de energia. “Uma mulher está com o filho hospitalizado faz alguns dias e, na semana passada, sua filha quebrou um braço. Mas não tem como tirar um raio X. Os hospitais não querem ligar os aparelhos porque temem que estraguem se houver uma oscilação repentina de voltagem ou um corte de energia. A menina está lá, com o braço fraturado, sem saber quando vai poder tirar essa chapa”, conta Júlia, iluminada pela luz do celular, enquanto vira os filés de frango na panela.

Outro menino, indigente, foi internado com traumatismo craniano, após ter sido atropelado por um carro sem faróis. O motorista não parou para prestar auxílio e foi uma mulher que levou a criança ao hospital. Como o tomógrafo está com defeito, a única coisa que os médicos tinham conseguido fazer até então foi mantê-lo sedado, esperando que se recuperasse. Alguém conseguiu sedativos para os primeiros dias, mas o produto está em falta. E a mulher que resgatou o menino não tem dinheiro. Falta até mesmo roupa de cama no hospital. Os próprios enfermeiros levaram de casa lençóis para cobrir a criança.

Além disso, a UTI da pediatria está fechada porque o ar-condicionado parou de funcionar há mais de um ano. O local virou um depósito de leitos e aparelhos, a maioria está quebrada. As crianças foram transferidas para a uti dos adultos. Com isso, as vagas nesse setor foram reduzidas de seis para três pacientes adultos. Também está fechada a área de oncologia pediátrica, por falta de enfermeiros.

Júlia tem que caminhar quarenta minutos para chegar ao hospital. Mas nem todo mundo que trabalha ali mora a uma distância que possa ser percorrida a pé, por isso sempre há gente que falta. Muitos também se demitem, por não receberem o salário. Ela mesma não recebeu o pagamento de 18,50 dólares referente às duas últimas quinzenas. O pessoal que ainda resta no hospital costuma fazer turnos de doze a 24 horas, e o que Júlia e seus colegas mais temem é que não haja novas contratações, o que implicará, para quem permanecer, na ampliação das jornadas já extenuantes.

Sem alterar o seu tom habitual de voz, ela continua me contando coisas estarrecedoras sobre o seu trabalho. Faltam medicamentos, luvas cirúrgicas, álcool, soluções fisiológicas, algodão… A água é bombeada duas vezes por dia para que os enfermeiros a armazenem em tambores. “Não podemos nem sequer lavar as mãos de forma adequada para evitar infecções”, diz Júlia, enquanto guarda no forno o frango que acabou de fritar.

Antes de amassar as arepas da noite, ela põe água para ferver porque, sem energia, o filtro não funciona, e as jarras estão quase vazias.

Os geradores do prédio vizinho voltam a roncar. “Meu Deus, não é possível que tenhamos que passar mais uma noite no escuro”, lamenta Júlia. O celular de Juan Pablo tem conexão, diferentemente do meu. Ele está tão absorto em sua atividade com o aparelho que quase me esqueci de sua presença.

Jantamos no corredor, olhando a tocha do vizinho. Com a escuridão geral, pode-se ver com nitidez as estrelas faiscando no céu. De quando em quando, aparecem alguns pequenos pontos de luz em outros prédios no horizonte, provocando um efeito hipnótico. De repente, por estarmos há tanto tempo no escuro, temos a sensação de que uma luz foi acesa e podemos ver com mais clareza tudo em volta. É um pouco como a falsa impressão que se tem depois de olhar demoradamente o rosto de um morto num caixão: achamos, por um instante, que ele abriu os olhos.

 

Mais uma manhã, e o ruído do gerador e da água pingando nos galões já me são familiares. Impressiona que, depois de tantos dias sugando a água da caixa, ainda haja um pouco. À medida que a água diminui, para que seja captada do fundo da caixa, é preciso abaixar a mangueira quase até o nível do chão. Sai, então, um fio de água, pacientemente recolhido em um potinho de plástico de não mais de 10 centímetros de altura. De potinho em potinho, enche-se mais um garrafão. Foi esse o método desenvolvido por Júlia, que investiu tempo nisso e se orgulha de ter sido bem-sucedida.

Nesse ritmo, completar uns cinco garrafões exige quase uma hora. O fio, cada vez mais fino, por fim se extingue. A caixa secou. Minha cunhada resolve fechar o banheiro principal, que está bem sujo, e habilitar o segundo, que até agora ela proibia de usar para só fazê-lo caso a falta d’água durasse muitos dias. “Hora do plano Z”, ela proclama. Júlia tenta disfarçar, mas é claro que está aflita por não saber onde vai arrumar água amanhã.

Sugeri que ela se mudasse com o filho para a casa da minha mãe, que às vezes recebe água da rua. Mas Júlia recusou a oferta, alegando que não quer ficar isolada numa rua onde quase não há mais vizinhos e fica longe do seu trabalho e da escola de Juan Pablo. Eu temo que a casa seja saqueada, de modo que gostaria muito que ela se mudasse, mas entendo seus motivos. Uma das poucas vizinhas que não abandonaram o bairro e era próxima de minha mãe cuida agora da casa. Ela é a única na rua a quem contei que minha mãe não voltará mais.

Júlia começa a amassar a farinha para fazer mandocas, uma espécie de biscoito doce frito em formato de U que é servido com queijo – quitute tradicional de Maracaibo que eu nunca comia em casa, porque minha mãe, natural dos Andes, não sabia como prepará-lo. O WhatsApp da minha cunhada fervilha. “O estado de Zulia está na ponta da rede elétrica, por isso a energia demora mais para voltar aqui”, diz um primo. Outro opina que “a eletricidade não tem a força necessária, por isso não chega aqui para nós”. Uma vizinha grita que a luz voltou num município vizinho. Para matar o tempo, jogamos baralho.

À tardinha, vemos as luzes acesas no conjunto residencial em frente, do outro lado da rua. Júlia comemora, para ela significa que a qualquer momento a energia elétrica chegará também à sua casa. “Dentro de umas duas horas, a eletricidade deve chegar também no nosso prédio”, ela calcula. Mas, menos de uma hora depois, a luz no conjunto residencial da frente se apaga. “Era minha esperança. E agora?”, lamenta. Tudo não passa de uma grande loteria.

Júlia sente um mau cheiro saindo da geladeira e tira fora o arroz e as lentilhas, que estragaram. Depois de comermos arepas com o queijo restante, sentamos mais uma vez no corredor para conversar. Falamos de minha mãe, da mãe dela, que morreu há mais de dez anos, de câncer. Falamos de meu irmão, revisitamos histórias e brigas. Já faz cinco dias que estou em Maracaibo, nunca tínhamos passado tanto tempo juntas. Antes, era a presença de minha mãe que nos aproximava. Agora é a ausência dela.

Na manhã seguinte, já não havia nem uma gota sequer para espremer da caixa-d’água, mas nos garrafões restava um pouco do dia anterior. Nosso café da manhã foi arepas com ovos. Prevendo que não haverá almoço, meu sobrinho come duas.

Vejo vizinhos subindo com água, e logo deduzimos que devem estar tirando do poço nos fundos do edifício. Rapidamente juntamos alguns vasilhames e descemos até lá. Encontramos uma fila de umas dez pessoas com um sem número de recipientes plásticos em formatos variados.

A indefinição sobre o fornecimento de energia levou o condomínio a criar um método para distribuir a água do poço. Munidos de baldes enormes, voluntários se revezam para extrair o líquido precioso do poço e despejá-lo numa caixa de 200 litros com uma torneira, da qual os moradores recolhem a água. O sistema é rápido, mas a fila é extenuante, ainda mais com a temperatura ultrapassando os 30 graus. Apesar disso, os moradores enfrentam a fila muitas vezes, tentando coletar a maior quantidade de água possível. Como formiguinhas, descem e sobem os andares, carregados de vasilhas.

Júlia, Juan Pablo, sua prima Crisbel e eu fizemos o mesmo que eles, indo e vindo várias vezes, do térreo ao 7º andar, do 7º andar ao térreo. Cem litros mais tarde, estávamos completamente exaustos, mas não havia mais por que nos queixarmos. Tínhamos recolhido água para mais alguns dias. E Júlia, finalmente, poderia lavar os cabelos.

Este texto foi reeditado e atualizado em julho de 2019 para piauí_flip_2019, edição impressa e distribuída gratuitamente durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Paula Ramón

Jornalista venezuelana, é correspondente da AFP em São Paulo

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