carta da venezuela

O inferno de Maracaibo

A vida cotidiana num país em ruínas

Paula Ramón
Algumas calçadas têm tanto lixo que precisamos caminhar no meio da rua. Vemos uma loja aberta, depois um semáforo funcionando. A luz voltou. Pessoas sentadas na frente de suas casas insultam Maduro ou desenvolvem teorias sobre os apagões. Mas o silêncio predomina. Parece um domingo
Algumas calçadas têm tanto lixo que precisamos caminhar no meio da rua. Vemos uma loja aberta, depois um semáforo funcionando. A luz voltou. Pessoas sentadas na frente de suas casas insultam Maduro ou desenvolvem teorias sobre os apagões. Mas o silêncio predomina. Parece um domingo CRÉDITO: MERIDITH KOHUT_2019

A cidade está quase deserta e parece mais marrom do que de costume, com seus jardins secos, os prédios sujos e abandonados. Os locais que representavam a prosperidade de Maracaibo agora refletem apenas sua ruína. Três semanas atrás, vários lugares foram saquea-dos durante um apagão sem precedentes na Venezuela, o que ampliou ainda mais a imagem da devastação. Há três dias, a cidade está novamente sem energia elétrica. É o início da tarde do dia 27 de março, quarta-feira, e o sol está tão forte, o ar tão denso e a cidade tão destruída e vazia que tenho a sensação – que não me abandonará enquanto estiver aqui – de que estou vivendo o final dos tempos. Maracaibo parece ter chegado ao fundo do poço, ainda que seja difícil saber onde o poço acaba na Venezuela.

O conjunto residencial El Rosal, onde mora minha cunhada, é um retrato da decadência, com a pintura desbotada das fachadas e alguns carros sem pneus espalhados pelo estacionamento. Já não vive tanta gente nos prédios: muitos moradores deixaram o país em busca de outra vida. Há pelos menos cinco anos não ponho os pés aqui, e me impressiona o lixo acumulado perto da entrada, o abandono geral e o vazio do estacionamento, o mesmo onde antes eu tinha que me esforçar para encontrar uma vaga.

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Paula Ramón

Paula Ramón, jornalista venezuelana, é correspondente da AFP em São Paulo.

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