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O lado www da bíblia

“Jesus Cristo” ainda é mais famoso do que “sexo cristão”

Felipe Sáles

Um evangélico em dúvida sobre como aplacar as coceiras que lhe advêm da lascívia agora já tem escolha. Em vez de ir soltar seus demônios no púlpito ou no palco (para horror profundo ou secreto gozo da plateia de irmãos), ele pode, por exemplo, dar uma vasculhada no Goocrente, o portal “onde os sites cristãos se encontram”. Se ali dentro, contudo, o pobre-diabo buscar “sexo cristão”, encontrará apenas sites de namoro, pura caretice sabida e consabida, a não ser por um certo amorcristão.net, site onde se encontram evangélicos mais prontos, digamos assim, para abraçar o mundo. Os danados permitem buscar homem, mulher, ambos, casais e grupos, tudo a partir dos 16 anos.

O cristão atormentado não demoraria a reparar, mesmo à beira do vasto oceano virtual, que libertinagem evangélica só aporta mesmo é no Sexo Cristão, diretamente. Com três anos de existência, 30 mil visitantes por mês (mil por dia, 41,666 por hora, 0,69444 por minuto) e o aval do proprietário – o pastor Ramon Tessmann, de Santa Catarina –, parece ser este o único espaço cristão que de fato acolhe e sossega os mais inconfessáveis desejos.

Conta o pastor Ramon que a dúvida mais inusitada que ele recebeu foi sobre um chuveirinho amarelo. “A pessoa perguntou se era pecado.” Ela explicou o que era: uma posição em que a mulher fica em pé sobre o homem e faz pipi nele, ou vice-versa. “Achamos um tanto estranho”, disse o pastor, “pois em nossa região não conhecíamos esse apelido.”

Logo na primeira página o site propõe uma enquete polêmica: “O que você acha de o cristão ir a motéis?” Mais de 100 mil respostas depois, continuava pegando fogo, sem perspectiva de acordo entre os “sim, é pecado” e os “não, não vejo problema algum”. Há dez especialistas voluntários para responder às dúvidas mais frequentes. Uma das mais acessadas súplicas fogosas é, por exemplo, se “sexo oral entre casados é pecado”. Uma questão pertinente, afinal, explica o especialista que “se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies? (Colossenses 2: 20-21)”. É necessário grandes dotes hermenêuticos para extrair disso uma lição sobre o cunnilingus ou o fellatio, mas aí está. Quem acha que sexo oral é pecado “costuma dizer que ‘sua boca é para louvor e adoração ao Senhor’, e não para ‘essas coisas’”. Mas, pergunta outro: “Se a boca é somente para orar, louvar e pregar, não vai se alimentar mais?” De fato.



Entre as dúvidas frequentes está a seguinte: “Por que não apedrejamos os adúlteros hoje em dia?” Ora, pois. Afinal, “quando alguém transgredia a Lei de Deus na época de Moisés, a orientação dada pelo próprio Deus era que esta pessoa fosse apedrejada”. Antes que os traídos se animem, o site explica que Moisés, talvez injuriado com a esposa, inventou essa história de apedrejamento dizendo que era a Lei de Deus. Mas aí o Império Romano decretou que isso de tacar a primeira pedra nas atrevidas, só depois de transitado em julgado – pelo júri imperial, claro. Aí Jesus, coitado, ficou rendido na história, porque “se Ele dissesse que a mulher não devia ser apedrejada, o acusariam de descumprir a Lei de Moisés, e se Ele autorizasse a condenação o acusariam de afrontar os romanos”.

O sucesso é tanto que já está em estudo a troca do layout e da programação do site, construído depois que Ramon, dono de outros portais evangélicos, começou a receber um quinhão considerável de perguntas a respeito de padrões sexuais dignos do evangelismo. O público mais arrependido ainda dispõe de um vasto consolo para suas angústias carnais no mundo da web. Afinal, Sua onipresença também se faz em megabytes. No Twitter, por exemplo, pode-se confessar os pecados com o próprio Senhor, via @ocriador, ou enviar 140 caracteres de súplicas ao Muro das Lamentações por meio do @TheKotel, cujo proprietário, Alon Nil, garante aos internautas do mundo inteiro um pedaço de papel enfiado entre as pedras sagradas de Jerusalém.

 

Claro, nem tudo é sexo. Pela net também é possível acender velas virtuais a tudo quanto é santo. Mil santinhos enviados por e-mail saem pela bagatela de 50 reais. O cristão moderno já pode até louvar a Deus via web ao vivo, ou comprar DVDs de cultos anteriores. Pastores como Tupirani da Hora – um dos primeiros presos por intolerância religiosa do Brasil – já propagam suas convicções em TVs e rádios online, ao alcance do mundo inteiro e longe de intervenção policial. Existe até a Vida Nova – “a igreja de Jesus na internet” –, com transmissão de cultos inclusive do exterior e horário de atendimento via Skype. Já os católicos, além de contarem com um canal do Vaticano no YouTube, podem até se tornar amigos do papa Bento XVI – embora a conta, na verdade, seja administrada por membros do Vaticano e não exatamente pelo papa.

O Todo-Poderoso está cada vez mais ao alcance de um clique. Afinal, “sexo cristão” (ainda) é menos famoso do que “Jesus Cristo”, segundo o Google. Em meados de julho, o placar de resultados marcava 219 mil contra 1 020 milhões.

Felipe Sáles

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