carta do Cairo

O lixo não é trash

Um catador de rua explica o Egito moderno

Peter Hessler
Sayyid Ahmed trabalha no sistema informal de coleta do Cairo, pago pelos moradores; veste-se com sapato e roupa largos e usados, achados no lixo, mas em sua casa tudo é novo em folha
Sayyid Ahmed trabalha no sistema informal de coleta do Cairo, pago pelos moradores; veste-se com sapato e roupa largos e usados, achados no lixo, mas em sua casa tudo é novo em folha FOTO: RENA EFFENDI_INSTITUTE

Moro no Cairo, no andar térreo de um prédio antigo, num apartamento amplo, de pé-direito alto, com três portas que dão para fora. Uma delas abre para o saguão do edifício; outra conduz a um jardinzinho; a terceira é de uso exclusivo do zabal (ou lixeiro), que se chama Sayyid Ahmed. Esta última fica na cozinha, e quando nos mudamos para esse apartamento, no começo de 2012, a senhoria nos instruiu a pôr o lixo junto da escada de incêndio, perto da porta, a hora que quiséssemos. Não havia um horário específico de coleta nem algum tipo preferido de embalagem: podíamos usar sacos, caixas ou simplesmente jogar o lixo solto, porta afora. Os serviços prestados por Sayyid não exigiam uma remuneração predeterminada. Ele não era funcionário público nem tinha um contrato ou emprego formal. Disseram-me que pagasse o que achasse justo e, se desejasse, também podia não pagar nada.

Muitas coisas não funcionam direito no Egito. O trânsito é ruim, trens são cancelados e, no verão, não é nada incomum enfrentar cinco apagões num mesmo dia. Houve um ano em que passamos meses sem poder comprar água mineral, porque, sabe-se lá como, a fábrica que a fornecia tinha pegado fogo. Desde que nos mudamos para esse apartamento, o país já teve três Constituições, três presidentes, quatro primeiros-ministros e mais de 700 parlamentares. Mas nunca houve um único dia em que meu lixo não tivesse sido recolhido. De um modo geral, o sistema de coleta no Cairo funciona surpreendentemente bem, considerando-se que é um serviço em grande parte informal. Numa cidade espraiada e caótica de mais de 17 milhões de habitantes, os zabaleen como Sayyid conseguiram desenvolver uma das redes mais eficientes do mundo de reciclagem municipal de lixo.

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Peter Hessler

Peter Hessler é repórter da revista The New Yorker, na qual o texto foi originalmente publicado. Autor de uma trilogia de reportagens sobre a China moderna, vive atualmente no Cairo e lançou a coletânea de ensaios Strange Stones: Dispatches from East and West, pela Harper.

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