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O malandro voltou fissurado

No romance Pornopopéia, Reinaldo Moraes retoma a ginga dialética de um sargento de milícias e faz o vadio enfrentar o presente

Mario Sergio Conti
Reinado Moraes escreveu com conhecimento de causa: “Durante anos, fiz uma porrada de institucionais. Ia a bares todas as noites e ficava até de manhã bebendo, fumando e cheirando todas, tentando comer umas minas no banheiro de pau mole.”
Reinado Moraes escreveu com conhecimento de causa: “Durante anos, fiz uma porrada de institucionais. Ia a bares todas as noites e ficava até de manhã bebendo, fumando e cheirando todas, tentando comer umas minas no banheiro de pau mole.” FOTO: ELLA DURST_2010, INSPIRADA NO AUTORRETRATO DESESPERADO, DE GUSTAVE COURBET_1845 / TRATAMENTO DE IMAGEM DE JUJUBA DIGITAL

Pornopopéia, o título do romance de Reinaldo Moraes, junta duas palavras de origem grega. “Porno”, cuja etimologia remete a “prostituta”, é a representação de obscenidades. “Epopeia” é a forma literária que relata os feitos de um herói ou povo. O romance, de fato, está repleto de obscenidades. Seu herói, José Carlos Ribeiro, o Zeca, passa boa parte do tempo pensando, idealizando, arquitetando, descrevendo e praticando sexo. A prosa, minuciosa e colorida, percorre corpos suados e não recua diante de odores, secreções, orifícios e ruídos, fala aos sentidos e à imaginação.

Nem por isso o romance é pornográfico como Garganta Profunda ou os quadrinhos de Carlos Zéfiro. E ainda que comporte mais de uma centena de referências literárias, tampouco é obra douta cuja fruição depende do conhecimento prévio de determinados livros. Pornopopéiaa trai pelo humor depravado, pelo engenho verbal, pela prosa fosfórica e pela trama bem concatenada. É um livro divertido que, por fim, está longe de ser um entretenimento de índole mercantil.

O “porno” do título, por exemplo, não tem caráter apelativo. Ele pretende mais caracterizar um ambiente generalizado de excitação e comércio, que domina o romance, do que estimular sexualmente. Ao contratar uma prostituta, o narrador faz o pagamento antecipado e esclarece:

Sempre faço isso, de pagar a puta antes. Cria um clima de confiança, esquenta a relação, melhora a qualidade da foda. Viver numa sociedade regida pelo dinheiro pode ser uma merda e tudo, mas, porra, um pedacinho de papel pintado que pode ser trocado tanto por um prato de espaguete com vinho numa cantina do Bixiga quanto por uma peteca de cocaína ou uma bela buceta semidepilada à meia-noite e pico na rua é de tirar o chapéu, fala a verdade.

E relata:

A minha puta sabia tomar uma pica por via oral. Começou com um bem realizado tour de língua em torno da chapeleta, pra depois alojar o negócio sobre o leito da língua dentro da boca. Meu pau ficou descansando um pouco naquele berço esplêndido como um pequeno deus na manjedoura, antes que ela iniciasse o trabalho de sucção. Quer dizer, a mulher se esmerava em prolegômenos refinados até no boquete. De tirar o chapéu – ou a chapeleta.

E explica por que não tira a roupa:

Não acho dermatologicamente correto ficar roçando a pele nesses lençóis engomados de porra, bosta de cu comido, catarro, ranho, pus, sarna e o caralho.

E imagina a vida da prostituta:

Fiquei amassando aquelas tetas sugadas por incontáveis clientes, dezenas de cafiolos e dois ou três filhos, que deviam estar agora com parentes ou vizinhas em alguma quebrada da perifa. Era uma bunda que já tinha enfrentado alguns atritos com ângulos mais agudos da realidade, como bico de sapato e brasa de cigarro.

O narrador tagarela tudo isso nos primeiros parágrafos de uma cena de sexo que se estende por onze páginas. Uma série de procedimentos dificulta a excitação pornográfica. É o caso do enunciado sociológico e crítico (“viver numa sociedade regida pelo dinheiro”) que deságua na exaltação do papel que compra tanto comida e bebida (“espaguete com vinho”), como droga (“uma peteca de cocaína”) e sexo (“uma bela buceta semidepilada”). Ou da felação que adquire timbres cívicos (“meu pau ficou descansando um pouco naquele berço esplêndido”) e é comparada a um presépio (“um pequeno deus na manjedoura”). Ou do deslocamento de clichês (“qualidade de vida” vira “qualidade da foda”; “politicamente correto”, “dermatologicamente correto”; tour de force, “tour de língua”; “de tirar o chapéu”, “de tirar a chapeleta”). Ou da convivência do vocabulário erudito (“prolegômenos”) com o da sordidez naturalista (“lençóis engomados de porra, bosta de cu comido, catarro, ranho, pus, sarna e o caralho”).

Esses procedimentos, que se repetem com criatividade compulsiva, conduzem a um nivelamento por baixo generalizado. O esculacho degrada tudo e todos. O humor faz rir, e segue adiante: o ácido do sarcasmo indiscriminado corrói ilusões e expõe engrenagens ocultas. Para o herói de Pornopopéia tudo se compra e se vende mediante golpes, atritos, pechinchas e enganação. Ou então se furta: depois de transar com a prostituta e de lhe prometer um papel num filme pornô, Zeca surrupia os 50 reais que lhe pagou antecipadamente para criar “um clima de confiança”.

 

N’A Teoria do Romance, Lukács diz que “a grande épica dá forma à totalidade extensiva da vida”. Ele falava do mundo fechado da Ilíada e da Odisseia, no qual “o fogo que arde na alma é da mesma essência que as estrelas”. Na medida em que a marcha da história fez com que o cosmos deixasse de ser a casa dos homens, a epopeia perdeu o sentido. Ela não pode mais, segundo Lukács, “superar a amplitude e a profundidade, a perfeição e a sensibilidade, a riqueza e a ordem da vida historicamente dada”. A história humana é mais complexa e rica que o Olimpo.

Com suas quase 500 páginas de ambição épica, Pornopopéia alude a personagens e situações da Odisseia, mas lhes subverte o significado. Como Ulisses, Zeca está fora de casa e sua Penélope, Lia, é assediada por pretendentes. Só que ele não quer voltar para casa e Lia o trai com um colega. Os 26 capítulos funcionam como episódios homéricos, nos quais há lugares e tramas que o herói atravessa: a suruba no centro budista, a compra de cocaína na toca do travesti, a fuzilaria entre o PCC e policiais, a saideira num botequim, a viagem ao litoral, o refúgio na praia, o quase afogamento, a sedução da caiçara, a explosão do carro e a fuga para Paraty.

Há referências à Odisseia: lotófagos cocainômanos, Circe travesti, Nausícaa caiçara, Polifemo traficante com um olho arrancado à bala, Ítaca em Perdizes. Mas elas são tênues e galhofeiras. Não são paródias nem se estruturam como no Ulisses de Joyce, no qual os capítulos se inspiram diretamente nas rapsódias de Homero. Elas servem de contraste irônico, exceto no começo do livro, no qual a inversão é direta e definidora. Na épica, os versos iniciais celebram o herói: a Odisseia principia com a exaltação dos feitos do ardiloso Ulisses. E Pornopopéia abre assim:

Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia, não é arte.

O poeta é o próprio protagonista, que faz uma exortação a si mesmo. Precisa perpetrar o roteiro de “uma cine-sabujice empresarial”. Por quê? “Pra ganhar o pão, babaca”, ele se responde, ecoando a condenação bíblica, e acrescenta: “E o pó. E a breja. E a brenfa.” Nem só de pão vive o homem, mas também de cocaína, cerveja e maconha.

Esse homem, o herói, é José Carlos Ribeiro, um paulistano de 42 anos, casado com uma socióloga e pai de um menino de 4 anos. Tem olhos claros, o que é ótimo porque “todo mundo no Brasil aceita cheque de um cara de olho azul”. Ele nasceu no dia 31 de março de 1964. Seu pai era um bancário que “vivia em litígio com o mundo”, um “democrata” que admirava o general Geisel e se queixava “dessa baianada” que não parava de chegar a São Paulo “com uma mão na frente e uma peixeira atrás, disposta a tudo”. Sua mãe não perdia a telenovela, “e não tinha noite em que não vertesse ao menos uma lágrima, sob o alto patrocínio da margarina Doriana e das Lojas Arapuã”.

O irmão de Zeca, Rubens, vivia no quarto, afundado em Sartre, Baudelaire, Rimbaud, Henry Miller. Os irmãos entraram na Universidade de São Paulo, Rubens no curso de filosofia e Zeca no de cinema. O mais velho se suicidou, o caçula leu toda a biblioteca do morto e abandonou a faculdade. Dirigiu Holisticofrenia “sem recorrer a verba oficial, ou renúncia fiscal, nem porra nenhuma do tipo. O pouco que gastei veio do bolso do cunhadão. A única renúncia no filme foi à lógica”. O cartaz apregoava “imagens em desespero celebrando o caos da vida”.

O filme foi premiado num festival na Colômbia e Zeca ganhou aura de cineasta maldito. Mas isso foi há dez anos. O artista promissor entrou para a linha de montagem de embutidos, os vídeos institucionais. Montou sua produtora num apartamento do cunhado, Leco, em Higienópolis. E botou na porta um pôster mostrando uma pilha de crânios de cambojanos mortos no genocídio dos anos 70, e o nome da empresa: “Khmer Vídeofilmes – uma produtora, muitas cabeças.”

Dos vídeos institucionais desceu para os pornográficos e agora encara batizados, casamentos, bailes, o que aparecer. Pouco a pouco, se afastou do apartamento familiar. Vai levando: rouba o cunhado, atrasa o pagamento das contas e o salário da secretária, briga com a mulher pelo telefone, ludibria os amigos. De dia, fica entocado. À noite, sai para a esbórnia.

Aí surge uma oportunidade de trabalho: um vídeo institucional sobre a nova linha de embutidos de frango da Granja Itaquerambu. “Em vez do jornal reciclado de praxe, os putos vão adicionar algum tipo de pasta de lixo orgânico pasteurizado na mistura, imagino, mais uma contribuição da Itaquerambu para o planeta sustentável”, pensa Zeca, e se pergunta: “Qual a diferença entre arte e embutidos de frango?”

Em vez de responder, Zeca conta que cheirou cocaína:

A primeira carreira me abriu as portas do nirvana. A segunda me chutou lá pra dentro. Dei fartos goles no bourbon e na cerveja e suspendi as mãos sobre o notebook. As mãos, meio trêmulas, ficaram pairando em cima das letras. Quando os dedos pingaram sobre elas, o que acabou saindo foi isso aqui que você tem lido, o embrião dum possível roteiro. Nem sombra dos embutidos.

Ou seja, ele fugiu da maldição do trabalho. Entregou-se aos paraísos artificiais e à expressão artística. E começa a relatar as aventuras embutidas em Pornopopéia.

 

Lukács sustentou que o romance é a forma literária herdeira da grande épica. “O romance busca descobrir e construir, pela forma, a totalidade oculta da vida”, escreveu. “Todos os abismos e fissuras inerentes à situação histórica têm que ser incorporados à configuração.” E mais: “A forma do romance objetiva-se como psicologia dos heróis romanescos: eles buscam algo.”

O que busca o herói Zeca? É ele mesmo quem esclarece: “O que eu queria, e quero, é pó e buceta, nessa ordem.” Essa busca é também fuga. Ele foge do trabalho e da ordem. E cita Rimbaud: “J’ai horreur de tous les métiers.

Pornopopéia é um romance realista com personagens e tipos paulistas. Há a mulher do herói, a socióloga Lia, professora na USP que “orienta umas teses, toca uma ONG de imigrantes sem-teto, sem-terra, sem porra nenhuma, coisa de socióloga de esquerda”.

Nissim, arquiteto que virou designer de móveis, velhusco calvo de rabo de cavalo grisalho. A mulher dele, Nina, dona de escolinha onde tocam músicas da Xuxa.

Terezinha, a secretária japonesa com “cara de saleiro vazio ou de tainha morta na bancada do peixeiro”.

Sossô, adolescente “branquésima, narizinho finlandês de Björk, cabelopreto-graúna, tingido, de corte assimétrico inspirado na teoria do caos, olhos otchichórnios um tanto asiáticos e capitulinos”.

Zuba, publicitário cujo papo é “foco no cliente, agregar valor, sinergia, comunicação integrada, trade marketing, upscaling, benchmarking, opportunity scanning e o caralhaquatring”.

Ingo e Wyrna, animadores de um “entreposto místicomercial”, “zen-vergonhice” que mistura “budismo com bra-manismo, xamanismo turístico, kamassutragem explícita e charlatanis-mo clássico”.

Gaúcha e Melina, sereias da fauna boêmia largadas na vida, “bucetas residentes” do Bitch.

Rejane, “pós-coroa muito boa gente” e “cândida como uma velha sucuri carente”, dona de uma pousada “rustic-romantic-chic” que hospeda “famílias reluzentes de banho tomado e roupa nova, com crianças e adolescentes saudosos de coisas que pudessem ser ligadas na tomada para produzir imagens velozes e ruídos demenciais”.

Ademilson, o porteiro noturno que dorme durante o trabalho porque aluga um quarto nos fundos de uma funilaria em Parelheiros e não consegue pegar no sono com “serra e furadeira rasgando e perfurando aço, e vozes, berros, cantoria, rádio ligado no máximo volume, a carburação explosiva de motores com escapamento aberto, tudo a dois palmos da cabeça”.

Zeca, por sua vez, acha que fora de São Paulo “é tudo América Latina”. Não aguenta “lugares onde possa cruzar com cobras e lagartos não metafóricos. Preciso ter por perto pizzaria, cinema, boteco e pelo menos um traficante a postos a noite inteira, mais um estoque mínimo de putas na rua”. E conclui: “Sou uma lêndea de chato encravada nos pentelhos urbanos.”

O herói, contudo, é obrigado a fugir de São Paulo. Ele sai do escritório-apartamento de madrugada para pegar mais uma partida de cocaína com o traficante Miro. Passa um automóvel em disparada, cheio de bandidos do PCC atirando nos policiais que os perseguem. Uma bala perdida “arrancou a lateral esquerda da cabeça do Miro, acima da orelha, fazendo o olho dele saltar da órbita”.

O herói foi pego por acaso no tiroteio que desandou na “chacina dos inocentes feirantes com folha de arruda atrás da orelha que se preparavam para vender seus tomates por um preço trinta vezes mais caro do que pagaram pro lavrador na roça”. Coberto de sangue e miolos de Miro, Zeca pegou a trouxa com saquinhos de cocaína e levou para o escritório. Uma disputa entre o delegado responsável pelo caso e um promotor do Ministério Público o colocam como suspeito de latrocínio: assassinou o traficante para ficar com a droga.

Ele dá uma última passada pelo Bitch e foge para Porangatuba, um vilarejo no litoral norte (inspirado em Picinguaba), onde se esconde na casa de veraneio do cunhado de Nissim. Ali, acuado, continua a escrever no laptop. E à cata de sexo e drogas.

 

Reinaldo Moraes marcou o encontro à tarde, numa padaria perto do seu apartamento em Berlim Leste, o lado menos rico dos Jardins, no qual a avenida Nove de Julho faz as vezes de Muro. Ele é alto, magro, tem o rosto talhado em traços sem acabamento e aparenta bem menos que os seus 60 anos. Pela atualização no linguajar e nas gírias, pela atenção aos modos paulistanos correntes, Pornopopéia também parece mais jovem que o autor. A tarde era fria e Moraes passou o tempo todo com um copo de conhaque barato na mão.

Ele é mais melancólico e comedido que a algazarra de Pornopopéia faria supor. Esqueceu nomes com frequência e não disse nada de engraçado. Quem o conhece, porém, garante que tarde da noite, num bar, ele tem todos os nomes na ponta da língua e improvisa maluquices sem parar. O escritor confirmou: “Gosto de tomar umas e falar merdas.” Ele tem três filhas de dois casamentos, o primeiro com a psicanalista Maria Rita Kehl e o atual com a editora Marta Garcia.

Pornopopéia é o seu terceiro romance. Nos anos 80, publicou Tanto faz e Abacaxi, que a Companhia das Letras reeditará no início do ano. Começou a tomar notas para o livro em 2002 e sentou para escrevê-lo quando recebeu uma bolada por um trabalho feito para a televisão. Vivia de fazer roteiros comerciais, orelhas e pareceres para editoras, traduções – de Burroughs, Bukowski, Cocteau, Pynchon –, capítulos de novela. Trabalhou mais de doze horas diariamente, mas não conseguiu cumprir o prazo que se dera para terminar o dinheiro e o romance: um ano. Mantido pela mulher, seguiu escrevendo. Quando terminou, tinha umas 900 páginas, que cortou e a Objetiva publicou no ano passado. O romance vendeu 3 500 exemplares e a editora prepara uma versão de bolso.

 

O escritor marcou a segunda conversa num bar do Itaim, depois de um almoço com patrocinadores de um prêmio literário que teria na rua ao lado. O bar estava fechado e fomos de novo a uma padaria, onde ele tomou duas latinhas de cerveja. Fazia calor e um filete de suor lhe descia pelo rosto. Estava mais animado do que na entrevista anterior, apesar de não ter sido premiado: “Ganhei um bife e crème brûlée.” Falou de escritores, eventuais influências em Pornopopéia.

À menção de Nabokov, sorriu e recitou lentamente o começo do seu romance mais conhecido: Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta. Uma plasticidade aparentada com a do russo aparece em Pornopopéia: “Vamo vê aqui mais um tico de Jack, um teco de pó, um tapa na brenfa e um totó no bico da breja.” Mas a frase não desliza com a suavidade das aliterações molhadas de Lolita. Ela matraqueia oclusiva e bilabial, tropeça em encontros consonantais, dribla quem não domina o dialeto junkie. O desenlace feérico é metalinguagem acafajestada: “Tico, teco, tapa e totó. Adoro essa língua, última flor do felácio, tão puta e bela.”

Sobre literatura beatnik e gonzo, disse que “não tem nada a ver, eles se enchiam de drogas para sair da sociedade e descobrir novos mundos de sensibilidade, abandonavam a família e a universidade porque havia essa alternativa. Mas, no Brasil, que alternativa há?”. Lembrou que, em matéria de política e liberação, Kerouac terminou seus dias “morando com a mãe, alcoólatra, odiando o rock, apoiando Nixon e a guerra no Vietnã” e “Hunter Thompson andava de conversível porque era muito bem pago pela Rolling Stone”.

O seu preferido no grupo é Charles Bukowski: “Falam muito mal do velho, mas ele sabia escrever sobre pobreza, sexo e degradação.” Bukowski tem a ver com o que procurou fazer em Pornopopéia? “Não, ele sempre bota uma coisa lírica, que pode significar escape ou redenção. Não faço isso.”

Reinaldo Moraes escreveu com conhecimento de causa. “Durante anos, fiz uma porrada de vídeos institucionais e roteiros”, contou. “Ia a bar todas as noites e ficava até de manhã bebendo, fumando e cheirando todas, tentando comer umas minas no banheiro de pau mole. Numa outra época, eu já teria telefonado para um traficante, ele teria vindo aqui e eu sairia um pouco para cheirar na esquina.”

Disse que, literariamente, o “grande lance”, o que explica Pornopopéia, foi “ter decidido criar um narrador sem superego, sem censura”. (Fernando de Barros e Silva escreveu, na Folha de S.Paulo, que o Zeca “desajustado e compulsivo” do romance era “uma espécie de primo literário de Geraldão”, o personagem do quadrinista Glauco, no qual “cigarros, copos, garrafas, injeções, sanduíches, pernas, braços – tudo se confunde e se consome num frenesi estéril”.)

O Zeca sem superego, prosseguiu Reinaldo Moraes, tem algo de picaresco, o gênero nascido na Espanha do século xvi no qual um pobre, geralmente um servo – o pícaro – perambula por diferentes ambientes, sempre se virando e aprendendo. Pedro Malasarte, personagem que o autor adorava na infância, era um pícaro. Leonardo, o herói de Memórias de um Sargento de Milícias, tem traços de pícaro. “E o Leonardo, hein?”, divertiu-se ele quando as Memórias entraram na conversa, “acabou ficando com cinco heranças!”.

 

Manuel Antônio de Almeida nasceu em 1831, no Rio. Seu pai, um tenente português, morreu quando ele tinha 11 anos, deixando a família em dificuldades. Conseguiu se formar em medicina, mas não pôde exercer a profissão porque precisava de dinheiro. Foi ser jornalista e trabalhou no Correio Mercantil.

No jornal, ouviu as aventuras de um velho sargento de polícia que servira na época de dom João VI. E usou o relato como matéria-prima para as Memórias de um Sargento de Milícias, que o Correio publicou anonimamente, em folhetim, a partir de julho de 1852. Dois anos depois, o romance saiu em livro, dessa vez com a assinatura “Um Brasileiro”. Sem ver seu nome impresso na capa das Memórias, Manuel Antônio morreu aos 30 anos, num naufrágio na costa fluminense.

A fortuna crítica do romance foi conturbada. Passaram-se quarenta anos da publicação até que José Veríssimo o caracterizasse como romance de costumes, precursor do realismo. Quase meio século depois, Mário de Andrade escreveu que era um livro “marginal” à corrente dominante na época, o romantismo, e se filiava a algo bem mais velho que o realismo: a literatura picaresca.

No início dos anos 60, Walnice Nogueira Galvão pintou assim o protagonista das Memórias, Leonardo: “Verve, desapego às convenções, espírito aventureiro, travesso, malcriado, vadio-tipo, desenvolto, refinado velhaco, com gosto pelas mulheres.” Era um “herói sem nenhum caráter”. E Manuel Antônio, segundo Walnice, foi “o primeiro a fixar em literatura o caráter nacional brasileiro, tal como terá longa vida em nossas letras”. Ela saudou em Leonardo “o ancestral de Macunaíma”.

Veio o golpe militar e, em 1970, Antonio Candido publicou “Dialética da malandragem”, um ensaio de longo alcance que reinterpretou as Memórias e delas decalcou uma tendência funda da sociedade brasileira, que vinha do tempo da Colônia e chegava até o século XX. Ele demonstrou que Leonardo é um malandro.

Antonio Candido designa o movimento social dos personagens das Memórias de “dialética da malandragem”. Essa movimentação é descrita sem que Manuel Antônio enfoque as camadas dirigentes e os escravos, que, no entanto, eram as classes fundamentais. Em torno de Leonardo gravitam apenas tipos das camadas médias: o barbeiro, a comadre, a alcoviteira, a cigana, o compadre, o padre, o capoeirista de aluguel, o chefe de polícia etc. As relações humanas entre eles se dão, dialeticamente, entre dois polos, a ordem e a desordem. Ora a gangorra tende para a ordem, encarnada pelo major Vidigal, o chefe de polícia. E ora para a desordem, representada pela Cigana, pelo capoeirista Chico-Juca e por Vidinha, a moça de família pobre.

Manuel Antônio trata os personagens com imparcialidade. Faz isso inclusive nas frases, nas quais dá espaço tanto para o partido da ordem como para o da bagunça. Os personagens acatam ou transigem com as normas a seu bel-prazer, sem recriminações nas entrelinhas. “O livro de Manuel Antônio”, escreve Antonio Candido, “é talvez o único em nossa literatura do século XIX que não exprime uma visão de classe dominante.” Ordem e desordem, por sua vez, são eles mesmos relativos, pois os personagens não se pautam exclusivamente por uma ou outra. A ambiguidade é atributo de uma sociedade na qual os controles e o mando são frouxos.

A forma literária das Memórias seria a redução de uma estrutura existente na sociedade. E o zigue-zague do malandro Leonardo, a estampa mesma da dialética social. Uma dialética que tem desenlace positivo: Leonardo casa com o seu verdadeiro amor, Luisinha, e fatura cinco heranças. Já Vidigal, o emblema da ordem, é caçoado.

 

Em Pornopopéia também não há lugar para as classes fundamentais. E os espécimes das camadas médias e pobres se movimentam conforme a dança da ordem e da desordem. Há funcionários públicos (a professora universitária e seu amante), pequenos proprietários (donas de pousada, escola, bar e centro esotérico), profissionais liberais mais ou menos estabelecidos (o designer de móveis, o tocador de cítara, o advogado boêmio), trabalhadores mais ou menos qualificados e todos distantes da produção (o faz-tudo da pousada, o porteiro, a cozinheira, a secretária). E marginais mais ou menos rastaqueras (o traficante, o travesti, a prostituta, o mendigo alcoólatra).

Há dois vultos distantes da burguesia. Leco, o cunhado de Zeca, que não participa diretamente da trama, é dono de imobiliária, vinte imóveis, postos de gasolina, lojas de conveniência e uma pequena rede de motéis. “O Leco pode ter a alma estreita, mas esse apê dele é bem amplo, com um belo hall de entrada, sala dupla e três quartos”, afirma o herói.

O outro vulto é Cíntia, uma velha miliardária, dona de uma ilha perto de Paraty onde Zeca cogita se esconder da polícia, mas que sequer vem a conhecer. Não obstante, ele fabula: “O negócio dela é fazenda, boi, muito boi, e mineração. Parece que a véia é a rainha do nelore no Mato Grosso do Sul e da bauxita no Amapá.”

No polo da ordem, o expoente é o delegado Roquete Paiva, que também não aparece. A figura secundária é Uélinton, o PM que namora a caiçara Jôsi, outro que não é visto pelo herói, mas cujos crimes são violentos. No polo da desordem, o traficante Miro exerce força de atração. Mas o seu verdadeiro emblema é o herói. Se, como quer Freud, “civilização é repressão”, um personagem sem superego expressa forçosamente agressividade, fissura e pulsão de morte, não pode ser subjugado pela lei.

Zeca lembra os “agregados” dos romances machadianos, homens livres e pobres que, sem assalariamento possível numa sociedade escravista, vivem do favor de um parente ou protetor. Ele usa o que tem para se virar: lábia, sedução, sexo, coerção, mentiras, simpatia. Nos atos, é um vampiro, um predador lúbrico que suga os que lhe estão acima, ao lado e abaixo na escala social.

Considera, por exemplo, que como “tinha investido um belo capital espermático” em Rejane, “precisava fazê-lo render”. Prefere “uma secretária mocoronga que passa os dias lendo Caras ou os textos da Seicho-No-Ie a uma espertalhona cônscia dos seus direitos, brandindo na minha cara as leis trabalhistas do dr. Getúlio Vargas”. O porteiro é um “lacaio do síndico e da velha do cabelo azul, dedo-duro, escroto”. A caiçara, cuja “utopia particular” é “virar dançarina de programa de auditório”, vai “passar o resto da vida cozinhando, lavando roupa, fritando lula pros turistas, e tendo um filho atrás do outro até virar uma cadelona disforme e alquebrada aos 30 anos de idade”.

 

Na segunda metade de “Dialética da malandragem”, Antonio Candido diz que “a comicidade que foge às esferas sancionadas da norma burguesa” se manifesta de diferentes maneiras nas aventuras de Pedro Malasarte, na poesia de Gregório de Matos, no romance de Manuel Antônio e encontra sua expressão máxima no modernismo com Macunaíma e Serafim Ponte Grande.

O ensaísta faz o elogio do chão social que enforma as Memórias e os livros de Mário e Oswald de Andrade: “A sociedade brasileira se abriu com maior largueza à penetração dos grupos dominados ou estranhos. E ganhou em flexibilidade o que perdeu em inteireza e coerência.” E usa expressões como tutto nel mondo è burla, “universo sem culpabilidade e mesmo sem repressão”, “desmistificação que o aproxima das formas espontâneas de vida social”, “como todos têm defeitos, ninguém merece censura”, “sabedoria irreverente”, “lá não se trabalha, não se passa necessidade, tudo se remedeia”.

O que se enaltece aí é a capacidade de resistência das classes populares, que malandramente burlam a lei e se adaptam a diferentes situações sem se vergarem. Numa utopia, essa maneira de ser nos beneficiará porque ela

amaina as quinas e dá lugar a toda a sorte de acomodações (ou negações), que por vezes nos fazem parecer inferiores ante uma visão estupidamente nutrida de valores puritanos, como a das sociedades capitalistas; mas que facilitará nossa inserção num mundo eventualmente aberto.

Em 1979, Roberto Schwarz criticou o ensaio de Antonio Candido em “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da malandragem’”. Ainda que a sociabilidade elogiada seja a das classes populares, e que o “mundo eventualmente aberto” pareça pós-burguês, Roberto Schwarz nota que a valoração promovida por Antonio Candido se dá no âmbito de uma constante cultural, aquela que vem da ensaística dos anos 30, de Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre.
Schwarz explica a operação:
A dialética da ordem e da desordem é construída inicialmente enquanto experiência e perspectiva de um setor social, num quadro de antagonismo de classes historicamente determinado. Ao passo que noutro momento ela é o modo de ser brasileiro, isto é, um traço cultural.
Ou seja, a malandragem, que era uma estratégia concreta das classes subalternas, se transforma num símbolo da nacionalidade: o malandro. Transitou-se, assim, da história para a ideologia.Trazendo o argumento de Antonio Candido para o presente histórico, Schwarz perguntou: “A repressão desencadeada a partir de 1969 – com seus interesses clandestinos em faixa própria, sem definição de responsabilidades, e sempre a bem daquela mesma modernização – não participava ela também da dialética de ordem e desordem?” Vale dizer: a tortura, que é uma desordem institucional, pode ser usada pela classe dominante com o intuito de manter a ordem social. E Schwarz comenta: “É talvez um argumento indicando que só no plano dos traços culturais malandragem e capitalismo se opõem.”Quarenta anos depois da “Dialética da malandragem”, e a trinta dos “Pressupostos”, Pornopopéia volta a essas questões da forma literária e da formação nacional, e as confere com a contemporaneidade. (Reinaldo Moraes conhece o ensaio de Antonio Candido e seguiu um curso de Roberto Schwarz na Universidade Estadual de Campinas.) Dessa vez, o confronto se dá no campo delimitado há mais de 150 anos por Manuel Antônio – o da ficção.

Como o romance foi escrito entre 2002 e 2009, e se passa no fim de 2006, é razoável tomar o período como objeto da sátira romanesca. Não seria um escândalo se o romance, à la Memórias, tivesse como primeira frase “Era no tempo de Lula”. Até porque vários comentaristas caracterizaram o presidente como malandro, e Fernando Henrique Cardoso o chamou de “Macunaíma”. E há pelo menos uma passagem na qual Pornopopéia liga Zeca a Lula, como se verá adiante. Mas o escopo do romance é tão maior que ele extravasa os anos Lula. Não é fortuito que o herói tenha nascido no dia do golpe militar.

Que malandro paulista é esse Zeca? Símbolo da nacionalidade e/ou redução de uma situação social fissurada? Sem ginga, ele admite que, ao pedir uma cerveja, tenta “soar íntimo e despachado, mas resulta, de fato, grosseiro e autoritário”. É um intelectual decaído que “com inquietante facilidade” se transforma num “perfeito fascista homofóbico”. É, ainda, um tiozão ridículo, um pândego patife, um trocadilhista de brilho luciferino. (Reinaldo Moraes manteve no livro as regras ortográficas anteriores à reforma para preservar a seguinte gracinha a propósito de Rejane, que se perderia com a nova acentuação: “Não bastasse minha própria veia boêmia, acabei arranjando também uma véia boêmia”).

Em termos de forma, a diferença maior entre Memórias e Pornopopéia  está no narrador. Manuel Antônio usa a terceira pessoa. O narrador é engraçado, escreve de maneira simples e direta e, como ressaltou Antonio Candido, suas frases permitem que se opte entre dois pontos de vista: “O homem era romântico, como se diz hoje, e babão, como se dizia naquele tempo.” Quanto a Leonardo, Mário de Andrade assinalou que “não fala umas dez frases sequer, num livro farto de dialogação”, e que outros personagens “falam por ele”.

A narração de Pornopopéia é na primeira pessoa. O narrador é um falastrão de tuba canora e belicosa. É ele quem fala pelos outros personagens, infundindo-lhes características atrozes e ofendendo a todos com verve violenta. Não tem superego, mas tem uma autoconsciência ardida. Ele desglamuriza o mundo da literatura, das drogas e da boemia.

O seu léxico e sintaxe, que brotam das ruas e das margens da sociedade, são burilados literariamente. Como quando dá voz a um pedinte bêbado de Porangatuba, Tatá:

Polícia, sordado, fuzilêro, tudo fiodaputa. Médico, enfermêro, farmacêutico, bando de fiadaputa. Prefeito, deputado, senadô e presidente, só fiadaputa. Dono de traineira, de barco de arrasto, de peixaria, ê gentinha fiadaputa. Camioneiro, fazendeiro, dono de posto de gasolina, de pousada, de boteco, de armazém, de padaria, um mai fiadaputa que o otro. Advogado, professô, padre, pastor e crente, é fiadaputa que num acaba mais.

Há no narrador uma recusa a derramamentos, sentimentalismos, ao lírico. Ele fala do filho: “Me ocorreu o quanto o Pedrinho ia adorar um banho de mangueira e bacia num fim de tarde de verão como aquele.” Páginas adiante, porém, ao imaginar o menino “dormindo em boa paz lá em Perdizes”, ele diz:

fiquei tão contente em lembrar do meu filho que me bateu uma tremenda fissura por mais pó, mais birita, mais pito de pango e, quem sabe, mais uma bucetinha antes do definitivo raiar do dia, e mesmo depois do dia raiado, se fosse o caso.

O lírico é incinerado pela prosa lança-chamas, com recurso constante a granadas de Poesia Pau-Brasil radicalizada: até o Amor/Humor oswaldiano vira Humor/Terror. Suas frases esquivas serpenteiam suavemente para, numa pancada, extinguirem a impressão elevada que vinha se formando:

Nadei e boiei de papo pro ar, abandonado àquela mornidão placentária, no embalo das vagas, mirando um céu que já tinha sido bem mais azul de manhã. Me sentia pleno – pleno de peixe, camarão, cerveja e cachaça.

Ou:

Lá vai a tarde entrando em preguiçosa agonia no horizonte líquido desse lugar
comum à beira-mar. Olha só que poesia tem essa frase. Má poesia, mas poesia assim mesmo.

Boa parte do romance transcorre em ambientes abafados: o quarto-escritório, o porão “surubrâmane”, o Bitch, o apartamento do travesti, os Corsas pretos de Miro e Sossô, o boudoir de Rejane, quando não “nas catacumbas suntuosas do íntimo avacalhado” do herói, cujo cérebro é “uma uva-passa à solta numa caixa vazia de panetone”. O mar, no contexto do embutimento-embotamento-embucetamento de Zeca, surge como horizonte de fuga. Mas que não oferece libertação: empanturrado, ele quase se afoga depois do idílio placentário. Realista, ao se safar ele constata: “É doce morrer no mar o caralho. É salgado pra cacete.”

No mar fica o ponto de fuga imaginário da ilha da Cíntia-Circe miliardária. Num delírio, Zeca imagina que passará lá os dias “entre risos e champãs geladas com camarõezinhos fritos, patinhas de caranguejo e luladorês, mais charos a granel”. Mas também vê o lugar como a “torre das véias uivantes” onde será “cercado de água e xotas terceiridosas por todos os lados”.

E lá, nessa utopia, terá de esconder que votou em Lula. Cíntia o ameaçará: “Zé Carlos, não me diga que você é lulopetista. Te mando já de volta pro continente.” E Zeca pensará: “No meu lugar, até o Lula diria que não é lulopetista.”

 

Zeca tem uma voz autoral tão possante que o leitor pode se esquecer que ele não é o narrador. O que ele escreve é “o embrião dum possível roteiro”, que pretende enviar para um escritor cujo e-mail achou na internet. Zeca, que não diz o nome do escritor (Reinaldo Moraes?), de quando em quando se dirige diretamente a ele: “Você precisa conhecer o Bitch, cara. Se a gente se encontrar um dia, te levo lá.”

Só na página 313 Zeca lhe passa instruções detalhadas. Por cinco páginas, dá ordens como: “O que você não conseguir decifrar, deleta, na boa. Ou inventa”, “Mas deixa que a coisa pareça verdadeira”, “Respeite o meu baixo nível, é o alto favor que lhe peço”, “Os neologismos vagabas e as palavras-valise-sem-alça, sem falar nas badalhocas trocadilhescas, pode limar.”

E é meticuloso:

Quando for dividir esse palavrório em períodos e parágrafos, não os deixe nem muito curtos nem descabeladamente longos. Nada de estilo “telegráfico”, ao gosto de futuristas de pince-nez, nem daquelas frases compridíssimas do Proust, que você bate uma punheta, dá uma cagada, tira uma soneca, e a frase ainda tá lá, longe do ponto final. Não quero, em suma, parecer profuuundo nem modernista. Se quiser, pode também dividir o troço em blocos narrativos. Ou “grandes unidades sintagmáticas”, como diria um concretista de pijama. Ou ainda capítulos, como diria qualquer um na rua, com ou sem pijama. Mas nada de titular os capítulos. Invoco com título de capítulo que anuncia o que está por vir, mesmo de forma oblíqua e – pior – poética.
No final do livro, perseguido pelo delegado Roquete Paiva e o PM Uélinton, o herói escapa para Paraty e se esconde na zona. Na derradeira fantasia de fuga, imagina que roubará uma câmera digital e financiará uma viagem ao Piauí com cheques sem fundo e cafetinando uma prostituta. Fará um road movie no caminho e virará “o novo Bandido da Luz Vermelha do cinéma brésilien, herói dos cineclubes, campeão dos acessos no YouTube”. De volta ao aqui e agora, sente “um frisson nas interbreubas, um desejo difuso de enfiar a mandioca num lugar quente e lubrificado com cheiro de buceta. Numa buceta, por exemplo”.

Zeca vende o notebook para comprar mais cocaína. Antes de entregá-lo, envia o arquivo para o escritor, com um recado final que retoma a abertura de Pornopopéia: “Bom trabalho, como os babaquaras dizem aí em São Paulo.” Aparentemente, o destinatário recebeu o manuscrito digital e cumpriu as determinações do herói. Os parágrafos não são telegráficos, as frases não são proustianas, os capítulos não têm título etc.

Reinaldo Moraes ficou moderadamente chateado porque ninguém percebeu que, nas admoestações de Zeca ao escritor, há uma armadilha de extração machadiana. Ela está na página 316: “Até agora são 98 páginas de Word, corpo 12, espaço 2. Nada além de 132 678 caracteres com espaço”. Pois bem, fazendo as contas descobre-se que, até a página 316, há cerca de 1 milhão de caracteres com espaço, e não os 132 678 que o herói escreveu.

O escritor encarregado de editar a maçaroca inventou mais de 800 mil caracteres de trama e situações? Zeca não é o narrador de Pornopopéia? Botaram-lhe um monte de palavras na boca?

No presente episódio da epopeia nacional da malandragem, a vivacidade popular pulsa na linguagem literária. A classe dominante age por meio de interpostas pessoas, policiais. A alegre dialética da conciliação se embutiu em si mesma. O ambiente pressupõe desordem. A utopia nasce e morre na fissura. E o malandro é um otário enganado pelo narrador.



Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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