tempos da peste

O medo é constante, chefe

A rotina perigosa dos motoristas e cobradores de ônibus urbanos durante a pandemia

Tiago Coelho
Motorista na Vila Madalena, em São Paulo: durante a pandemia houve um aumento no número de motoristas e cobradores com transtornos psicológicos, provocados pelo medo que eles têm de levar o vírus para casa, e também de serem demitidos
Motorista na Vila Madalena, em São Paulo: durante a pandemia houve um aumento no número de motoristas e cobradores com transtornos psicológicos, provocados pelo medo que eles têm de levar o vírus para casa, e também de serem demitidos CREDITO: EGBERTO NOGUEIRA_2021_ÍMÃ FOTOGALERIA

Quando a Covid-19 começou a se espalhar em São Paulo, o motorista Renato Galdino logo entendeu que corria grande risco por conduzir, durante oito horas diárias, um ônibus urbano com janelas vedadas, sem abertura para a circulação do ar. Ele passou a sair de casa com máscara de tecido e um frasco de álcool em gel. Apesar das restrições sanitárias, o ônibus continuava cheio de trabalhadores que, assim como ele, não tinham a opção de aderir ao home office.

Cada vez que o motorista de 41 anos ouvia alguém espirrar ou tossir dentro do veículo, a apreensão dele aumentava. “Todo mundo respirando o mesmo ar, eu pedia a proteção de Deus, né?”, ele conta. “É sufocante dirigir com a máscara sem ter ar circulando. Se Deus não estiver ali, meu amigo, o negócio é feio.” A maioria dos passageiros seguia a regra de viajar de máscara, mas, quando um desavisado ou um negacionista aparecia com o rosto descoberto, Galdino advertia que, naquele ônibus, a pessoa não ia entrar. A aflição do motorista aumentava quando ele via um idoso embarcando. “Eu dizia: ‘Meu Deus, por que não fica em casa?’ Mas o idoso falava: ‘Eu não tenho filho nem neto, tenho que pagar as contas.’ Com aquela multidão no ônibus, e ele lá dentro, chefe.”

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Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista de cinema

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