vultos da república

O neófito

As ambições e hesitações do quase-candidato Luciano Huck

Roberto Kaz e Elvira Lobato
“Eu tinha três séculos para tomar a decisão: os séculos de janeiro, fevereiro e março”, disse Huck. “A pressão da Globo me tirou um século e meio, mas entendo e defendo a posição deles.”
“Eu tinha três séculos para tomar a decisão: os séculos de janeiro, fevereiro e março”, disse Huck. “A pressão da Globo me tirou um século e meio, mas entendo e defendo a posição deles.” FOTO: PEDRO GARRIDO_2018

“Estou com mixed feelings”, disse o apresentador Luciano Huck, enquanto se acomodava numa poltrona praiana, na varanda de sua casa no Rio de Janeiro. “Por um lado, sinto um alívio com a decisão. Por outro, sinto uma tristeza. O que sei é que não volto mais pra caixinha onde eu estava.” Citou um exemplo de como a ideia de concorrer à Presidência da República – que o ocupara seriamente ao longo dos últimos meses – o havia modificado: “No meu próximo programa, por exemplo, vou falar de sistema carcerário. Para mim isso tudo foi o começo de uma jornada. Minha agenda de cidadão atuante vai continuar.”

Era uma quinta-feira, 22 de fevereiro, quatro dias depois que Huck publicara mais um artigo na Folha de S.Paulo – o terceiro – anunciando que não iria se candidatar. Dessa vez, no entanto, a decisão parecia ser definitiva. “Eu tinha time, por isso fui até os 48 minutos do segundo tempo”, disse, mencionando uma penca de nomes, como o economista Armínio Fraga, a cientista política Ilona Szabó e a ex-secretária de Educação do Rio de Janeiro, Claudia Costin. “Tinha também o Leandro Machado, que é um achado, esse moleque”, continuou, referindo-se ao sociólogo de 40 anos. “Parte de um gabinete estava ali, sem dúvida. E eu não vou deixar esse time se desfazer.”

O apresentador colocou as duas pernas sobre a poltrona e depois as cruzou, numa posição algo juvenil. Comentou que havia conversado com políticos de todos os matizes – do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao deputado estadual Marcelo Freixo, passando, também, pelo comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas. “Quis discutir a formação da polícia com ele”, disse. “O Exército brasileiro não é corrupto, ele poderia formar a polícia.” Não chegara, no entanto, a formular um plano de governo. “O que eu tinha era uma visão de país”, explicou, perorando como político. “O Brasil tem dois problemas graves. O primeiro é um Estado ineficiente, pouco produtivo, que precisa ser reformado. Não defendo um Estado mínimo, mas um Estado necessário.” O segundo problema, disse, é “o enorme abismo social”. “E isso eu estou vendo de perto, não precisou ninguém me contar”, prosseguiu. “Faz dezoito anos que visito três estados por semana por causa do meu programa.”

Huck interrompeu a conversa para atender ao telefone celular. Era Angélica, sua mulher, que, assim como ele, apresenta um programa na Globo, nas tardes de sábado. “Oi, Vida”, respondeu, com o apelido que costuma chamá-la. “Não, hoje durmo em Salvador, por causa de uma gravação, mas volto amanhã para o jantar.” Perguntei como ela havia reagido à decisão dele de não se candidatar. “A Angélica sabia desde o começo que aquilo não era o melhor para a família”, respondeu. “Ela sempre foi muito parceira nessa história, mas claro, ficou aliviada.” Perguntei também se ele, Luciano, havia chorado. “Não, quando estou triste eu fico em silêncio.”

O apresentador sugeriu que o desfecho poderia ter sido outro, não houvesse a Globo exigido dele um posicionamento definitivo logo depois do Carnaval. “Eu falava que tinha três séculos para tomar a decisão: o século de janeiro, o século de fevereiro e o século de março”, explicou. “A pressão da Globo me tirou um século e meio. Não fui porque apressaram meu tempo, mas entendo e defendo a posição deles.” Enquanto falava, sua filha Eva apareceu no jardim, acompanhada de uma babá, que acabara de buscá-la na escola. “Pensei nisso também”, disse Huck, abraçando a menina. “Eu sairia de casa quando ela tem 5 anos, e voltaria quando estivesse com 15.”

A conversa se estendeu por uma hora, até quatro da tarde, quando Huck foi informado que uma equipe da Unicef o aguardava em uma sala. Antes de me despedir, perguntei como as pessoas, na rua, haviam reagido à sua quase candidatura. “Agora, além do ‘Ajuda, Luciano!’, elas gritam ‘Presidente!’”, contou. “Eu digo: ‘Não dessa vez.’”

 

Luciano Grostein Huck é um sapatênis de 46 anos que está sempre de jeans e blusa apertada, com a parte da frente para dentro da calça. Ele é baixo e ostenta um latifúndio nasal que contrasta com a miudeza dos lábios. Tem uma queda por termos em inglês (mindset, plug and play) e por oxítonas fora do lugar (obriga-dôoo, Rober-tôoo). Já foi colunista social, dono de boate, amigo de Aécio Neves, sócio de Alexandre Accioly e namorado de Ivete Sangalo. Hoje é dono de um fundo de investimentos – o Joá –, presidente de uma ong – a Criar – e apresentador do Caldeirão do Huck, programa de maior sucesso da Globo nas tardes de sábado (costuma fazer 14 pontos na Grande São Paulo, o que corresponde a quase 1 milhão de domicílios – mais do que a soma de sbt, Record e Bandeirantes no mesmo horário).

Huck é casado há treze anos com a apresentadora Angélica, com quem teve Joaquim, de 13 anos, Benício, de 10, e a caçula Eva. Os cinco moram numa casa moderna, no alto do morro do Joá, com vista para a Pedra da Gávea. O terreno, de 17 mil metros quadrados, abriga heliporto, horta, mata virgem, piscina de raia e quadra de tênis – que pode ser acessada pelo carrinho de golfe, estacionado na entrada. As paredes de vidro, os pavões no jardim e os doze funcionários – a maior parte vestida de branco, da camiseta às sandálias – dão à casa um ar de resort.

A sala de estar, repleta de quadros, lembra uma galeria de arte. Há peças de Vik Muniz e Sebastião Salgado, além de retratos de personalidades internacionais (o presidente Barack Obama, a princesa Diana, a atriz Marilyn Monroe, o pintor Pablo Picasso). Há também fotos do próprio Huck, em porta-retratos, sobre uma bancada. Em uma, ele está com o capacete azul da onu, durante visita às tropas brasileiras no Haiti. Em outra, aparece ao lado de Fernando Henrique Cardoso, amigo de sua mãe, Marta Dora Grostein – que, assim como o ex-presidente, foi professora da Universidade de São Paulo.

Não é de hoje que Huck flerta com a ideia de ser presidente. Em 2011, foi inquirido sobre o assunto por um repórter da revista Alfa. “Agora não”, respondeu. “Daqui a dez anos, talvez eu tenha mudado a resposta.” Começou a mudar de dois anos para cá, em sintonia com o desgaste da classe política. “O dia 1, sendo justo, vem com o Paulo Guedes”, contou Huck, referindo-se ao fundador do Banco Pactual e atual conselheiro econômico do candidato Jair Bolsonaro. “A Marcela, pesquisadora do Caldeirão, estava fazendo um curso dele na Casa do Saber. Um dia ela me perguntou se eu o conhecia.” Huck sabia quem era, de nome. “É que o Paulo falou no curso que você vai ser o próximo presidente do Brasil”, Marcela disse. O apresentador reagiu com surpresa: “Achei louco, curioso.”

Ainda naquele primeiro semestre de 2016, com o processo de impeachment de Dilma Rousseff em curso, Guedes procurou o empresário Gilberto Sayão – sócio de Huck no Joá Investimentos –, insistindo que o apresentador precisava saber que “o destino bateria em sua porta”. Agendou-se um encontro, na casa de Huck, onde Guedes apresentou uma pesquisa feita por sua filha, a também economista Paula Guedes, que projetava um crescimento vertiginoso do desemprego para aquele ano. Guedes, o pai, acreditava que tal quadro de descrença abriria espaço para a eleição de uma pessoa dissociada da política convencional. Essa pessoa teria de preencher quatro requisitos: sucesso empresarial, capacidade de liderança, generosidade e presença nas redes sociais. O nome de Huck caía como uma luva.

Cético, Huck elencou três motivos, além da família, que inviabilizariam sua candidatura: seu amigo Aécio Neves era pré-candidatíssimo (ainda estava longe do longo desgaste que começou com a exposição de sua amizade com Eduardo Cunha e culminou com as gravações de Joesley Batista); Fernando Henrique Cardoso, de quem era próximo, certamente apoiaria o candidato tucano; a Globo não permitia nenhum tipo de filiação partidária.

Guedes lançou então uma cartada final, que havia guardado caso não conseguisse convencê-lo. Argumentou que Huck e a família não haviam sobrevivido a um acidente de avião por acaso.

 

Em maio de 2015, Luciano Huck fretou um bimotor, de uma companhia de táxi-aéreo, para viajar com Angélica, os três filhos e duas babás pela região do Pantanal. O avião saiu do município de Miranda, e foi obrigado a fazer um pouso forçado numa fazenda quando se aproximava de Campo Grande (o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos mostraria que a aeronave decolara com pouco combustível, dentre uma série de outras irregularidades). Um ano e meio depois, Angélica descreveu o momento do impacto durante uma entrevista ao apresentador Jô Soares: “É um silêncio coletivo de uma paz pré-morte, que graças a Deus foi só isso, porque a gente está aqui, mas teve um silêncio que é muito louco, que acho que deve ser um silêncio que as pessoas sentem quando vão embora.”

Huck também lembrou a cena, durante nossa conversa na casa dele: “Você vê sua mulher e seus filhos indo para a morte. Quando sobrevive, começa a se perguntar por que acabou ficando.” Disse que o primeiro ano foi dedicado a entender como o trauma afetaria as crianças. “Depois que vê que elas estão bem, vêm as reflexões pessoais. A Angélica se encontrou na meditação. No meu caso, isso coincidiu com uma mudança que eu já tinha começado a fazer no Caldeirão.”

Huck entrou na televisão aos 23 anos, quando já era dono de uma boate e colunista social de um jornal, ambos em São Paulo. “O Luciano tinha um espaço no Jornal da Tarde”, disse o apresentador Otávio Mesquita, em entrevista dada no ano passado à rádio Jovem Pan. “Liguei pra ele e perguntei: ‘Você quer gravar um quadro comigo?’ Naquela época ele já tinha todo esse network que tem hoje.” Huck passou a mostrar quem é quem da noite paulistana no programa de Mesquita na TV Bandeirantes. Sete meses depois, ganhou um programa para chamar de seu, na cnt Gazeta, que batizou de Circulando. “Luciano Huck juntou uma tribo muito in para você não ficar out sobre moda, artes, comportamento, etecetera e tal”, dizia a propaganda.

Em 1996, quando tinha 25 anos, Huck subiu um degrau: trocou a Gazeta pela Bandeirantes, onde passou a apresentar o H, programa diário, de fim de tarde, voltado ao público jovem. A estreia contou com participação dos Titãs, da judoca Edinanci Silva e da atriz Paula Burlamaqui, descrita por ele como “aquela loucura, aquela lourinha de literalmente largar a família”. O sucesso instantâneo foi ampliado com a entrada das personagens Tiazinha – a modelo Suzana Alves, que usava lingerie enquanto depilava adolescentes – e Feiticeira – que, a exemplo do gênio da lâmpada (só que seminua), entrava em cena para realizar três desejos. Em 1998, já no horário nobre das 21 horas, o H chegou a marcar oito pontos de audiência (uma enormidade para a Bandeirantes de então). No ano seguinte, Huck foi contratado pela Globo para apresentar o Caldeirão.

Nos primeiros anos de vida, o Caldeirão do Huck manteve a estética bunda-música-game que Huck trouxera da Bandeirantes. “O programa reflete quem eu sou”, ele me disse. “E naquela época eu era um moleque de 28 anos, solteiro, que tinha acabado de se mudar para o Rio.” A partir de 2006, com a estreia do quadro “Lar doce lar” – em que Huck reforma a casa de uma família de baixa renda –, o assistencialismo começou a tomar a linha de frente. O período coincidiu com a criação de sua ong, com seu casamento, e com o nascimento do primeiro filho.

Em 2013, Luciano Huck mudou a equipe do programa. “Foi quando percebi que o meu maior ativo era eu mesmo”, explicou. “Que eu não sou funcionário da Globo, e sim que a Globo faz parte do que eu sou.” Quadros antigos, como o “Essa é pra casar”, deram lugar a outros de inspiração politicamente correta. Vieram o “Jovens inventores” (que premia soluções para problemas de uma comunidade) e o “Um por todos, todos por um” (que promove melhorias em projetos sociais, ao estilo “Lar doce lar”). Foi nessa época que surgiu o bordão “Ajuda, Luciano!” – dito por milhares de pessoas que passaram a lhe fazer pedidos via Twitter e Facebook.

“Comecei a pensar que os temas tinham que ser tratados de forma mais densa, para deixar algum tipo de legado”, explicou. “Se é para reformar a casa de um senhor que trabalha com agricultura familiar, quero mostrar o que é a agricultura familiar, quantas pessoas vivem disso no Brasil, e de que forma isso pode mudar a vida de quem está assistindo ao programa em casa.” Ele diz que “assistencialismo” é um termo pejorativo, que não combina com o que faz. “Faço uma tevê popular, onde as pessoas se sentem representadas. O protagonista do meu programa é gente comum, e não celebridade.”

 

Foi em abril de 2017 – mês em que o Supremo Tribunal Federal autorizou a investigação de quase 100 políticos citados na delação da Odebrecht – que o destino, qual previsto pelo economista Paulo Guedes, bateu à porta de Huck. Veio na forma de uma pesquisa Datafolha em que o apresentador aparecia com 3% de intenção de votos. A inclusão do seu nome entre os presidenciáveis decorrera de uma entrevista dada por ele, um mês antes, à jornalista Eliane Trindade, da Folha. Nela, Huck reclamava de um cenário político sem lideranças, que só viria a melhorar se ocupado por pessoas de sua geração. “O Brasil precisa de renovação e tem uma classe política completamente desmoralizada, sem nenhum apelo popular, atração, charme”, dizia. “Se vou ser eu, não faço a menor ideia. Quero poder ajudar a identificar lideranças.”

Em maio, Huck publicou o primeiro artigo de sua trilogia, também na Folha, afirmando que não concorreria à Presidência da República. “Reafirmo: não sou candidato a nada. Mas também não vou deixar de me envolver e de me dedicar à transformação do país”, dizia. Dias depois, Huck foi procurado pela socióloga Ilona Szabó, que queria lhe falar do Agora! – o movimento apartidário, de renovação política, formado por pessoas com pensamento liberal (e, se possível, com mestrado no exterior).

Szabó é uma mulher magra, de 39 anos, que dirige o Instituto Igarapé, especializado em políticas de segurança pública. Ela conheceu o apresentador por volta de 2010, quando integrou a equipe do documentário Quebrando o Tabu, que discutia o fracasso da política de criminalização das drogas. O filme era dirigido pelo irmão de Huck, o cineasta Fernando Grostein.

“O Agora! surgiu em junho de 2016, em Medellín, de uma conversa entre eu, a gestora pública Patrícia Ellen e o sociólogo Leandro Machado”, contou-me Szabó, durante uma tarde na sede do Igarapé, no Rio de Janeiro. “Estávamos num encontro do Jovens Líderes Globais [uma rede de lideranças do qual fazem parte]. Os integrantes de outros países da América Latina eram deputados, senadores, ministros. Mas no Brasil, o grupo até hoje só tem um político.” Ela diz ter ficado com vergonha. “Por que as pessoas que a gente admira não estão lá?”

Em maio de 2017, o Agora! havia crescido para cinquenta pessoas. “Nós éramos tecnocratas”, explicou Szabó. “Queríamos atingir mais gente. E foi nessa época que o Luciano publicou um artigo na Folha falando de renovação política.” Ela foi duas vezes à casa do apresentador, a primeira sozinha, e a segunda já na companhia de Leandro Machado e do economista Humberto Laudares. Disse não ter tocado no assunto da candidatura Huck. “Acho que o Luciano já pensava nisso, para ser honesta, mas não falamos sobre o tema.”

Em julho, o Agora! encomendou uma pesquisa ao instituto Ideia Big Data, para aferir a reação da população à candidatura de um outsider. Os entrevistados eram apresentados a frases específicas, com as quais deveriam concordar ou não. Uma delas – “Meu voto é na pessoa e não me importo com o partido político” – teve 77% de aceitação. Outra – “Nas próximas eleições, somente quem nunca foi candidato pode trazer a renovação necessária na política” – foi acatada por 52% dos entrevistados.

O Ideia Big Data não era exatamente distante em relação à candidatura. Seu fundador, o economista Maurício Moura, foi um importante conselheiro de Huck. Era ele o responsável pela elaboração e análise das pesquisas de opinião para o potencial candidato. Além disso, embora não tenham sido formalmente sócios, Huck e Moura foram parceiros num negócio: a Escuter Análise de Mercado (da qual o Joá, de Huck, tinha 35% das ações) funcionou durante alguns meses de 2017 no mesmo endereço do Ideia Big Data, de Moura, e acabou sendo comprada por ele em dezembro.

Na mesma época em que encomendou a pesquisa, Ilona Szabó começou a buscar partidos que se dispusessem a lançar candidatos do Agora! para o Legislativo. Encontrou-se com dirigentes do Novo e da Rede, comandada por Marina Silva. “Essa aproximação não tinha a ver com o Luciano”, ela fez questão de frisar. Seja como for, logo começou a surgir um movimento em torno de uma chapa Huck-Marina – ideia apoiada por FHC, que a essa altura já havia assumido o posto de guru político e existencial do apresentador (em maio de 2017, o ex-presidente havia dito em entrevista à Folha que Huck representava “o novo” na política brasileira).

“As conversas com a Marina foram muito de aproximação, checagem dos pontos de encontro. Nunca foram explícitas”, disse Szabó. Já Huck me contou que o assunto da chapa chegou a ser abordado com a ex-senadora – que, muito a seu estilo, nunca respondeu de maneira precisa. “Num primeiro momento pensei nela como vice, sim. Mas depois entendi que tinha que ser alguém que entendesse a máquina partidária.”

Szabó encontrou-se então com o deputado federal Roberto Freire, presidente do Partido Popular Socialista, também com o objetivo de que a sigla acolhesse candidatos do Agora!. “Para o PPS era interessante, porque o partido é pequeno, e suas lideranças têm poucos mandatos pela frente.” A parceria – principalmente se contasse com Huck – aumentaria a chance de o partido sobreviver à cláusula de barreira, que vai cortar, a partir deste ano, o dinheiro do fundo partidário e o tempo de tevê das legendas que não atingirem um patamar mínimo de votos.

Em outubro, o Agora! acolheu quarenta novos integrantes – dentre os quais o apresentador. No mesmo mês, Huck apareceu com 5% de intenção de votos numa pesquisa do Ibope. Empatava em quarto lugar, com os tucanos Geraldo Alckmin e João Doria.

 

“O Luciano chegou a mim por várias frentes”, disse o economista Armínio Fraga, durante uma conversa na sede da sua empresa, a Gávea Investimentos, no Rio de Janeiro. “Sabia da participação dele no Agora!. Sabia também que ele sempre esteve acompanhado de bons parceiros nos negócios, como o Gilberto Sayão.” Houve também o fator FHC, de quem Armínio havia sido presidente do Banco Central, de 1999 a 2002. “Eram bons canais, que me deixavam muito seguro.”

Logo depois de se filiar ao Agora!, Huck convidou Armínio para capitanear o seu programa econômico. “Era uma certa loucura, mas ele também sabia disso”, lembrou o economista. “Falei que eu estaria junto, mas que não poderia me dedicar tanto quanto havia feito com o Aécio, quando passava seis horas por dia nisso [em 2014, ele foi o economista-chefe da campanha do tucano à Presidência]”. Por sugestão de Armínio, Huck procurou os economistas Marcos Lisboa – presidente do Insper – e Ricardo Paes de Barros – um dos maiores especialistas em estudos de desigualdade.

“Ele tinha um programa de governo? Claro que não, mas uma visão ele tinha”, disse Armínio. “O programa de tevê pode ser assistencialista, mas o pensamento público não é. As pessoas o subestimam.” O economista chegou a discutir com Huck as reformas que lhe parecem necessárias. “São três: tributária, da previdência e a menina dos meus olhos, que é mudar as leis para o Estado ficar mais eficiente.” Alertou-o, também, que a gestão seria de ajuste, e não de abundância – isso, claro, se o apresentador fosse eleito. “O desafio maior era ganhar sem ter uma base partidária. O PSDB seria o berço natural dele, mas o partido estava meio confuso, metido em rolo, se posicionando mal.”

Em novembro, Huck recebeu uma nova pesquisa, feita pelo Ideia Big Data com 3 mil entrevistados. Na maior parte dos cenários ele aparecia em quarto lugar, atrás de Lula, Bolsonaro e Marina Silva. Num cenário sem Lula – que poderia tornar-se inelegível, a depender da decisão do seu julgamento em segunda instância no caso do tríplex no Guarujá –, Huck pulava para terceiro, com 13,7% dos votos.

A pesquisa também fazia algumas perguntas de ordem subjetiva. “O candidato que vai acabar com a pouca vergonha?” Huck ficava em terceiro lugar, atrás de Bolsonaro e Lula. “O maior defensor dos pobres?” Segundo, atrás de Lula. “O candidato dos empresários e ricos?” Quinto lugar, atrás de Doria, Alckmin, Bolsonaro e Lula. “Maior representante do futuro?” Primeiro lugar.

Dias depois, Huck encontrou-se com o deputado federal Roberto Freire, o então ministro da Defesa, Raul Jungmann (que é filiado ao PPS) e a socióloga Ilona Szabó na casa de Armínio Fraga, no Leblon. Discutiram se a candidatura não seria um erro estratégico, por pulverizar ainda mais os votos do centro. Aventaram, também, quais partidos poderiam se juntar ao PPS numa eventual coligação. Roberto Freire prometeu atrasar a convenção do partido até março, para que Huck dispusesse de mais tempo para decidir se iria concorrer. O problema é que a Globo exigira uma resposta até dezembro.

 

O vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo Globo, João Roberto Marinho, é um homem de gestos contidos e fala pausada. Em setembro, quando o zum-zum-zum a respeito da candidatura Huck começou a crescer, ele achou por bem chamar o apresentador para uma conversa, a primeira de várias que tiveram nos últimos meses. “Queríamos saber se a movimentação era concreta, e se aquilo era de fato um desejo dele”, contou à repórter Elvira Lobato, na sede da emissora, no bairro carioca do Jardim Botânico. “Ele deu todas as indicações de que considerava sair candidato. Falava que queria colaborar com o país que deu tanto a ele.”

João Roberto disse que a Globo não vetou a pretensão de Huck, mas que foi explícito ao expor as consequências que a candidatura poderia trazer: “A intenção era louvável, mas ele deveria ponderar bem os riscos, porque tem uma carreira organizada e um ótimo contrato.” Argumentou que o funcionário teria muito a perder, ao contrário das várias pessoas que o estimulariam a seguir adiante. Explicou, também, que Huck não poderia voltar ao ar em caso de derrota, por risco de repetir o movimento dali a quatro anos. Sua escolha seria um caminho sem volta.

Huck tinha uma preocupação adicional: seu contrato com a Globo estabelece o pagamento de multa no caso de rompimento unilateral por uma das partes. João Roberto disse que a empresa dispensaria o pagamento caso a decisão fosse tomada dentro do prazo. “Não faríamos nada contra ele.” Acertou-se que a resposta viria até meados de dezembro. “Nosso calendário não é o da política, que tem abril como prazo para a filiação partidária”, explicou. “Não seria adequado a Globo começar um ano eleitoral com um pré-candidato na grade de programação.”

Antes disso, no entanto, a bola de neve em torno da candidatura virou uma avalanche. No dia 18 de novembro, a jornalista Eliane Cantanhêde publicou uma coluna, no site do Estado de S. Paulo, afirmando que Huck se filiaria ao PPS até meados de dezembro (a filiação acarretaria em quebra automática do contrato com a Globo). Cinco dias depois, o mesmo Estadão publicou o resultado de uma pesquisa, feita em parceria com o instituto Ipsos, em que 1 200 pessoas respondiam a uma única questão: se aprovavam a maneira como certas figuras vinham atuando pelo país. A lista, de 23 nomes, incluía desde o ex-presidente Lula ao procurador Deltan Dallagnol. Huck aparecia em primeiro lugar, com 60% de aprovação.

“Eu estava inclinado a não ir, porque achava arriscado ter que tomar a decisão tão cedo”, disse-me Huck. “E aí o Estadão publica a pesquisa sobre o meu crescimento, e faz com que todos os holofotes se voltem para mim. A Eliane Cantanhêde e outros articulistas começam a me considerar uma hipótese concreta.” No mesmo dia, Lula publicou uma provocação, em seu perfil no Twitter: “Tudo o que quero na vida é disputar com alguém com o logotipo da Globo na testa. Quero ver o que eles querem pro Brasil.” Huck decidiu antecipar sua decisão: “Achei que estava perdendo o controle da situação cedo demais.”

No dia 27 de novembro, Huck publicou o segundo artigo na Folha de S. Paulo, esse com contornos épicos. “Como Ulisses em A Odisseia, nos últimos meses estive amarrado ao mastro, tentando escapar da sedução das sereias, cantando a pulmões plenos e por todos os lados, inclusive dentro de mim”, escreveu, a respeito da pressão que sofrera para se candidatar. Afirmava que era “fundamental o movimento de sair da proteção e do conforto das selfies no Instagram” para trabalhar pela renovação política brasileira. “Mas daí a postular a candidatura a presidente da República há uma distância maior que os oceanos da jornada de Ulisses.”

Apesar da negativa, Huck a fazia com cacoetes de candidato. “Ando há anos e anos por lugares ricos, paupérrimos, super ou subdesenvolvidos, em guerra, centros moderníssimos de saber, cantos absolutamente esquecidos pelo desenvolvimento”, escreveu, dizendo sentir “na pele o pulso das ruas”. João Roberto Marinho achou por bem chamá-lo para uma nova reunião, por considerar que o texto “deixava umas frestas abertas”. Huck repetiu que não seria candidato. Semanas depois, levou a família a Jerusalém, para conhecer o Muro das Lamentações.

 

Em outubro passado, em meio às conversas com Fernando Henrique, Armínio Fraga e Roberto Freire, Luciano Huck encontrou tempo para organizar uma festa em sua casa. Os homenageados eram a modelo brasileira Michelle Alves e o produtor musical israelense Guy Oseary, que haviam chegado ao Rio para se casar na capela do Cristo Redentor. O escrete de convidados incluía os cantores Bono Vox e Madonna, os atores Ashton Kutcher, Owen Wilson e Demi Moore, além do rapper Puff Daddy e do comediante Chris Rock. A imprensa especializada atentou para o vestido de Angélica e para os celulares confiscados na entrada da casa, mas não para a ligação do anfitrião com o noivo e um convidado: Huck, Oseary e Kutcher são sócios na holding americana A-Grade Investments, que tem participação em gigantes como Airbnb, Uber e Spotify.

Além de ser apresentador de tevê, Luciano Huck é um homem de negócios. Hoje, ele tem cotas em nove empresas por meio de seu fundo de investimentos, o Joá. Como as empresas têm capital fechado, não são obrigadas a divulgar balanço nem registrar composição acionária nas juntas comerciais. O último – e único – balanço divulgado pelo Joá foi o de 2013, em que registrou um lucro de 8,58 milhões de reais. Huck não revela o patrimônio pessoal, mas diz ser “com certeza um dos maiores pagadores de imposto do país”.

Para quem vive numa grande capital, não chega a ser difícil contribuir com o enriquecimento patrimonial de Huck. Uma forma de fazê-lo é pedalando nas bicicletas da Tembici (aquelas que costumam ter patrocínio do banco Itaú). A empresa explora o serviço no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e em outras doze cidades. O Joá é o principal acionista, com 36% do negócio.

Outra forma de alimentar o capital de Huck é comendo. Seu investimento mais recente foi na rede de restaurantes Madero, que inaugurou sessenta casas entre 2014 e 2017 e serve 1 milhão de hambúrgueres por mês. Huck foi com Angélica à abertura da unidade do shopping VillageMall, na Barra da Tijuca, em setembro do ano passado, onde encontrou o sócio majoritário, o paranaense Junior Durski, e uma comitiva de prefeitos do Paraná.

Também engorda o caixa de Luciano Huck quem vai ao cinema para ver algum filme distribuído pela Downtown, ou quem compra uma peça de roupa nas lojas da Reserva. Além disso, Huck está associado a uma rede de hospitais veterinários de São Paulo, a Pet Care, a uma empresa de snacks naturais, a Pic-Me, e ao Grupo Cataratas, proprietário do AquaRio, o aquário inaugurado na zona portuária do Rio de Janeiro (o grupo ainda tem concessão pública para explorar o atendimento a turistas nas Cataratas do Iguaçu, no zoológico do Rio, na rota para o Cristo Redentor e na ilha de Fernando de Noronha).

Das sociedades atuais, a mais longeva é com o empresário Rony Meisler, dono das lojas Reserva, que faturaram 340 milhões de reais no ano passado (Huck tem 10% de participação). A mais pomposa, por assim dizer, é com o dono da Ambev, Jorge Paulo Lemann, homem mais rico do Brasil, com patrimônio estimado em cerca de 90 bilhões de reais, segundo o ranking de 2018 da Revista Forbes. Os dois são sócios na Cultura Inglesa no Rio de Janeiro.

 

Luciano Huck começou a trabalhar ainda adolescente, como assistente do fotógrafo J. R. Duran, que costumava retratar mulheres para a revista Playboy – que, por sua vez, era dirigida pelo padrasto de Huck, o jornalista Mario de Andrade, já falecido. “Naquela idade os garotos estavam pensando em ir para a Disney, em esquiar”, explicou-me o empresário Eduardo Grinberg, de 45 anos, meio-irmão do apresentador (a mãe de Grinberg é casada com Hermes Marcelo Huck, pai do apresentador). “E o Luciano já estava trabalhando com o Duran, ou conversando com o Juca Kfouri e o Jô Soares, nas reuniões de pauta que o Mario fazia em casa.” Da experiência na Playboy, Huck seguiu para o Jornal da Tarde – e de lá para a televisão.

Mas o talento de Huck para os negócios veio à tona aos 22 anos, quando recebeu um empréstimo do pai para montar o Bar Cabral, reduto noturno da jovem elite paulistana. Além da sede, no Itaim Bibi, a boate chegou a ter filiais temporárias no Guarujá e em Campos do Jordão. “Eu ficava mais focado na administração”, lembrou Grinberg, que foi sócio de Huck na empreitada. “Já o Luciano estava sempre pensando em alguma coisa nova, quis até colocar cachoeira na do Guarujá.”

Grinberg rememorou uma cena algo corriqueira, ocorrida em sua infância, para ilustrar a ambição (e o talento para se relacionar) do meio-irmão. “Na Hebraica, depois da natação, eu chupava um picolé, como todos os garotos. Mas o Luciano pedia uma banana split. A gente vinha do mesmo lugar, devia ganhar a mesma mesada, mas ele dava um jeito de conseguir. Não sei se pedia dinheiro para o padrasto, para a avó, se levava uma conversa com o pessoal da lanchonete. Sei que ele dava um jeito de driblar.”

O sucesso de Huck se deve, em boa medida, à rede de relacionamentos que cultivou. Ele já foi sócio dos irmãos Pedro Paulo e João Paulo Diniz, com os quais construiu uma pousada de luxo em Fernando de Noronha; do empresário Gilberto Farah, com quem ergueu edifícios de lofts, em São Paulo; de Luiz Calainho – ex-vice-presidente da Sony Music e ex-noivo de Angélica –, com quem montou uma rádio no Rio, a Paradiso fm. Foi parceiro também de Alexandre Accioly – empresário investigado pela Lava Jato – na rede de academias Bodytech (a sociedade foi desfeita no ano passado).

No último ano, Huck se desfez, também, de duas participações na área de entretenimento, para evitar maiores conflitos com a Globo. A primeira foi do humorístico Porta dos Fundos – vendido à americana Viacom, num acordo que rendeu cerca de 8 milhões de reais a cada sócio. A segunda foi da holding Network – que Huck havia fundado em 2013, com o irmão Fernando Grostein, para investir em canais no YouTube. Um desses canais, o Acelerados – feito em sociedade com Rubens Barrichello – é exibido pelo sbt.

No início da carreira, cada passo dado por Huck era assunto para revistas e colunas de fofocas – pavimentando assim o caminho que o transformou, por um tempo, em arroz de festa do mercado publicitário. Huck foi garoto-propaganda da Ricardo Eletro, Sadia, Faculdade Anhanguera, Universidade Estácio de Sá, Nissan, Vivo, Tim, das vitaminas Centrum, dos refrigerantes Schin e do banco Itaú – isso sem contar os merchandisings, que custam cerca de 700 mil reais por programa (o dinheiro é repartido entre ele e a Globo).

Hoje ele se tornou um investidor low profile, que prefere associar sua imagem ao empreendedorismo social. Seu instituto, o Criar, já formou 2 mil alunos – todos de origem pobre – para trabalhar com tevê, cinema e mídias digitais. Já o grupo AfroReggae – ong que trabalha com inserção social em áreas dominadas pelo tráfico – deu o nome de Espaço Cultural Luciano Huck a uma nova unidade, inaugurada em 2016 no complexo de favelas do Caju, no Rio de Janeiro. (A unidade fechou um ano depois por falta de patrocínio).

O coordenador do grupo, José Junior, é conhecido por dialogar bem com policial, bandido, político, artista e, claro, com Luciano Huck. Levou-o para conhecer as favelas da cidade e os presídios de segurança máxima do Complexo de Bangu. Já Huck apoiou o AfroReggae na criação de uma agência de empregos para egressos do sistema penal. “Para mim, desde que a gente se conheceu, em 2004, estava claro que um dia ele postularia a Presidência”, disse José Junior. “Não um mandato de senador, mas a Presidência. Direta ou indiretamente, ele deixava claro esse desejo quando falava dos problemas sociais.”

 

O terceiro e último ato da quase candidatura de Luciano Huck teve início em janeiro deste ano, quando ele ainda estava com a família no exterior. A fagulha inicial foi gerada pela própria Globo, que no dia 7 levou ao ar uma entrevista de Huck e Angélica no Domingão do Faustão. Na conversa – toda pré-gravada –, Huck falava sobre mandingas de Ano-Novo e dicas de relacionamento, mas também aproveitava para alardear a importância do voto: “Meu papel com esse microfone na mão e aqui na Globo é que as pessoas saibam que o voto é o melhor e o único jeito de transformar.” Dizia não falar em causa própria – o que não chegava a diminuir a impressão de palanque: “Eu vou participar, vou botar a mão na massa, quero ajudar e acredito muito no Brasil. Contem comigo para tentar melhorar essa bagunça geral aqui.”

“Gravei o Domingão no dia 11 de novembro, para ir ao ar nas férias dele, em janeiro”, explicou-me Huck, quando conversamos em sua casa. “Com a história da candidatura, a Globo tinha decidido cortar o quadro.” A decisão foi revogada quando Huck publicou o segundo artigo na Folha, em 27 de novembro, reafirmando que não seria candidato. “Aí resolveram voltar com a entrevista”, disse. “O Fausto só achou melhor gravar uma passagem adicional, falando do meu artigo na Folha, repetindo que eu não iria me candidatar. Tanto que o plano da câmera muda nesse momento.” De fato, a fala foi gravada e levada ao ar, mas passou despercebida diante da entrevista de quase uma hora. No dia seguinte, o PT acionou a Globo, na Justiça Eleitoral, acusando-a de fazer “de forma subliminar, a exaltação da pré-candidatura de Luciano Huck”.

Ainda em janeiro, no dia 24, Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado em segunda instância – decisão que pode colocá-lo no rol dos políticos “ficha suja”, ameaçando tirá-lo da eleição presidencial. Uma semana depois, nova pesquisa Datafolha mostrava que num cenário sem Lula, Huck chegava a 8% dos votos, empatando em quarto lugar com o tucano Geraldo Alckmin. Fernando Henrique Cardoso colocou mais lenha na fogueira ao dizer, em entrevista à rádio Jovem Pan, que a candidatura de um novato seria boa para o Brasil.

No começo de fevereiro, Huck viajou com Angélica a Paris, para participar do aniversário do jogador Neymar. Ao voltar, encontrou-se novamente com João Roberto Marinho – que, desta vez, estava acompanhado de seu irmão, Roberto Irineu, e do diretor-geral da Rede Globo, Carlos Henrique Schroder. “Cobramos dele: ‘Você disse que não será candidato, mas a fofoca continua. Se ela permanece é porque seus amigos continuam fofocando’”, rememorou João Roberto. Ficou combinado que Huck daria uma posição definitiva depois do Carnaval. Antes, ele queria ter uma última conversa, tête-à-tête, com Fernando Henrique Cardoso.

 

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso trabalha num prédio alto, no Centro de São Paulo, no instituto que leva seu nome e que abriga o acervo de sua passagem pelo Palácio do Planalto. Foi lá que ele recebeu a repórter Elvira Lobato, em fevereiro, para uma conversa de uma hora. Vestia camisa de manga curta e calça social, ambas em tom neutro, que acabavam ressaltando suas meias rosa-choque.

“O Luciano estava com uma dúvida profunda: ‘Vale a pena, ou não? Tenho chance, ou não?’”, lembrou, referindo-se à conversa que teve com Huck antes do Carnaval. Contou que ele e o apresentador haviam se encontrado diversas vezes nos seis meses anteriores – no instituto, no apartamento de FHC em Higienópolis, e na residência da mãe de Huck, que é casada com o economista Andrea Calabi (que presidiu o Banco do Brasil e o bndes no segundo mandato do tucano).

Fernando Henrique disse que em momento algum estimulou o apresentador a sair candidato, por se tratar de uma “escolha existencial”, que só o próprio Huck poderia fazer. Explicou que as conversas entre os dois eram de reflexão sobre as chances de vitória, e de análise dos pontos fortes e fracos. Se concorresse apenas pelo PPS, Huck teria pouco tempo de tevê no horário eleitoral. “Mas ele já teve tempo mais do que suficiente como apresentador da Globo”, contemporizou. Por outro lado, o vínculo com a emissora criava um rótulo problemático, que já começara a ser explorado pelos adversários. Fernando Henrique ressaltou, também, que popularidade na tevê nem sempre se transforma em voto.

O resultado atingido por Huck nas pesquisas de intenção de voto entusiasmava muita gente, mas o ex-presidente disse que considerava o patamar baixo para impulsionar a candidatura de alguém externo à política tradicional. Um outsider, segundo o tucano, teria de ter ao menos 20% àquela altura do campeonato: “É difícil furar a crosta existente na política. As estruturas partidárias têm peso grande na eleição presidencial.” FHC acrescentou que o partido de um presidente eleito dificilmente consegue fazer mais de um quinto da bancada no Congresso. “O grande desafio do presidente no Brasil não é se eleger, é governar.”

Fernando Henrique disse ter atentado, também, para a artilharia a que Huck estaria exposto se decidisse se candidatar. A guerra política é disputada em outro nível, infinitamente mais cruel do que aquele ao qual o apresentador está acostumado, dos haters que o atacam na internet. Lembrou que Huck tivera um aperitivo do que estaria por vir quando a imprensa noticiou, no início de fevereiro, que ele havia comprado um jato da Embraer com financiamento de 17,7 milhões de reais pelo bndes, a juros de 3% ao ano. “E ele só tinha usado a linha de crédito oficial disponibilizada pelo banco. Imagine o que os adversários fariam durante a campanha?” Para ilustrar o tema, contou que ele, Fernando Henrique, sofrera por vários anos com um boato de que teria um apartamento em Paris. “Nunca tive, mas toda vez que digitava meu nome na internet, lá vinha a notícia do apartamento.”

O ex-presidente disse acreditar que a pretensão eleitoral de Huck não está enterrada. “Ele pode fazer uma tentativa dentro de quatro anos, quando estiver mais estruturado”, comentou. “Foi mordido pela mosca, e tem vocação pública.” Reafirmou que a entrada de um neófito seria boa para a política, mas voltou a repetir que seu compromisso é com o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin.

 

Luciano Huck passou o Carnaval com a família a bordo do seu iate de quatro andares, que fica ancorado em Angra dos Reis. Angélica me disse que o período – assim como os meses anteriores – foi marcado por uma certa “bipolaridade”: “O Luciano dormia presidente e acordava não presidente. No dia seguinte ia dormir não presidente e acordava presidente. Às vezes saía de casa como apresentador, e voltava cheio de pedidos, presidente. Foi a primeira vez que sentiu uma pressão tão grande.” Contou que a possibilidade de ser primeira-dama a deixou um pouco assustada: “Nossa realidade é a tevê. Teríamos que mudar o contrato de quem somos para virar outro tipo de gente. Me dava um bode, mas então vinha outra Angélica falando na minha cabeça: ‘Você não pode ser egoísta, não tem o direito de negar isso para o país.’” Forçou-se a imaginar como seria uma vida em Brasília – “Tive que fazer, até porque precisaria procurar escola para as crianças” –, mas combinou que a decisão caberia apenas ao apresentador. “Não queria carregar esse peso.”

Huck atravessou a maior parte daqueles dias em silêncio. “Essa escolha tinha que ser solitária”, disse. “E, se eu a fizesse, seria a primeira de várias.” Falou que a hipótese de concorrer por um partido pequeno, com pouca exposição no horário eleitoral, não o assustava. “Na tevê, o cara passa 80% do tempo se apresentando e 20% dizendo o que vai fazer. Dos 80% eu não preciso.” Tampouco o assustava a possibilidade de não conseguir governar: “O sistema está errado, mas tem boas cabeças por lá.” Contou ter feito todo tipo de cálculo para saber se poderia manter o padrão de vida sem o salário da Globo, na eventualidade de uma derrota. “Poderia me bancar. Se desse errado, iria trabalhar em outro lugar.”

“Teve noite maldormida, WhatsApp às cinco da manhã, essas coisas”, me disse Armínio Fraga, rememorando aquela semana. “Na segunda-feira não nos falamos. Já na terça conversamos o dia inteiro.” Mostrou-me um diálogo rápido, no celular, em que ele perguntava se Huck tinha novidades. “Cabeça fritando”, respondia o apresentador.

Na Quarta-Feira de Cinzas, Huck decidiu, pela terceira vez, que não concorreria. Informou a Angélica, que contou ter respondido de forma monossilábica. “Só falei assim: ‘Tá.’ Achava que ainda ia mudar de ideia.” Na quinta, de volta ao Rio, o apresentador reuniu-se com os Marinho. “O jogo com eles sempre foi totalmente aberto, e nunca belicoso”, disse Huck. Saindo de lá, escreveu a Armínio Fraga: “Não sei se choro ou se comemoro.” A notícia logo começou a pipocar nos jornais.

Dias depois, Luciano Huck publicou o terceiro e último artigo na Folha de S.Paulo. “Desta vez não vou evocar Ulisses para ilustrar minhas reflexões”, dizia, explicando que as negativas anteriores não haviam diminuído o apelo de “gente de todos os lugares, idades e crenças” para que ele se candidatasse. “A recorrência desta hipótese em torno do meu nome fez ressurgir uma espiral positiva de tamanha força que foi humanamente impossível não me deixar tocar.” Ao fim, negava a candidatura uma vez mais.

Angélica me disse que “houve um certo luto” no dia seguinte à decisão. “Ficou um silêncio na casa. Mas logo depois ele já voltou a se animar, falando que ia trabalhar pelo Renovabr e pelo Agora!.” Contou que o fiel da balança, na escolha, foi a família. “A gente gosta muito da vida que tem. No sábado ele joga tênis com o filho. No domingo descansa em casa. E não é que ele ia abrir mão disso para ter outra coisa parecida. Ele ia abrir mão para tomar porrada de todos os lados.” Não descartou que Huck venha a tentar novamente em quatro anos. “As crianças vão estar maiores, ele mais forte. Mas espero que não seja preciso.”

“Que ele perdeu uma oportunidade importante, perdeu”, disse Armínio Fraga. “Falava-se numa onda de adesão se ele se candidatasse, mas ninguém tinha muita certeza.” Explicou que a escolha do apresentador não é entre ir ou não para a política: “É entre ir agora ou mais adiante.”

Com o desfecho, Armínio Fraga voltou ao dia a dia do seu fundo de investimentos no Leblon. O Agora! voltou ao seu projeto inicial, de só lançar candidatos ao Legislativo (serão ao menos quinze). E o PPS voltou-se ao plano B, que Roberto Freire cozinhara, nos últimos meses, para que o partido sobreviva à cláusula de barreira na próxima eleição.

Em março, estive no gabinete de Freire, em Brasília, que é decorado com seus diplomas de deputado (são sete), e com quatro caricaturas, feitas pelo cartunista Paulo Caruso, durante uma participação sua no programa Roda Viva (um dos desenhos mostra o parlamentar proferindo um trocadilho sociológico com o nome do filósofo italiano Norberto Bobbio: “Sou filho do Iluminismo, mas não sou Bobbio, não.”)

Freire dissertou ao longo de uma hora sobre esquerda, Lula, alianças, Bolsonaro, sistema partidário, Fernando Henrique Cardoso, passado e futuro. Nos intervalos, falou sobre a relação com o Agora!. “No começo eles pensavam: ‘Esses bichos são comunistas, revolucionários, têm regras fechadas, quadros militantes [o PPS surgiu em 1992, como uma versão recauchutada do Partido Comunista Brasileiro].’ Mas o contato logo desfez essa impressão.” Disse que Huck tinha “embocadura” para ser candidato. “Não estávamos entrando em nenhuma aventura.”

O deputado foi interrompido por um assessor, que entrou no escritório para perguntar se poderia passar um telefonema do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que ligava dos Estados Unidos. “Oxe, passe, é claro!”, respondeu Freire, com seu sotaque pernambucano. “Alô! Diga aí, governador, tudo bem? Olhe, não precisaria essa urgência total, mas pode ser que ajude.” Explicou que havia encontrado um candidato, no Tocantins, que poderia ser útil na campanha de Alckmin à Presidência. “Lá o PSDB não tem uma grande estrutura, fora um senador, que é uma boa figura, mas não tem uma grande estrutura.” Sugeriu que a parceria poderia resultar num “bom palanque”: “Vou dizer quem é. É o principal autor do projeto do Ficha Limpa. Aí queria falar com você pra. Pronto. Pro senador me procurar, pra gente ver o que pode fazer. Porque aí pode ser bom pro projeto aí. A coisa tá caminhando, vamo lá. Eu que agradeço a atenção. Um abração.”

 

Numa segunda-feira, 12 de março, Huck tinha um jantar na casa de Carlos Jereissati Filho, em São Paulo. O evento – em que ele faria um breve discurso – era organizado por integrantes do grupo Jovens Líderes Globais. Huck me telefonou duas horas antes, por intermédio de sua secretária, para avisar que eu não poderia participar. “É um grupo pequeno, eles não querem imprensa.” Aproveitou para fazer um desabafo a respeito do almoço que tivera, naquele dia, com cerca de cinquenta executivos do banco BTG Pactual: “Muita pressão, Rober-tôoo. São Paulo é muita pressão.”

Encontramo-nos às 8h30 da manhã seguinte, num terminal privado do Aeroporto de Congonhas, onde seu avião – um Embraer Phenom 300 para oito passageiros, prefixo PP-HUC – estava parado. Dali seguiríamos para Alfenas, pequena cidade de Minas Gerais, onde Huck encontraria a equipe do programa. Apesar de estar viajando a trabalho, Huck explicou que a viagem saía do seu próprio bolso: “A Globo não paga nada. O programa tem que ser nacional. Quanto mais eu puder estar no Brasil afora, melhor ele fica. Consequentemente fatura mais, consequentemente gera mais receita.”

O apresentador usava camiseta, jeans e sapatênis, como de hábito. Subiu na aeronave, cumprimentou os pilotos, e abriu uma caixa que acabara de receber, com livros sobre a história de seus antepassados. “Mandei fazer para a minha mãe, de aniversário”, explicou, enquanto folheava um exemplar. Em seguida enviou uma mensagem de áudio ao empresário Eduardo Mufarej, idealizador do movimento Renovabr, que dá bolsas de 5 mil reais por mês para financiar candidaturas de novatos. “Eduardo, tomei café da manhã com o Mario Mello, do PayPal. Acho que você tem que falar com ele. Tem uma inteligência digital ali que você pode usar a favor da construção. E o moleque é maneiro.” Explicou-me que ele e Mufarej estavam montando um aplicativo com a lista dos candidatos apoiados pelos movimentos cívicos. “Vai ter gente do Agora!, do Renovabr, do Vem pra Rua, do Mulheres do Brasil. Se a gente não fizer uma agenda comum, não vai eleger ninguém.”

O avião decolou. Voltei a perguntar a Huck como ele estava se sentindo (fazia quase um mês que ele desistira de vez da candidatura). “Em paz”, respondeu. “O problema é vir pra São Paulo. O mercado está com medo.” Além de ir ao BTG, aproveitara o dia anterior para conversar com o filósofo Roberto Mangabeira Unger, professor em Harvard e assessor econômico do candidato Ciro Gomes. “Ele tem um pensamento complexo, extremamente inteligente, mas que é diferente do meu. O programa do Ciro é de estatizar tudo. Eu não iria por aí, sou a favor de um Estado necessário.”

Disse ser adepto de reformas trabalhista, política e previdenciária. “Para chegar num lugar melhor, vão ter coisas não agradáveis.” Defendeu também a necessidade de uma reforma tributária. “O rico paga menos imposto do que o pobre”, explicou. “Tem que inverter isso, desonerando o imposto de serviço e tributando heranças e fundos privados.” Contou também que gostaria de abrir o comércio de forma unilateral, sem a necessidade de contrapartida internacional. “Isso aconteceu no Chile na década de 80. Atrapalha quem precisa de protecionismo, mas tende a melhorar a economia a médio prazo.”

O assuntou migrou para um tema que lhe é caro. “A tecnologia revolucionou tudo, da imprensa ao varejo. Mas não chegou no Estado. Quando chegar, também vai revolucionar.” Exemplificou: “Tem 200 mil escolas públicas no país. A estrutura existe, o problema é que elas não estão conectadas. Não precisa construir mais escola. Precisa subir o sarrafo da qualidade.” Falou, em certo tom de exagero, que o Brasil deveria ter uma embaixada no Vale do Silício. “Te garanto que se Juscelino estivesse vivo, já teria ido umas dez vezes para lá.”

Perguntei se Huck já havia ido ao Congresso. “Uma vez”, respondeu. Comentei que aquele formigueiro de engravatados, de regras bem particulares, era um tanto distinto do cotidiano com o qual ele está acostumado. “Você acha que é ingênuo da minha parte?”, ele perguntou, aparentando sinceridade. Pensou por alguns segundos, em silêncio, e saiu-se com uma solução algo tortuosa: “Numa eleição majoritária você renova 30% do Congresso. Em três ciclos renova o país.”

Pedi que Huck falasse de Aécio Neves, o senador tucano investigado pela Lava Jato. “Sinto tristeza pelo Aécio. É um cara de quem eu gosto, mas se colocou num lugar complexo”, limitou-se a dizer. Perguntei se ele, Huck, não havia sido infantil ao apagar de seu perfil no Instagram as fotos com o político, de quem ele já foi bastante próximo (a história ganhou corpo em maio do ano passado, quando o apresentador já aparecia numa pesquisa Datafolha – e quando Aécio foi delatado por Joesley Batista). “Eu apaguei uma foto só, e foi em 2014, de nós dois num jogo do Brasil, muito antes da Lava Jato”, respondeu, explicando que o fizera a pedido da Globo, porque Aécio já estava em campanha presidencial.

O avião começou o processo de descida em Alfenas, onde seria entregue uma casa do quadro “Lar doce lar”. “E a Elvira?”, perguntou Huck, a respeito da repórter Elvira Lobato, coautora deste texto, que havia conversado com João Roberto Marinho e Fernando Henrique Cardoso, além de escrutinar sua vida empresarial. “Ela tem falado com muita gente, deve ser uma pessoa interessante.” Contei que Lobato é uma repórter do tipo cão farejador, especializada em cobrir telecomunicações, e mencionei a história de quando ela respondeu a 111 ações judiciais, no Brasil inteiro, por investigar o patrimônio dos bispos que comandam a TV Record (as reportagens foram publicadas na Folha de S.Paulo; Lobato ganhou todas as ações, exceto uma, que ainda não foi julgada).

“A Record pega pesado”, disse Huck. “Na semana passada publicaram uma matéria falando que eu tinha vendido minha casa de Angra por um valor acima do mercado. Claro, vendi com móveis, lancha, tudo junto. Liguei pro [Douglas] Tavolaro [vice-presidente de jornalismo da Record] pra perguntar o que era isso.” (A casa ficou famosa em 2011, quando Huck resolveu cercá-la de boias, restringindo o acesso por mar, o que lhe valeu uma condenação na Justiça Federal; o imóvel foi vendido em 2013 por 26,5 milhões de reais ao empresário Joesley Batista, hoje preso pela Lava Jato; já a multa, no valor de 58 mil reais, foi paga pelo apresentador no ano passado).

“Aliás, vou receber uns 500 mil reais deles”, continuou, sem ser perguntado. “Tô doido pra esse dinheiro entrar, pra poder doar para algum lugar.” Em 2016, Huck moveu um processo contra a blogueira Fabíola Reipert, setorista de fofocas da Record e do portal R7, que o acusara – ainda que sem citar o nome, mas de forma bastante clara – de ter um filho fora do casamento. “Ela nos chamava de ‘casal margarina’, dizia que a Angélica tinha quebrado a casa. Não sei de onde tirou isso.” O caso foi vencido em primeira instância, e o dinheiro depositado em juízo pela Record – o que não impede que ainda haja uma infinidade de páginas, na internet, a reproduzir o boato.

 

Chegamos em Alfenas pouco antes das 10 horas. Huck era aguardado, no aeroporto, por cerca de vinte pessoas. Um rapaz chamado Luís entregou-lhe um retrato, a lápis, que fizera do apresentador: “Você pode divulgar no Instagram, Luciano? Fiquei 47 horas trabalhando nisso.” Uma menina de 5 anos, chamada Eduarda, reclamou que ele havia demorado, para em seguida perguntar: “Luciano Huck, você vai ficar aqui um tempão todo dia?” Ele respondeu de forma afetuosa, enquanto atendia a outros pedidos de foto. Em seguida entrou num carro, onde estava um motorista e um segurança. Perguntei qual era a necessidade de ele ter escolta pessoal. O segurança, Djair, tirou o celular do bolso e mostrou-me um vídeo, filmado de cima, de Huck espremido por umas 100 pessoas, ao final de uma gravação na cidade mineira de Viçosa.

Na chegada ao hotel, mais gente na porta, mais pedidos de foto. Huck subiu ao quarto com seis pessoas de sua equipe. Sentou-se numa cadeira para ser maquiado, enquanto ouvia a roteirista lhe falar de seu Afonso e dona Vilma, o casal de pequenos cafeicultores que Huck conhecera um mês antes, em outro episódio do programa, e cuja casa acabara de ser reformada. A roteirista lhe contou que os dois haviam sido levados para conhecer outras fazendas, na companhia de um barista, de forma a melhorar a qualidade do café que plantavam. Fez-lhe também uma breve explanação sobre os números da agricultura familiar no Brasil, para que o apresentador os mencionasse no ar. Huck trocou de camiseta, colocou um microfone de lapela na gola e desceu para o andar do hotel onde Afonso e Vilma estavam hospedados. Combinou com a equipe que gravaria uma cena saindo do elevador e batendo na porta do quarto.

Às 10h40, gravou o primeiro take, olhando para a câmera: “Seu Afonso e dona Dilma, hoje é o dia do reencontro.” O diretor mandou cortar: “É Vilma!” O segundo take fluiu sem ato falho, com Huck batendo na porta do quarto. “Saudades, hein, saudades”, disse, enquanto os abraçava. Em seguida, os três desceram até a recepção e entraram num carro repleto de câmeras, pilotado pelo próprio apresentador. A equipe foi atrás, numa van, ouvindo a conversa. “Seu Afonso, qual foi o aprendizado? O que o senhor vai mudar na sua plantação?”, ele perguntava, explicando que o Brasil tem 14 milhões de pessoas como ele, que vivem da agricultura familiar.

Por volta de meio-dia chegamos à casa. Huck parou o carro a cerca de 500 metros, para que o casal não pudesse vê-la antes da hora. Pulou para outro carro, que o levou até o local, onde era aguardado por mais de 100 fãs. Entrou na casa junto com a equipe de filmagem. “Tá bonito demais, hein?”, comentou. O arquiteto João Duayer, responsável pela reforma, aproveitou para explicar que prendera ferramentas à parede, como parte da decoração. “Usei vários objetos deles, tipo essa escada de café.” Huck aprovou: “Isso numa loja em São Paulo custaria uns 2 mil reais.”

O apresentador reuniu a equipe para dar os comandos. “Quando entrarmos, quero alguém já na casa. Seguimos pela cozinha, e depois os quartos. Fica outra pessoa do lado de fora, filmando pela janela. Outro vai acompanhar o ponto de vista do cachorro.” Virou-se para o diretor, Cacá Marcondes. “Tramontina vai fazer onde?” Ouviu que o merchandising seria na cozinha. “Tá, eu deixo eles verem a casa, aí faço Tramontina e digo: ‘Por falar em Tramontina, tem mais um presente para vocês lá fora!’ Aí levo para a churrasqueira.” Voltou ao carro onde estava o casal.

Dez minutos depois, começou a gravação. Huck chegou dirigindo, com Afonso e Vilma de olhos vendados. Tirou-os do carro e os ajudou a ficar de frente para a casa. Uma produtora entrou em cena para tirar o veículo do lugar. “Ok, voltando do break. Bota a musiquinha que não ouvi até agora”, ordenou Huck. A trilha sonora do programa começou a tocar. “Senhoras e senhores, estamos de volta aqui em Campos Gerais, Minas Gerais, para você que chegou agora no Caldeirão. Dona Vilma e seu Afonso, casados há 34 anos, os dois com a mão na massa, quer dizer, no café. Tiveram quatro filhos. Um deles, a Jane, me escreveu. Contou que o Alexandre [filho mais novo do casal] faleceu dois anos e meio atrás, deixando eles numa tristeza enorme. Mas, antes, ele tinha comprado esse terreno para construir uma casa. Começou, faltou grana. A Jane me escreveu contando essa história. Hoje de manhã, quando encontrei a Vilma, ela estava sorrindo. E isso me deixou muito feliz. Certeza que o Alexandre está feliz também. Você que está em casa, olha como era a casa antes.” Em seguida tirou as vendas dos dois, que começaram a chorar. Subiu o som de uma música apoteótica. “Tá bonito, Afonso?”, perguntou Huck. “O que meu filho queria tá feito”, respondeu o agricultor.

Entraram na casa, para conhecer os cômodos. “Gostou da cozinha?”, continuou. “Viu que tem panela nova, faca, máquina de lavar?” Minutos depois, chegaram cachorra, filhos e netos do casal. Mais choro. A câmera fechou em Huck, que aproveitou para mencionar o patrocinador. “Queria fazer um agradecimento especial à Tramontina, que nos apoiou com tudo aqui, panela, faqueiro, fogão, então muito obrigado à Tramontina, que nos ajuda a mostrar que é com a mão na massa que se faz um Brasil melhor. Se quiserem conhecer, é só entrar no site tramontina-ponto-com, que tem mais de 17 mil itens. São quatro anos de parceria. Esse fogão é muito bom, esse forno é muito bom, com essa coifa não vai ficar cheiro na sua cozinha.” Em seguida levou todos para o lado de fora da casa, para agradecer. “Casal, família, muito obrigado. Hoje podemos contar essa história, que é a mesma de 14 milhões de pessoas que vivem da agricultura familiar no Brasil.”

 

A gravação durou mais meia hora – tempo para que fosse promovido um churrasco, na varanda da casa, ao som de uma dupla sertaneja. Além de Afonso, Vilma e família, o grupo ainda fora acrescido, minutos antes, de uma tropa montada a cavalo, com sete amigos de Alexandre, o filho falecido. “E aí, não vai convidar eles para entrar?”, perguntou Huck para Afonso, que chorava copiosamente.

Finda a gravação, o apresentador caminhou em direção ao público, para atender aos pedidos de fotos. Cumprido o ritual, voltou à casa, para se despedir mais uma vez da família. Depois entrou no carro, sentado no banco do carona, e abriu a janela. “Vai com Deus!”, gritou uma senhora. “Te amo!”, disse outra. “Você é maravilhoso!”, “Matou a pau!”, “Você é tudo de bom!”, ouviu-se, de forma dispersa, enquanto íamos passando. “Amém, fica com Deus”, respondia Huck.

Comentei, no carro, que tinha críticas ao que acabara de ver. “Diz aí, Rober-tôoo, adoro ouvir crítica”, respondeu Huck. A primeira era sobre o merchandising durante a entrega da casa. “Merchan é necessário, tem que ter”, respondeu, pragmático. “Mas você viu sem edição. Eu faço questão de que ele fique nas pontas, no começo ou no fim do quadro.” A segunda era sobre trazer os amigos do filho falecido, que havia provocado uma reação forte demais no pai. “Mas vai ficar linda a imagem deles chegando de cavalo”, respondeu.

Comentei também que a casa, de tão bonita, destoava de outra que ficava logo ao lado. Perguntei se ele não pensava nas implicações que isso poderia ter. “Essa casa está muito novinha, com direção de arte de ontem”, disse. “Mas em seis meses vai estar como as outras daqui.” De toda forma, concordou que esse tipo de preocupação lhe ocorria. “Por isso que só faço o ‘Lar doce lar’ duas vezes por ano.” Explicou que vinha investindo mais em outro quadro, o “Um por todos, todos por um”, que auxilia projetos sociais. “Prefiro, principalmente quando é em comunidade mais densa, para deixar uma sementinha plantada.”

Voltamos ao aeroporto por volta de cinco da tarde, onde Huck era aguardado por outra dúzia de pessoas. Fotos, sorrisos, abraços. Pegou uma carta, com mais um pedido de reforma de casa, e entrou no avião -– que dessa vez ia cheio, com roteirista, maquiador, um câmera e duas assistentes de palco, de volta ao Rio de Janeiro. “Isso é a minha Kombi”, comentou.

Era nossa última conversa. Perguntei se ele de fato havia pensado em fazer uma aliança com o DEM, o partido de Rodrigo Maia. Confirmou. “Na minha cabeça, a coligação tinha que ser entre PPS, DEM, PSB e PSL. Mas aí meteram o Bolsonaro no PSL.” Disse ter conversado muito com Maia, com o prefeito de Salvador, ACM Neto, e com o ministro da Educação, Mendonça Filho – todos filiados ao DEM. “O Mendonça Filho, inclusive, seria um ótimo vice.” Comentei que havia um boato de que o posto poderia ser ocupado por Paulo Hartung, do MDB, governador do Espírito Santo. “O Hartung seria ótimo na Casa Civil”, retrucou.

Perguntei se ele havia pensado em mais algum ministério. “Na Fazenda seria o Armínio.” E na Justiça? “Sérgio Moro”, respondeu de bate-pronto. “Não seria um bom nome para moralizar?” Falei que seria o Huck do Huck. “O Joaquim [Barbosa] também seria muito bom. Ele é um baita constitucionalista”, continuou. “Mas agora minha prioridade é trabalhar pela renovação do Legislativo.” Contou que está organizando um evento no Auditório Ibirapuera, para agosto, em que serão apresentadas setenta iniciativas de tecnologia aplicadas ao Estado. Contou também que ainda não está com o voto decidido. “Posso votar na Marina ou no Alckmin, mas tem muita coisa para acontecer até 15 de agosto”, respondeu, referindo-se ao prazo para registro dos candidatos. “Não vejo em nenhum dos presidenciáveis um sonho grande.”

O avião se aproximava da cabeceira do Santos Dumont. “Me falaram de uma pesquisa do DEM na semana passada”, comentou, sem ser perguntado. “O teto do Bolsonaro é de 30% dos votos. O do Lula é 40. O meu é de 67%.” Aterrissamos.



Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

Elvira Lobato

Elvira Lobato

Elvira Lobato é jornalista e publicou os livros Instinto de Repórter, pela Publifolha, e Antenas da Floresta, pela Objetiva

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