esquina

O novo peripatetismo

Professor de filosofia faz vaquinha para ir à Grécia

Daniela Abade
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Na cidade de São Paulo, toma-se um ônibus com muitas e variadas expectativas – chegar atrasado, levar pisão na unha encravada, sentir uma coisa encostando, esganar o cretino que não parou no ponto etc. etc. –, mas ser convocado a mandar um professor de filosofia para a Grécia nunca esteve entre elas. Talvez a ideia seja mesmo pegar o passageiro de surpresa: CAMPANHA EDUCACIONAL PROF. ROCHA VAI À GRÉCIA Pergunta retórica: Para colaborar com a educação da juventude brasileira!

Aparece colado isso aí nos ônibus da cidade, num adesivo espalhado com grande operosidade, impresso em azul sobre fundo branco. No lado direito, em cima, a imponência do Partenon; à esquerda, um homem de óculos, a meio caminho entre a circunspecção e a bonomia. Para o caso de o primeiro porquê soar insuficientemente motivador, o professor Rocha retorce a pergunta – Por que quero sua colaboração?– e bate mais forte na resposta: Porque os jovens levarão para os anos vindouros a chama dos meus sonhos – um soco nas almas carcomidas. Seguem-se as informações de ordem prática – telefone, e-mail, site e o número de uma conta-poupança –, mas não antes de uma laçada final no argumento: Conhecimento e Educação para todos. Está dado o recado.

O caso é que não está, não. As dúvidas assomam de pronto. Por quais mecanismos a ida do prof. Rocha à Grécia colaborará com a educação dos jovens brasileiros? Educação de todos ou só de alguns? Essa chama dos seus (dele) sonhos, eles vão carregar como? E a propaganda? Quem é que deixa ele colar no vidro do ônibus? A mente inquiridora – logo, filosófica – não sossegará enquanto não caçar as respostas.

O passo mais natural será explorar o endereço de internet fornecido no cartaz. Na página de abertura constam dados biográficos e um currículo espantoso. O professor Rocha trabalhou com: “Ferro-Velho, Sorvetes, Cândida [i.e., fabricou e/ou vendeu água sanitária], Capitalização Haspa, Carnê do Baú, Office Boy na Vtf-Imóveis, entre outras atividades.” Está escrito que ele se formou em: “[…] Ciência Biológica, Jornalismo, Matemática, Pedagogia, Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior e Mestre em Ciências da Religião.” (Filosofia, ele ainda está cursando na UniÍtalo.)

Seguindo o mapa do site, aparece outro dado interessante: Rocha mantém um “Café Filosófico Móvel”. Consta que circula de bicicleta por São Paulo para discutir filosofia e que assim, peripatético, como antes Aristóteles, pretende discuti-la até 2015, ano em que dará por encerrado o Projeto Grécia. As informações eletrônicas, antes de esclarecerem, apenas adensam os mistérios em torno do professor. A mente inquiridora se obriga a um contato sem intermediações.

 

José Augusto da Silva Rocha é um homem falante. Tem 45 anos. Vangloria-se das origens nordestinas e conta a história de suas privações até o ouvinte pedir clemência. A paixão pela filosofia é herança da mãe, professora de história, “aquela coisa dela ficar sempre anotando…” Não sendo possível saber o que a mãe tanto anotava, é o caso de perguntar qual o seu (dela) filósofo de predileção. O filho hesita, pensa e acaba lembrando: São Tomás de Aquino! “Talvez por ela ser católica e tal, e aquela coisa idosa, nordestina…” Não fica muito claro se a mãe já era idosa quando ele era criança, mas pouco importa, pois, do ponto de vista da história do pensamento, é sem dúvida original a proposição de que o trinômio de predicados católica/idosa/nordestina é uma das vias reais de acesso aos ensinamentos do mais douto dos escolásticos.

Rocha não precisa refletir tanto para nomear o pensador que mais o atraiu na adolescência. Foi Nietzsche. “Achei interessante”, explica – e, sendo melhor prevenir do que remediar, imediatamente acha por bem se defender, antes que o acusem de ser um perigoso dionisíaco: “Não que eu seja um seguidor ou colabore com os pensamentos dele…”

Nem Aquino, nem Nietzsche, entretanto, encimam a lista dos maiores pensadores que conheceu. São grandes, sem dúvida, mas não tanto quanto o Mendigo que Conversava Sozinho no Ônibus. Imperativo e categórico, professor Rocha afirma que “os grandes filósofos estão na rua”. Por demais complexo para ser reduzido aos termos de uma conversa ligeira, o professor Rocha prefere não mergulhar nos desvãos conceituais do luminar sem-teto.

Por que a Grécia, então, se a filosofia está nas calçadas? Aí, professor Rocha não tergiversa: porque a Grécia é o berço do pensamento ocidental. Ele se sente irremediavelmente atraído pela ilha de Ítaca, não por causa da Odisseia, mas de um poema de Caváfis: “Se partires um dia rumo à Ítaca / Faz votos de que o caminho seja longo / repleto de aventuras, repleto de saber…” Foi só ouvir esses versos e ter certeza de que era com ele que falava o poeta.

O caminho para Ítaca não está saindo barato. Rocha mandou produzir milhares de adesivos, cartões, calendários e folhinhas que vem distribuindo desde 2008, durante os passeios de bicicleta. Só nisso foram mil reais. A balança ainda não lhe é favorável, pois a arrecadação do Projeto Grécia está em cerca de 900 reais. “Não faço pelo dinheiro”, ele diz. Nota-se.

O que lhe interessa é espalhar a ideia da filosofia pelos quatro cantos da cidade. Trata-se de uma atividade sobre a qual, em tempos outros, poderiam ter se debruçado pensadores dedicados a especular sobre os dilemas impostos pela obediência às normas sociais. A prefeitura não autoriza a colagem de cartazes em locais públicos. “Pode não ser ético, mas não é irregular”, opina o Professor. Kant se arrancaria os cabelos, Maquiavel talvez sorrisse.

Há também a questão da dubiedade de certos textos publicados no site. Tome-se o Curso Livre de Filosofia por Professor Rocha, um programa muito correto e abrangente da história do pensamento, igualzinho, aliás, em gênero, número, grau, palavras e exclamações, à descrição do curso livre ministrado desde 2002 pelo professor Alfredo Fernandes, doutor pela USP, pós-doutor pela Universidade de Genebra e docente aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina.

Seria leviano julgar o homem pelo que ele não sabe. Rocha confessa saber pouco de internet e dependeu de um aluno para pôr o material no ar. Oxalá então o povo o despache logo para a Grécia. Ou ele volta de lá convencido de que o plágio é um não-ser, como talvez dissesse Sócrates, ou volta crente que ninguém pode ser responsabilizado pelo que desconhece, pois já dizia o mestre de Platão que o filósofo é, antes de tudo, um ser que sabe que não sabe, desconfiadíssimo. De modo que vá com Deus, Rocha, vá colher na terra da metáfora. Os passageiros da cidade de São Paulo lhe desejam uma boa viagem

Daniela Abade

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