poesia

O penúltimo dos gregos

Francisco Alvim
ILUSTRAÇÃO: THE NATIONAL GALLERY_LONDON 2015

O poema se refere ao mito grego de Acteão e Ártemis (Diana). Narra o episódio da morte do moço caçador, que aprendeu a arte da caça com o centauro Quíron. Certo dia, quando caçava nos bosques do vale Gargáfia, na Beócia, deparou-se com a deslumbrante nudez da deusa caçadora, a se banhar numa fonte acompanhada de um séquito de ninfas. Ártemis, presa de ira mortal, ao lançar-lhe uma braçada de água, transforma o moço num cervo e o livra aos cães do próprio Acteão, que o devoram.

Essas duas figuras mitológicas inspiraram uma sucessão de pinturas admiráveis. Vale visitar o site da Web Gallery of Art (wga.hu) e procurar as telas de Ticiano e Francesco Albani para tomar conhecimento de algumas delas; e contemplar, ao vivo, por assim dizer, a de Delacroix que compõe a cena – O Verão – Diana Surpreendida por Acteão, da série As Quatro Estações de Hartmann, do acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Elas me fazem compreender melhor os versos famosos de Mário de Sá-Carneiro, “P’ra que me sonha a beleza,/Se a não posso transmigrar?”, e a repetir como um mantra a frase da “Carta a um cortador de linho”, de Maria Ângela Alvim: “O amor, o amor é água.”

O outro texto, um não poema que aspira à condição de poema, deriva de uma enquete que a revista Remate de Males, da Unicamp, submeteu a alguns poetas com a pergunta “Por que escreve?”. Parece que o computador, com suas sensíveis antenas e escuta fina, sentiu a aspiração – e a aprovou, criando sponte sua, dois cortes, induzido pela formação de blocos compostos por decassílabos, versos de três e quatro sílabas, e redondilhas maiores. Suficientemente provocado, o terceiro corte, mais abaixo, já corre por minha conta. O texto original, aqui modificado, saiu no número de julho/dezembro de 2010 da revista. Quem sabe alcance também, por contágio, a sua metamorfose; e possa valer como comentário indireto ao seu pretendido colega de gênero e de página, como gostaria o autor. Ou, ao menos, para revelar um pouco do desconforto deste, que às vezes cede aos chamamentos de uma lyra classicizante – o que o faz sentir como o último dos helenos, ou penúltimo, já que confia que sempre haverá um grego sobrante nos cordões do Bola Preta.

 

U M A   E N Q U E T E

Só mesmo um personagem:

Para medir o mundo? Ou me medir no mundo? O mundo é imenso; eu sou pequeno… Fazer com que ele soe? Ele soa por si e não me ouve. O mundo é surdo, e mudo; e, de quebra, cego. Por amor; por desamor? Medo, pavor? Convívio com o muro, com a falta de ar? Com portas que
não se abrem?
E quando se abrem, para o quê?
Me distrair, me iludir; iludir… Estilhaçar-me: caco, pedaço. Esfrangalhar-me: frangalho de roupa arquiusada. Lapso de um ritmo. Batuque. Abstração? Cemitério marinho, jovem parca? Nenhum sentido. Talvez um tango
argentino. Bandeira no consultório. Foto do Jânio com os pés revirados. Por vaidade. Afinal… Por gosto do patético. De cutucar a ferida com unha curta e grossa. Porque o outro não existe e, de fato, maltrata. Para contrariar o Sartre. Que liberdade? Dizer: estou vivo; ele – o outro – também? Dourar esta pílula com o doce veneno da literatura, aquela do que o resto é. Oposição à linguagem? Busca do conteúdo? Precisa de embocadura… Saudades de Rosa, Clarice,
João, Drummond, Pedro Nava.
No circo esvaziado, lançar-se no espaço sem o trapézio por cima e a rede por baixo. Repetir ad nauseam a falsa e grande manobra. E bradar aos quatro ventos que ventam: me ouçam!

Mas ouvir o quê, forasteiro?

 

A C T E Ã O

Setas de água

Desferidas da fonte

Contra

a mancha de

sombra

Ao longe

esplendor da caçada

Estandartes do sol

Ouro e flamas

Os cães se aproximam

Farejam

o ígneo coração

O dia esplende

A hora

A aérea hora

escorre no ar

Sopro de uma divindade

Alheia    Dispersa

Ela,

a de lua recurva

segura a água

desnuda

a pedra da luz

Enquanto ao lado

cascos e galhada

surge a nova forma –

o caçador que se torna a caça

Ante os cães

um átimo de tempo

em que me vejo

vê-la

Nua e coroada

A fronte e o pé

Serenos

O pouso o repouso

do arco e da aljava

Verdor inextinguível verdor

a relva em que ela

passa

Francisco Alvim

Francisco Alvim, diplomata e poeta, publicou a coletânea Poemas (1968–2000), coeditada pela 7Letras e Cosac Naify

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