poesia

O poeta e o presidente

Langston Hughes

Foi quando vivia no Havaí, no ambiente branco da casa de seus avós, no início dos anos 70, que Barack Obama teve seu primeiro encontro com Langston Hughes.

James Mercer Langston Hughes, uma das vozes mais sonoras da poesia negra norte-americana, nasceu em Joplin, Missouri, em fevereiro de 1902. Em mais de 800 poemas e em peças de teatro, retratou uma realidade que Barack Hussein Obama só podia conhecer por meio da literatura.

Barrie – como então Obama era chamado – tinha curiosidade por livros. Sem dúvida teve nas mãos a antologia de poesia negra que havia na casa. Nela talvez tenha lido o poema “Let America be America again”. No poema, Hughes anuncia seu projeto poético de redenção da América: a retomada do espaço americano em benefício de todos os cidadãos, sem exclusão dos negros.

Apesar da distância na geografia e no tempo, o poeta e o presidente têm muito em comum. São ambos mestiços. Foram criados pelos avós. Estudaram em Nova York, na Universidade de Columbia. Viajaram à África em busca de suas origens. Propõem um projeto de reinvenção para os Estados Unidos.

A voz do poeta ecoa forte nos discursos do presidente. Nos anos 30, em meio à Grande Depressão, Hughes pede igualdade e defende uma ação política mais radical. Oitenta anos depois, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos materializa a promessa adiada da igualdade racial.

No entanto, um negro nascido hoje nos Estados Unidos tenderá a ser pobre, terá dificuldade de encontrar emprego e morrerá mais cedo que a média. Na América de Barack Obama há mais negros nas prisões que nas universidades. O sonho do poeta ainda desafia o presidente.

 

GISELA PADOVAN E

ALEXANDRE VIDAL PORTO

 

Deixe a América voltar a ser América

Deixe a América voltar a ser América.

Deixe-a ser o sonho de outros tempos

Em que pioneiros trazidos pelos ventos

Buscavam na planície lar e liberdade.

 

(A América nunca foi América para mim.)

 

Deixe a América ser o sonho de todo sonhador –

Deixe-a ser grande, forte, terra de amor

Onde reis não conspiram e não há tiranos

Uma terra em que humanos não esmagam humanos.

 

(Ela nunca foi América para mim.)

 

Que minha terra seja onde a Liberdade

Não se coroe de falsos louros patrióticos;

Onde a vida seja livre, haja oportunidade,

Uma terra onde só se respire igualdade.

 

(Nunca me deram igualdade,

Nesta “terra dos livres”, nunca vi liberdade.)

 

Me diz, quem é você que murmura no escuro?

E quem é você que tapa as estrelas com um muro?

 

Sou o branco pobre, excluído e enganado,

Sou o Negro com cicatrizes de escravo.

Sou o índio desterrado,

Sou o imigrante agarrado à esperança –

E só vejo a mesma cena à minha frente

Cão contra cão, gente contra gente.

 

Sou o jovem cheio de força e esperança,

Preso nessa velha corrente infinita

De lucro, poder, ganho, que toma a terra!

Que toma o ouro! Que toma todo o necessário!

Que força o seu trabalho! Que toma o seu salário!

Que tem o homem e a mulher e tudo aquilo o que quiser!

 

Sou o fazendeiro, escravo da terra.

Sou o operário, escravo da máquina.

Sou o Negro, escravo de todos.

Sou o povo, humilde, faminto, medonho –

Ainda com fome, apesar do sonho.

Que até hoje apanha – Ó Pioneiros!

Sou o homem que nunca progrediu,

Sou o pobre dos pobres, o que dão por dinheiro.

 

Ainda assim, sou o que sonhou primeiro

No Velho Mundo, ainda servo de um rei,

Um sonho nobre, poderoso e verdadeiro,

Cuja força ainda vive por inteiro

Em cada pedra, em cada tijolo, em cada sulco

Que fez a América a terra que ela é.

Oh, sou o homem que navegou aqueles mares

À procura da casa que queria –

Que deixou a sombria costa irlandesa,

as planícies da Polônia, a pradaria inglesa,

Arrancado da África Negra

Para construir a “terra dos livres”.

 

Dos livres?

 

Que livres? Liberdade nunca tive?

Nunca tive? Os milhões no auxílio-desemprego?

Os milhões que morrem na greve?

Os milhões de desvalidos?

Por tudo o que foi sonhado

Por tudo o que foi cantado

Por todas as esperanças

Por todas as bandeiras levantadas,

Os milhões que nada temos –

Exceto o sonho que já não vemos.

 

Oh, deixe a América voltar a ser América –

A terra que ainda não é –

Que ainda será – uma terra sem ninguém a libertar.

Uma terra que pertença a mim – o pobre, o índio, o negro, eu –

Que fiz a América,

Cujo suor e sangue, cuja fé e dor,

No calor da fábrica, na chuva da faina;

Vão ter de sonhar de novo nosso sonho poderoso.

 

Claro, me chame do que quiser –

O aço da liberdade não oxida.

Precisamos retomar nossa terra,

Dos que nos sugam o sangue e a vida.

América!

 

É claro,

É isso aí,

A América nunca foi América para mim,

Mas eu juro –

América será!

 

Da ruína da nossa morte bandida,

Do roubo, da podridão, do furto, da mentira, da corrupção,

Temos de retomar

A terra, as minas, as plantas, os rios.

Os montes, os campos sem fim –

Todo o extenso espaço dos estados – nós, o povo.

E fazer a América América de novo!

 

 

Ku Klux

Eles me levaram

Para uma barranca.

E me disseram: “Você acredita

Na grande raça branca?”

 

Eu disse: “Moço,

Pra falar a verdade,

Eu acredito em qualquer coisa

Pra ficar em liberdade.”

 

O branco disse: “Moleque,

Será que você está

Parado aí

Querendo me matar?”

 

Me bateram na cabeça

E me derrubaram.

E quando eu estava no chão

Me chutaram.

 

Um membro do klan me disse: “Crioulo,

Me olha no olho –

E diz que você acredita

Que a raça branca é bonita.”

 

 

Quando se adia um sonho

Harlem [2]

O que acontece quando se adia um sonho?

 

Será que ele seca

Como uva-passa?

Será que inflama como ferida –

E depois apodrece?

Será que fede como carniça?

Ou cristaliza –

Como a calda do doce?

 

Talvez só se acomode

Como carga pesada.

 

Ou será que explode?

 

A vida é boa

Caminhei até o rio,

E na beira me sentei.

Raciocinar não pude,

Pulei e afundei.

 

Na primeira vez eu gritei!

Na segunda, chorei!

Se a água não fosse tão fria

Eu acho que morreria.

 

Mas era

Que água fria!

E como era!

 

Tomei o elevador

Subi dezesseis andares.

Pensei no meu amor

E quase me lancei aos ares.

 

De lá eu gritei!

De lá eu chorei!

Se o prédio não fosse tão alto

Eu acabava no asfalto.

 

Mas era

Que prédio alto!           

E como era!

 

E como estou vivinho,

Vou ficando por aqui.

Quase morri de amor –

Mas para viver eu nasci.

 

Eu posso até gritar,

Eu posso até chorar –

Mas eu duvido benzinho,

Que você veja eu me matar!

 

A vida é boa! 

É como vinho! 

Beba devagarinho!

 

Negro fala de rios

Eu vi rios:

Eu vi rios antigos como o mundo e mais velhos que o

fluxo de sangue humano em veias humanas.

 

Minha alma ficou funda como os rios.

 

Banhei-me no Eufrates ao alvorecer.

Construí minha cabana às margens do Congo e ele me ninou.

Olhei para o Nilo e sobre ele ergui pirâmides.

Escutei o canto do Mississipi quando Abe Lincoln

descia para New Orleans, e vi seu fundo barrento

ficar dourado ao escurecer.

 

Eu vi rios:

Eu vi rios antigos, rios sombrios.

 

Minha alma ficou funda como os rios.

Langston Hughes

Langston Hughes (1902-67), poeta e dramaturgo americano, autor de Let America Be America Again, publicado pela Vintage Books.

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