despedida

O povo do livro

A acadêmica, sua editora e a direita hindu

Juliana Cunha
O grupo indiano que pediu a censura do livro da americana Wendy Doniger ficou incomodado com o retrato erotizado das deidades hindus
O grupo indiano que pediu a censura do livro da americana Wendy Doniger ficou incomodado com o retrato erotizado das deidades hindus ILUSTRAÇÃO:CYNTHIA HAZEN POLSKY AND LEON B. POLSKY FUND, 2001_METROPOLITAM MUSEUM

A professora americana Wendy Doniger é considerada uma das maiores estudiosas do hinduísmo. Em 2009, ela publicou The Hindus: An Alternative History (Os Hindus, Uma História Alternativa), livro de quase 800 páginas que coroava seus mais de quarenta anos de dedicação ao assunto. Na obra, Doniger defende que o que hoje se conhece por hinduísmo é uma religião praticamente inventada pelos ingleses, fruto de uma síntese de práticas religiosas encontradas na Índia antes da ocupação britânica. Sua tese é a de que essa espécie de mística palatável, baseada em textos em sânscrito só conhecidos na época por uma minoria de indianos, tenha sido comprada pelas elites locais como uma forma de dar ares mais homogêneos, ocidentais, ao emaranhado religioso do país.

The Hindus foi alvo de uma série de ações legais movidas contra o braço indiano da editora Penguin pelo Shiksha Bachao Andolan, o Movimento pelo Resgate da Educação, que busca retirar do mercado e dos currículos escolares livros que denigram a imagem da religião. Dinanath Batra, presidente do grupo, é um sujeito tido pela imprensa local como testa de ferro do Bharatiya Janata, ou BJP, o partido nacionalista hindu, e como um fanático dedicado à defesa da imagem do hinduísmo.

Em fevereiro, a Penguin indiana fez um acordo judicial com o grupo de Batra que até hoje provoca protestos entre intelectuais, indianos ou não. A editora concordou em parar de publicar, retirar de circulação e destruir cópias remanescentes do livro de Doniger.  Às vésperas de eleições nacionais que serão concluídas em maio e levarão à escolha de um novo primeiro-ministro, a queima simbólica de livros parece ecoar a guinada conservadora que se observa na Índia, liderada pela direita hindu.

Os porta-vozes mais extremados desse segmento ficaram particularmente irritados com a abordagem da americana, que trata os mitos hindus como criação humana e não como revelação religiosa, além de fazer análises freudianas dos textos sagrados. Ela estabelece, por exemplo, uma comparação entre o inconsciente humano e o papel dos macacos no Ramaiana, épico atribuído ao poeta Valmiki e parte importante do cânone hindu.

Silas Guerriero, professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC-São Paulo, concorda com a visão da pesquisadora e chama atenção para o caráter não monolítico do hinduísmo. “Não é como o catolicismo, que é uma religião mais ou menos centralizada. As práticas e concepções dos diversos grupos que nós hoje abarcamos sob o guarda-chuva do hinduísmo mudam muito. A decisão de colocar todos esses grupos juntos foi uma postura colonial e ideológica semelhante a pegar várias crenças africanas e dizer que aquilo é uma religião singular”, explicou.

O argumento mais acadêmico usado por Batra e seus defensores tenta pôr a tese de Doniger de cabeça para baixo: ela é que teria uma visão colonial da Índia. O livro foi “escrito com um fervor missionário cristão e com a agenda oculta de denegrir hindus e apresentar a religião sob um ângulo ruim”, disse ele numa representação à Justiça, em 2010. Mas Batra reconhece que o retrato erotizado de líderes religiosos e deidades – a começar pela capa, ilustrada por uma imagem em que o deus Krishna monta um cavalo formado por corpos nus de mulheres – foi o que mais o incomodou no trabalho. “Meu livro não é sobre sexo de jeito nenhum. É sobre religião, um assunto muito mais quente do que sexo”, disse Doniger – que é de origem judaica, e não cristã – num artigo para o New York Times.

A Penguin da Índia disse em um comunicado ter defendido o livro enquanto pôde, e culpou a seção 295ª do Código Penal do país, que fala sobre “atos maliciosos que visam ferir sentimentos religiosos”, pela retirada da obra. Segundo a Penguin, essa seção “tornará cada vez mais difícil para qualquer editora indiana sustentar os padrões internacionais de liberdade de expressão”.

 

Manter uma democracia com 1 277 bilhão de pessoas e oito grandes sistemas de doutrinas, sem contar as inúmeras crenças minoritárias, não é para qualquer um, mas a censura editorial indiana não se resume a desavenças religiosas. Pessoas de esquerda como a escritora Arundhati Roy acham que a editora recuou por motivos políticos. “Não houve sequer uma ordem judicial obrigando-a a fazer isso”, ponderou Roy, que também é publicada pela Penguin.

Para ela, a censura é sinal de concessão ao candidato a premiê Narendra Modi, do BJP, um político conhecido tanto pela obsessão em exercer controle sobre materiais de leitura quanto pela onda de violência contra muçulmanos no estado de Gujarat, em 2002. Modi, que na época governava o estado, foi acusado de incitar a população hindu a um levante contra os  muçulmanos da região, num embate que durou três dias e causou a morte de 790 muçulmanos e 254 hindus.

Para Shabnam Hashmi, diretora da ONG ANHAD (Act Now for Harmony and Democracy), criada em 2003 como resposta ao massacre de Gujarat, a retirada dos livros é uma demonstração de poder da direita conservadora: “O secularismo vem perdendo espaço na Índia desde o começo dos anos 2000, e a figura de Modi, com seu apelo religioso mal disfarçado, coroa esse processo de decadência do país. Eles dizem que o livro deve ser retirado porque é ruim, porque tem informações erradas, mas esse julgamento cabe ao leitor.”

Proibir um livro talvez seja um gesto mais poderoso na Índia do que em outros países: há dois meses, uma pesquisa da empresa britânica NPO World apontou os indianos como o povo que mais lê no mundo: uma média de 10h42 de leitura por semana (contra 5h12 do brasileiro, por exemplo).

The Hindus: An Alternative History não foi o primeiro alvo da limpeza de estantes promovida por Batra nem será o último. Seu foco de atenção atual é o livro On Hinduism, também de Doniger, publicado pela Aleph Book Company em 2013. Antes disso, Batra já tinha se voltado contra o professor A.K. Ramanujan por causa de um ensaio intitulado “Three Hundred Ramayanas” (Trezentos Ramaianas), em que o acadêmico explora as diferentes versões do épico e refuta a existência de uma versão original. Em 2011, o Conselho Acadêmico da Universidade de Nova Delhi retirou o ensaio de seu programa.

Antes de tentar retirar coisas das prateleiras, Batra testou sua mão como escritor e garantiu que algo ainda pudesse ser lido: em 2001, ele editou um livro chamado The Enemies of Indianisation: The Children of Marx, Macaulay and Madrasa (Os Inimigos da Indianização: Os Filhos de Marx, Macaulay e Madraça), que conta com um capítulo sobre fatos distorcidos em livros aprovados pelo Conselho Nacional de Educação da Índia.

Quando pressionado sobre o radicalismo com o qual refuta opiniões contrárias à sua visão do hinduísmo, Batra se defende acusando outras religiões. “Fale alguma besteira sobre Maomé para ver a reação dos muçulmanos”, respondeu ele quando questionado por que não deixar Doniger falar o que quiser. “Todo mundo sabe que Jesus Cristo era um filho bastardo de Maria, mas na Europa eles não ensinam isso, dizem que ela é a Virgem Maria”, disse Batra, talvez sonhando com um Krishna igualmente assexuado.

Juliana Cunha

Juliana Cunha é repórter, tradutora e autora dos livros Gaveta de Bolso, da Prólogo, e Já Matei por Menos, da Lote 42.

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