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    "Precisei comprar um terno, porque, duas horas antes da solenidade, compreendi de repente que não podia comparecer a essa cerimônia sem dúvida extraordinária trajando calça e suéter" ILUSTRAÇÃO: MAIRA KALMAN_2007_LICENCIADO POR JULIE SAUL GALLERY

láureas da vida literária

O prêmio Grillparzer

A ministra olhou em torno e, numa voz de inimitáveis arrogância e estupidez, perguntou: Mas cadê o escritorzinho?

Thomas Bernhard | Edição 57, Junho 2011

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Para a outorga do Prêmio Grillparzer da Academia de Ciências, em Viena, precisei comprar um terno, porque, duas horas antes da solenidade, compreendi de repente que não podia comparecer a essa cerimônia sem dúvida extraordinária trajando calça e suéter, de tal modo que, com efeito, no chamado Graben, tomei a decisão de ir ao Kohlmarkt a fim de me paramentar adequadamente e, munido de tal propósito, dirigi-me à loja de confecções masculinas que ostentava o sugestivo nome de SirAnthony, a qual, por ter diversas vezes efetuado ali minhas compras de meias, eu conhecia tão bem e cujo salão adentrei às nove e quarenta e cinco, sendo que a outorga do Prêmio Grillparzer estava marcada para as onze, ou seja, eu tinha muito tempo. Embora pretendesse comprar um terno pronto, queria o melhor, lã pura na cor grafite, além de meias combinando, uma gravata e uma camisa da marca Arrow, muito fina, com listras em cinza e azul. Todos sabem como é difícil se fazer entender de imediato nessas lojas mais finas, onde, ainda que o cliente diga logo o que deseja, e da maneira mais precisa, ele é de início encarado com incredulidade, até que repita seu pedido. Mas é claro que, mesmo depois disso, o vendedor com quem falei não me compreendeu. Assim sendo, também quando dessa minha visita à Sir Anthony, demorou mais do que o necessário para que eu fosse conduzido às prateleiras em questão. Na verdade, graças a minhas aquisições de meias, eu conhecia bem a loja e sabia melhor que o vendedor onde encontrar o terno que procurava. Dirigi-me à prateleira contendo os ternos em questão e apontei para um exemplar bastante específico, que o vendedor retirou do cabide para me mostrar. Examinei a qualidade do tecido e fui logo experimentar o terno no provador. Curvei-me para frente e para trás algumas vezes, e concluí que a calça me servia. Vesti o paletó, girei outras tantas vezes diante do espelho, ergui os braços, baixei-os: assim como a calça, o paletó me servia. Vestindo ainda o terno, caminhei alguns passos pela loja e aproveitei a oportunidade para escolher a camisa e as meias. Por fim, disse que levaria o terno, no corpo mesmo, e que queria vestir também a camisa e as meias. Escolhi uma gravata, passei-a em torno do pescoço, apertei-a o mais que pude, tornei a me avaliar no espelho, paguei e fui-me embora. A calça velha e o suéter foram embalados numa sacola com a inscrição Sir Anthony e, com a sacola na mão, atravessei o Kohlmarkt com o intuito de ir ter com minha tia, com quem havia combinado de nos encontrarmos no restaurante Gerstner, na Kärntnerstrasse, 1º andar. No Gerstner, pretendíamos ainda comer um ou dois sanduíches pouco antes da solenidade, com o intuito de prevenir qualquer náusea ou mesmo um desmaio no decorrer do procedimento. Minha tia, que já estava lá, classificou minha metamorfose como aceitável, emitindo seu famoso pois bem. Eu próprio, até essa data, passara anos sem usar terno, apresentando-me até então sempre de calça e suéter; mesmo ao teatro, quando ia, ia apenas de calça e suéter, de preferência uma calça cinza de lã e um suéter vermelho vivo de lã de ovelha, tricotado com pontos grossos, que um americano bem-humorado me dera de presente logo depois da guerra. Nesses trajes, lembro-me bem, viajei algumas vezes para Veneza e fui ao célebre Teatro La Fenice, numa dessas ocasiões a uma encenação do Tancredi de Monteverdi dirigida por Vittorio Gui, mas estive também com a mesma calça e o mesmo suéter em Roma, Palermo, Taormina, Florença e em quase todas as capitais europeias, à parte o fato de que essas eram as peças de roupa que quase sempre usava em casa também, e quanto mais gastos a calça e o suéter, mais eu gostava de vesti-los, durante anos a fio as pessoas me conheceram naquela calça e naquele suéter, e ainda hoje os amigos antigos me perguntam pela calça e pelo suéter, os mesmos que uso há mais de vinte e cinco anos. De repente, no Graben, como disse, e duas horas antes da outorga do Prêmio Grillparzer, senti de súbito que aquelas peças de roupa, que ao longo de décadas se haviam transformado numa espécie de extensão do meu corpo, não eram apropriadas a uma homenagem vinculada ao nome de Grillparzer, a ser realizada na Academia de Ciências. Ao me sentar no Gerstner, tive a sensação repentina de que a calça estava muito apertada, mas, pensei comigo, é sempre assim quando a calça é nova, também o paletó parecia-me agora apertado demais, o que, tornei a pensar, era normal. Pedi um sanduíche e, para acompanhar, um copo de cerveja. Minha tia perguntou-me quem, antes de mim, já havia recebido o tal Prêmio Grillparzer e, de pronto, ocorreu-me apenas o nome de Gerhart Hauptmann, informação que eu lera certa vez, quando, aliás, ficara sabendo da própria existência do Prêmio Grillparzer. O prêmio não é concedido regularmente, e sim conforme o caso, expliquei, pensando comigo que o intervalo entre as premiações costumava ser de seis ou sete anos, ou talvez de apenas cinco, não sabia bem, não sei até hoje. Naturalmente, também essa premiação me deixou nervoso, razão pela qual tentei distrair a mim mesmo e a minha tia do fato de que faltava apenas meia hora para o início da cerimônia e relatei a ela a monstruosidade, minha decisão, tomada em pleno Graben, de comprar um terno novo para a circunstância, e a naturalidade com que me dirigira à loja do Kohlmarkt onde se podiam adquirir ternos ingleses das firmas Chester Barry e Burberry. Já que ia comprar um terno pronto, voltei a pensar, por que não comprar logo um terno de primeira? E assim eu vestia agora um terno da firma Barry. Minha tia tocou o tecido e ficou satisfeita com a qualidade inglesa. Tornou a dizer seu famoso pois bem. Do corte, não disse nada. Era clássico. Ela estava muito feliz pelo fato de a Academia de Ciências conceder-me hoje seu Prêmio Grillparzer, disse, e orgulhosa também, mas sentia-se mais feliz que orgulhosa, completou, levantando-se, ao que eu a segui restaurante afora, descendo a Kärntnerstrasse. Uns poucos passos nos separavam da Academia de Ciências. A sacola com a inscrição Sir Anthony repugnava-me profundamente, mas eu não podia fazer nada. Vou me desfazer dela antes de entrar na Academia de Ciências, disse a mim mesmo. Para lá dirigiam-se também uns poucos amigos, que não queriam perder a homenagem, e nós os encontramos no saguão de entrada da Academia. Muitas pessoas já estavam ali reunidas, e parecia que também o salão nobre estava lotado. Os amigos seguiram seu caminho, e olhamos em volta, à procura de alguém encarregado de nos receber. Circulei várias vezes com minha tia, de um lado a outro do saguão, mas ninguém nos deu a menor atenção. Então vamos entrar, disse eu, pensando comigo que, no salão, seríamos recepcionados pela pessoa encarregada de nos encaminhar, a mim e a minha tia, a nossos lugares. Tudo no saguão sugeria tratar-se de uma cerimônia solene, o que fazia tremer meus joelhos. Tanto quanto eu, minha tia continuava a procurar alguém que viesse nos receber. Em vão. Assim sendo, postamo-nos simplesmente à porta de entrada do salão nobre e ficamos à espera. As pessoas, porém, espremiam-se para passar por nós e, com frequência, nos abalroavam, forçando-nos a perceber que havíamos escolhido o local menos propício para nossa espera. Pensamos: mas, afinal, ninguém virá nos receber? Entreolhamo-nos. O salão já estava quase totalmente tomado, e, aliás, com o propósito único de me outorgar o Prêmio Grillparzer da Academia de Ciências, pensei comigo. E ninguém aparece para receber a mim e a minha tia. Em seus 81 anos, ela estava maravilhosa, uma mulher elegante, inteligente e, naquele momento, mais corajosa que nunca, pareceu-me. Agora, no palco, lá na frente, alguns músicos da filarmônica já haviam ocupado seus postos, e tudo sugeria que a solenidade estava para começar. Nossa presença, no entanto, que deveria constituir o centro daquilo tudo, ou assim pensávamos, ninguém havia notado. Foi então que, de súbito, tive uma ideia: nós entramos, disse eu a minha tia, sentamo-nos ali no meio do salão, onde ainda tem alguns lugares vagos, e esperamos. Entramos, pois, no salão, e escolhemos dois lugares vagos a meio caminho do palco, fazendo com que muitas pessoas precisassem se levantar e reclamassem conosco, conforme nos espremíamos para passar por elas. Agora, lá estávamos nós, sentados na décima ou décima primeira fila, esperando bem no meio do salão nobre da Academia de Ciências. Todos os chamados convidados de honra já haviam se acomodado. Mas a solenidade, é claro, não começava. E só eu e minha tia sabíamos o porquê. No palco, lá na frente, cavalheiros agitados corriam de um lado para outro a intervalos cada vez menores, como se procurassem alguma coisa. E, de fato, procuravam alguma coisa, isto é, procuravam por mim. Aquele vaivém dos cavalheiros no palco durou algum tempo, ao longo do qual uma inquietação esparramou-se pela sala. Nesse ínterim, até a ministra das Ciências já chegara e se acomodara na primeira fila. Ela havia sido recebida pelo presidente da Academia, que se chamava Hunger, e fora conduzida ao seu assento. Outra fileira de assim chamados dignitários, gente que eu desconhecia, também tinha sido recebida e levada a essa primeira ou à segunda fila. De repente, vi um senhor no palco sussurrar alguma coisa ao ouvido de outro senhor, ao mesmo tempo que, com o braço esticado, apontava para a décima ou décima primeira fila, e só eu sabia que ele apontava para mim. Passou-se, então, o seguinte: o senhor que sussurrara alguma coisa ao ouvido do outro senhor e apontara para mim atravessou o salão, veio até minha fila, precisamente, e, uma vez nela, abriu caminho até mim. Ora, disse ele, por que o senhor, que é o protagonista desta homenagem, se sentou aqui, e não lá na frente, na primeira fila, onde nós – e “nós” foi de fato o pronome que ele utilizou – reservamos dois lugares, um para o senhor, outro para sua acompanhante? Por que isso?, tornou a perguntar, e foi como se todos os olhares no salão houvessem se voltado para mim e para aquele senhor. O presidente, disse ele, solicita que o senhor venha para a frente; por favor, venha para a frente, senhor Bernhard, seu lugar é ao lado da senhora ministra. Pois não, respondi-lhe, se é tão simples assim, eu vou, mas, claro, só vou para a primeira fila depois de convidado pessoalmente pelo presidente Hunger, é evidente, só depois de o presidente Hunger em pessoa me convidar a fazê-lo. Minha tia permaneceu em silêncio durante essa cena, todos os convidados olhavam para nós, e o referido senhor tornou a abrir caminho pela fila, foi em direção ao palco e, lá na frente, sussurrou alguma coisa ao ouvido do presidente Hunger, ao lado da senhora ministra. A seguir, eclodiu grande inquietação, que só não se fez absolutamente terrível graças aos músicos da filarmônica, que beliscavam as cordas de seus instrumentos, e vi o presidente Hunger vindo em minha direção. Agora, pensei comigo, seja firme, mantenha-se inflexível, corajoso, coerente. Não se mostre acolhedor, assim como acolhedores, no verdadeiro sentido da palavra, tampouco eles se mostraram. Quando chegou a mim, o presidente Hunger disse que lamentava; o que, exatamente, ele lamentava, não me disse. Pediu-me então que, por favor, eu fosse com minha tia para a primeira fila, uma vez que meu lugar e o de minha tia eram aqueles entre o da senhora ministra e o dele próprio. Acompanhamos, pois, minha tia e eu, o presidente Hunger até a primeira fila. Depois de nos sentarmos e de um murmúrio indefinido percorrer todo o salão nobre, a homenagem pôde enfim começar. Creio que a filarmônica tocou uma peça de Mozart. Depois, seguiram-se alguns discursos sobre Grillparzer, uns mais extensos, outros menos. Em dado momento, ao olhar para ela, vi que a senhora ministra Firnberg – era esse o seu nome – adormecera, fato que tampouco escapara ao presidente Hunger, uma vez que a ministra roncava, baixinho, mas roncava, roncava o suave ronco ministerial, famoso no mundo todo. Minha tia acompanhava a chamada homenagem com grande atenção, vez por outra olhava para mim, assentindo, quando uma formulação em algum dos discursos soava demasiado parva ou apenas demasiado cômica. Tivemos, nós dois, nossa grande experiência. Por fim, depois de cerca de uma hora e meia, o presidente Hunger se levantou, subiu ao palco e anunciou a outorga do Prêmio Grillparzer, concedido a mim. Leu algumas palavras de louvor a meu trabalho, não sem mencionar duas ou três peças de teatro supostamente de minha autoria, mas que eu não havia escrito, e enumerou uma série de celebridades europeias agraciadas com o Prêmio Grillparzer antes de mim. O senhor Bernhard recebia o prêmio por sua peça Ein Fest für Boris (Uma Festa para Boris, a mesma peça que, um ano antes, havia sido pessimamente encenada pelo Burgtheater no teatro da Academia), disse Hunger, que em seguida abriu os braços, como se pretendesse me abraçar. Era o sinal para que eu subisse ao palco. Levantei-me e caminhei até o presidente. Ele apertou minha mão e me entregou o chamado diploma, de um mau gosto insuperável, como, aliás,o de todas as outras premiações que recebi na vida. Eu não tinha a intenção de dizer nada ali no palco, e nada me foi exigido. Assim, para sufocar meu embaraço, murmurei apenas um breve Obrigado!, desci rumo à plateia e tornei a me sentar. A seguir, também o senhor Hunger se acomodou, e os músicos da filarmônica executaram uma peça de Beethoven. Enquanto tocavam, pus-me a refletir sobre toda aquela recém-concluída homenagem, de uma singularidade, de um mau gosto e de uma desconsideração de que, naturalmente, eu ainda nem podia ter consciência. Mal os músicos haviam terminado de tocar, a ministra Firnberg e, de pronto, também o presidente Hunger rumaram de volta para o palco. Agora, estavam todos de pé no salão, comprimindo-se na direção do palco e, é claro, também da ministra e do presidente Hunger, que conversava com ela. Desconcertado e sem saber o que fazer, eu me postara com minha tia logo ali ao lado, e ouvíamos o falatório cada vez mais agitado das cerca de mil pessoas presentes. Passado algum tempo, a ministra olhou em torno e, numa voz de inimitáveis arrogância e estupidez, perguntou: Mas cadê o escritorzinho? Eu me encontrava bem ao lado dela, mas não ousei me identificar. Puxei minha tia e saímos do salão. Sem que ninguém nos impedisse ou mesmo nos dispensasse a menor atenção, deixamos a Academia de Ciências por volta da uma da tarde. Lá fora, amigos nos aguardavam. Com eles, fomos comer na chamada Gösser Bierklinik. Um filósofo, um arquiteto, suas respectivas esposas e meu irmão. Só gente divertida. Já não me lembro o que foi que comemos. Quando, durante o almoço, me perguntaram de quanto era o prêmio, dei-me conta efetivamente de que a premiação não envolvia nenhuma soma em dinheiro. Foi somente então que passei a sentir de fato minha humilhação como o mais desavergonhado descaramento. Afinal, o Prêmio Grillparzer da Academia de Ciências era uma das maiores honrarias que um austríaco podia receber, disse alguém à mesa, creio que o arquiteto. Uma monstruosidade, comentou o filósofo. Meu irmão, como sempre acontecia nessas ocasiões, permaneceu em silêncio. Depois do almoço, tomado pela súbita sensação de que o terno recém-adquirido era apertado demais, nem pensei muito: fui até a loja do Kohlmarkt, ou seja, à Sir Anthony, e declarei, num tom enérgico, mas não desprovido da máxima gentileza, que desejava trocá-lo, que o terno que, como era sabido, eu havia acabado de comprar, era no mínimo um número abaixo do meu. Foi minha determinação que fez com que o vendedor abordado se encaminhasse imediatamente para a prateleira de onde saíra meu terno. Sem qualquer contestação, ele permitiu que eu me enfiasse em outro terno de modelo idêntico, só que um número maior, e de pronto tive a sensação de que aquele, sim, me servia. Como pudera, uma hora antes, acreditar que o de número menor me servia? Levei as mãos à cabeça. Agora, sim, trajava o terno de número efetivamente adequado e, sentindo grande alívio, fui-me embora. Quem comprar o terno que acabo de devolver não vai saber que ele já me acompanhou à outorga do Prêmio Grillparzer da Academia de Ciências de Viena, pensei comigo. Era um pensamento absurdo. E foi esse pensamento absurdo que me fez recobrar o ânimo. Passei uma tarde prazerosa com minha tia, com quem volta e meia ria do fato de que, na Sir Anthony, haviam trocado meu terno sem demora, embora eu já o tivesse usado quando da outorga do Prêmio Grillparzer da Academia de Ciências. Que o pessoal da Sir Anthony no Kohlmarkt tenha sido tão solícito é coisa que jamais vou esquecer.