memória

O presente infinito

No início do século XXI, a multiplicação de nossos rastros abolia a sensação do tempo que passa

Annie Ernaux
Os espaços com as mercadorias eram cada vez maiores e mais bonitos, meticulosamente limpos, contrastando com o abandono do metrô e das escolas públicas. Um ano inteiro não bastaria para experimentar todos os tipos de iogurtes
Os espaços com as mercadorias eram cada vez maiores e mais bonitos, meticulosamente limpos, contrastando com o abandono do metrô e das escolas públicas. Um ano inteiro não bastaria para experimentar todos os tipos de iogurtes Foto: ANDREAS GURSKY_99 CENT II DIPTYCHON_1999_EXPOSIÇÃO “ARTS & FOODS”, MILÃO, 2015/RICCARDO BIANCHINI_ALAMY STOCK PHOTO

O ano 2000 estava chegando. Era difícil acreditar que estaríamos vivos para ver a passagem do milênio. Sentíamos pena das pessoas que morriam antes. Ninguém imaginava que as coisas fossem se passar de maneira normal, um “bug do milênio” estava anunciado, um distúrbio em escala planetária, uma espécie de buraco negro que anunciava o fim do mundo, o retorno à selvageria dos instintos. O século XX se fechava atrás de nós com incontáveis balanços, tudo era repertoriado, classificado, avaliado, as descobertas, as obras literárias e artísticas, as guerras, as ideologias, como se fosse preciso entrar no século XXI com a memória zerada. Um tipo de tempo solene e acusador – como se devêssemos tudo a ele – caía sobre nós e nos desfazia de nossas lembranças pessoais, daquilo que nunca tinha tido para nós esse caráter de totalidade – “o século” –, mas constituía simplesmente um fluxo de anos mais ou menos relevantes de acordo com as mudanças na nossa própria vida. No século que se aproximava, as pessoas que tínhamos conhecido na infância e das quais não tivemos mais notícias, os nossos pais e os avós, todos estariam definitivamente mortos.

Os anos 90 recém-vividos não tinham um significado específico, eram anos de desilusão. Vendo o que acontecia no Iraque – onde os Estados Unidos matavam a população de fome e a ameaçavam frequentemente com ataques, onde crianças morriam por falta de medicamentos –, em Gaza ou na Cisjordânia, na Tchetchênia, no Kosovo, na Argélia etc., era melhor não se lembrar do aperto de mão entre Arafat e Clinton em Camp David, nem da “nova ordem mundial” anunciada, ou de Yeltsin em seu tanque.[1] Na verdade, bem pouca coisa valia a pena ser lembrada, talvez as noites nebulosas de dezembro de 1995, já tão distantes, sem dúvida, quando houve a última grande greve do século.[2] E, em segundo plano, a bela e infeliz princesa Diana, morta em um carro na ponte de l’Alma, ou o vestido azul de Monica Lewinsky, manchado com o esperma de Bill Clinton. Pairando por cima de tudo, a Copa do Mundo de futebol. As pessoas adorariam poder reviver, todas juntas em frente à tevê, as ruas desertas atravessadas somente por entregadores de pizza, as semanas de espera que nos conduziam, de jogo em jogo, até aquele domingo e aquele instante em que, em meio ao clamor e ao êxtase, poderíamos ter morrido juntos de tanta alegria por ter a França vencido – só que era o contrário exato da morte – e nos entregar a um único desejo, uma única imagem, uma única narrativa. Foram dias fascinantes, cujos vestígios irrisórios eram as propagandas da água Evian e da rede Leader Price com o rosto de Zidane, espalhadas pelas paredes do metrô.

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Annie Ernaux

escritora francesa, é autora de Paixão Simples, um romance autobiográfico lançado no Brasil pela Objetiva.

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