memória

O presente infinito

No início do século XXI, a multiplicação de nossos rastros abolia a sensação do tempo que passa

Annie Ernaux
Os espaços com as mercadorias eram cada vez maiores e mais bonitos, meticulosamente limpos, contrastando com o abandono do metrô e das escolas públicas. Um ano inteiro não bastaria para experimentar todos os tipos de iogurtes
Os espaços com as mercadorias eram cada vez maiores e mais bonitos, meticulosamente limpos, contrastando com o abandono do metrô e das escolas públicas. Um ano inteiro não bastaria para experimentar todos os tipos de iogurtes Foto: ANDREAS GURSKY_99 CENT II DIPTYCHON_1999_EXPOSIÇÃO “ARTS & FOODS”, MILÃO, 2015/RICCARDO BIANCHINI_ALAMY STOCK PHOTO

Tradução de Marília Garcia

O ano 2000 estava chegando. Era difícil acreditar que estaríamos vivos para ver a passagem do milênio. Sentíamos pena das pessoas que morriam antes. Ninguém imaginava que as coisas fossem se passar de maneira normal, um “bug do milênio” estava anunciado, um distúrbio em escala planetária, uma espécie de buraco negro que anunciava o fim do mundo, o retorno à selvageria dos instintos. O século XX se fechava atrás de nós com incontáveis balanços, tudo era repertoriado, classificado, avaliado, as descobertas, as obras literárias e artísticas, as guerras, as ideologias, como se fosse preciso entrar no século XXI com a memória zerada. Um tipo de tempo solene e acusador – como se devêssemos tudo a ele – caía sobre nós e nos desfazia de nossas lembranças pessoais, daquilo que nunca tinha tido para nós esse caráter de totalidade – “o século” –, mas constituía simplesmente um fluxo de anos mais ou menos relevantes de acordo com as mudanças na nossa própria vida. No século que se aproximava, as pessoas que tínhamos conhecido na infância e das quais não tivemos mais notícias, os nossos pais e os avós, todos estariam definitivamente mortos.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES

Annie Ernaux

Escritora francesa, é autora de Paixão Simples, um romance autobiográfico lançado no Brasil pela Objetiva