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    A pesca em Taiji, no Japão, no século XVIII: as baleias se comunicam a grande distância; o canto das jubartes na Costa de Porto Rico é ouvido por baleias na Terra Nova, no Canadá CRÉDITO: TAIJI, WAKAYAMA, JAPÃO, C. 1773_METAMORPHIC IMAGES_ALAMY STOCK PHOTO

questões cetáceas

O que fizemos com as baleias?

Elas já foram o símbolo dos nossos esforços para salvar o planeta. Hoje, são o símbolo de como estamos devastando tudo

Amia Srinivasan | Edição 190, Julho 2022

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Tradução de Sergio Tellaroli

Em novembro de 2019, alguém postou no Instagram um vídeo feito por um drone de uma baleia-cinzenta nadando perto da superfície do mar em Dana Point, na Costa da Califórnia. No vídeo, a baleia jovem, de cerca de 8 metros, nada devagar em direção a um grupo de surfistas, a cauda ondulante produzindo arcos de espuma. De repente, ela emerge da água e exala o ar por seu orifício respiratório, o chamado espiráculo. Alguns surfistas, assustados, se afastam, mas a maioria parece nem notar sua presença. A baleia mergulha de novo, uma silhueta fantasmagórica, desliza para além dos surfistas e vai embora.

Eu tinha surfado ali poucas semanas antes. Se estivesse na água naquele dia e, subitamente, visse o corpo da baleia debaixo de mim, gigantesco e silente, teria congelado de medo por um momento. Como não? Estar perto de uma baleia na natureza – não num barco, mas na água – é como encontrar a corporificação de uma força cuja escala engole a nossa em todas as dimensões – em tamanho físico, em idade evolucionária, em viagens polares. O medo evocado pela baleia não é um juízo de caráter. As baleias quase nunca nos fazem mal e, quando fazem, a culpa é invariavelmente dos humanos. No entanto, o que sou eu para uma baleia? Depois que ela fosse embora, meu terror teria se dissolvido numa emoção duradoura: a de ter topado com a vida em sua forma mais gigantesca, mais antiga; a de ter sido abençoada, no sentido mais pagão do termo. Ao se aproximar dos surfistas, a baleia os trouxe para mais perto de seu domínio desconhecido, oferecendo-lhes a comunhão líquida pela qual todo surfista anseia em silêncio: ser absorvido pelo mar, devolvido a ele, dissolver-se nele.

Em seu magistral Fathoms: The World in the Whale (Braças: o mundo na baleia),[1] de 2020, Rebecca Giggs pergunta: “Saberíamos reconhecer o momento em que se torna tarde demais, em que os oceanos deixam de ser infinitos?” Ela se refere ao momento em que os oceanos se apresentam tão desfigurados pela atividade humana que, diante deles, vemos apenas nós mesmos. Sua resposta é que esse momento já chegou, e a maioria de nós não está percebendo. Para Giggs, a baleia é um símbolo possante, mas enganoso, da infinitude do oceano, de sua alteridade e de sua expansividade. Tendemos a pensar na baleia como um caso de redenção operada por seres humanos: uma criatura quase extinta pela caça comercial dos séculos XIX e XX que acabou sendo salva pelo reconhecimento coletivo de que, como ativistas disseram à ONU em 1972, as baleias são “a herança comum da humanidade”.

Desde 1986, quando a Comissão Internacional da Baleia (IWC, na sigla em inglês) começou a impor uma moratória global à caça comercial, muitas populações de baleias, antes próximas da extinção, se recuperaram. A deposição dos arpões e o retorno das baleias parecem não ser apenas um testemunho de nossa empatia com criaturas que, como nós, cuidam de sua prole, criam cultura e cantam canções, mas também uma prova de nossa humanidade e nosso respeito por aquilo que está além de nós. Na verdade, argumenta Giggs, o consumo massificado e as chamadas cadeias de suprimento globalizadas, bem como as emissões de carbono e o lixo plástico, ameaçam criar um mar “não cheio de mistérios e inexplicável em sua profundidade, e sim salpicado dos detritos sinistramente familiares da vida humana”. Em 2017, uma baleia-bicuda-de-cuvier encalhou numa praia de Bergen, na Noruega. Em seu estômago, foram encontrados cerca de trinta tipos de lixo plástico, entre eles embalagens de frango ucraniano, sorvete dinamarquês e batatas fritas britânicas. Esse é o “mundo na baleia” de que fala o título do livro de Giggs: em vez de um domínio desconhecido, a realidade totalizada da dominação humana.

 

Ao longo de grande parte da história da humanidade, matar baleias foi uma empreitada de extrema dificuldade em decorrência do tamanho delas. Baleias-cinzentas podem alcançar 15 metros de comprimento e pesar 40 toneladas. A baleia-azul, a maior criatura que nosso mundo já viu, pode chegar a quase 30 metros e 190 toneladas. O vapor que as baleias exalam por meio de seu espiráculo é tão denso que produz um arco-íris. A prova mais antiga da prática da caça à baleia data, talvez, de 8 mil anos. Está na Coreia do Sul, onde gravuras no xisto do período Neolítico retratam animais marinhos sendo caçados com lanças e boias improvisadas.

Tradicionalmente, os caçadores de baleias precisavam atormentar sua presa até a morte, o que demandava muitos dias e noites. Para tanto, usavam porretes e lanças, às vezes com veneno na ponta, para ferir as baleias e deixá-las exaustas, enquanto boias eram empregadas para impedir que mergulhassem e fugissem do predador. Os inuítes construíam suas boias estripando focas, costurando seus orifícios e inflando-as. Todas as culturas nativas que caçavam baleias para sua subsistência – na Península da Coreia, no noroeste do Pacífico, no Alasca, em Zanzibar, na Sibéria, no Canadá, na Groenlândia, na Islândia ou na Noruega – trabalhavam por sua própria conta e risco e, com rituais elaborados e parcimônia, usavam as muitas partes da baleia como alimento, abrigo ou amuleto.

Então, no século XVI, baleeiros bascos criaram um comércio global, graças a um avanço tecnológico, que consistia em prender um arpão de ferro com farpa dupla a uma corda entrançada que podia ser disparado a grande velocidade a partir do convés de um barco. Embora o arpão fosse incapaz de penetrar até os órgãos vitais da baleia, a farpa dupla na ponta tornava quase impossível desalojá-lo da gordura do animal. Assim, amarrada ao barco, a baleia não tinha como escapar das lanças dos caçadores.

Logo, os baleeiros bascos dizimaram populações inteiras ao longo da costa do Golfo de Biscaia. Barcos maiores, por sua vez, viabilizaram a caça em mar aberto – a chamada “caça pelágica” – e tornaram possível a perseguição a várias espécies em diferentes pontos, de acordo com sua rota migratória. Perto de Terra Nova, no Canadá, caçadores bascos mataram cerca de 40 mil baleias entre 1530 e 1610, o que os transformou, por algum tempo, nos campeões mundiais da caça ao animal. Seu método preferido era alvejar filhotes e, em seguida, as mães que corriam a socorrê-los.

A caça à baleia passou a ser praticada o ano todo. Holandeses, dinamarqueses e britânicos aderiram. No final do século XVIII, a caça comercial havia se expandido para a África do Sul e a Nova Zelândia. Os colonos nos Estados Unidos foram pioneiros na extração do óleo da gordura da baleia, que era feita ainda a bordo. A carcaça do animal era acorrentada à lateral do barco, e roldanas giravam-na, enquanto lâminas no formato de foices descascavam a baleia feito uma laranja: depois, a gordura era separada da carne e da pele e liquefeita em imensos caldeirões de ferro fundido com água por baixo, para evitar atear fogo à embarcação. Ao transformar seus barcos em abatedouros móveis, os norte-americanos puderam caçar as baleias então abundantes em águas equatoriais, evitando que as carcaças dos animais apodrecessem no caminho de volta para casa. Além disso, começaram a usar canhões lança-arpão e arpões explosivos, o que permitiu aumentar a distância entre caçador e presa. Em meados do século XIX, a caça pelágica era a quinta maior atividade industrial dos Estados Unidos.

Por que baleias? Tanto quanto a caça tradicional, a caça comercial à baleia visava sobretudo à carne do animal, um alimento que o Vaticano aprovava para as sextas-feiras sem carne. No século XIX, porém, as baleias já eram estimadas por ser fonte de algo bem mais valioso: óleo. Em 1854, o óleo de baleia, extraído da gordura, era comercializado, em valores de hoje, a 18 dólares o galão. Uma única baleia-franca macho podia render 7 mil galões – ou 126 mil dólares. O óleo de baleia lubrificava as engrenagens nas fábricas, iluminava lojas e ruas e, usado como inseticida, estimulava a agricultura industrial. Caçavam-se cachalotes por seu espermacete, uma mistura de substâncias gordurosas que eles têm na cabeça. A gordura era usada como lubrificante em teares, trens e armas de fogo, além de, mais importante ainda, como matéria-prima para velas finas.

New Bedford, em Massachusetts, centro da caça aos cachalotes, era chamada de “a cidade que iluminava o mundo”. As barbas, ou seja, as cerdas que determinadas baleias possuem no lugar de dentes, como é o caso das jubartes, eram usadas em espartilhos, guarda-sóis, escovas de cabelo, varas de pescar, calçadeiras, armações de óculos, abas de chapéu, estofamento de sofás, cassetetes e nas finas varas usadas para castigar alunos malcomportados nas escolas. Cada vez mais, as baleias passaram a ser encaradas não como presas, e sim como um recurso natural a ser explorado. Caçadores referiam-se aos cachalotes em migração como veios sulcando o oceano, feito ouro.

Estima-se que 230 mil cachalotes tenham sido mortos no século XIX. No século XX, esse número subiu para mais de 700 mil. No total, quase 3 milhões de baleias de todas as espécies foram mortas no século passado (a caça humana reduziu a biomassa mundial de grandes baleias em 80%). A caça à baleia no início do século XX era um negócio verdadeiramente internacional, liderado por conglomerados de frotas marítimas e capitais provenientes da Noruega, Reino Unido, Holanda, Alemanha, Japão, Austrália e Estados Unidos. Que a caça tenha se tornado mais agressiva vem a ser um desvio da trajetória esperada: afinal, no século anterior, a caça havia exaurido populações inteiras de baleias, e haviam sido encontrados abundantes substitutos para seu óleo, desde óleos vegetais mais baratos até derivados de petróleo.

Ocorre que a tecnologia náutica também tinha avançado, e barcos movidos a vapor e, mais tarde, a diesel permitiram a caça de espécies que antes eram rápidas demais – as baleias-azuis, as baleias-fin, as baleias-sei e as baleias-de-minke-antártica. Além disso, as embarcações estavam agora equipadas de armas mecanizadas, capazes de detonar e eletrocutar, assim como de ferramentas mais eficazes para processar as carcaças, como panelas de pressão, refrigeradores e braços hidráulicos que podiam erguer as baleias pela cauda. Esses barcos eram máquinas barulhentas, mas, uma vez dotados com a tecnologia dos radares e aviões de reconhecimento aperfeiçoados durante a guerra, conseguiam localizar e aproximar-se rapidamente das baleias, a “presa que tudo ouve”. Ao mesmo tempo, novos usos comerciais haviam sido descobertos para o óleo de baleia: em explosivos, no sabonete, na margarina, no batom, no gel para queimaduras e no tratamento do chamado “pé de trincheira”, doença provocada pela exposição prolongada à água fria e insalubre. A General Motors (GM) usou espermacetes no fluido de transmissão de seus carros até 1973. Durante a Guerra Fria, a substância era usada em mísseis intercontinentais e submarinos. A caça à baleia havia se tornado matéria de interesse militar.

A Comissão Internacional da Baleia foi formada em 1946 para regular a caça ao animal em águas internacionais. Mas as cotas impostas de início tiveram um resultado adverso: desencadearam uma corrida desvairada de caçadores, que estavam ansiosos para estocar óleo, na expectativa de que a futura escassez provocaria uma escalada dos preços. Frotas comerciais correram para abater todas as baleias possíveis, alvejando os animais e abandonando-os tão logo viam outros, mais gordos. Baleeiros puseram-se a caçar fora de estação e em santuários de baleias, além de, ilegalmente, matar filhotes. A lucrativa indústria baleeira de Aristóteles Onassis chegou ao fim quando seus próprios marinheiros descreveram para o jornal Norsk Hvalfangst-Tidende (Gazeta baleeira norueguesa) as práticas comuns nos navios-fábrica do magnata grego: “Pedaços de carne fresca das 124 baleias que matamos ontem ainda estão lá no convés. Quase nenhum dos animais era adulto. Sem qualquer emoção, a sangue-frio, tudo que passa diante do arpão é morto.”

Os caçadores comerciais do pós-guerra caçaram baleias do Hemisfério Sul até quase a “extinção comercial” – aquele ponto em que o custo de matar o animal já não vale a pena. As operações baleeiras norte-americanas e europeias encolheram, mas a causa foi levada adiante por dois países movidos por propósitos mais nacionalistas do que comerciais. A indústria baleeira soviética, que tivera início nos anos 1930, expandiu-se durante a Guerra Fria. A então União Soviética precisava dos espermacetes porque os embargos do Ocidente haviam cortado seu acesso a substitutos sintéticos. Mais do que isso: como entendia que ainda não tinha se apropriado de sua “porção” das baleias do mundo, o Estado soviético estabeleceu cotas altíssimas para sua indústria baleeira, ultrapassando em muito a demanda doméstica pela carne e pelo óleo do animal. Num frenesi para cumprir as metas estatais que determinam a quantidade de animais a serem mortos, navios soviéticos muitas vezes levavam para casa carcaças deterioradas demais para o consumo humano, ou simplesmente as lançavam no mar, sem processá-las. Entre 1959 e 1961, colheram quase 22 mil jubartes na Antártida.

O Japão, por sua vez, sofreu uma crise alimentar no pós-guerra que entrou pela década de 1960. A escassez foi desencadeada pela destruição de suas terras agrícolas e das cadeias de suprimento. Aconselhado pelo chefe da ocupação dos Aliados, general Douglas MacArthur, o país recorreu à caça às baleias. A carne de baleia, fonte barata de proteína, era servida às crianças do ensino primário e secundário, tornando-se um símbolo da resistência nacional. Embora hoje se coma no país uma quantidade muito pequena de carne de baleia – cerca de meio quilo por pessoa por ano –, a caça ao animal ainda é fortemente subsidiada pelo Estado. A maior parte da produção nem é consumida: é armazenada. Em 2019, um pesquisador da Universidade Rikkyo estimou em 3,7 mil toneladas o estoque japonês de carne de baleia. A imposição da moratória global por parte da IWC não dissuadiu o Japão de sua empreitada. Até 2019, quando abandonou a Comissão, o país explorou abertamente uma lacuna legal que permite matar baleias para fins de pesquisa científica e vender a carne restante como comida. Entre 2005 e 2014, cerca de 3,6 mil baleias-minke foram mortas por japoneses no Oceano Antártico. Disso, resultaram apenas dois artigos científicos.

A moratória da IWC, talvez o maior triunfo do movimento conservacionista no pós-guerra, foi estimulada por décadas de notícias terríveis. Em 1964, um comitê independente de biólogos já advertira que as populações de baleias do Hemisfério Sul estavam diante de “risco claro de extinção completa”. Os cientistas disseram que restavam então menos de 2 mil baleias-azuis na Antártida. Uma década mais tarde, eram 360, um declínio populacional de 99,85% desde 1905. Esse é o tipo de destruição em massa que os biólogos chamam de “efeito gargalo”, referindo-se à diminuição dramática do patrimônio genético de uma espécie, que pode chegar a ponto de tornar-se irreversível. Tão logo aqueles contrários à caça conseguiram a adesão à IWC de nações igualmente contrárias (muitas, aliás, sem acesso ao mar), os cientistas puderam adotar uma postura conservacionista mais explícita.

Além disso, foram auxiliados por uma grita mundial contra a matança das baleias. O Greenpeace, empregando uma estratégia que um de seus líderes caracterizou como “mais imagética do que ideológica”, valeu-se de vídeos de suas táticas dramáticas em alto-mar para evocar solidariedade e revolta. Uma manifestação de 15 mil pessoas contra a caça às baleias foi organizada em Londres. Fotografias do evento foram transmitidas pelo mundo todo. Livros populares foram escritos celebrando as baleias e lamentando sua morte – Uma Baleia para Matar, de Farley Mowat (1972), chamava a caça às baleias de um “Moloc moderno”, referindo-se ao deus a quem se sacrificavam crianças, segundo a tradição bíblica. O canto das baleias – registrado pela primeira vez, acidentalmente, por engenheiros navais norte-americanos que procuravam submarinos soviéticos na década de 1950 – tornou-se um grande sucesso comercial nos anos 1970. Songs of the Humpback Whale (Os cantos da jubarte), álbum de 1970, vendeu milhões de cópias. Forneceu uma trilha sonora natural para a tendência da década de abraçar a espiritualidade oriental, na medida em que prometia um portal auditivo para planos espirituais mais elevados, lembranças reprimidas e vidas passadas. A gravação era uma prova da inteligência e da sensibilidade desses animais. Em 1971, durante uma audiência sobre a preservação das baleias no Congresso norte-americano, protecionistas aproveitaram parte de seu testemunho para tocar o álbum. Um deles declarou: “Agora que os senhores as ouviram cantar, creio que poderão imaginar como seriam seus gritos.”

 

A mudança radical da imagem das baleias, de recurso a ser explorado a símbolo de uma herança global, é surpreendente – em parte porque as baleias não são exemplos típicos do que os conservacionistas consideram animais “carismáticos”. Os bichos que conquistam a solidariedade humana tendem a ser prontamente antropomorfizados (elefantes, chimpanzés, golfinhos), bonitinhos (filhotes de tigre, pangolins) ou – o Santo Graal da conservação animal – ambas as coisas (lontras). As baleias, ao contrário, são grandes demais para serem apreendidas facilmente pelo olho humano, que dirá remodeladas com formas humanas. São magníficas, é verdade, mas seria difícil considerá-las bonitinhas. Em Leviathan, or The Whale (Leviatã, ou a baleia), de 2008, Philip Hoare observa que a famosa foto da Terra tirada pelos astronautas da Apollo 17, em 1972, ficou famosa antes da primeira foto de uma baleia nadando livremente. “Soubemos que aspecto tinha a Terra antes de sabermos que aspecto tinha uma baleia”, escreve ele.

A incerteza humana no que se refere à baleia está refletida nas histórias que contamos há tanto tempo sobre ela. Em seus mapas, cartógrafos antigos usavam monstros híbridos, parte baleias, parte serpentes marinhas, para indicar os limites de seu conhecimento. No século XIII, marinheiros escandinavos diziam que as baleias se alimentavam da chuva e da escuridão. No século XVIII e no começo do XIX, quando começaram a classificar os animais de acordo com suas estruturas internas, em vez de considerar sua aparência exterior, os taxonomistas ficaram espantados ao descobrir sinais da história evolutiva das baleias como mamíferos de terra firme: os ossos das nadadeiras, um médico escreveu em 1820, parecem-se com a “mão humana […] envolta numa luva”.

E ainda há muito que não entendemos sobre as baleias. Elas navegam enormes distâncias – algumas jubartes nadam mais de 25 mil km por ano, três quintos da circunferência da Terra – auxiliadas por aparatos sensoriais desconhecidos e seguindo rotas migratórias que, de alguma maneira, são transmitidas de pai para filho. Os cientistas sabem que as vocalizações das baleias – o canto das jubartes, a conversa das belugas, os poderosos estalidos dos cachalotes (que chegam a 236 dB, o som animal mais alto do planeta) – desempenham importante função comunicativa. As baleias se comunicam, conversam talvez, a grande distância. O canto das jubartes na Costa de Porto Rico é ouvido por baleias próximas à Terra Nova, no Canadá, a mais de 3 mil quilômetros de distância. Seu canto “viraliza” pelo mundo todo. Alguns cientistas acreditam que certas linguagens das baleias se equiparam às nossas em sua complexidade expressiva. O cérebro de um cachalote é seis vezes maior que o nosso e possui mais neurônios fusiformes, como são chamadas as células associadas tanto à empatia quanto à fala.

Mas ninguém sabe o que as baleias estão dizendo umas às outras, ou o que podem estar tentando nos dizer. Noc, uma beluga que viveu 22 anos em cativeiro como parte de um programa da Marinha dos Estados Unidos, aprendeu a imitar tão bem a linguagem humana que um mergulhador confundiu sua voz com a de um colega e obedeceu a sua ordem de sair da água. Uma gravação da voz de Noc pode hoje ser ouvida online: nasal, submersa, mas falando claramente algo parecido com inglês. No mínimo, imita melhor a voz humana do que um humano seria capaz de imitar a de uma baleia.

A aura das baleias está na síntese única entre sua natureza indizível e sua natureza mamífera. Elas são enormes e estranhas. Mas – em seus laços familiares estreitos, em suas formas culturais, em seu tagarelar incessante – são como nós. Contida em seu mistério está a possibilidade de que sejam bem mais parecidas conosco do que sabemos, de que sua vida interior seja tão sofisticada quanto a nossa, talvez até mais. Na verdade, é possível que sejam criaturas como as humanas, só que melhores: brilhantes, gentis, deusas profundas do mar.

 

A moratória da IWC para a caça comercial às baleias inclui importantes exceções. Confere direitos especiais de caça a comunidades nativas, como as do Alasca, da Península de Chukchi, na Rússia, da Groenlândia e aos residentes da Ilha Bequia, no arquipélago caribenho das Granadinas. Exclui, ainda, espécies classificadas como “pequenos cetáceos”, como a baleia-piloto-de-peitorais-longas, uma espécie de golfinho caçado na costa do Arquipélago Féroe, território dinamarquês autônomo que fica cerca de 320 km ao Norte da Escócia. (Ao contrário da Dinamarca, as Ilhas Féroe não integram a União Europeia, que proíbe a caça de baleias e golfinhos.) A grindadráp – ou grind – é uma caçada tradicional que remonta pelo menos a 1298, quando surgiu a primeira lei a regulá-la. Registros do evento são mantidos desde 1584 (o maior arquivo desse tipo existente) e mostram que, nos últimos três séculos, os feroeses têm matado em média 838 baleias-piloto por ano. Há tempos a grind ocupa o centro das atenções dos que combatem a caça às baleias: fotografias terríveis de fileiras de baleias pretas mortas, o pescoço cortado, flutuando num mar vermelho-vivo de sangue, provocam revolta no Facebook e no Twitter. Os feroeses defensores da grind argumentam que a caçada é não apenas tradição cultural, mas também prática sustentável e ecologicamente correta. Destacam que monitoram a população de baleias-piloto e caçam anualmente apenas uma pequena proporção. Além disso, consomem os animais que matam. Numa paisagem ártica que não permite a agricultura, os habitantes das ilhas afirmam ainda depender do mar para se alimentar.

A ironia é que as baleias-piloto, assim como as baleias do mundo todo, estão deixando de ser comestíveis. Sua gordura armazena toxinas lançadas ao mar pela agricultura, pela mineração e pela condensação das emissões dos poluentes da atmosfera, um efeito intensificado pela longevidade das baleias. Os níveis de mercúrio são tão elevados nas baleias-piloto que cientistas aconselharam os feroeses a diminuir o consumo de carne do animal, o que, por sua vez, pode obrigá-los a importar proteína produzida em outras partes – e, assim, contribuir para o aumento das emissões de carbono. Em razão dos níveis de mercúrio nas belugas e em outros animais marinhos, o leite materno das inuítes da Groenlândia, um dos lugares menos industrializados do planeta, tornou-se uma substância perigosa. Estudos sugerem que o nível de exposição ao mercúrio dos inuítes é comparável ao daqueles que vivem a jusante de minas de ouro na China. As orcas no Estuário de Puget, no estado norte-americano de Washington, já foram declaradas um dos animais mais tóxicos do planeta. As carcaças das belugas que encalham nas praias do Canadá são classificadas como lixo tóxico. Os matadores mais prolíficos de baleias não são mais os caçadores: somos todos nós, criaturas do capitalismo tardio cujo padrão de consumo nos faz cúmplices, ainda que inadvertida e involuntariamente, de um crescente biocídio em massa.

As baleias consomem boa parte dos 8 milhões de toneladas de plástico que chegam anualmente aos oceanos, onde formam redemoinhos de lixo conhecidos como “giros”, podendo expandir-se por quilômetros. Muitas vezes, esse plástico provém de embalagens que nos permitem consumir, durante o ano inteiro, produtos alimentícios fora de estação. Um cachalote que encalhou na Costa da Espanha em 2018 levava toda uma estufa de plantas dentro da barriga: a estrutura achatada e as lonas impermeáveis, as mangueiras, as cordas, os vasos de flores e os borrifadores. A estufa pertencia a uma empresa andaluza que cultivava tomates hidropônicos para exportar para países de clima mais frio.

O desperdício de comida na cadeia de suprimento globalizada responde por 8% das emissões de carbono (as viagens aéreas são responsáveis por apenas 2,5%), e essas emissões derretem o gelo de que as baleias dependem indiretamente para encontrar comida. Desde a década de 1970, com a perda das algas que crescem no gelo, a população de krill caiu entre 70 e 80% na Antártida. O barulho produzido pelo transporte marítimo – 80% das mercadorias são hoje transportadas por cargueiros – fez encolher o mundo das baleias: atualmente, a distância que suas vocalizações são capazes de percorrer é um décimo do que era há sessenta anos. Baleias têm encalhado na Costa do Peloponeso com os ouvidos sangrando, um efeito da descompressão provocada por treinamentos militares antissubmarino.

Os ecologistas têm alertado que as alterações associadas às mudanças climáticas podem levar à extinção súbita até mesmo das populações relativamente grandes de baleias. Há sinais de que isso já esteja acontecendo. Em 2015, foram encontradas 343 baleias-sei – uma espécie ameaçada – mortas na Costa da Patagônia chilena, provavelmente devido ao florescimento de algas tóxicas. A baleia-sei, afirmam os cientistas, poderia ser “uma das primeiras vítimas do aquecimento global na megafauna oceânica”. Paralelamente, como as baleias são enormes sumidouros de carbono, a era da caça comercial acelerou a crise climática. De acordo com uma estimativa, um século de caça às baleias equivale a queimar 284 mil km2 de floresta. Os lummi, habitantes da costa do Mar de Salish, entre os Estados Unidos e o Canadá, começaram a alimentar as orcas selvagens com salmão, porque os animais estão morrendo de fome em decorrência dos efeitos da poluição e das mudanças climáticas. “Elas são nossos parentes debaixo das ondas”, disse um deles.

 

Em 2017, numa praia da Argentina, um filhote de golfinho encalhado foi morto por uma multidão de turistas ávidos por tirar uma selfie com o animal. Coisa semelhante já havia acontecido no ano anterior, quando um filhote de golfinho da espécie La Plata encalhou em uma praia de Santa Teresita, na província de Buenos Aires: o animal foi passado de um turista a outro até morrer de desidratação. Historiadores da ecologia podem, um dia, vir a escrever sobre o início do século XXI como uma época de obsessão cultural frenética com animais selvagens. Como observa Rebecca Giggs, esse frenesi foi impulsionado pela ascensão das mídias sociais. No Twitter e no Facebook, animais bonitinhos tornaram-se o único antídoto para a fúria política. O Instagram nos estimula a “produzir” nossos encontros com o extraordinário, para que também possamos nos sentir extraordinários. Compelido pela busca da foto perfeitamente instagramável, o ecoturismo está em alta por toda parte, embora raras vezes cumpra a promessa de conciliar o impulso de consumir a natureza com o de preservá-la. Pelo menos 13 milhões de pessoas no mundo todo têm embarcado anualmente em excursões para observar baleias, o que resulta no uso de mais barcos a diesel, cada vez mais velozes. Mares de flores silvestres são pisoteados por influenciadores. Milhares de drones – como o que filmou a baleia nadando entre os surfistas em Dana Point – perturbam a vida selvagem, a mesma que capturam em imagens tão arrebatadoras.

Historiadores futuros terão a tarefa de explicar como esse amor que vivemos encenando pelos animais se relaciona com a maneira incansável como os exterminamos. Não se trata apenas de ignorância. Os turistas argentinos não sentiram o golfinho desfalecendo em seus braços? A maioria de nós não reconhece a contradição entre pegar um avião para viajar até o outro lado do mundo e ali perder-se na natureza? Quem não compreende o quanto o planeta é vulnerável ao nosso poder coletivo? Talvez tenha mais a ver com a vontade de se iludir: uma recusa a acreditar no que sabemos. Ou talvez estejamos apenas abraçando aquilo que pressentimos que acabará logo, registrando para a posteridade algo que na verdade não existe, como as mídias sociais nos ensinaram a fazer. Vejam aqui meu feriado sensacional, vejam aqui a felicidade do dia do meu casamento, vejam aqui a vastidão do mar, vejam aqui uma baleia.


[1] Em inglês, o substantivo fathom refere-se à braça, a antiga medida de comprimento (ainda em uso no Brasil). O verbo to fathom significa “compreender”, no sentido de quem tenta decifrar o desconhecido. No título do livro, as duas acepções se fundem para denotar, a um só tempo, o esforço de compreensão e a distância. (N. T.)