vultos da cultura

O que se pode saber de um homem?

Assim como Macunaíma, Mário de Andrade, seu criador, encarna as ambivalências brasileiras

José Miguel Wisnik
Fascinado pelo mundo mestiço e pobre do qual vinha e do qual estava afastado socialmente, o escritor mergulhou no universo popular pela via da cultura e da sexualidade
Fascinado pelo mundo mestiço e pobre do qual vinha e do qual estava afastado socialmente, o escritor mergulhou no universo popular pela via da cultura e da sexualidade FOTO: ACERVO OURO SOBRE AZUL

Quando estudei modernismo e música para o mestrado e o doutorado, ler Mário de Andrade de ponta a ponta era o primeiro requisito e o alvo final de um trabalho que me envolveu durante toda a década de 70. Fiquei familiarizado com seu estilo, suas obsessões, tiradas, idiossincrasias, seus dilaceramentos, gozos, giros interpretativos e com os meandros de suas análises. Com os meneios de sua prosa e poesia, ensaio e ficção, cartas caudalosas e anotações miúdas de pesquisa. Posso dizer que conheço de perto essa persona intelectual. Ouvir a voz, no entanto – ou por isso mesmo –, foi como levar um soco. A voz de Mário, falando e cantando, revelada recentemente por um áudio que estava perdido numa universidade americana, surpreende quem conviveu com seus escritos como a aparição em sonho de um familiar morto. Diferentemente dos textos e das fotografias, a voz vem de dentro da pessoa, secreta sinais físicos, não verbais, de uma aura, de uma dicção, de uma classe social, de uma época, como se projetasse corpo e alma em holograma, direto do inconsciente pessoal e social. Por um instante, a voz revela mais do que uma obra completa. Ela deixa transparecer bruscamente certas verdades difusas, lamacentas, que estão estampadas e ao mesmo tempo ocultas nos textos.

O único registro conhecido da voz de Mário de Andrade foi feito em julho de 1940, no Rio de Janeiro, por Lorenzo Dow Turner, um linguista norte-americano, negro, que veio perseguir sinais das línguas africanas no Brasil. Atendendo ao pesquisador, Mário, mais as amigas Rachel de Queiroz e Mary Pedrosa, cantaram umas poucas canções folclóricas e comentaram brevemente a natureza e a proveniência delas. Nosso escritor entoa a cantiga que ouviu de uma mulher pedindo esmola em Catolé do Rocha, na Paraíba, em tom altissonante e paulista, cheio de vibrato, como se subisse aos céus: “Deus proteja a santa esmola, Deus lhe envie no andor, acirculado de anjo, arrodeado de flor, assentado à mão direita, aos pés de Nosso Senhor.” Ou como se saísse do inferno dos espectros (para lembrar “Mário de Andrade desce aos infernos”, poema de Carlos Drummond de Andrade sobre sua morte), entoando o canto ritmado de escravos libertos: “Toca zumba zumba zumba, toca zumba zumba zumba, auê auá, os preto nunca mais apanhará de bacalhau, nosso rei é liberá, nosso rei é liberá.”

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José Miguel Wisnik

Músico, compositor, ensaísta e professor de literatura na USP, é autor de "Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil", pela Companhia das Letras

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