questões culturais

O signo do caos

Como a Cinemateca Brasileira virou um cavalo de batalha do governo Bolsonaro

Ana Paula Sousa
O prédio da Cinemateca, erguido em 1887, onde estão guardadas preciosidades como os primeiros filmes silenciosos feitos no país: a possibilidade de que o órgão seja transformado em instrumento de ideologia do governo, ou de “revisão” da ditadura militar, inquieta o meio cultural –
O prédio da Cinemateca, erguido em 1887, onde estão guardadas preciosidades como os primeiros filmes silenciosos feitos no país: a possibilidade de que o órgão seja transformado em instrumento de ideologia do governo, ou de “revisão” da ditadura militar, inquieta o meio cultural – CREDITO: DIDÃO BARROS_WIKIMEDIA COMMONS

Amanhã de 13 de agosto foi diferente de todas as outras para Olga Futemma, a mais antiga funcionária da Cinemateca Brasileira. Na véspera, ela e 51 colegas do corpo técnico haviam sido desligados da instituição que reúne o maior acervo audiovisual da América do Sul. A partir daquela manhã, estavam todos impedidos de entrar no prédio na Vila Clementino, Zona Sul de São Paulo, que foi fechado pelo governo federal. “Não tenho mais idade para me surpreender, mas fico… Como eu diria? Atônita. São três gerações de pesquisadores sendo descartadas”, disse ela à piauí, no mesmo dia, tateando as palavras.

Futemma tem 69 anos e trabalhava desde 1984 na Cinemateca, da qual foi diretora-adjunta e duas vezes coordenadora-geral. Ao ser demitida, atuava como gerente de acervo. Em 2016, quando já estava esboçada a grande crise que atingiria a instituição, ela foi exonerada pela primeira vez. Mas voltou logo em seguida, depois que profissionais do cinema e intelectuais fizeram um manifesto pedindo o seu retorno. Agora, entretanto, a situação era bem outra. “Mesmo em seus momentos de maior precariedade, a Cinemateca sempre teve a característica de ser acolhedora”, afirmou. “Essa é a primeira vez que a vejo fechada.”

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Ana Paula Sousa

É jornalista, mestre em indústrias culturais e criativas pelo King's College de Londres, e doutora em sociologia da cultura pela Unicamp

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