questões culturais

O signo do caos

Como a Cinemateca Brasileira virou um cavalo de batalha do governo Bolsonaro

Ana Paula Sousa
O prédio da Cinemateca, erguido em 1887, onde estão guardadas preciosidades como os primeiros filmes silenciosos feitos no país: a possibilidade de que o órgão seja transformado em instrumento de ideologia do governo, ou de “revisão” da ditadura militar, inquieta o meio cultural –
O prédio da Cinemateca, erguido em 1887, onde estão guardadas preciosidades como os primeiros filmes silenciosos feitos no país: a possibilidade de que o órgão seja transformado em instrumento de ideologia do governo, ou de “revisão” da ditadura militar, inquieta o meio cultural – CREDITO: DIDÃO BARROS_WIKIMEDIA COMMONS

Amanhã de 13 de agosto foi diferente de todas as outras para Olga Futemma, a mais antiga funcionária da Cinemateca Brasileira. Na véspera, ela e 51 colegas do corpo técnico haviam sido desligados da instituição que reúne o maior acervo audiovisual da América do Sul. A partir daquela manhã, estavam todos impedidos de entrar no prédio na Vila Clementino, Zona Sul de São Paulo, que foi fechado pelo governo federal. “Não tenho mais idade para me surpreender, mas fico… Como eu diria? Atônita. São três gerações de pesquisadores sendo descartadas”, disse ela à piauí, no mesmo dia, tateando as palavras.

Futemma tem 69 anos e trabalhava desde 1984 na Cinemateca, da qual foi diretora-adjunta e duas vezes coordenadora-geral. Ao ser demitida, atuava como gerente de acervo. Em 2016, quando já estava esboçada a grande crise que atingiria a instituição, ela foi exonerada pela primeira vez. Mas voltou logo em seguida, depois que profissionais do cinema e intelectuais fizeram um manifesto pedindo o seu retorno. Agora, entretanto, a situação era bem outra. “Mesmo em seus momentos de maior precariedade, a Cinemateca sempre teve a característica de ser acolhedora”, afirmou. “Essa é a primeira vez que a vejo fechada.”

Desde 2018, a Cinemateca era gerida pela Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), uma organização sediada no Rio de Janeiro, produtora da TV Escola. Um contrato firmado com a União previa que o governo federal repassasse anualmente à Acerp 12 milhões de reais para a administração da Cinemateca. No ano passado, entretanto, o repasse foi paralisado. E, no último dia 7 de agosto, o governo extinguiu em definitivo a relação com a Acerp, durante uma ação que o diretor da associação, Francisco Câmpera, definiu como “truculenta”.

Acompanhado de agentes da Polícia Federal e de membros da Advocacia-Geral da União (AGU), o secretário substituto do Audiovisual Hélio Ferraz de Oliveira chegou à Cinemateca às nove da manhã. Seu objetivo era tomar posse das chaves do prédio, que estava fechado ao público desde março, por causa da quarentena. Apenas poucos funcionários continuavam a trabalhar ali, apesar dos salários atrasados, porque queriam cuidar do que sempre cuidaram.

A chegada da polícia e do representante do governo elevou a temperatura no local. Quem lá estava, pôde acompanhar a tensão crescente, quando Câmpera fechou-se numa sala, recusando-se a assinar os documentos de destituição da Acerp. À tarde, as coisas foram se acalmando, os papéis foram assinados, e Oliveira chegou a receber uma comissão de funcionários para conversar. Destituída de sua função de gestora, a Acerp demitiu poucos dias depois os 152 funcionários que havia contratado ao assumir a Cinemateca – além do corpo técnico, os terceirizados da segurança, da brigada de incêndio e da manutenção. Agora, circulam no local apenas uma equipe de segurança e uma brigada de incêndio, chamadas às pressas pelo governo.

Com o corte dos recursos, a Acerp estava sem caixa até para pagar os funcionários e as contas de luz, muito altas por causa do depósito climatizado. O débito com a Enel, empresa de energia elétrica em São Paulo, já passa dos 800 mil reais. Por um triz não foi cortada a energia do prédio no Largo Senador Raul Cardoso, um recanto tranquilo não muito longe do Parque do Ibirapuera.

A ameaça de interrupção de energia elétrica era apenas a parte mais visível de uma crise sem precedentes. Ao ver a instituição outra vez ameaçada, o professor de cinema Carlos Augusto Calil, que a dirigiu entre 1987 e 1992, preparou, em maio, um abaixo-assinado. O documento, intitulado Cinemateca Brasileira Pede Socorro, denunciava a “situação-limite” em que a entidade se encontrava e pedia que o governo repassasse os recursos para a Acerp, de forma emergencial, enquanto se buscava uma solução de longo prazo. Teve quase 20 mil assinaturas.

No mês seguinte, a Associação Paulista de Cineastas (Apaci), com o apoio de outras entidades e grupos, como a Frente Ampla Cinemateca Viva e a Cinemateca Acesa, criou o movimento SOS Cinemateca. A situação de desamparo do prédio e do acervo, somada à falta de pagamento dos funcionários, fez com que esses movimentos fossem surgindo espontaneamente. No dia 4 de junho, seus integrantes resolveram, a despeito da pandemia, fazer um protesto conjunto na frente do prédio. O objetivo dos cerca de cem manifestantes era chamar a atenção para a gravidade da situação e sensibilizar o poder público e a sociedade.

Com máscara de proteção e empunhando um megafone, o cineasta Roberto Gervitz leu um manifesto sobre a crise que poderia levar à “falência” da entidade. Assinado por 42 associações nacionais e 39 internacionais, o documento denunciava a “inaceitável deterioração” da Cinemateca, que “atingiu um patamar absolutamente incompatível com a sua importância”, e pedia uma ação do governo. O manifesto foi replicado em diversos sites e registrado pela imprensa. Desde então, festivais de cinema, cinematecas e veículos de imprensa de vários países têm chamado a atenção para o risco que corre a memória do audiovisual brasileiro.

“Entendemos que era importante sair das redes sociais e fazer algo de maior impacto”, disse Gervitz, que começou a frequentar a Cinemateca em 1974 e reaproximou-se recentemente da instituição durante o trabalho de restauro de seus filmes Feliz Ano Velho (1987) e Jogo Subterrâneo (2005), e de Pixote (1981), de Hector Babenco, diretor com quem desenvolveu uma longa parceria criativa. “A partir da manifestação, tivemos um espraiamento da questão da Cinemateca como nunca se viu. A gente furou o gueto do cinema e começou a se aproximar da sociedade”, afirmou. A Cinemateca já foi criticada por se relacionar pouco com o público, como se fosse muito mais um monastério para pesquisadores.

O que também contribuiu para despertar o interesse pela Cinemateca foi a escolha de Regina Duarte para a “direção” da entidade, assim que ela anunciou que deixaria o cargo de secretária Especial da Cultura, em 20 de maio, dois meses após ter sido nomeada. Num vídeo gravado ao lado do presidente Jair Bolsonaro, a atriz afirma que acabara de ganhar um presente: “Um convite para fazer Cinemateca, que é um braço da cultura que funciona lá em São Paulo e é um museu de toda a filmografia brasileira.” Depois de dizer que ficaria ali “secretariando o governo dentro da Cultura”, concluiu com uma pergunta que, para a atriz, era uma resposta: “Pode ter presente melhor do que esse?”

Depois da indicação, Bolsonaro descobriu que não existia o cargo de “diretor da Cinemateca” e que, além disso, a escolha dos postos de comando não cabia ao governo, mas sim à Acerp, que ainda não havia sido formalmente destituída da gestão. Ou seja, ele não poderia entregar o presente prometido. O episódio foi, praticamente, o “pum do palhaço” desse triste enredo.

A gafe diz muito sobre a relação do governo Bolsonaro com o setor cultural, marcada por atroz desconhecimento e por um ímpeto destrutivo. Não à toa, o Ministério da Cultura foi extinto, e a pasta, incorporada aos ministérios da Cidadania, primeiro, e do Turismo, depois. Desde a posse do governo, há 22 meses, a Secretaria Especial da Cultura teve cinco titulares e uma série de crises instalou-se nas principais instituições culturais do país, como a Fundação Casa de Rui Barbosa e a Fundação Palmares, além da Cinemateca Brasileira.

Até o fechamento desta edição, o governo estava negociando um plano de transição com a Sociedade de Amigos da Cinemateca (SAC), entidade criada em 1962 com o objetivo de contribuir para a viabilidade e a continuidade da instituição. A ideia é que, enquanto não se conclui o chamamento para a contratação de uma nova administradora da Cinemateca, a SAC recontrate, provisoriamente, quarenta dos demitidos. Dessa forma poderia garantir um cuidado especializado mínimo. “As negociações estão em andamento, e o secretário Hélio Ferraz de Oliveira tem demonstrado boa vontade para resolver a situação”, disse a professora de cinema Maria Dora Mourão, atual diretora executiva da SAC.

Os recursos para a contratação provisória, pelo período de três meses, sairiam dos 680 mil reais destinados pela Câmara dos Vereadores de São Paulo à Cinemateca. No auge da crise, o vereador Gilberto Natalini (PV-SP) conseguiu fazer com que alguns de seus colegas aprovassem uma verba para a entidade, por meio de um instrumento que permite aos vereadores destinar parte do orçamento do município a determinados projetos ou instituições. Enquanto isso, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, acenou com a possibilidade de municipalizar a Cinemateca e chegou a ligar para o ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto. “A prefeitura está à disposição para assumir a gestão da Cinemateca, caso o governo federal assim o deseje”, afirmou, após conversa com o general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo.

A proposta do prefeito, contudo, só teria feito aumentar o desejo do governo Bolsonaro de puxar para si a instituição. “A direita, até essa confusão toda, nem sabia que existia uma Cinemateca”, disse o diretor Josias Teófilo, que dirigiu o filme O Jardim das Aflições (2017), sobre Olavo de Carvalho, e foi um apoiador de primeira hora de Bolsonaro. “Na verdade, até o vídeo do Alvim, muitos no governo não sabiam nem onde ficava a cultura dentro do governo.” Ele se refere ao pronunciamento de conotações nazistas do ex-secretário Especial da Cultura, Roberto Alvim, demitido em 17 de janeiro passado. Logo depois de assumir o cargo, Alvim visitou a Cinemateca e, na saída, mandou um recado ao mesmo tempo deleitoso e funesto: “Se a Cinemateca estivesse em Brasília, eu sairia do ministério todos os dias às 19 horas para assistir a algum filme do acervo.” Futemma não se surpreende: “A cada novo governo, tem alguém que aparece dizendo: ‘Queremos salvar a Cinemateca.’ E todos chegam cheios de ideias. E, olha, eles realmente se encantam quando conhecem as instalações.”

O prédio de tijolos expostos e portas e janelas na forma de arcos foi projetado pelo arquiteto de origem alemã Alberto Kuhlmann e erguido em 1887, numa área de 24 mil m2, para abrigar o Matadouro Municipal. Em 1927, foi desativado e passou a ser usado para diferentes funções, até ser abandonado. Em 1988, o local foi cedido pela prefeitura à Cinemateca. Passou por uma grande reforma que durou ao todo quinze anos. A obra preservou os traços originais da construção, acrescentando a ela duas salas de cinema, um café e um espaço especial para abrigar um acervo de aproximadamente 1 milhão de documentos e de 245 mil rolos de filmes, correspondentes a 30 mil títulos. Ali, estão guardados os primeiros filmes silenciosos feitos no país, os cinejornais da primeira metade do século XX, a produção da Vera Cruz dos anos 1940 e 1950, obras do Cinema Novo, programas da TV Tupi, a totalidade dos filmes brasileiros contemporâneos e mais, muito mais.

Até mesmo o ator Mario Frias, quinto secretário Especial da Cultura do governo Bolsonaro, ficou encantado com o local, ao visitar a Cinemateca pela primeira vez, em junho. Chegou a compará-la com a Disneylândia, numa entrevista ao programa Os Pingos nos Is, da Rádio Jovem Pan. “Aquilo lá é apaixonante. Aquilo lá é uma escola. É uma Disneylândia. […] Aquilo é um sonho […]. É um acervo riquíssimo que pertence ao Brasil. A oportunidade de estar ali marcou minha vida”, afirmou.

Na mesma entrevista, Frias disse que Regina Duarte é um “ícone” e que “existe a possibilidade de ser criada uma secretaria para ela cuidar da Cinemateca”. Procurado pela piauí, Frias não respondeu ao pedido de entrevista. O secretário substituto do Audiovisual, Hélio Ferraz de Oliveira, afirmou que não queria se manifestar.

Desde que a Cinemateca passou a sofrer um estrangulamento por causa da falta de repasses de recursos do governo federal, muitos entenderam haver, da parte do governo, o desejo de dar cabo da instituição. Porém, o que estava inicialmente na sua mira não era a Cinemateca, mas a Acerp, que se tornou um abrigo de correligionários do ex-presidente Michel Temer a partir de 2016 e, no ano passado, começou a receber bolsonaristas. Não há, portanto, outra forma de compreender a crise atual senão enveredando pelos labirintos da burocracia brasileira, onde, invariavelmente, são muitos os remendos, como se verá a seguir.

De 1984 até 2003, a Cinemateca era um órgão pertencente à área federal que cuida de patrimônio. Primeiro, esteve ligada à Fundação Nacional Pró-Memória. Depois, passou para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O orçamento da União garantia custeio e pessoal, e os recursos para investimentos eram captados pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC). Em 2003, a situação começou a mudar, quando a Secretaria do Audiovisual, do Ministério da Cultura, ganhou relevância no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e quis puxar para si a instituição, retirando-a do Iphan. “Ir para a secretaria podia parecer uma boa saída momentânea, mas, obviamente, enfraqueceria a instituição, como, de fato, enfraqueceu”, disse o professor Carlos Augusto Calil, que, naquela época, não tinha vínculo oficial com a Cinemateca.

Para quem fazia parte do Conselho da Cinemateca – que garantia a gestão compartilhada entre a sociedade e o poder público –, a incorporação à Secretaria do Audiovisual, de fato, pareceu atraente na época. “Eu tinha muitas dúvidas, mas a secretaria demonstrou querer tanto a mudança que acabei votando favoravelmente”, contou Arthur Autran, professor de cinema da Universidade Federal de São Carlos. “O diretor de cinema Orlando Senna, então secretário do Audiovisual, chegou a ir pessoalmente a uma das reuniões do conselho para fazer essa defesa. Hoje, entendo que a Cinemateca, conceitualmente, deveria estar ligada a um órgão de defesa da memória.” A saída do Iphan fez com que a Cinemateca passasse a ser, institucionalmente, um órgão mais ligado ao cinema do que ao patrimônio e à memória. “Quando o ex-presidente Fernando Collor acabou com a Embrafilme, em 1990, a Cinemateca se salvou justamente porque pertencia à área de patrimônio que, apesar de todas as dificuldades, é menos conturbada politicamente”, insistiu Calil.

A SAC se transformou em 2008 numa Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) e ganhou mais atribuições. Ficou apta a estabelecer parcerias e receber recursos da União, com autonomia para contratar pessoal, comprar insumos e equipamentos. Desse ano até 2010, o governo repassou à SAC mais de 100 milhões de reais. Nesse período, a Cinemateca, dotada de recursos e prestígio, viveu dias áureos. Investiu-se em acervo, preservação, ampliação, adequação física e em importantes atividades de difusão. “Mas, ao contrário do que dizem alguns autores que estudam as políticas culturais, não se estabeleceu ali uma política de Estado. Foi uma política de governo”, afirmou Autran.

Em 2012, quando o Ministério da Cultura estava sob a gestão de Marta Suplicy, a trama envolvendo a Cinemateca começou a adquirir contornos dramáticos. No meio cinematográfico, não é raro encontrar quem, até hoje, culpe a ex-ministra pelos tormentos que atingiram a instituição. “Não houve, naquele momento, vontade política de resolver as questões administrativas que se colocaram. Lançou-se, ao contrário, um olhar de desconfiança sobre a Cinemateca”, disse Autran.

“A Cinemateca foi vítima de um ato de mesquinharia e ressentimento”, reforçou Calil, referindo-se não a Suplicy, mas a Leopoldo Nunes, então secretário do Audiovisual, que teria sido responsável por “envenenar” a ministra contra os gestores da Cinemateca. “Naquele momento, colocou-se em xeque o que a Cinemateca tinha de mais valioso: seu prestígio.” Pouco antes do episódio, Nunes, diretor de cinema e militante histórico do PT, fora recusado no conselho da instituição.

Procurada pela piauí, Suplicy pediu alguns dias para recuperar fatos “de sete anos atrás” e, por meio de sua assessoria de imprensa, enviou uma nota afirmando que, ao chegar ao ministério, encontrou “a crise já instaurada”. Disse ainda que recebeu um relatório da Assessoria Especial de Controle Interno apontando “graves irregularidades” na parceria assinada pela SAC e o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira e questionando alguns pontos do acordo, como a compra de acervo sem licitação e a ausência de notas fiscais e recibos em transações.

Após tomar conhecimento das irregularidades, que tinham sido apuradas pela Controladoria-Geral da União (CGU), Suplicy demitiu o diretor executivo da Cinemateca, Carlos Magalhães, que estava no cargo havia mais de uma década. Foi interrompido o repasse de recursos do MinC à SAC, que ficou três anos sob investigação. Ao fim, constatou-se ter havido problemas administrativos, mas não desvio de verbas ou enriquecimento ilícito. Dos mais de 100 milhões de reais que haviam sido destinados à Cinemateca, restaram dúvidas sobre gastos de 1,2 milhão.

O ano de 2013 terminou de forma tumultuada na Cinemateca, com a demissão de 138 funcionários e o esvaziamento do conselho, cujo mandato Suplicy não renovou (o conselho acabaria dissolvido por outro ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, no governo Temer). “Me lembro que, todos os dias, fazíamos contas. Foi muito desgastante”, contou Futemma. “Mas, apesar da situação difícil, ainda éramos um órgão da administração direta. Havia, enfim, um fiapo de continuidade, algo que, desta vez, não é delineável.”

O fiapo de continuidade começou a se desfazer em fevereiro de 2016, quando um incêndio queimou 1 003 rolos de filmes. As labaredas fizeram com que o Ministério da Cultura acordasse para a tragédia até então silenciosa. Em abril, o governo fez um chamamento para selecionar uma entidade sem fins lucrativos para assumir a gestão da Cinemateca. Em 12 de maio, o Senado abriu o processo de impeachment de Dilma Rousseff, ela foi afastada do cargo e Michel Temer assumiu interinamente. No mesmo dia, o novo presidente extinguiu o Ministério da Cultura, transformando-o numa secretaria dentro do Ministério da Educação. Nove dias depois, voltou atrás, recriou o ministério e nomeou como titular o diplomata Marcelo Calero, inicialmente escolhido para ser secretário nacional da Cultura.

Em novembro de 2016, o então secretário do Audiovisual Alfredo Bertini criador do Cine PE, um festival de cinema brasileiro no Recife, anunciou o resultado do chamamento público para a gestão da Cinemateca: a vencedora era a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, a Acerp, ligada ao Ministério da Educação. A SAC, que também concorrera, fora preterida. “Ficamos em segundo lugar, apesar do histórico no trabalho de preservação”, disse Maria Dora Mourão, diretora executiva da SAC. “Foi, claramente, uma decisão política, que visava acomodar interesses. Não entendemos por que a Cinemateca passou para a responsabilidade de uma organização ligada ao Ministério da Educação, sendo que a Cinemateca estava ligada ao Ministério da Cultura.” Era só mais um capítulo da baderna burocrática.

A história da Acerp acompanha a da tevê educativa brasileira. Ao ser criada, em 1998, a associação absorveu as atividades da Fundação Roquette Pinto, que cuidava de rádios e tevês, como a TV Educativa do Rio de Janeiro (TVE). Em 2007, o governo Lula criou a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e extinguiu a TVE, transformando-a em TV Brasil. A Acerp tornou-se uma prestadora de serviços da EBC e seguiu operando a TV Escola. Sempre atuou, portanto, no âmbito do audiovisual voltado à educação.

Entre a escolha da Acerp para gerir a Cinemateca e a formalização do contrato, o Ministério da Cultura teve três titulares, além de Calero. Nesse meio-tempo, concluiu-se que a Acerp não poderia firmar um novo contrato com a pasta da Cultura, pois já possuía um contrato de gestão com a União, assinado com o Ministério da Educação. Em razão disso, providenciou-se apenas um aditivo ao contrato já existente, também chamado de contrato acessório, que foi assinado em 2018.

“A Acerp era um agente totalmente externo à Cinemateca. Acabamos ficando reféns de grupos que, em nenhum momento, parecem ter levado em conta as especificidades e as particularidades da Cinemateca”, disse Gabriela Souza de Queiroz, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa, que também foi demitida em agosto. “O que a gente pode dizer é que os processos de deterioração fílmica não vão esperar a burocracia.”

Um ano depois, com o Ministério da Cultura já extinto pelo presidente Bolsonaro, o economista Abraham Weintraub, titular da pasta da Educação, cruzou o destino da Cinemateca. Weintraub se indispôs com a Acerp, depois de entrar em conflito com Eduardo Melo, diretor-geral adjunto da associação e seu colega nos cursos de Olavo de Carvalho pela internet. Gente próxima ao governo diz que a briga não pode ser explicada com os instrumentos da razão. “São dois radicais, dois fanáticos que começaram a se desentender”, afirmou um bolsonarista que pediu anonimato para não entrar na mira raivosa dos seguidores de Carvalho.

Em dezembro de 2019, Bolsonaro entrou em cena e jogou a pá de cal na relação do governo com a Acerp, ao dizer que a TV Escola tinha uma “programação de esquerda”. Um documentário sobre a ativista negra norte-americana Rosa Parks (1913-2005) tornou-se, entre os olavistas, exemplo do suposto “esquerdismo” da emissora. A essa altura, a TV Escola já exibia entrevistas com Olavo de Carvalho e programas com uma visão revisionista da história. Mas Weintraub não demorou a anunciar que o contrato entre a Acerp e o Ministério da Educação não seria renovado.

O contrato encerrou-se no fim de 2019, mas o aditivo firmado entre a Acerp e a Cinemateca tinha duração de três anos (até 2021). Apesar disso, a Advocacia-Geral da União não teve dúvidas: uma vez extinto o contrato-mãe com o MEC, “todos os seus acessórios” deveriam seguir “a mesma sorte”.

De dezembro de 2019 até 7 de agosto passado, o dia da tomada das chaves pelo governo, a Acerp tentou reaver o contrato ou, pelo menos, ser ressarcida dos valores que adiantara à Cinemateca. “Em 2019, o governo repassou 7,2 milhões de reais para a Acerp, sendo que o custo mensal da Cinemateca é de 1,2 milhão. Este ano, não recebemos nada. Adiantamos 14 milhões de reais para manter a Cinemateca nesse período”, disse o jornalista Francisco Câmpera, que foi assessor da Secretaria-Geral da Presidência no governo Temer e foi nomeado diretor-geral da Acerp no início de 2019.

Câmpera enviou por WhatsApp à piauí uma dezena de reportagens e a ação civil pública impetrada pelo Ministério Público Federal contra o governo federal, pedindo que o governo providenciasse a renovação emergencial do contrato com a Acerp por um período transitório. Entre os documentos enviados não constava, entretanto, a resposta da AGU ao Ministério Público, negando o pedido de tutela antecipada e dizendo que haveria “ilegalidades e temeridades” se a União seguisse renovando contratos com a associação.

Câmpera assegura que o contrato poderia, sim, ser renovado e que, inclusive, havia recomendações nesse sentido dentro do próprio governo. Mas o desejo de Weintraub prevaleceu. Em janeiro deste ano, quando viu que o dinheiro não chegaria mesmo, a Acerp afastou o diretor-geral adjunto Eduardo Melo, o bolsonarista e desafeto de Weintraub que havia chegado à associação em março de 2019, a pedido do próprio governo. “É tudo de uma insensatez completa”, disse Calil. “Há, além da insensatez, um enorme voluntarismo.”

Nada simboliza melhor o voluntarismo – palavra cujo sinônimo mais popular é capricho – do que a indicação de Regina Duarte para “diretora” da Cinemateca, no dia 20 de maio. Bolsonaro, depois do processo de fritura da atriz na Secretaria Especial da Cultura, achou por bem dar a ela um prêmio de consolação, menos pelos feitos na pasta e mais pela atuação no Instagram, onde a atriz sempre defendeu o presidente. Como ela mora em São Paulo, a Cinemateca mostrou-se a escolha, digamos, natural.

A imprensa chegou a escrever que Regina Duarte estava sendo nomeada para o lugar de Futemma. Mas o superintendente da Cinemateca indicado pela Acerp era, desde julho de 2019, Roberto Barbeiro, ex-assessor da deputada Edna Macedo (PRB-SP), irmã de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. No entanto, mesmo para o cargo de superintendente, o governo não podia nomear ninguém. Só a Acerp podia.

Correu então a informação de que Bolsonaro ficara indignado com o fato de o governo pagar a conta – ou melhor, não pagar – e não mandar na Cinemateca. “Sinceramente? O presidente nem sabe o que aconteceu. Mas o episódio mostra o quão mal assessorado ele é na área da cultura. Como ninguém explicou para ele que o cargo não existia?”, disse o bolsonarista que não quis ser identificado.

Em junho, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, fez uma visita à Cinemateca, onde se encontrou com seu subordinado Mario Frias, recém-nomeado secretário especial da Cultura. Antônio, que em abril havia nomeado a blogueira Monique Baptista Aguiar para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), causou, apesar disso, boa impressão no grupo que defende a Cinemateca. O ministro sinalizou que buscaria uma saída jurídica para que, ao menos temporariamente, a Acerp mantivesse a gestão. Mas, depois que voltou para Brasília, Frias puxou para si o problema. E tudo azedou de novo.

A tensão entre a Acerp e o governo agravou-se de tal maneira que, em julho, funcionários da associação impediram – fisicamente – a entrada de servidores do Ministério do Turismo nas instalações da Cinemateca. O fato foi registrado num boletim de ocorrência policial por “resistência oposta a ato de ofício por servidores públicos no exercício da função”.

No fim das contas, Câmpera admitiu que a entrega das chaves da Cinemateca para o governo deixou a Acerp mais leve. “Foi um alívio, porque toda a responsabilidade caía sobre a gente.”

Depois do episódio policial, o ministro Marcelo Álvaro Antônio e o secretário Mario Frias apareceram juntos num vídeo, dizendo estarem empenhados na elaboração de contratos emergenciais e de um chamamento para uma nova administradora. Ambos frisaram a importância da Cinemateca. E é fato que, à sua maneira, os bolsonaristas andam encantados com a instituição. “Ninguém quer acabar com a Cinemateca ou botar tudo na nuvem. O bolsonarismo tem o seu romantismo”, disse, entre a troça e a análise fria, um interlocutor do governo na polêmica. “A Cinemateca pode ser um ponto de turismo cívico. E o acervo do Canal 100, por exemplo, poderia ser exibido nas escolas, durante eventos esportivos”, completou. Também ele pediu anonimato, pois foi tirado das negociações conforme Frias tomava pé da situação.

O Canal 100, criado em 1957 pelo produtor Carlos Niemeyer, ex-aviador da Força Aérea Brasileira (FAB), foi um cinejornal conhecido pela excelência com que registrava as principais partidas de futebol e as notícias que agradavam aos governos. Seus filmes de curta duração eram apresentados nas salas antes do programa principal, como ocorre com os anúncios comerciais e os trailers. Embora não fosse um órgão do governo, o Canal 100 teve um papel proeminente como propagandista do regime militar.

Não é, portanto, casual que o acervo tenha entusiasmado os militares que visitaram a Cinemateca em 2019. Em um vídeo que circulou pelas redes sociais, o deputado estadual Oscar Castello Branco (PSL-SP), capitão da reserva do Exército, e Lamartine Holanda, coronel reformado do Exército, anunciam no prédio da Cinemateca a realização de uma mostra de filmes militares, entre eles registros da participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial. O superintendente da Cinemateca, Roberto Barbeiro, estava ao lado dos militares no vídeo. Indagado sobre essa mostra, que nunca foi realizada, Câmpera afirmou: “O tema militar é um dos temas top five do cinema no mundo.” Em setembro deste ano, Holanda foi nomeado presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes).

A possibilidade de a Cinemateca ser transformada em instrumento da ideologia do governo, ou de “revisão” da ditadura militar, inquieta o meio cultural. Mas essa não é a única preocupação. É urgente reconhecer a importância da preservação e zelar pelo acervo, como ressaltou Hernani Heffner, responsável por outra cinemateca, a do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio). “O mundo da preservação audiovisual é muito técnico. Só quando começou a era do VHS e do DVD o mundo do audiovisual, como um todo, passou a entender a importância desse trabalho.” Segundo ele, a questão da preservação, central para o criador da Cinemateca, o crítico Paulo Emílio Sales Gomes, “nunca foi totalmente resolvida, ou absorvida, no Brasil”.

A luta de Sales Gomes pela preservação dos filmes começou na primeira metade do século XX. Preso em 1935, após a derrota da Intentona Comunista, ele conseguiu fugir da cadeia por um túnel e exilou-se em Paris. Passou a frequentar a Cinemateca Francesa, fundada em 1936 por Henri Langlois, de quem se aproximou. Não demorou a se tornar membro da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (Fiaf) e, de volta a São Paulo, criou em 1940 um cineclube, logo proibido pelo Estado Novo. Em 1946, apoiou um grupo de amigos na fundação do Segundo Clube de Cinema de São Paulo. O clube firmou, três anos mais tarde, um acordo com o recém-criado Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) para a implantação da Filmoteca MAM, cuja diretoria Sales Gomes assumiu em 1954. Dois anos depois, a filmoteca se desligou do museu e ganhou novo nome: Cinemateca Brasileira.

Instalou-se, nesse primeiro momento, no último andar da sede dos Diários Associados – o conglomerado de imprensa de Assis Chateaubriand –, no Centro de São Paulo. Em 1957, sofreu seu primeiro incêndio, que por pouco não destruiu também o acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp), alojado no mesmo edifício. O desastre levou a Cinemateca a ser transferida para um prédio no Parque do Ibirapuera. A instituição passaria por mais três incêndios, em 1969, 1982 e 2016. E sempre resistiu.

E se a Cinemateca Brasileira tem resistido também a todas as tormentas políticas e econômicas que atingiram o país nos últimos 64 anos é porque, além de guardar um pedaço da nossa memória, ali se engendra o que Sales Gomes chamou de “cultura viva”. Como escreveu ele num texto de 1957: “Uma cultura viva exige simultaneamente o conhecimento do passado, a compreensão do presente e uma perspectiva para o futuro. Enganam-se os que confundem a ação das cinematecas com saudosismo.”

Adinael Alves de Jesus pisou na Cinemateca pela primeira vez no ano 2000, para trabalhar como auxiliar de limpeza. “Eu era lavador de carro e meu supervisor me transferiu para a Cinemateca”, contou. A mesma empresa responsável pela limpeza dos carros de uma locadora cuidava, de forma terceirizada, da instituição cinematográfica. Quando o contrato da Cinemateca com essa empresa terminou, Jesus deu um jeito de ficar por lá. “Ia trocando quem cuidava da prestação de serviço, mas eu sempre continuava, passando de firma em firma.”

Nascido em Itapetinga, no interior da Bahia, há 47 anos, Jesus veio para São Paulo há três décadas e, antes de se tornar lavador de carros, trabalhou na construção civil. “Filme que eu assistia, até entrar na Cinemateca, era só na tevê”, disse. Mas ele acabou tomando gosto e, antes da pandemia, sempre que possível costumava levar os três filhos – de 8, 9 e 14 anos – ao cinema. Uma vez ou outra, as crianças iam também à Cinemateca. No emprego no qual passou os últimos vinte anos, Jesus viu, sobretudo, filmes brasileiros. A lista de títulos é grande, mas ele gostou especialmente de Dois Filhos de Francisco (2005). “Quem chegou em São Paulo como imigrante não tem como não se emocionar com esse filme.”

Em 2013, Jesus foi demitido, mas o chamaram de volta um mês depois. Em agosto passado, foi demitido novamente. Sua esperança, agora, é que a história se repita e ele seja recontratado. “Eu só não estou indo lá agora porque não posso mais entrar”, disse. Mesmo nos meses em que não estava recebendo salário, Jesus continuou comparecendo ao trabalho. “Não dava para deixar sem ninguém. Agora mesmo, não sei se estão ligando o gerador uma vez por semana. E se tudo está com a temperatura certa”, disse.

O material dos filmes mais antigos, o nitrato de celulose, é altamente inflamável. O acetato, base da maioria do acervo, por sua vez, pode derreter feito geleia ou ficar duro feito pedra, se as condições de conservação não forem mantidas. Esse material sofre a chamada “síndrome do vinagre”, que leva esse nome por causa do odor exalado. A ausência, mesmo que temporária, de funcionários que verifiquem cotidianamente a situação do acervo, deixa tudo isso em perigo.

O depósito de matrizes de filmes na Vila Clementino é constituído por quatro diferentes câmaras, onde a temperatura varia conforme o tipo de material guardado – de 10ºC a 15ºC, aproximadamente. “O filme colorido fica numa temperatura; o preto e branco, em outra”, explicou Jesus, que coordenava uma equipe de cerca de quarenta pessoas responsáveis pelos trabalhos de manutenção.

No dia da entrega das chaves para o governo, ele chegou ao prédio às sete da manhã e saiu às nove da noite. “Foi um dia tenso e triste”, disse. Mas Jesus precisou ir até lá, pois quem guardava as chaves não era nem Barbeiro nem Câmpera – era ele. E foi Jesus quem as entregou aos funcionários da nova equipe de segurança e limpeza, pedindo que cuidassem bem dos milhares de filmes, vídeos, fotos e documentos da Cinemateca Brasileira.

Ana Paula Sousa

Jornalista, editora de cultura da revista CartaCapital. É mestre em indústrias culturais e criativas pelo King's College de Londres e doutora em sociologia da cultura pela Unicamp.

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