ficção

O tantra e a arte de cortar cebolas

Ela queria chupar para sempre o dedo de Prajapati em vez de cuidar da panela

Iara Biderman
ILUSTRAÇÃO: LOVELOVE6_2019

Primeiro corto no meio, para poder apoiar na tábua, claro, se ficar rolando não dá para picar. Cebola é uma coisa tão óbvia, é só cortar duas metades, talhar na vertical, mais uns dois cortes na horizontal, engolir esse choro, a obviedade de uma barata: um dia acordo cebola, toda cortada em cubinhos. Ele comeu em rodelas, cruas, uma salada dos infernos soltando enxofre pela boca. Porra, isso a gente não tinha combinado, por acaso perguntou se eu estava a fim de uma perversãozinha gastrossexual? Por acaso eu disse não? O bafo das palavras não ditas enfiado na minha língua, ele não falou porque queria continuar comendo. Eu. Matei aula para cair de boca naquela cebola crua, e poderia matar por menos, com esta faca dá para cortar Julienne, tirinhas transparentes de tão finas, mas não tinha faca japonesa naquela época e, bom, Julienne é muito a cara da burguesia, a última coisa que eu queria naquela época era pagar de burguesinha, a penúltima era uma foda acebolada. E acabei batendo faca nessas camadas de pele branca, uma hora derreto de tanto chorar, o vapor sulfúrico afogando meus olhos.

Se deixar de molho na água gelada acalma, deixa de ser ácida até na crueza – que palavrinha! Mas bom mesmo é extrair o doce, dourar o bulbo lâmina por lâmina, minha avó fritava as tiras na banha de galinha, secava no papel toalha antes de jogar na fervura, se estivessem molhadinhas a gordura espirrava para fora da panela, criança ficava longe do fogão para não se queimar. Tirava do fogo antes de torrar e esparramava por cima da massa dobrada em meia-lua recheada de purê de batata, amido por dentro e por fora (e a cebola caramelizada também voltava misturada no recheio), como era bom poder viver na redundância. Melhor é terminar o trabalho sujo, desarmar o choro, esfregar as mãos debaixo d’água como uma Lady Macbeth de avental, cheiro de cebola e sangue de inocente não saem com pouco sabão.

Banha de galinha é impossibilidade, azeite? Extravirgem, o fluido precoce extraído da primeira prensagem, acidez na medida, mas frutado demais, enjoa. Vou usar ghee, gênia, ninguém pensou nisso antes, transformar cebola em ouro na manteiga clarificada, oferenda para deuses. Agora sim, isso está ficando chique, quase romântico, não, daí fica brega. Mais para místico, uma manteiga derretendo o tempo, tanta coisa para fazer e a fervura lenta de um mundo sendo criado. Antes dos dias, Prajapati, Senhor das Criaturas, esfregou as palmas de suas mãos lubrificadas, deixando a oleosidade da pele pingar no fogo e, desse óleo fervido – ghee –, foram gerados os seres e o tempo. Por horas, Prajapati e sua mulher, Vac, cuidaram da manteiga fervente, o Senhor das Criaturas esfregando as mãos quentes sobre a panela, Vac, deusa da linguagem, retirando com uma escumadeira a espuma que subia da gordura. A manteiga purificada foi guardada em potinhos e Vac lambeu o dedo do marido para contar a ele qual era o gosto das criaturas antes de serem decantadas. Um sabor levemente adocicado, como cebola frita; não, uma coisa mais crua e ácida, mas isso não era problema para eles, porque os deuses não ficam com bafo.

Não foi bem assim, o dedo do Senhor das Criaturas não tinha sabor de cebola coisa nenhuma; tinha gosto de amêndoas defumadas, e isso sim era um problema para Vac, porque viciam, e ela queria ficar chupando para sempre o dedo amendoado de Prajapati em vez de cuidar da panela, atenta para tirar na hora certa a espuma borbulhando na fervura. Caralho, como demora para ficar pronta – essa manteiguinha dos deuses foi fervida no caldeirão do Diabo, quando ele existia e sabia cozinhar. E você vai chegar perguntando o que é isso, por que aquilo, como se chama, ah, escumadeuura, com aquele sotaque, e eu querendo enfiar a língua nativa naquela língua estrangeira sem desviar o olho do fogão para a porra não vazar, meio quilo de manteiga, quem vai limpar isso? Fora o desperdício, e nossas mãos vão ficar todas meladas.

Desengordurava os dedos e as palmas nos seus pelos (onde você aprendeu a fazer isso?), sei lá, vamos brincar de fazer criaturas, mas não dava tempo, eu matei aula e você ia se matar de trabalhar, por que a gente não joga tudo para o alto e vai viajar pelo mundo? Foi assim que a gente se conheceu, mas naquela época eu estava de férias, ótimo, largar a faculdade, o emprego, o país, fugir com o gringo, viver de feriado o ano todo. Vamos, meu bem, ficar na pior em Paris e Londres, e quando a gente se cansar, tudo bem, pago eu de burguesinho, você volta para casa, fica no bem-bom aprendendo a fazer coisas novas com as mãos, você é boa nisso. Essa parte cheirava a cebola, cacete, nem percebi.

 

Burra, bourgeois não é nome de vinho francês, e é mentira essa história que vinho bom não dá ressaca. Quando Vac ficava cheia de cuidar da panela, ia tomar uns golinhos, e Prajapati espremia as mãos oleosas sobre o fogo, mas não conseguia gerar nem uma pedra se ela não estivesse ao seu lado retirando a espuma da manteiga onde os seres eram criados. Vac até tentava explicar para ele o gosto das criaturas, mas enrolava a língua amolecida no vinho, ninguém entendia o que estava falando, e ela enfiava a boca cada vez mais fundo no dedo de Prajapati para tentar extrair de novo o gosto de amêndoa daquela carne defumada. Na ressaca, nem percebemos quando a cebola rola para trás do fogão, cadê a outra metade, o que Deus uniu o homem não separa, é a mulher mesmo que tem de fazer o serviço sujo. Com o cabo da escumadeira dá para resgatar a meia cebola encurralada entre o forno e a parede, se ninguém limpar vai encher de barata. Nessa altura não dá para largar a panela com ghee, jogar milênios de trabalho no lixo.

E se eu deixar a espuma transbordar, golden shower amanteigado, o que é isso? Daí não vai dar para dourar as cebolas na frigideira, assim, devagar, para não espirrar gordura nem queimar quem está do lado, perceber as rodelas amolecendo, chiando até adoçar o cheiro acre, o que tem nessa panela? Cebola, ghee, amêndoas defumadas, tesão – chega, vamos chamar as coisas por seus nomes – tesaaoou, você quase perde o fôlego quando tenta chegar lá, ao “ão”, nunca vai aprender minha língua. Nem eu aguento mais esse joguinho de palavras, fazer amor, não, meu bem, é foder mesmo, trepar sem tréguas depois do jantar, depois o cacete, era para eu comer agora, você ou alguém melhor que você, em vez de ficar picando essas malditas cebolas.

Iara Biderman

Jornalista, foi repórter de saúde e cultura na Folha de S.Paulo e escreve sobre dança para cadernos especiais do jornal

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