memórias de infância e amizade

O tom certo

Quatro meses depois de nos conhecermos, o Orlando sumiu. Em casa contei que a professora tinha falado que o Orlando não era culpado. O garoto é uma vítima, ela repetia nervosa, como todos nós

Ricardo Lísias 
Contei para Maria sobre o primeiro sumiço de Orlando. Ela sabia o motivo: parece que um parente da mãe do seu amigo estava envolvido no atentado do Riocentro
Contei para Maria sobre o primeiro sumiço de Orlando. Ela sabia o motivo: parece que um parente da mãe do seu amigo estava envolvido no atentado do Riocentro ILUSTRAÇÃO DE PEDRO ZOLLI_ESTUDIO ONZE / SOBREFOTO DE VIDAL TRINDADE_CPDOC JB

Eu e o Orlando nascemos no mesmo dia: 7 de julho de 1975. Não sei, porém, se foi por causa da data do nosso aniversário que entramos um ano antes na 1ª série. Não tínhamos noção, mas estávamos adiantados. Aprendemos a ler antes de completar 7 anos. A sala era pequena e os alunos demonstravam mais ou menos o mesmo nível.

Não me lembro de quase nada. O Orlando tinha uma lancheira maior que a minha e gostava de correr na hora do recreio. Eu detestava, mas de vez em quando ia atrás dele. A gente evitava o banheiro do pátio porque a loira morava na última portinha. O do corredor não tinha fantasma, embora eu também não gostasse de usá-lo. Meu amigo era mais corajoso.

Quando vinha alguma coisa especial na lancheira, a gente se escondia. Vamos atrás da quadra, devo ter proposto mil vezes. Ele gostava mais do teatro. Por algum motivo, nunca deixavam a porta trancada. Vencia a proposta de quem tivesse o doce mais gostoso. Minha mãe sempre mandava iogurte. Vinte anos depois, consegui finalmente completar uma ligação de Budapeste para ela: Procura um iogurte por aí, meu filho. Deve haver.

Não me lembro das preferências da mãe do Orlando.

A professora sempre aparecia de rabo de cavalo. Às vezes estava com o rosto tenso. O do Orlando, por sua vez, era muito branco e leve. Agora, consigo me recordar de outro detalhe: meu amigo tinha a cabeça arredondada. As sobrancelhas, não sei. As da professora eram delicadas e sempre bem-feitas. Nos dias em que ela aparecia nervosa, o rosto ficava enrugado. Acho que só percebi nas últimas aulas do ano. Tenho um bolo hoje, Orlando me falou no mesmo dia em que a professora colocou no gravador uma música que, naquele momento, não fazia nenhum sentido para a gente.

Em casa, minha mãe explicou que era uma canção de Chico Buarque. Outro dia, tentei ouvir tudo o que ele interpretou até o começo de 1981, quando eu e o Orlando estávamos sendo alfabetizados, mas não consegui identificá-la. Separei duas ou três, mas é um chute. Por mim tudo bem, minha mãe falou. Mas tomara que essa moça não suba o tom.

Não sei se a expressão foi essa, tomara que essa moça não suba o tom, mas minha mãe tinha muita simpatia pela professora. Ela é novinha e merece uma chance. Sem falar que tem uma excelente didática. O Orlando também sempre vinha com um ótimo carimbado no caderno. Com cinco ótimos a gente ganhava um sorriso vermelho tomando uma página inteira. Era o maior carimbo que a professora tinha.

Seis sorrisos dariam direito a uma coleção de livrinhos no final do semestre.

 
O Orlando não ganhou. No final de maio, quatro meses depois de nos conhecermos, ele sumiu. A professora passou várias semanas nervosa. Hoje, sei que a MPB a acalmava. Depois do desaparecimento do Orlando, ela começou a tocar uma canção por dia, antes de o sinal tocar e a gente sair correndo para os ônibus escolares. A escola tinha quatro e, por causa do bairro onde eu morava, acabei precisando ir com os garotos mais velhos.

Em casa contei que a professora tinha falado que, apesar de tudo, o Orlando não era culpado. O garoto é uma vítima, repetia nervosa, como todos nós. Minha mãe me respondeu que também não entendia o que ela queria dizer. Pergunto na reunião. Não sei se essa professora, continuou, percebe a idade de vocês.

Quando voltou da reunião, dois meses depois, minha mãe não comentou nada. Resolvi deixar de lado. Alguns dias antes, tínhamos ido visitar um primo dela que acabara de ser solto pela ditadura. Ele foi torturado, minha mãe avisou no caminho. Então, não olha muito para o rosto dele. A primeira coisa que percebi foi o enorme inchaço em um dos olhos.

Na volta, indignada e sem conter a emoção, minha mãe disse que na verdade a professora estava certa. Isso tem que acabar. Aliás, já está acabando. Um dia, essa gente vai pagar por tudo o que fez.

Não me lembro do segundo semestre direito. Na primeira aula, procurei meu amigo Orlando. Ele não apareceu. Durante o resto do ano, a professora continuou tocando as canções. Ela gostava dos Novos Baianos e, em algum momento, tivemos que fazer um espetáculo. Fui o Caetano Veloso. Durante os ensaios, sempre que eu desafinava, a professora repetia a frase: Esse não é o tom. Devo estar fazendo uma confusão, já que era minha mãe que nunca deixava de dizer que precisávamos encontrar o tom certo. Não sei direito mais.

Tenho muita segurança, porém, de ter ouvido da minha primeira professora um conselho. Vocês precisam aprender a ler muito bem, mas o importante mesmo é entender a letra das canções. Acho que em setembro eu estava alfabetizado. Pessoas que se arriscam demais, como ela, são terrivelmente competentes. Nunca mais parei de ler graças a essa professora.

No final do ano, pedi para mudar de escola. Eu não tinha conseguido fazer nenhum outro amigo. Em casa, disse que não gostava do ônibus. Meus pais, então, me matricularam em uma escola mais próxima. Agora, você pode ir a pé.

Claro que procurei meu amigo no primeiro dia de aula. Ele não estava. Logo fiz amizade com um menino que morava na rua de trás e tinha vários livrinhos para trocar. Ele também gostava de Playmobil e começamos a planejar um bairro no quintal da minha casa. Mais dois meses e eu não me lembrava sequer do nome do Orlando.

 
Em 1992, onze anos depois, mudei de escola para completar os dois últimos anos do ensino médio em um colégio melhor e, no primeiro dia de aula, dei de cara com o Orlando. Ele mexeu o pescoço, reconhecendo-me. Como não havia carteiras vazias perto de onde ele estava, fui para o fundo.

A primeira aula era de português. Na verdade, pode ter sido de química. Não lembro bem. Meu amigo continuava com o rosto branco, mas agora parecia mais carrancudo. Ele é vítima, como todos nós. No intervalo, Orlando desapareceu.

Só depois de quatro dias, meu velho amigo me disse oi e perguntou alguma besteira. Percebendo meu mal-estar, uma das garotas explicou que ele era meio fechado. Não liga, aos poucos vocês voltam a ser amigos.

Orlando não ria com as besteiras do professor de matemática, preferia as aulas de inglês às de português e logo fez dupla com a garota ao seu lado para os trabalhos de história. Como não conhecia ninguém, acabei sobrando e o professor me integrou ao grupo de dois caras meio relapsos. Uma semana depois, porém, uma certa Maria voltou das férias na Europa e, como estava atrasada, formou dupla comigo.

Precisávamos fazer uma redação por quinzena comentando um assunto recente. A interdisciplinaridade estava começando a tomar conta das teorias pedagógicas e o colégio não podia ficar atrás. A atividade, assim, contemplava as aulas de redação e de história. Além dessas, eu adorava educação física. Rapidamente, virei o goleiro do time da sala e, antes do último treino para as olimpíadas da escola, atrasei e Maria entrou no vestiário para avisar que não poderíamos fazer a redação sobre a entrevista do tal Pedro Collor naquela tarde. Vinte anos depois, seria patético escrever aqui que ela me viu de cueca. O passado é inalcançável. A ficção histórica, apenas um clichê. De um jeito ou de outro, tive uma ereção muito intensa, joguei mal e quase fui para a reserva.

Orlando assistia aos jogos, mas nunca torcia. Uma vez levei um frango tentando encontrá-lo na pequenina arquibancada da quadra da escola. Maria era animada e meio louca. Ela havia começado a levar uma garrafa de vodca dentro da mochila.

A maluca ria e me estendia a garrafinha com a vodca de que tanto gostava. Entre os alunos, ela era quem tinha a casa mais legal, mas a gente fazia os trabalhos na biblioteca da escola ou na praça de alimentação de um shopping center ali perto. Às vezes juntávamos várias duplas para ficar jogando fliperama depois da redação. Orlando nunca aparecia. Chegaram as férias de julho e ele continuava se recusando a retomar nossa amizade.

Uma vez, quando já tinha ficado meio bêbada, Maria me disse que ele a estava maltratando. Ciúmes, riu enquanto recortava uma foto de Fernando Collor para um trabalho. Perguntei por que e ela repetiu o antigo lugar-comum sobre os homens. Todos muito bobos.

 
Em agosto, na volta das férias, o professor resolveu ampliar a redação. Agora, vocês devem escrever pelo menos três páginas. Além disso, vou passar o tema para cada dupla. Eu e Maria tivemos que comentar a trilha sonora da minissérie Anos Rebeldes. Por sorte, a irmã dela gravara os primeiros capítulos. Naquela época eu não fazia nada além de jogar bola ou xadrez. Maria tomava vodca.

Não tivemos nenhuma dificuldade. Eu já conhecia todas aquelas canções… Quando nosso trabalho foi discutido, resolvi contar para toda a sala sobre a minha primeira professora e, talvez por despeito, falei que tinha estudado junto com o Orlando. Lá na frente, ele ficou vermelho, mas não comentou nada. Devo ter errado o tom.

Acho que eu e Maria já tínhamos trocado um beijo. Na primeira manifestação dos caras-pintadas ela bebeu toda a garrafinha de vodca. Fiquei irritado. Orlando não foi. Disso tenho absoluta certeza.

Todos na sala tiveram que escrever sobre a mesma coisa na redação seguinte. Alguns alunos eram contra o movimento liderado por Lindbergh Farias. Não me lembro da proporção. Acho que um pouco mais da metade o apoiava. É o que eu gostaria de escrever hoje. Na verdade, muitos íamos apenas pela festa. Eu, por exemplo, não dava a mínima para a política. Maria, menos ainda.

Ela disse alguma coisa para a faxineira e trancou a porta do quarto. Cheia de intenções, tinha me chamado para fazer a redação na casa dela. Antes de oferecer a garrafinha, já meio bêbada, falou rindo: você é bobo, esquece o Orlando. Começamos a escrever, mas ela encostou a perna na minha. Fiquei com medo. Então, bebe mais. A redação estava ruim. Então, vamos datilografar para ver se melhora. Acho que só muito depois apareceram os computadores.

Naquela época, a gente bebia muito na escola. Então Maria era a líder. Maria bebia muito, então ria muito também. Então. Eu só acompanhava, acho, não posso ter certeza, ela sim tinha mais certeza: então bebe mais um pouco, disse. Então, se sexo oral conta, perdi a virgindade com ela nesse dia então, com ela rindo e tudo rodando.

Ontem, vi uma foto de Lindbergh Farias no Facebook. Então foi na internet. Ele sorria muito enquanto apertava a mão de Fernando Collor. Nada disso aconteceu. Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica. E na História, então? Fiquei com muito ódio desse ensaboadinho chamado Lindbergh Farias. Acho que a Maria está muito feliz hoje, mas não me lembro do sobrenome dela. Então, Lindbergh, vai tomar no cu, você e o Collor junto. Aproveitando, então, vai também o Lula e a sua política de consumo, o Fernando Henrique e o sorriso amarelo e bem alimentado, e eu quero muito que vá tomar no cu também o José Serra, o homem mais arrogante do Brasil, e essa Rosemary, meu Deus?, olha então a cara dessa gente. A Maria ria muito e gostava de vodca. José Sarney, vai tomar no cu: você é um poeta de merda, um enganador, fisiológico, sem-vergonha. Vai tomar no cu, então, Renan Calheiros, seu filho da puta.

Agora, acertei o tom.

 
Estou há quinze dias tentando lembrar o tema da redação seguinte. Não consigo. Só pode ser por que sinto vergonha até hoje. Um autor de romances históricos inventaria alguma coisa. Talvez a reabilitação de Galileu Galilei anunciada por João Paulo II. Prefiro assumir: sinto muito constrangimento por ter forçado de um jeito tão infantil a reaproximação com o Orlando.

Ele estava subindo a escada sozinho e carrancudo. Resolvi apertar o passo. Você não sabe: a Maria chupou o meu pau. Ele me olhou surpreso. Acho que logo vou comer ela. O tom está absolutamente inadequado, mas não consigo achar outro. Bom para você. Quando Fernando Collor perdeu o mandato de presidente da República, eu e o Orlando tínhamos 17 anos. Os homens, além de bobos, sempre demoram um pouco mais.

Na redação sobre o impeachment, Maria quase não bebeu. Fiquei nervoso. Quando veio colocar a camisinha, ela continuava de lingerie. Tenho que tirá-la? Perdi a ereção. Ela deu uma enorme gargalhada e repetiu o bordão: Como você é bobo.

No dia seguinte, vi o Orlando no pátio e, quase no ouvido dele, disse que tinha comido a Maria. Agora, ele estava preparado. Talvez até tivesse programado a resposta em casa. Com os olhos apertados e um tom estranho na voz, falou uma frase que me voltaria exatamente dezenove anos depois: Você tem problema na cabeça.

Não é bem isso. Sou sensível a barulhos muito intensos e prefiro a rotina. A literatura é a arte da repetição e da persistência.

Maria, então, deve gostar de escrever. No mínimo, tenho certeza de que até hoje ela lê muito. Na última redação do ano, consegui finalmente penetrá-la, mas devo ter ejaculado em trinta segundos. Afastei-me do Orlando. No verão de 1993, Maria me ensinou muita coisa. Nunca tomei tanta vodca.

Quando voltamos para o último ano, descobri que Orlando não estava mais matriculado. Uma das melhores amigas dele contou para a minha namorada que, por algum motivo, ele e os pais acabaram voltando para o Rio de Janeiro, onde aliás ele tinha feito quase todo o ensino fundamental.

Contei para Maria sobre o primeiro sumiço dele. Ela sabia o motivo: parece que um parente da mãe do seu amigo estava envolvido no atentado do Riocentro. Não, Ricardo, não sei de mais nada.

Passei o resto do ano pesquisando. Fiz uma pasta com cópias de jornais, resumos e até fichamentos de livros. Praticamente decorei a imagem do Puma despedaçado. Chico Buarque disse que foi uma enorme covardia. Quem anunciou o atentado para o público foi Gonzaguinha. Não descobri nada. Por fim, fui fazer letras na Unicamp. Maria se mudou para o Canadá e Orlando desapareceu da minha cabeça pela segunda vez.

 
Na madrugada de 7 de julho de 2001, no dia em que completávamos 26 anos, ouvi alguém me chamando. Eu estava no aeroporto de Auckland, na Nova Zelândia, indo para Sydney. Só havia outro avião parado. Sei que o destino eram os Estados Unidos, mas não me lembro da origem. Acho que seria adequado, então, acreditar que decolara de Tóquio.

Quando me virei, Orlando sorria e, mexendo as mãos com um movimento circular e harmônico entre os dedos, falou outra frase que jamais esqueci: Meu Deus, esse mundo é um lencinho! O rosto dele continuava branco e redondo, mas perdera a gravidade. Apesar dos quase dez anos que separavam nosso ensino médio do momento em que Bin Laden, dois meses depois, dificultaria as viagens internacionais, as feições dele estavam mais leves. Agora, usava óculos e cabelos longos. Vestia um terno muito bem cortado e carregava uma pasta de couro. Efusivo demais para aquela hora da madrugada, me deu um abraço e me convidou para um café. Mas tem que ser rápido, Orlando continuou rindo, porque meu avião não demora.

Tudo é nebuloso para mim até hoje. Era madrugada e eu já estava cansado da viagem. Se ele perguntar sobre os meus problemas na cabeça, vou sair correndo. Ou então explico que a frase dele foi profética. Estou confundindo as coisas: em 2001, eu publicara apenas um livro e, em todos os aspectos, ainda não tinha acontecido nada comigo. Estou me esforçando para deixar esse trecho o mais claro possível e acho que acabei me contaminando pelo clima do aeroporto de Auckland. Não vou mais ridicularizar os autores de ficção histórica. Sou louco, mas não covarde: são frágeis demais, exatamente iguais ao passado que pretendem reproduzir.

Não foi isso que eu disse para o Orlando. Estou indo para Sydney visitar meu irmão. Ele contou que viajava a trabalho. Não me lembro exatamente. Deve ter dito que representava uma empresa de bebidas. Meu velho amigo não quis me contar que se tornara um executivo. Olhei rapidamente o cartão de embarque: ele está viajando de primeira classe. Moro em Washington, mas tenho saudade do Brasil. Então, me contou uma história enrolada, cheia de saltos e omissões. Tenho certeza de que não comentei que tinha publicado um livro.

Na Austrália, passei boa parte das férias pesquisando o nome dele na internet. Fiz várias combinações entre Orlando e o sobrenome do sargento que morrera na explosão do Riocentro. Encontrei bastante gente, mas ninguém era meu amigo. Vai ver que o parente verdadeiro é o oficial que sobreviveu. Vivemos em um arremedo de democracia. Até hoje as instituições não exigiram que esse senhor esclareça o que aconteceu. O aparato da ditadura continua mobilizado. O cara podia ao menos dizer que é tio do Orlando.

O voo dele saiu uma hora antes do meu. Quando embarquei, fui invadido por uma paz estranha. Senti um enorme orgulho do meu amigo. Depois, como sempre, fui esquecendo.

 
Em fevereiro agora, resolvi passar o Carnaval no Instituto Inhotim em Minas Gerais. Fiz um roteiro confuso e fiquei exausto logo depois do almoço do primeiro dia de visitas. Senti tontura na frente do trator imenso colocado no meio do mato por Matthew Barney e precisei de quase meia hora para conseguir andar um pouco outra vez.

Decidi que as salas com as Cosmococas de Hélio Oiticica e Neville d’Almeida encerrariam meu passeio. Amanhã continuo. A leve friagem do chão em contato com meus pés descalços me causou um pequeno calafrio. Da primeira sala, não me lembro de nada. Depois, fiquei um bom tempo olhando a projeção enquanto as crianças estouravam as bexigas.

Aos poucos, meu corpo foi se acostumando. O cansaço me levou a um pequenino torpor e as projeções me trouxeram um estranho sentimento de nostalgia. Em uma das salas, acho que a dos colchões, devo ter cochilado em pé. Despertei assustado no momento em que o filminho que todos temos com algumas cenas marcantes da nossa vida saiu da minha cabeça e passou, com nitidez perfeita, na tela da sala.

Quando resolvi entrar na última Cosmococa, meu corpo precisou de um tempo para, de novo, me obedecer. Acontece quando perco demais a concentração. Talvez seja o contrário: se eu ficar atento demais. Não estou conseguindo achar o tom certo para descrever o que senti.

Encostei na parede e fiquei por alguns instantes olhando o movimento entre as salas. Um senhor estava visivelmente contrariado. Aos poucos, fui sentindo uma pequena alegria por estar ali. Resolvi entrar. A penumbra me confundiu. Não havia nenhum filme sendo exibido. Passei por baixo de duas redes até que, para me reequilibrar, balancei a principal, colocada bem no meio da sala. Havia um casal deitado. Pedi desculpas. Imagina.

Não pude olhá-los direito. Estavam abraçados e virados um para o outro. Quando saí, a luz da tarde me ofuscou. Andei até encontrar um café. Sem respirar, tomei meio litro de água e percebi que a voz me dizendo imagina era a do Orlando. Então é isso: a gente se encontra a cada dez ou doze anos, mais ou menos. O resto fica solto no meio da história.

Achei divertido. No caminho que leva à saída do parque, porém, um mal-estar me fez procurar meu velho amigo entre a pequena multidão que ia para o estacionamento. Se não encontrá-lo agora, na próxima vez terei 50 anos. Meu corpo se paralisou. Terei 50 anos. Deitado na rede, meu amigo transmitia uma paz fora do comum. O rosto dele continuava branco e redondo, mas os cabelos de novo tinham ficado curtos. Da explosão do Riocentro até as Cosmococas, o Orlando se apaziguou. Pela segunda vez, o amigo mais antigo que tenho na lembrança me deixou orgulhoso.

Vamos tomar um café antes dos nossos 50 anos? De preferência, logo. Vou levar um dos meus livros, para ver se você também fica orgulhoso de mim. Além disso, eu gostaria de conhecer o seu namorado. Traga-o junto.

Ricardo Lísias 

Ricardo Lísias, escritor, é autor de Inquérito Policial: Família Tobias, da editora Lote 42 e A Vista Particular, pela editora Alfaguara

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