despedida

O último telegrama

Índia culpa SMS pelo fim do telégrafo, mas só 26% dos indianos têm celular

Juliana Cunha
A empresa de telégrafos Bharat Sanchar Nigam Limited já teve 12 500 empregados, mas, quando fechou, contava com apenas 998 e amargava um prejuízo anual de 23 milhões de dólares
A empresa de telégrafos Bharat Sanchar Nigam Limited já teve 12 500 empregados, mas, quando fechou, contava com apenas 998 e amargava um prejuízo anual de 23 milhões de dólares FOTO: RAFIQ MAQBOOL_AP PHOTO_GLOW IMAGES

Em 1850, o cientista britânico William O’Shaughnessy imprimiu seu nome na história: fez com que uma simples mensagem percorresse os quase 50 quilômetros que separam Calcutá de Diamond Harbour e fosse recebida em apenas duas horas e meia. No mês passado, 163 anos depois, o negociante de selos Gour Chakraborty também conseguiu imprimir seu nome na história, mas de um jeito menos britânico: ele teve a honra de enviar o último telegrama antes do encerramento das atividades da Bharat Sanchar Nigam Limited (BSNL), a empresa de telégrafos indiana.

A mensagem enviada para sua irmã, Sujata Dutta, demorou quase nove dias para percorrer modestos 15 quilômetros de distância. Tecnicamente, o telegrama sequer chegou a seu destino, considerando que a moça – depois de receber telefonemas impacientes do irmão – teve de ir buscá-lo pessoalmente nos correios. A central de telégrafos explicou a demora: o posto de onde Chakraborty enviou sua mensagem costumava receber no máximo trinta telegramas diários nos últimos cinco anos. Naquele último dia, recebeu mais de 400. “Fiquei desapontado com a evolução do serviço nos últimos 163 anos”, gracejou Chakraborty para o Hindustan Times.

“A história não poderia ilustrar melhor a sede de modernidade da Índia, sempre esbarrando na falta de infraestrutura básica”, comenta Suketu Mehta, autor de Bombaim: Cidade Máxima (Companhia das Letras) e professor de jornalismo da Universidade de Nova York.

O escritor não integra o grupo de saudosistas que pede a volta dos telégrafos, mas questiona seus substitutos: “Na Índia é assim: quem pode tem dois telefones em casa porque um está sempre quebrado. Temos mais de vinte empresas de telefonia celular, mas é normal que um SMS nunca chegue. Estamos sempre tentando pular etapas, possuir símbolos de desenvolvimento sem percorrer o longo caminho que os torna úteis”, explica.

Em seus últimos anos de funcionamento, o telégrafo indiano amargou um prejuízo de 23 milhões de dólares ao ano. O serviço, que já empregou um contingente de 12 500 pessoas, fechou as portas deixando 998 desempregados. A companhia de telégrafos culpa o advento do SMS. O próprio governo indiano afirma que o serviço perdeu sua razão de existência por ser menos eficaz que outros meios de comunicação. Mas apenas 26% dos indianos possuem telefone celular e somente 3% têm internet em casa. Enquanto isso, países com maior acesso a meios de comunicação digitais, como Canadá, Estados Unidos e Japão, continuam mantendo serviços de telégrafos. No Brasil, o telegrama é enviado pela internet e chega em cerca de quatro horas nas cidades com mais de 50 mil habitantes.

 

Os telegramas ajudaram a escrever a história da Índia, mas geralmente traziam más notícias ao povo. Eles foram uma ferramenta importante para a colonização britânica, funcionando como uma rede social às avessas – em vez de mobilizar as pessoas, foram usados para desmobilizar. Em 1857, por exemplo, foi graças aos telegramas que os britânicos conseguiram desmobilizar uma revolta popular. Também foi com um telegrama que o então primeiro-ministro Jawaharlal Nehru comunicou Londres da invasão paquistanesa na Caxemira. Nos últimos anos, os telegramas mais frequentes que um indiano recebia eram enviados pelo governo, por bancos ou por parentes, sempre para comunicar problemas judiciais, dívidas e casos de morte na família. “Em uma sociedade com dificuldades para levar as coisas a sério e uma forte tendência à informalidade, o telegrama ainda é um documento que carrega certa credibilidade intrínseca”, diz Mehta.

Os telegramas serviam, também, como proteção a namorados que fugiam para casar em segredo, sem o consentimento da família. Nesse caso, os pombinhos subversivos enviavam telegramas para a Comissão Nacional de Direitos Humanos a fim de evitar que os ânimos da família se exaltassem além da conta. O telegrama funcionava como uma denúncia prévia e um pedido para que a polícia desconsiderasse qualquer notificação de desaparecimento ou sequestro, uma estratégia usada com frequência pelos pais para que as autoridades encontrassem os fujões.

O assassinato de membros da família por causa de discordâncias na escolha matrimonial ainda é relativamente comum na Índia. No fim do ano passado, por exemplo, o jovem Abdul Hakim foi assassinado pela família da noiva em Uttar Pradesh, um dos poucos estados que oferecem ajuda financeira para casamentos entre castas. A viúva sobreviveu, mas permanece sob proteção do Love Commandos, uma organização indiana de proteção a casais cuja união desagrada às famílias. “O governo diz que não precisamos mais dos telégrafos porque temos SMS. Isso é mentira, pouca gente tem celular e a polícia não aceita denúncias por mensagem de texto. Antes de interromper o serviço eles tinham que oferecer uma alternativa legal para os casais em perigo. Hoje as pessoas me perguntam o que fazer e eu digo: ‘Não sei!’ Uma carta é só um pedaço de papel. O telegrama era um documento”, lamentou Sanjoy Sachdev, diretor do Love Commandos.

Juliana Cunha

Juliana Cunha é repórter, tradutora e autora dos livros Gaveta de Bolso, da Prólogo, e Já Matei por Menos, da Lote 42.

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