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O último traje

Em El Salvador, um dos países mais violentos do mundo, médicos-legistas guardam a roupa de corpos não identificados, com a esperança de que ajude no seu reconhecimento

Fred Ramos e Carlos Dada
FOTOS: FRED RAMOS

Ossos e roupas se amontoam em caixas com um número e o nome do local onde foram encontrados. Pertenceram, na maioria, a meninas adolescentes, a rapazes que não chegaram à maioridade, a crianças. O lugar mais parece o depósito de um projeto arqueológico do que uma unidade do Judiciário salvadorenho. Trata-se do escritório da equipe de antropologia forense, instalado em duas pequenas salas da sede do Instituto de Medicina Legal de San Salvador, aonde chegam para identificação os corpos achados em fossas, em descampados, em rios.

Há algum tempo visitei esse escritório com Daniel Valencia e Fred Ramos, que estavam preparando uma reportagem sobre desaparecidos para o jornal digital El Faro. Eu estava escrevendo um texto sobre a cultura da violência em El Salvador, e Valencia me sugeriu que fosse “ver ossos” com ele. Naquela manhã, enquanto os médicos-legistas nos explicavam suas condições de trabalho e nos mostravam os vestígios de lesões nos ossos, chegaram duas mulheres para perguntar pelos filhos desaparecidos. Foram embora chorando, depois de examinar fêmures, maxilares, crânios, dentes e roupas que não conseguiram identificar. A incerteza às vezes é mais cruel do que a confirmação da morte. Mas ambas imperam no triângulo setentrional da América Central.

As fotos de Fred Ramos que aparecem nestas páginas, premiadas com o World Press Photo deste ano, registram o último traje usado por essas vítimas e nos dizem como viviam. Um garoto de bermuda, que usava fones de ouvido. Outra moça de short, com uma camisa branca leve, adequada ao calor dos trópicos. Jeans, jeans, jeans. Uma camiseta com a estampa de um grupo de rock. Adolescentes e jovens como os de qualquer cidade latino-americana. Vestem-se da mesma forma, escutam música, querem passar a maior parte do tempo com os amigos. Estão na idade de começar a se apaixonar, dar o primeiro beijo, tomar o primeiro porre. Mas esses jovens têm a maldita sina de viver em El Salvador, o país mais perigoso do mundo para menores de 20 anos, segundo a Unicef (o segundo lugar é ocupado pela Guatemala). E aqui a adolescência e a juventude são idades também para morrer.

Nós já nos acostumamos a isso. Vemos um morto na rua. Nos revira o estômago. Praguejamos. País de merda. E continuamos tocando a vida até o morto seguinte.



Alguns já nem praguejam mais. Daniel Valencia tirou uma foto em Honduras de umas meninas com uniforme da escola comprando sorvete junto ao corpo de um homem recém-assassinado. A polícia chegou. Isolou a área com fitas de segurança. O sorveteiro continuou vendendo. As pessoas continuaram comprando.

 

Em El Salvador, a taxa de homicídios projetada para 2014 é de 65 assassinatos por 100 mil habitantes (no Brasil, a taxa, também muito alta, foi de 29 por 100 mil em 2012). A cifra só é superada por Honduras, onde, nos anos recentes, os assassinatos ultrapassaram a marca de 80 por 100 mil habitantes. Nas colocações seguintes estão Guatemala e Belize. Quatro dos cinco países mais violentos do mundo, colados um ao outro.

Segundo as autoridades, a maior parte dos homicídios em El Salvador se deve a uma guerra entre duas quadrilhas – Mara Salvatrucha e Barrio 18 – que lutam pelo controle de territórios onde extorquem, traficam armas e drogas e mantêm milícias. Nesses lugares, a simples suspeita de que alguém falou com um membro do grupo rival equivale à morte.

Nos últimos vinte anos, o governo sempre tentou atacar o fenômeno pensando na eleição seguinte. Assistimos a operações policiais televisionadas ao vivo; prisões maciças; planos de repressão chamados Mão Dura e Mão Superdura que aumentam a popularidade dos políticos e levam as quadrilhas a sofisticar seus métodos para sobreviver.

Há quase três anos, o governo salvadorenho negociou com esses grupos benefícios carcerários em troca de uma trégua. Para provar a boa-fé dos criminosos, os mediadores da trégua convidaram a imprensa para visitar as prisões. Apresentadores de televisão de terno e gravata se sentaram atrás das grades com homens de rosto tatuado, condenados por dezenas de crimes, e os entrevistaram fascinados, como se estivessem diante de estadistas ou celebridades. Os canais de tevê anunciavam a transmissão de entrevistas com bandidos como El Viejo Lin, El Sirra, El Chino Tres Colas… El Salvador passava a ter novos atores políticos.

Desde então, os criminosos presos divulgam comunicados públicos apelando à boa-fé dos cidadãos – num deles chegaram a citar uma frase de Robert F. Kennedy sobre a democracia. Sem sair de suas celas, controlam bairros, autorizam ou desautorizam assassinatos, extorsões, pactos.

A taxa de homicídios caiu pela metade enquanto a trégua durou. De quando em quando, para deixar bem claro quem tinha o poder nessa negociação, as quadrilhas viravam a chave e deflagravam dois dias de fúria em que os mortos eram contados às dúzias. Os criminosos aprenderam a negociar. Viram que seu poder reside no controle sobre a morte. Negociar com o Estado é fazê-lo seu refém. Poder é violência, violência é poder.

 

A violência em El Salvador tem sido muita, apesar de seu território minúsculo, de pouco mais de 21 mil quilômetros quadrados (menor que Sergipe), mas com a mais alta densidade demográfica da América continental: 6 milhões de habitantes (sem contar os 2,7 milhões que vivem nos Estados Unidos).

Em 1992, depois de uma década de guerra civil, os guerrilheiros da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, FMLN, e o governo assinaram acordos de paz promovidos pela ONU e considerados um modelo de reconciliação. O Exército foi afastado da vida política, os órgãos de segurança pública foram refundados e o sistema político foi aberto a todas as ideologias.

Hoje a FMLN governa El Salvador pelo segundo mandato consecutivo, depois de quatro governos da ultradireitista Aliança Republicana Nacionalista, Arena. A prova da democracia, dizem, foi superada. Duas décadas depois dos acordos, porém, os salvadorenhos não têm paz. Mais uma vez, a violência burlou a história.

Pouco depois do fim da guerra civil, os Estados Unidos começaram a deportar criminosos formados nas ruas de Los Angeles. Eles chegaram a um El Salvador violento, cheio de armas, com o tecido social esgarçado e instituições fracas. A um país pobre que saía de uma guerra pensando na reconstrução e na reconciliação, mas sem recursos nem energia para incluir jovens marginais. Assim nasceram as maras, que se encarregaram de perpetuar a violência. Uma violência que se enraizou na América Central com tanta força que hoje parece impossível erradicá-la. O que lhe permite sobreviver aos ciclos históricos?

Quem respondeu a essa pergunta, já em 1979, foi o arcebispo de San Salvador, monsenhor Óscar Romero. A violência, disse ele, “parecerá historicamente inevitável enquanto suas verdadeiras causas não forem eliminadas”: a tremenda desigualdade, a falta de acesso à Justiça, a manutenção de um sistema econômico em que muitos trabalham para o privilégio de poucos.

Em 24 de março de 1980, monsenhor Romero foi assassinado enquanto rezava uma missa. Em seguida veio a guerra, e depois, muitos anos mais tarde, a democracia. Mas as causas a que o arcebispo se referiu nunca foram eliminadas. Passamos da violência política da Guerra Fria à violência criminosa do novo século, que se alimenta da debilidade do Estado, da corrupção e de uma estrutura econômica cujo funcionamento ainda se baseia na desigualdade. Honduras e Guatemala padecem dos mesmos problemas ancestrais.

 

A única coisa que os médicos do escritório de antropologia forense de El Salvador podem oferecer às mães dos desaparecidos para tentar alguma identificação são ossos e roupas. O sistema político, que mantém a Corte Suprema de Justiça e o Congresso em conflito permanente, paralisou a criação de um banco genético, que poderia dar alguma certeza a essas mães.

Há também pais que se negam até mesmo a tentar identificar os restos dos filhos. Fazê-lo, dizem, abriria uma investigação contra os assassinos, que poderiam tentar se vingar. Identificar os restos de um filho poderia pôr em risco a vida dos demais. O Estado não tem como protegê-los.

Os médicos-legistas conservam os restos esperando que um dia, quando a tecnologia e as condições permitirem, eles possam ser identificados. Mas os ossos e as roupas dos desaparecidos continuam a se acumular em caixas. A cada semana, chegam em média dois corpos sem identidade. Pertencem, em sua maioria, a meninas adolescentes, a rapazes que não chegaram à maioridade, a crianças.

São vítimas recentes de uma violência que hoje faz de El Salvador o país mais perigoso do mundo para menores de idade. Aos que sobreviverem confiaremos o futuro dos nossos países.

Fred Ramos

Fred Ramos é fotojornalista salvadorenho.

Carlos Dada

É jornalista salvadorenho e cofundador do site El Faro

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