despedida

O último zelador

O velho optou por encarar o vulcão. Não deu muito certo

Marcos Sá Corrêa
Vovô Maridjan acabou calcinado em postura de oração nas encostas do Merapi, a uma temperatura estimada em mil graus centígrados
Vovô Maridjan acabou calcinado em postura de oração nas encostas do Merapi, a uma temperatura estimada em mil graus centígrados FOTOMONTAGEM COM AS IMAGENS DE BAY ISMOYO E DIMAS ARDIAN_STRINGER/GETTY IMAGES

Penewu Surakso Hargo, o Vovô Maridjan, zelador vitalício do vulcão Merapi, em Umbulharjo, um vilarejo de Java, na Indonésia, cumpriu até o último instante de seus 83 anos um papel tão anacrônico, que só a partir de sua morte é que sua vida acertou o passo com o noticiário internacional do século XXI.

Maridjan morreu em casa no dia 26 de outubro. Nada mais banal, se sua casa não ficasse nas encostas do Merapi, o vulcão mais ativo da Indonésia. A cratera fumega em média 300 dias por ano. Vomita fogo regularmente desde 1548. E, dois meses atrás, dias antes de lançar pelos ares o próprio topo da montanha, anunciou que andava de humor virado, sacudindo-se com uma série inconfundível de 500 terremotos.

Merapi, em javanês, significa “montanha de fogo”. Um nome desses não é pouca coisa naquela área do Pacífico pontilhada por 129 vulcões ativos e centenas de vulcões dormentes. Mesmo assim, o velho Maridjan morava a menos de 5 quilômetros da goela do Merapi. Em 25 de outubro, quando não havia mais dúvida plausível sobre a iminência da erupção, Maridjan foi instado pelos poderes locais a sair dali. Preferiu esperar a revoada de detritos piroclásticos, que é o nome que se dá à artilharia pesada dos vulcões. Eles o calcinaram em postura de oração, a uma temperatura estimada em mil graus centígrados.

Maridjan foi reconhecido pelos dedos, previamente entortados pela artrite. Morreram com ele treze pessoas, entre devotos em busca de proteção sagrada, um repórter e voluntários das equipes que tentavam comandar a debandada para terrenos menos expostos.



O velho optou por encarar o vulcão. Não tinha opção. Era esse seu ofício. Ou pior, era um posto honorífico e simbólico, exercido como cargo de confiança. Ganhava para isso o equivalente a 1 dólar por mês. E levava seus compromissos a sério. Era, a seu modo, um homem do tempo em que comandantes afundavam com seus navios. E provavelmente não quis conspurcar o seu currículo, onde avulta a façanha de 2006. Naquele ano, em maio, ouviu alertas semelhantes. Ignorou-os soberbamente. Com oferendas na mão, subiu ao templo, debruçou-se no Merapi e teve com o vulcão um boca a boca decisivo.

As negociações tiveram tanto sucesso quanto as cúpulas de paz no Oriente Médio. O vulcão não se rendeu aos argumentos em favor da harmonia tectônica e o guardião voltou da missão chamuscado. Passou cinco meses no hospital, em convalescença. Sua casa virou pó. Saiu do embate com cinquenta baixas entre os seus devotos. Ganhou, entretanto, o direito de anunciar com quatro anos de antecedência a um repórter o que agora soa como seu testamento missionário: “Tenho o dever de ficar aqui.” Em outras palavras, sentia-se condenado a desafiar os prognósticos de sismólogos e os boletins da Agência de Mitigação dos Riscos Geológicos, gente que de uma hora para outra invadia a experiência milenar de Umbulharjo com informações que só garantiam a obsolescência social de Maridjan. Ora bolas.

 

A morte de Penewu Surakso Hargo aparentemente marca o fim de uma dinastia. Antes dele, seu pai, Mbah Hargo, exerceu o posto de piroterapeuta do Merapi. O filho foi oficialmente designado para sucedê-lo em 1970, embora só viesse a assumir de direito e de fato as atribuições do pai em 1984. Foi escolhido com cautelosa antecedência pelo sultão Hamengkubuwono IX.

Embora fosse o mandachuva local, o soberano javanês sequer fingia ter qualquer jurisdição sobre chuva de pedras ígneas. Isso era assunto para especialistas. E os especialistas eram um produto destilado por tradições imemoriais. Não confundir com similares nacionais, como a Fundação Cacique Cobra Coral, que, ao que se saiba, jamais demonstrou a hombridade de encarar as águas dos temporais que não consegue prever.

Com coragem exemplar, há tempos os guardiões do Merapi tentavam aplacar os espíritos piromaníacos que habitam o ventre da montanha e cospem seus humores incandescentes há pelo menos 400 mil anos. Nos primeiros milênios, essa turma irritada se contentava com derrames mais ou menos pacíficos de basalto liquefeito. Depois, de uns 10 mil anos para cá, aderiram às explosões de lava que a cada dois ou três anos assustam ou arrasam os povoados no sopé da montanha. Uma vez por década, suas erupções cobrem de cinzas o céu de quem mora muito além da ilha de Java. Eventualmente, afetam o clima de meio mundo, como tudo indica que está acontecendo este ano.

 

As erupções de 1786, 1822 e 1872 deixaram marcas profundas na história de Java. A de 1006 enterrou da noite para o dia o reino de Mataram. A de 1930 custou no mínimo 1 400 vidas. E a de 2010, talvez porque Maridjan não esteja mais aí para aplacar com oferendas de flores e frutas os espíritos do Merapi, parece disposta a deixar seu registro nos anais da vulcanologia.

Em 30 de outubro, quatro dias depois da morte de Maridjan, o vulcão voltou a se manifestar, com fôlego redobrado. Suas rochas pulverizadas caíram a 30 quilômetros de distância. Soldados e policiais que cuidavam dos povoados trataram de exigir que todos dessem no pé. Foi só o primeiro aviso.

No começo do mês passado, chegou a hora de transferir os próprios campos de refugiados, onde os desabrigados acabavam de se instalar. No dia 3, os vulcanólogos acampados no cume do Merapi houveram por bem tirar da montanha seus postos de observação, botando uns bons 15 quilômetros entre suas bases de estudo e o foco dos acontecimentos. Empresas aéreas desviaram suas rotas das colunas de fumaça, ou simplesmente cancelaram seus voos.

No dia 4, colunas de gás quente, beirando os 800 graus centígrados, espalhavam-se por mais de 11 quilômetros em torno do vulcão. Pelos rios enlameados de Kinahrejo corriam torrentes de magma. Uma camada de dióxido de enxofre toldava o oceano Índico, boiando na troposfera. Suspenderam-se as aulas em todas as escolas, num raio de 120 quilômetros. Cem mil pessoas se afastaram do Merapi, apesar da manifesta relutância popular em arredar o pé de suas terras, desde que o governo indonésio deu para demarcar as faldas da montanha como parque nacional.

Os vulcanólogos já acompanhavam a ira do Merapi por monitoramento remoto quando, no dia 9, a erupção de 2010 foi formalmente reconhecida como superior à de 1872. Era tudo o que Vovô Maridjan poderia desejar como homenagem póstuma, desde que o líder comunitário Ponimin, convidado pessoalmente pela rainha Hemas a substituir seu mestre na guarda espiritual do Merapi, declinou da honra com compreensível sensatez. Sem o zelador de seu vulcão, o vilarejo de Umbulharjo parece pronto para se integrar ao mundo tal como ele é. Ou seja, imprevisível.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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