bastidores de Hollywood

O verdadeiro avatar queira por favor subir ao palco

O escritório dele está cheio de fotos autografadas de atrizes, modelos e deputadas. Golda Meir aparece estirada sobre um tapete de pele de urso

Woody Allen
ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2010

Imagino eu que deuses sob forma humana possam muito bem dar as caras de tempos em tempos nesta nossa bolinha de gude azul perdida no espaço, mas duvideodó que algum já tenha rodado por Beverly Hills a bordo de um Thunderbird conversível ostentando a pinta e a panca de um Warren Beatty. Depois de ler Star, a nova biografia do ator, de autoria de Peter Biskind, é impossível alguém não se sentir aplastado pelas estuporantes realizações desse cara. Pense um pouco nos filmes que ele protagonizou, nas bilheterias, nas críticas, nos Oscar e nas tantas indicações ao prêmio que esse goleador intrépido amealhou. Sem falar que ele é um leitor voraz e um gênio do marketing, afiadíssimo também ao teclado de um Steinway, enfronhado na política e um Adônis em tempo integral, aplaudido por toda sorte de gente para quem ele é não apenas um ser das telonas de cinema, mas também do Salão Oval, ou Oral, como ficou conhecido o gabinete reservado a estrepolias com estagiárias na Casa Branca à época em que Bill Clinton andava por lá, nem sempre de braguilha fechada.

O currículo do astro, erigido, em mais de um sentido, nas suas legendárias incursões por camas e outras superfícies receptivas a corpos hollywoodianos incendiados de desejo, é de deixar qualquer Orson Welles babando de inveja. A biografia escrita por Biskind arrola seus inumeráveis casos com mulheres de variados biotipo, qualidade e status social, de atrizes a modelos, de mocinhas da chapelaria a primeiras-damas. Beldades absolutamente endeusáveis faziam fila, salivando de vontade de cair de boca nesse virtuoso dos lençóis. “Quantas mulheres já passaram por suas mãos?”, indaga-se o biógrafo. “É mais fácil contar as estrelas no céu… Beatty afirmava que lhe era impossível pegar no sono à noite sem antes fazer sexo. Era parte de sua rotina, como usar o fio dental… Levando-se em conta os períodos em que ele esteve com uma mesma mulher, podemos chegar à cifra de 12 775 mulheres, mais ou menos.”

Na qualidade de humilde amante que nem chegou ainda a contabilizar dois dígitos de exemplares do sexo oposto abatidos, vários dos quais só depois de ter-me valido de técnicas subliminares de hipnose, não consigo resistir a imaginar o relato de uma dessas fogosas garotas que ajudaram a conduzir um astro priápico do feitio de um Warren Beatty ao panteão erótico do Livro dos Recordes. Mas vamos deixá-la falar por si mesma:

 

Nossa, que manhã! Tive de engolir dois Valium para espantar as moscas, borboletas monarcas e vira-bostas que se valiam do meu estômago como espaço para suas manobras aéreas. Era a minha primeira pauta como repórter, e olha só o que me acontece. Saí de casa pensando por que cargas d’água o mais carismático ator de Hollywood, Pino Durango, que foge dos holofotes da mídia feito um Howard Hughes, iria conceder entrevista a uma jovem desconhecida de 19 anos, loira, com o cabelo batendo nos ombros, longas pernas bronzeadas, zigomas da dinastia Ming na cara, portando um frontispício peitoral considerável e fazendo um biquinho labial capaz de provocar tremendos estragos na patota detentora do cromossoma Y.



Se esse Casanova tisnado de sol pensa que vai me faturar, como tem feito com essa miríade de cocotinhas deslumbradas nas quais ele passa o rodo direto, ele vai ver só. Meu objetivo na vida é fazer reportagens sérias, e, francamente, prefiro encarar um Bento XVI ou um Dalai Lama num tête-à-teta. Só que esses figurões pernósticos nunca responderam aos meus pedidos de entrevista, ao passo que o Pino? – que, por coincidência, tinha me visto pelada num ensaio da Playboy sobre as mais bem formadas alunas de jornalismo da Universidade Columbia? – não só me respondeu, como ainda perfumou a cartinha.

Para me certificar de que as demandas em escala industrial da sua libido não viessem a lhe sugerir nenhuma falsa ideia sobre as minhas intenções, fui vestida de maneira conservadora, com uma microssaia nada provocativa, de meia-calça arrastão e uma blusa de muito bom gosto, bem justinha, de tecido transparente sobre meus seios desprovidos de sutiã. Nos meus lábios, que, modéstia à parte, deixariam a beiçorra do jovem Mick Jagger parecendo os lábios chupados da bruxa Memeia, passei apenas um discreto batonzinho rubi fosforescente, sentindo-me assim suficientemente chué para desencorajar qualquer tipo de intimidades da parte do Mister Testosterona. A perspectiva do meu encontro com Pino Durango causou certa apreensão no meu noivo, mas Cornellius sabe que não precisa se preocupar, apesar de saber também que nenhum homem?– ainda mais um quase sósia do Mickey Mouse?– é páreo para o maior garanhão da Playboylândia californiana.

 

Cheguei finalmente à casa de Pino Durango, em Bel Air, modesta para os padrões da vizinhança, com sua arquitetura clonada do Partenon, acrescida de alguns floreios inspirados na Catedral de Notre-Dame e na Ópera de Sydney. Pino, que não apenas atua, mas também escreve, dirige e produz, tinha acabado de apresentar seu último filme, o já aclamadíssimo Réquiem para um Pidão. Ele desfruta de total liberdade artística e tem sido chamado de gênio tanto pela Variety quanto pela prestigiosa Gazeta do Avicultor. Segundo um mandachuva de Hollywood, “se esse cara quiser botar fogo no estúdio, eu mesmo lhe dou os fósforos”. Só que, por ironia, quando Pino tentou fazer isso, eles chamaram a segurança.

Ao estacionar, notei que um punhado de jovens starlets emergia pela porta da frente aos risinhos, exibindo carinhas de radiante plenitude.

“Ainda estou vibrando”, dizia a moreninha. “Ele fez um amor totalmente passional comigo, acompanhando-se ao mesmo tempo ao piano.”

“Só sei que cheguei cedo”, contava a ruivinha. “Me deram um número e esperei a minha vez. Daí, quando me chamaram, fizemos sexo várias e várias e mais várias vezes. Quando dei por mim, estava recobrando a consciência na unidade de convalescença, e uma enfermeira tentava me dar um chá.”

Toquei a campainha e o empregado chinês, o Chi Fu Deng, todo esticadinho em seu dólmã branco, me abriu a porta. A casa é mobiliada em madeiras escuras e viris, com fotos autografadas de adoráveis mulheres, penduradas pelas paredes. Atrizes e modelos estão ao nível do olho. As de deputadas, e a de Golda Meir estirada sobre um tapete de pele de urso, ficam logo acima. A fileira de baixo está reservada às odontólogas, aeromoças e um grupo de mulheres de olhos marejados integrantes de uma colônia de leprosos. Tem muitos badulaques e quinquilharias à mostra também, como um par de algemas de ouro sobre a mesinha de centro, presente de Margaret Thatcher. O item mais estimado pelo astro, como vim a saber, é um Rolex com seu nome gravado, que lhe foi ofertado no Dia dos Namorados por madre Teresa de Calcutá.

 

Enquanto eu xeretava por ali, senti duas órbitas ardentes a sondar minha anatomia. Ao me voltar, topei com a atração número 1 das bilheterias americanas dissecando a minha protuberância calipígia. “Belo equipamento de locomoção”, disse-me ele, depois de deslocar o foco do olhar para as minhas pernas. “É óbvio que você malha bastante. Quer um aperitivo para relaxar a musculatura do baixo-ventre?”

Ele era o máximo. Era fácil perceber porque o pessoal responsável pelo cabelo e maquiagem dele havia sido agraciado com o prêmio Big Tycoon, concedido a obras de caráter humanitário. “As vibrações dessa sombra da Revlon que você está usando, somada à sutil fragrância do seu Madonna di Gaga n° 5, sinalizam que a sua bebida preferida deve ser um stoli martini, de vodca Stolichnaya, é claro, com apenas um quê de limão. Me diga se cheguei perto de acertar”, ele perguntou.

“Incrível! Como foi que você sacou o quanto sou fissurada exatamente por esse drinque?”, respondi, sentindo um frisson primitivo na base da medula.

“Pode chamar isso de intuição”, ele retrucou. “Digamos que sou capaz de captar os mais profundos desejos femininos. Por isso mesmo sei que o seu poema favorito é ‘Recuerdo’, da Edna St. Vincent Millay, o seu pintor de estimação é o Caravaggio e a sua música predileta é ‘Goofus’, dos Carpenters. Acertei?”

“Na mosca! Você é o cara, Pino! Aliás, você é a cara do Alain Delon quando jovem.”

“Isso é porque tô meio mal do estômago hoje”, ele confessou, passando-me a vodca. “Na verdade, o modelo do meu look é o Davi, do Michelangelo.”

O telefone tocou, e, pelo que pude pescar da conversa, era um dos cupinchas do Pino na política. O astro, cujas sacadas e sagacidade não se restringem à criação de obras-primas em celuloide, também é conhecido por ser o manipulador de marionetes por trás de algumas das mais altas autoridades governamentais. No caso, o telefonema era de um cardeal do Partido Democrata que investigava uma mulher indicada para um posto no Ministério da Justiça. Ele queria apurar se a figura estava dizendo a verdade quanto à localização do ponto G dela.

“Adorei a sua versão pra cinema do Macbeth“, falei, quando ele desligou. “Você acabou se acertando com o sindicato dos roteiristas quanto aos créditos do filme?”

“O Smartie Outlaw, meu advogado, caiu matando em cima daqueles pentelhos reclamões de Stratford-upon-Avon”, ele explicou. “No fim das contas, eles concordaram com uma coautoria.”

Enxugando o segundo stoli martini, puxei meu caderninho e minha esferográfica e ajustei minha liga, esperando que ele não notasse.

“Vou direto ao ponto”, lancei. “Como você consegue ser tão incrivelmente produtivo como artista e ainda achar tempo para levar tanta mulher pra cama?”

“No começo era difícil”, ele confessou. “Nem era tanto o sexo que atravancava a minha agenda. Era mais o pós-coito: cigarro e aquele papinho de travesseiro. Um dia me caiu a ficha de que eu poderia contratar alguém para os trabalhos de confraternização afetiva, que eu chamo de ‘sessão fofura’. Aí tudo mudou. Eu não precisava mais ficar ali escutando aquela arenga pastosa sobre o planeta Terra e sei lá o quê. Me vi livre para trabalhar nos roteiros dos filmes e desenvolver conceitos inovadores.”

Foi aí que o Chi Fu Deng entrou e anunciou que um ônibus havia acabado de chegar de Seattle com um grupo de jovens esposas suburbanas, ganhadoras, ao que parecia, de algum tipo de concurso. “Bota todo mundo lá em cima”, comandou Pino. “Fala pra tirarem a roupa e dá pra elas um roupão de papel. Diz que é pra amarrar o roupão na frente. Já, já, eu subo.”

 

Retomei a entrevista:

“E a que você atribui o seu extraordinário apetite sexual, Pino? Estamos falando aqui de mais de 12 mil mulheres. Às vezes, várias por dia.”

“Basicamente, faço isso para prevenir cáries”, ele respondeu. “É como passar fio dental. Uns anos atrás, percebi que se, eu fosse pra cama sem fazer sexo, minhas gengivas começavam a retroceder.”

“Você deve ser uma verdadeira máquina na alcova”, continuei, tentando imaginar como seria ser desfrutada por um cara que era uma combinação de Narciso com o Minotauro.

“Quer experimentar?”, ele desafiou, tomando-me em seus braços e estalando os dedos para convocar uma banda de mariachis.

“Eu tenho um noivo”, protestei.

“O.k., mas será que ele consegue fazer isto?”, disse ele, dando um salto mortal para trás e caindo de pé novamente com um sorriso nos lábios.

“A verdade é que eu e o Cornellius temos um acordo”, sussurrei. “Eu sou livre para dormir com quem quiser, e ele fica dono absoluto do controle remoto.”

 

Quando vi, ele já pressionava seus lábios contra os meus, ao mesmo tempo em que minha calcinha me era subtraída por artroscopia. A partir daí, tudo ficou nebuloso. Lembro de alguém, talvez o Pino mesmo, ou algum assistente seu, mordiscando minha orelha. Mais tarde fiquei sabendo que, além de um dublê para a sessão fofura, Pino Durango usa outro assessor para desempenhar as preliminares, poupando-lhe preciosos minutos antes de entrar na ação propriamente dita.

Lembro de me ver trancada no abraço do Pino enquanto ele me castigava sem piedade. Pela primeira vez na minha vida sexual, vi espocarem fogos de artifício? – de verdade! Cornellius ligou para o meu celular bem no meio da transa. Menti dizendo que estava trabalhando. Mas achei que ele desconfiou de alguma coisa quando me disse: “Ei, estou ouvindo rojões. Você por acaso está em Chinatown?”

Depois de fazer amor, Pino me falou do quão especial aquela experiência tinha sido para ele, e de como, entre todas as suas mulheres, eu era a única com a qual ele de fato se importava. Em seguida, me fez sentar em uma poltrona de frente para uma janela aberta, enquanto pressionava um negócio onde se lia “botão do assento ejetor”. Aquilo me fez sair do recinto de forma bastante rápida, não antes, porém, de alguém me jogar nas mãos um globo de acrílico onde estava gravado, com notório romantismo, o número 12 989.

Woody Allen

Woody Allen é cineasta.

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