vultos da república

O vice a cavalo

Hamilton Mourão e o lugar dos militares no governo Bolsonaro

Fabio Victor
Durante as provas na Hípica, no Rio, formou-se uma corrente de proteção para impedir que os brasileiros soubessem que, na véspera da eleição, o general Mourão tinha caído do cavalo
Durante as provas na Hípica, no Rio, formou-se uma corrente de proteção para impedir que os brasileiros soubessem que, na véspera da eleição, o general Mourão tinha caído do cavalo RICARDO BORGES_2018

Ídolo do Rincão estava inquieto naquela manhã de sábado, 27 de outubro, véspera do segundo turno da eleição. O vistoso cavalo de cor negra da raça chamada Brasileiro de Hipismo – um híbrido de várias raças europeias – aguardava a sua vez de entrar na pista. Seria montado pelo general da reserva Hamilton Mourão na primeira das cinco provas do torneio promovido pelo Centro Hípico do Exército, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio de Janeiro. Mourão competia na categoria mais básica, com obstáculos de 70 centímetros. Como não havia restrições de idade, na prova do general estavam inscritos crianças, jovens soldados e senhores como ele, que tem 65 anos.

Na área em que os cavalos são encilhados e selados, a mulher do general, Ana Paula Leandro de Oliveira Mourão, resolveu tentar acalmar Ídolo. Fez carícias no bicho e, imitando voz de criança, falou: “Que coisa mais linda, né, bebê?” Por um instante, o animal pareceu se tranquilizar, mas, de repente, se ouriçou de novo, bufou, ensaiou se rebelar. “Tá vendo como ele fica agitado? É porque sabe que vai ser encilhado”, ela disse, enquanto Mourão se aproximava. O futuro vice-presidente, que mede 1,73 metro e pesa 83 quilos, vestia calça culote e camisa polo pretas, combinando com o chapéu e as botas de cano alto. Ali mesmo na estrebaria atendeu aos primeiros pedidos de fotos, que se multiplicariam ao longo do dia.

Vizinho ao Estádio do Maracanã, o Centro Hípico do Exército está instalado numa área onde funcionavam as cavalariças dos imperadores brasileiros. Hoje faz parte do 2º Regimento de Cavalaria de Guarda Andrade Neves, subordinado ao Comando Militar do Leste. São cinquenta baias, e a de número 1, a maior de todas, abriga o cavalo de Mourão. Na verdade, Ídolo do Rincão pertence ao Exército, mas fica sob os cuidados do general, que arca com as despesas – em outubro, foram 480 reais e 40 centavos gastos com veterinário, aveia, capim e taxa de manutenção.

Antes da vitória de sua chapa nas eleições, Mourão costumava ir à hípica três vezes por semana – às terças, quintas e sábados. Durante a campanha, reduziu a frequência, mas não parou de montar. Uma semana antes da competição, o acompanhei até o local, para assistir ao seu treino. Combinamos de nos encontrar às seis e meia da manhã na portaria do prédio onde ele mora, em Copacabana – às 6h28 ele deixou a garagem ao volante de seu Renault Sandero Stepway. Naquela sexta-feira treinavam também outros oficiais do Exército, entre eles o general Paulo Roberto Pimentel, secretário adjunto de Intervenção Federal no Rio.

Ao chegarmos, soldados e cabos de shorts verde-oliva e camiseta camuflada varriam o chão e cuidavam do estábulo. Mourão fez um treino leve, de 35 minutos, conduzindo Ídolo principalmente no passo e no trote, duas das três andaduras do hipismo – a terceira é o galope, o ritmo mais usado para provas de saltos, como a que o general enfrentaria dias depois. Quando deixou a pista, Mourão fez uma analogia entre o hipismo e a situação do país. “O Brasil precisa de um cavaleiro com mão de seda, cintura de borracha e perna de aço. Como está hoje, o país é um cavalo conduzido por alguém com mão de ferro, perna fraca e barrigão.” Em seguida, ensinou como deve ser o movimento de um bom cavaleiro: “O quadril fica entrando e saindo harmoniosamente, num balanço entre o sacro e o ilíaco. Por isso é que dizem que cara de cavalaria é bom pra comer gente, pô!”, gracejou, sorrindo, enquanto pronunciava sua interjeição favorita.

Militares e cavalos cultivam uma relação que atravessa os séculos. Até pouco antes da Segunda Guerra, o cavalo era o principal meio de transporte militar em quase todo o mundo. No Brasil, me explicou Mourão, só a partir dos anos 60 os regimentos de cavalaria adotaram o transporte mecanizado e blindado. “Mas a tradição hipomóvel é mantida”, gabou–se o general, antes de listar os três regimentos de cavalaria restantes: em Brasília (Dragões da Independência), em Porto Alegre e no Rio. Dos militares que presidiram o país durante a ditadura, o que mais levou os equinos a sério foi João Baptista Figueiredo, o último dos cinco generais-presidentes, que como Mourão gostava de saltar. Oficial de cavalaria conhecido pelo gênio irascível e pelas frases mal-humoradas, usou o esporte frequentemente como marketing. Quando as coisas andavam mal no governo, surgia altivo no dorso de puros-sangues para ser fotografado pela imprensa.

Antes de assumir a Presidência, um jornalista perguntou a Figueiredo se ele já estava gostando de sentir o cheiro do povo. “O cheirinho do cavalo é melhor”, respondeu o general. Perguntei a Mourão o que ele achava da frase famosa. Fitando a pista do centro hípico, ele disse: “Figueiredo era muito expansivo, não se policiava, falava o que pensava.” E arrematou: “Nesse aspecto, eu sou muito Figueiredo, pô!”

De fato, foi justamente falando o que pensava que Mourão chegou aonde chegou. Desde a redemocratização do país, o general é um caso raro de oficial de alta patente que se meteu em política enquanto estava na ativa – algo comum entre militares da reserva, que, sem tropas a comandar, são jocosamente chamados de “turma do pijama”. Durante uma palestra, em 2015, quando era comandante militar do Sul e a pressão pelo impeachment de Dilma Rousseff aumentava, Mourão conclamou o país a “despertar para a luta patriótica” e disse que a substituição da presidente teria como vantagem “o descarte da incompetência, má gestão e corrupção”. Na mesma época, um quartel sob seu comando prestou homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do principal centro de tortura da ditadura e o único militar reconhecido pela Justiça como torturador – o que não tem evitado que tanto Mourão como Bolsonaro o definam como “herói”. Os episódios vieram a público, Mourão foi exonerado e transferido para a Secretaria de Economia e Finanças do Exército, em Brasília. Dois anos mais tarde, já no governo Temer, o general disse, numa palestra, que ou o Judiciário punia os corruptos do país “ou então nós [do Exército] teremos que impor isso”. Dessa vez, nada lhe aconteceu. Mas uma nova punição não tardaria. Em outra palestra, em dezembro de 2017, declarou que Temer governava “aos trancos e barrancos” e tentava chegar ao final do seu mandato “mediante um balcão de negócios”. O Palácio do Planalto pediu sua cabeça, e o general foi exonerado pela segunda vez. Passou para a reserva em 28 de fevereiro deste ano e, desde então, ficou livre para fazer política.

 

Mourão foi a quarta opção de Bolsonaro para o posto de vice-presidente na chapa, depois do senador Magno Malta, do PR, que preferiu tentar a reeleição (mas foi derrotado); do general Augusto Heleno, vetado por seu partido, o PRP; e da advogada Janaina Paschoal, do PSL, que alegou questões familiares para recusar o convite (ela seria eleita deputada estadual por São Paulo com mais de 2 milhões de votos). Um quinto nome surgiu, o de um descendente de dom Pedro II, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, endossado pelo PSL e que almejava o cargo. Bolsonaro preferiu o “estilo Figueiredo” de Mourão.

O general e Bolsonaro se conheciam, mas nunca foram amigos. Os dois cursaram a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), escola de formação de oficiais do Exército localizada em Resende, no estado do Rio. Mourão concluiu o curso em 1975, e Bolsonaro, dois anos mais novo – hoje tem 63 –, formou–se em 1977. Apenas nos anos 80 viriam a ficar mais próximos, no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, no Rio. Ambos eram capitães – Mourão mais experiente que Bolsonaro – e moravam na Vila Militar, na Zona Oeste carioca. Costumavam se encontrar em eventos, e as mulheres de um e outro se conheciam. E só.

A nova aproximação se deu em 2015, justamente o ano em que o general começou a chamar a atenção da imprensa. Mourão contou que Bolsonaro foi visitá-lo em Porto Alegre para avisar que seria candidato a presidente. Um ano depois, voltou a procurá-lo e disse que poderia precisar dele como vice. Quinze dias antes de Mourão entrar para a reserva, num terceiro contato, o pré-candidato à Presidência voltou a afirmar que queria ter o general ao seu lado e pediu para que ele se filiasse a algum partido. Ainda que Mourão não fosse o vice dos sonhos de Bolsonaro – a prioridade era coligar-se a um partido mais robusto –, desde o início o titular da chapa quis garantir o general como um “plano B” seguro, caso as outras tentativas fracassassem. Foi o que ocorreu.

Um general apresentou Mourão ao presidente do PRTB, Levy Fidelix, figura excêntrica da política brasileira que, como Bolsonaro, era pré-candidato à Presidência. E foi a esse partido nanico, sem nenhum representante no Congresso, que Mourão se filiou, no fim de março. Ficou à espera. Em 5 de agosto, último dia para a definição das chapas, o celular do general tocou às seis e meia da manhã. Era Bolsonaro. “Ele me disse: ‘É você, tá okay?’, e eu respondi: ‘Tô pronto, vamos lá, pô.” A conversa entre os dois não durou um minuto.

Como previa o acordo de Mourão com o PRTB, Fidelix abortou sua pré-candidatura à Presidência e concorreu a deputado federal. Recebeu 32 113 votos e não se elegeu. “Levy abriu as portas do partido, não criou caso, o PSL até gravou no estúdio do PRTB. Sou um cara leal, não abandono ninguém”, disse Mourão. Fidelix será nomeado assessor parlamentar da Vice-Presidência.

 

Em sua primeira aparição na campanha, Mourão disse em uma palestra que o Brasil foi feito do “privilégio” dos ibéricos, da “indolência” dos indígenas e da “malandragem” dos africanos. Recebeu críticas de todo lado. Mas foi depois que Bolsonaro levou uma facada em Juiz de Fora, em 6 de setembro, que o candidato a vice começou a aparecer com mais frequência na imprensa e a ser notado pelos eleitores. Em poucos dias, o general virou o protagonista da agenda negativa da campanha, com episódios de “sincericídio” em cascata. Cogitou a possibilidade de o presidente dar um “autogolpe” em determinadas circunstâncias; defendeu uma nova Constituinte sem participação popular, feita por um “conselho de notáveis”; definiu como “fábricas de desajustados” as famílias pobres lideradas por mães e avós; e chamou o décimo terceiro salário de “jabuticaba” nacional e “mochila nas costas de todo empresário”.

Só quem desconhecia o histórico do general se surpreendeu com sua língua solta. Bolsonaro o repreendeu e o desautorizou algumas vezes, mas, segundo Mourão, nunca foi ríspido. “Ele tem muito respeito por mim”, afirmou. “Volta e meia me dizia: ‘Pô, general, pega leve, estamos com o negócio quase ganho. Toca a bola pro lado.’” As patacoadas não queimaram Mourão. A imprensa noticiava que o general havia sido isolado da campanha, mas ele continuava atuando a todo vapor como emissário da chapa em encontros com representantes da indústria, dos bancos, do agronegócio e do comércio – “os big shots do mercado”, como ele mesmo definiu. Esteve em reuniões no Bank of America, BTG, Morgan Stanley, em sindicatos da indústria e associações comerciais. Nesses encontros, conta Mourão, a principal preocupação dos presentes era saber se Bolsonaro seguia de fato a cartilha liberal. A dúvida parece pertinente, uma vez que os militares no Brasil sempre defenderam um papel forte do Estado como agente econômico, posição oposta à do futuro ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, um ultraliberal.

“Sempre fui um liberal. Não há como fugir da democracia liberal. O Estado tem de ser indutor, criar facilidades, e hoje ele cria dificuldades”, me disse o general. Em sua opinião, fora os serviços básicos, como saúde, educação e segurança, o único setor que deveria ser vetado à privatização é o energético. Ele apoia que a prospecção de petróleo continue a cargo da Petrobras, mas que o refino e a distribuição sejam parcialmente privatizados. Militares têm defendido a economia de mercado a fim de indicar que o governo de Bolsonaro não será militar, mas civil, embora liderado por um núcleo oriundo do Exército, cujo número de participantes tem aumentado a cada dia, no primeiro e segundo escalões. “Tem alguém de farda aqui?”, perguntou Mourão. “Não tem, então não tem governo militar. Um governo militar é um governo de fardados. Hugo Chávez andava para cima e para baixo de farda, Fidel a mesma coisa, e ninguém dizia nada. Esse será um governo liderado por alguém que está há trinta anos na política e foi eleito democraticamente.” E acrescentou: “A população enxergou no grupo dos militares a capacidade de pôr ordem no país. Não é nada demais, mas os últimos governos não conseguiram praticar isso. Bolsonaro encarnou esse sentimento. A maioria dos analistas não entendeu.”

Apesar do discurso unificado de que não há mais espaço para tutela militar no país, a caserna emite sinais contraditórios. Em abril, na véspera do julgamento de um habeas corpus pelo STF, o Supremo Tribunal Federal, que poderia ter evitado a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o general Eduardo Villas Bôas escreveu no Twitter que o Exército sob seu comando compartilhava “o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”. Com Bolsonaro já eleito, Villas Bôas disse que naquela ocasião o Exército estava “no limite” e que, se ele não tivesse se expressado, “a coisa poderia fugir ao nosso controle”. Afirmou também temer uma politização dos quartéis sob o novo governo. Mourão diz que não crê nessa possibilidade, mas concorda que o tuíte de Villas Bôas “procurou acalmar a pressão” que havia na ocasião entre militares da ativa.

 

As seguidas aparições de Mourão na campanha presidencial o transformaram numa celebridade. Acompanhei o então candidato a vice em duas viagens de Brasília ao Rio, em 7 e 28 de outubro, domingos de votação para o primeiro e o segundo turnos. Nos aeroportos, a todo instante pessoas pediam para tirar fotos ao seu lado ou trocar um dedo de prosa. Um comandante da Latam aproximou-se e disse: “Sou seu fã, boa sorte. Vocês vão arrumar esse país na porrada.” “É isso aí, vamos sim”, respondeu Mourão. Na viagem no dia do primeiro turno, antes de ir ao banheiro no Aeroporto Santos Dumont, o general, bem-humorado, perguntou se eu conhecia as três regras sagradas para o homem com mais de 60 anos. Listou-as: “Jamais despreze o banheiro; nunca desperdice uma ereção; em hipótese alguma confie num peido.”

A mulher de Mourão foi apanhá-lo de carro no aeroporto. O casal acompanharia a apuração na casa de Bolsonaro, na Barra da Tijuca. Acabei pegando uma carona até a portaria do condomínio do candidato à Presidência. Logo que entrei no carro, quando o general disse que eu era jornalista, Ana Paula ficou desconcertada. “Estou com pânico de jornalista, porque meu marido fala uma coisa e publicam outra. Já não ligo mais a televisão. Rede social eu passo assim”, contou, deslizando os dedos freneticamente sobre a tela do celular. O trânsito estava carregado, e Mourão, no banco do passageiro, pediu cuidado. “Mas é que tá uma loucura, né, gato?”, ela respondeu.

Ana Paula trabalha como assessora jurídica na Fundação Habitacional do Exército. Antes foi tenente temporária, tipo de oficial que não segue carreira militar e atua por meio de contrato por período determinado para exercer funções técnicas. Conheceu Mourão em Brasília. Ele era viúvo – sua primeira mulher morreu no final de 2016. Em outubro deste ano, o general e a ex-tenente oficializaram a relação.

Por causa da campanha, a lua de mel foi curta e simples, três dias numa pousada em Penedo, na parte fluminense da Serra da Mantiqueira. Com 42 anos, 23 a menos que o marido, Ana Paula tem dois filhos adolescentes de um casamento anterior, que moram com os avós. Ela e Mourão vivem num apartamento de 140 metros quadrados e três quartos em Copacabana, herdado do pai do general, mas já planejam a mudança para o Jaburu, assim que Temer desocupar o palácio.

A motorista estava apressada, e às vezes era repreendida pelo marido. “Paula, você furou o sinal vermelho. Calma, senão eu vou tomar as rédeas, pô.” Na chegada à Barra, o trânsito na avenida Lúcio Costa, onde mora Bolsonaro, travou, por causa da festa em frente ao condomínio do candidato. O rádio do carro estava ligado, e começaram a ser transmitidos os primeiros resultados de pesquisas de boca de urna. “Lindbergh vai ter de trabalhar, nunca trabalhou na vida”, disse Mourão, ao saber que o petista Lindbergh Farias, que buscava a reeleição ao Senado pelo Rio de Janeiro, havia perdido. Festejou o resultado de Wilson Witzel, que numa arrancada na reta final terminou em primeiro lugar para o governo fluminense. “Desses candidatos, era o melhor”, avaliou. Mourão também consultava o celular: “Minas Gerais fez com Dilma o que o TSE não fez.” Viu os resultados para o Senado no Distrito Federal e comentou: “Votei na Leila do Vôlei [candidata do PSB, eleita]. Ela é gostosa, e eu voto em gostosa”, e gargalhou. Sem desgrudar da direção, Ana Paula virou-se para trás, onde eu estava sentado, e disse, meio contrariada, meio resignada: “Olha a graça que estou achando… Fabio, não anota isso aí não.” O filho de Mourão telefonou, contando que, no Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze, para quem o general fez campanha, conseguira uma vaga no Senado. O pai fez troça com a notícia: “Heinze colou em mim, tá eleito, tá me devendo essa, esse filho da mãe.”

 

Entre a ida para a reserva e a homologação como candidato, Mourão foi eleito presidente do Clube Militar do Rio, que reúne a ala mais barulhenta da “turma do pijama”. Numa quinta-feira de outubro, o general me recebeu na sede do clube, um prédio dos anos 30 no Centro do Rio em cujo hall há uma placa que homenageia o “Movimento Democrático de 31 de março” de 1964: “Forças democráticas brasileiras, em histórica mobilização cívico-militar, impediram, patrioticamente, […] a submissão do Brasil aos ditames totalitários do movimento comunista internacional.”

Mourão conversava em seu gabinete com o professor de filosofia Denis Lerrer Rosenfield, gaúcho como o general, que apresentou o conterrâneo como “um velho amigo”. O professor anotava sugestões numa apostila com o programa de política externa da campanha bolsonarista. Naquele dia, os jornais traziam a repercussão do encontro entre Mourão e o candidato tucano ao governo paulista, João Doria. “Mais uma vez o Mourão só atrapalha. Não traz nenhum voto ao Bolsonaro, mas cada vez que abre a boca tira um punhado”, dissera à Folha de S.Paulo o presidente do PSL paulista, Major Olímpio, eleito senador e adversário de Doria. “O Olímpio ficou louca, enlouquecida. É um mero silogismo: o PRTB apoia Doria; se eu sou do PRTB, apoio Doria. E o considero também o mais preparado”, disse Mourão. Rosenfield emendou: “Ele é general, o outro é apenas major, e da Polícia Militar.” Os dois riram e passaram em seguida a ridicularizar o adversário de Bolsonaro à Presidência. “[Fernando] Haddad começou com essa baboseira de democracia versus fascismo. De onde vem isso?”, comentou Rosenfield. “Isso é gramscismo”, retrucou Mourão, referindo-se ao filósofo marxista italiano Antonio Gramsci.

Rosenfield tem um bom trânsito nas Forças Armadas, e auxiliou na aproximação entre o presidente Michel Temer – de quem é amigo e consultor – e os militares, que ganharam projeção e poder na gestão do emedebista. Especialista em Hegel, o professor foi simpatizante do PT, mas acabou se voltando para a direita liberal por achar que o partido “não tem compromisso com a democracia nem com a liberdade de imprensa”. Conheceu Mourão quando o general chefiava o Comando Militar do Sul e tornaram-se amigos. Na disputa encerrada em outubro, Rosenfield defendeu Bolsonaro. Para ele, as declarações extremistas do capitão reformado durante a campanha foram “arroubos retóricos próprios de um líder populista numa refrega eleitoral, mas não têm nenhum perigo para as instituições brasileiras, que são muito fortes”. Logo adiante na conversa, talvez sem perceber, Rosenfield se contradisse: “Bolsonaro quis aproveitar a insatisfação da sociedade com o Supremo, com a corrupção, com tudo isso. Mas o Supremo não ajuda nada, cada juiz se acha um continente, não é nem uma ilha. O problema é que as instituições brasileiras se enfraqueceram muito…”

No entender de Rosenfield, os militares que assumirão o poder são “ardorosos defensores da soberania nacional” e deverão ter como prioridade a proteção à Amazônia, “patrimônio da humanidade e objeto de cobiça [internacional]”. Quanto a Mourão, aposta que o amigo irá participar ativamente do novo governo. “Ele não tem personalidade para uma posição meramente secundária. Se o Bolsonaro quisesse um vice decorativo, jamais teria escolhido o Mourão.”

 

Ao registrar sua candidatura no TSE, Mourão declarou ser indígena. Seus traços de caboclo são bastante visíveis: a pele é morena escura, e os olhos, bem negros e meio puxados, quase se fecham quando ele ri. Os cabelos, cortados curtos, não são lisos como os de um caboclo, mas são muito pretos, salpicados de uns poucos fiapos brancos. Ele conta que sua avó paterna, Arminda, tinha ascendência indígena – às vezes se refere a ela como “cabocla”, outras vezes como “índia”. Era filha do dono de um seringal em Humaitá, no Amazonas, onde conheceu o avô paterno do general, Hamilton, um piauiense formado em direito no Recife que foi para o Amazonas explorar a borracha. Tendo prosperado, tornou-se promotor, chefe de polícia e desembargador que presidiu o Tribunal de Justiça do estado.

O pai de Mourão, Antônio Hamilton, nascido no Amazonas, era militar e conheceu a mulher, Wanda, uma professora gaúcha, em Bagé, onde ele serviu. Tiveram dois filhos. Antônio Hamilton Martins Mourão, o primogênito, nasceu em 15 de agosto de 1953, em Porto Alegre. Dois anos depois, nasceu o caçula, José Pedro, engenheiro agrônomo que morreu em 1994. Apesar do sobrenome, a família não tem parentesco com a do general mineiro Olímpio Mourão Filho, que colocou em marcha o golpe de 64.

Os Martins Mourão eram muito amigos da família de Emílio Garrastazu Médici, o terceiro dos presidentes militares da ditadura, também nascido em Bagé. “Teve um desfile de 7 de Setembro, e Médici foi lá em casa, eu tinha 7 anos”, contou. “Eu sabia o que significava cada uma das medalhas do uniforme de meu pai. Médici viu aquilo e, a partir de então, passou a me chamar de ‘o guri das medalhas’.” Numa cerimônia militar anos depois, Mourão, já adulto, reencontrou Médici, que o chamou pelo apelido dado na infância. “Era um cara maravilhoso”, disse Mourão sobre o presidente do período mais brutal da repressão, quando se multiplicaram mortes, torturas e desaparecimentos de opositores do regime. “Há uma imagem muito ruim dele, que é injusta. O cara mais humano desses todos aí era o Médici. E o Figueiredo.”

Dos 320 cadetes que chegaram ao fim do curso na Aman, apenas três, além de Mourão, se tornariam generais de quatro estrelas, e estão todos na reserva. Oswaldo Ferreira (um dos coordenadores do núcleo militar que formulou propostas para Bolsonaro), Juarez de Paula Cunha (presidente dos Correios) e Gerson Menandro Garcia de Freitas (conselheiro militar da Missão Permanente do Brasil na ONU).

Perguntei a Mourão que obras e autores nortearam sua formação teórica no Exército. Sem hesitar, ele citou os livros sobre geopolítica do general Carlos de Meira Mattos – integrante da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra e comandante da invasão militar do Congresso Nacional que fechou temporariamente o Parlamento em 1966. Trata-se de um conjunto de nove obras escritas entre 1960 e 2002, em que o autor expõe diretrizes para o Brasil se tornar uma potência mundial, sustenta que a soberania nacional depende da coesão interna e da proteção das fronteiras – em particular as amazônicas – e defende o papel do Estado como indutor do desenvolvimento. Meira Mattos atualiza as teorias geopolíticas do general Golbery do Couto e Silva, muito afetadas pelo anticomunismo da época da Guerra Fria, mas que também são ainda influentes nas academias militares. Para oficiais superiores da ativa do Exército, entretanto, os dois autores estão ultrapassados, uma vez que a doutrina militar brasileira passou a ser guiada por três eixos, sintonizados com a Constituição de 1988: a Estratégia Nacional de Defesa, a Política Nacional de Defesa e o Livro Branco da Defesa, documentos formulados a partir dos anos 2000 como bússolas para o planejamento e a estruturação das Forças Armadas.

Entre 1978 e 1979, Mourão foi comandado por Brilhante Ustra, à época tenente-coronel no 16º Grupo de Artilharia de Campo, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. “Foi o melhor comandante que eu tive. Justo, dava o exemplo, era bem preparado física e intelectualmente, sabia se relacionar com os subordinados, era um bom relações-públicas com o segmento civil”, justificou. No discurso que fez ao entrar para a reserva, Mourão definiu Ustra como “herói”. Perguntei por que qualificava assim um homem que por quatro anos, entre 1970 e 1974, comandou o DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, onde ao menos cinquenta pessoas foram assassinadas e outras quinhentas, torturadas. “Houve uma guerra aqui no Brasil, e Ustra foi um dos que defenderam o sistema democrático. Dizem que torturou uns. Tudo bem, era uma guerra”, afirmou. Mas o general não acredita que Ustra tenha torturado? “Duvido que tenha, pelo que conheci dele.” Lembrei-lhe que várias pessoas depuseram sobre as práticas de tortura utilizadas por Ustra, mas Mourão escarneceu: “É aquele negócio, o cara levou um peteleco e diz que foi barbaramente torturado. Quem viu? É feito delação premiada.”

Durante a campanha deste ano, o cantor Geraldo Azevedo disse num show que Mourão estava entre os que o torturaram numa das duas vezes em que foi preso na ditadura. O general negou, lembrando que, no auge da repressão, ainda era estudante, e disse que iria processar o cantor e o candidato Fernando Haddad, que reproduziu a informação. Azevedo pediu desculpas. No relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que foi instituída pelo governo federal e apurou, entre 2012 e 2014, crimes cometidos durante a ditadura, não há qualquer menção a Mourão nem ao pai dele. O vice de Bolsonaro acredita que, em 1964, não houve um golpe de Estado, e sim “uma contrarrevolução, porque [do contrário] haveria uma revolução [comunista no Brasil]” –, nem ocorreu em seguida uma ditadura militar, mas “uma série de presidentes autoritários que usaram elementos de regimes de exceção”.

 

Em 46 anos de serviço militar, Mourão morou em dezenas de lugares diferentes, no Brasil e no exterior, mas considera-se mesmo gaúcho. “É onde me sinto mais adaptado, o lugar em que chego e digo, ‘tô em casa’; o Rio Grande do Sul é o estado onde houve o choque entre a América portuguesa e a América espanhola. Ali, a fronteira foi traçada na base da guerra”, justificou.

Nessa trajetória, enfrentou experiências espinhosas. Como observador em uma missão de paz da ONU em Angola, em 1996, foi feito refém – junto com cinco russos e um português – por rebeldes da Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola), um dos grupos que travaram a guerra civil no país. Em 2002, tão logo chegou para atuar como adido militar na Embaixada do Brasil na Venezuela, houve um golpe militar contra o então presidente Hugo Chávez. Para Mourão, o general Néstor González González, um dos encarregados de vigiar o presidente deposto, perdeu a chance de ter mudado o curso da história. “Se tivesse matado o Chávez ali, teriam resolvido o problema. Depois eles iriam se matar entre eles, mas aquilo arrumaria o país”, disse. Mas o vice-presidente eleito acha que o Brasil não deve intervir nos assuntos da nação vizinha. “Quem tem de resolver os problemas dos venezuelanos são os venezuelanos.”

Entre 2006 e 2008, comandou uma brigada de infantaria de selva em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, na área de fronteira conhecida como Cabeça do Cachorro, quando eram comuns confrontos de tropas brasileiras com guerrilheiros das Farc. Mourão acredita que o histórico de missões difíceis contou na sua promoção a quatro estrelas, em 2014. “Como a gente diz no Exército, eu não fiquei no carpete. O Alto Comando leva isso em conta na hora de promover.” No mesmo ano chegou ao ponto alto da carreira, ao assumir o Comando Militar do Sul, que conta com o maior efetivo do país em tropas (mais de 50 mil homens).

Foi quando o general participou de um projeto do Exército que até hoje lhe causa dores de cabeça, a compra de simuladores de apoio de fogo. O equipamento, que simula combates em realidade virtual e é usado para economizar munição verdadeira, custou 13,98 milhões de euros (cerca de 61 milhões de reais) aos cofres públicos. Conforme reportagem publicada em agosto pelo jornal El País – que obteve cópia de um dossiê apócrifo enviado à plataforma de denúncias BrasiLeaks –, depois que oito pareceres técnicos do próprio Exército desaprovaram a compra do aparelho da empresa espanhola Tecnobit, Mourão foi designado para destravar o processo. O coronel da reserva Rubens Pierrotti Junior, que foi supervisor operacional do projeto por três anos e alega ter pedido para se afastar quando percebeu haver um direcionamento político no negócio, acusa Mourão de várias irregularidades, entre elas assinar certificados sem o devido respaldo técnico, alterar o contrato original e aceitar mimos da empresa espanhola. “Não sei quanto o Mourão lucrou com essa história toda, mas posso afirmar que ele deu um prejuízo enorme ao Brasil”, me disse Pierrotti.

Mourão defendeu o negócio, afirmando que os simuladores são “uma maravilha”, estão funcionando bem, e que o contrato é vantajoso, porque o país, além da economia que fez, terá transferência de tecnologia. O general definiu Pierrotti como “ressentido”, “descompensado com mania de perseguição” e disse que o está processando.  Em nota, o Exército declarou que o simulador “vem cumprindo de forma satisfatória os objetivos para os quais foi desenvolvido” e que a economia de munição é da ordem de 50 milhões de reais por ano, “valor que ultrapassa a quantia paga pelo simulador, comprovando a viabilidade econômica do projeto”. O Ministério Público Militar arquivou as denúncias, alegando “ausência de indícios suficientes”, “anonimato injustificado” e “questões outras que configuram matéria administrativa, estranha à competência da Justiça Militar da União”. Mas o dossiê também chegou ao TCU, o Tribunal de Contas da União, e o processo aberto está em fase de instrução na Secretaria de Controle Externo da Defesa Nacional e da Segurança Pública, uma unidade técnica, que em seguida encaminhará a documentação ao ministro substituto Marcos Bemquerer, apontado como relator do caso.

 

Mourão é tão viciado em atividade física que só se hospeda em hotéis que tenham aparelhos de ginástica. Além de montar três vezes por semana, vai diariamente à academia, onde corre pelo menos 5 quilômetros na esteira, e joga vôlei de praia aos sábados no Posto 6, em Copacabana. É maçom, membro de uma loja em Porto Alegre. Católico, vai às missas aos domingos, embora a campanha o tenha afastado um pouco da lida espiritual. Sua principal fonte de informação, ele diz, é o site de notícias O Antagonista, antipetista, que na campanha se alinhou à candidatura de Bolsonaro. Até o começo do ano, o general não tinha WhatsApp, e só depois que sua chapa venceu a eleição criou um perfil no Twitter, operado por um assessor.

Mourão conta que adora ler. Prefere obras de não ficção e, no início de outubro, estava lendo, ao mesmo tempo, Rebel Yell [Grito rebelde], biografia do norte-americano Stonewall  Jackson, um dos líderes militares das forças confederadas na Guerra da Secessão, escrita por S. C. Gwynne; A Ascensão do Dinheiro, do historiador neoconservador escocês Niall Ferguson; 21 Lições para o Século 21, do historiador israelense Yuval Noah Harari, e A Corrupção da Inteligência, do antropólogo carioca Flavio Gordon, ensaio que associa a crise brasileira ao predomínio do pensamento de esquerda na intelectualidade, no jornalismo e nas artes.

Quando mencionou que admirava Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, dois pilares dos estudos sobre a formação brasileira, indaguei em que se baseava sua declaração sobre a indolência dos índios e a malandragem dos africanos. Com um raciocínio não muito claro, o general disse que falava de problemas reais da herança cultural dos povos, mas que não foi compreendido (“O Brasil é isso, mas as pessoas querem criar divisões”). Também teve repercussão ruim a frase em que associou a beleza de seu neto ao “branqueamento da raça”. “Fui um idiota”, afirmou, alguns dias depois do episódio. “Fiz uma brincadeira que no meu círculo de amigos é normal, mas para os outros não é. Gosto de brincar e não posso”, completou, queixando-se que a patrulha do “politicamente correto” quer varrer do Brasil as piadas. Ato contínuo, ele começou a contar uma: “Jesus Cristo entra no Mercado Modelo de Salvador. Vê um cadeirante, toca nele, e ele sai andando. Surge um cego, Jesus toca nele, e ele passa a enxergar. Aí encontra um homem encostado, meio doente, e, quando se aproxima para tocar nele, o homem diz: ‘Mas, meu rei, eu ainda tenho três meses de auxílio-doença pelo INSS…’” E o general riu.

 

Segundo a Constituição, cabe ao vice-presidente substituir o presidente em caso de impedimento (viagens, doença etc.), suceder-lhe se o cargo ficar vago e auxiliá-lo, “sempre que por ele convocado, para missões especiais”, “além de outras atribuições que lhe forem conferidas por lei complementar”. A história brasileira recente mostra que os vices têm uma chance considerável de vir a assumir a Presidência. Desde a redemocratização, três acabaram por sentar-se na cadeira do titular: José Sarney, em 1985, por causa da morte de Tancredo Neves; Itamar Franco, em 1992, no lugar de Fernando Collor, que renunciou pouco antes de sofrer impeachment; e Michel Temer, em 2016, em substituição a Dilma Rousseff, deposta por um processo de impeachment.

Para muitos analistas, a opção de Bolsonaro por um vice de uma patente superior vai emparedar o presidente eleito pelo resto do mandato – sendo oriundos de um ambiente em que a hierarquia é sagrada, um general jamais vai se subordinar de fato a um capitão. Mas também ganha força a tese de que Bolsonaro acertou ao escolher para o posto de vice alguém que pode inibir movimentos em favor de seu impeachment. Segundo essa leitura, Mourão seria como um seguro anti-impeachment porque tenderia a ser um agente de aproximação dos militares com o Planalto muito mais eficaz que o capitão reformado, que deixou a corporação há trinta anos.

Mourão contemporizou: “Tem havido certa tentativa de nos separar, colocando que eu sou general e ele, capitão. É uma bobagem, porque desde 1991, quando virou deputado, ele tem precedência sobre mim. Temos dois estilos diferentes, ele é o agitador de massa, eu sou o propagandista. Ele sabe muito bem que somos complementares, faces da mesma moeda. Como vice, serei a espada e o escudo dele.”

Para analistas e correspondentes estrangeiros, Mourão desponta como uma voz mais sensata diante da estridência demonstrada pelo cabeça de chapa. Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, o vice eleito fez reparos ao comentário de Bolsonaro de que a China estaria querendo comprar o Brasil e defendeu uma política externa pragmática. Em entrevista à Folha de S.Paulo no último mês, Mourão também pregou cautela em negociações diplomáticas tidas como sensíveis sob Bolsonaro, como com países árabes, Israel e parceiros no Mercosul. Seja como for, é um sinal de prestígio o fato de que, no futuro governo, o general irá trabalhar numa sala próxima à de Bolsonaro no prédio principal do Executivo – o gabinete dos últimos vices funcionou num anexo do Palácio do Planalto.

Não veio a público até agora nenhuma grande crise entre Bolsonaro e seu vice – apenas dissonâncias provocadas por declarações de Mourão. No passado, porém, a relação entre os dois já teve momentos de tensão. Como muitos oficiais superiores do Exército, nos anos 80, Mourão repelia a postura do então capitão Bolsonaro, que atuava como uma espécie de líder sindical de militares subalternos – publicou artigo na imprensa reclamando do soldo e foi acusado de planejar a explosão de bombas em quartéis e numa adutora como forma de chamar a atenção para a causa. Bolsonaro chegou a ser preso por quinze dias, foi considerado culpado por um Conselho de Justificação, recorreu e foi absolvido pelo STM, o Superior Tribunal Militar.

“Eu não concordava com aquilo, sempre julguei que quem fala pelo Exército nesse aspecto é o comandante”, me disse Mourão. Numa entrevista em 1993, Ernesto Geisel, o quarto dos cinco generais-presidentes da ditadura, definiu Bolsonaro como um “mau militar”. Mas oficiais que acompanharam a sua trajetória atribuem a ele um relevante papel político na defesa de interesses dos militares. Um general lembrou que Bolsonaro atuou para impedir o fim do regime diferenciado de aposentadoria dos militares, proposto no projeto de reforma da Previdência apresentado pelo governo Lula em 2003.

O Alto Comando do Exército, instância máxima da corporação, composto hoje por dezessete generais de quatro estrelas (a mais alta patente), está fechado com Bolsonaro, e em Brasília é evidente a euforia entre militares graduados em relação ao futuro governo. Perguntei a oficiais com acesso ao Alto Comando sobre a preferência dos integrantes do colegiado na eleição. No primeiro turno pouco mais da metade dos “quatro estrelas” optou por Bolsonaro, e o restante se dividiu entre Geraldo Alckmin e João Amôedo. No segundo turno, o Alto Comando aderiu em peso ao candidato do PSL, por uma simples razão: o antipetismo. O sentimento foi alimentado, segundo os militares, por tentativas do PT de subtrair poder e autonomia das Forças Armadas. Após a lua de mel com os governos de Luiz Inácio Lula da Silva – quando houve aumento no orçamento do setor e foi criada a Estratégia Nacional de Defesa –, dois episódios contribuíram para o divórcio: o decreto sancionado em 2015 por Dilma Rousseff que reduzia poderes dos comandantes militares, revertido logo em seguida, depois da reação da caserna, e um documento do PT divulgado após o impeachment de Dilma, em que o partido lamenta não ter interferido no sistema de promoção das Forças Armadas, nem ter alterado o currículo das escolas militares.

Mourão – que, não faz muito tempo, dizia em conversas reservadas achar algumas ideias de Bolsonaro muito radicais – considera que ele moderou o tom quando decidiu concorrer à Presidência. Mas existem ainda divergências entre eles. O general criticou, por exemplo, o discurso extremista de Bolsonaro transmitido a apoiadores na avenida Paulista, no qual chamou seus opositores de “marginais vermelhos” e prometeu fazer “uma limpeza nunca vista na história do Brasil”. “Vocês verão umas Forças Armadas altivas, que estarão colaborando com o futuro do Brasil. Vocês, petralhada, verão uma polícia civil e militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês”, afirmou.

“Aquilo”, disse Mourão, “foi retórica de campanha para inflamar a militância, mas ele não deveria usar esses termos. Vai ter que tomar um banho de loja, dar um polimento aí, pô.” Enquanto Bolsonaro promete acabar com veículos de imprensa que o incomodam, o general manifesta outra opinião sobre o papel do jornalismo na democracia. “A imprensa é para os governados, não para os governantes. Podem bater à vontade. A carcaça é boa.” Mourão também não anda armado e defende que, num assalto, “é mais fácil sobreviver entregando o bem sem uma arma do que com uma”.

 

Ao concluir a Academia Militar das Agulhas Negras, os cadetes se tornam aspirantes a oficiais do Exército e têm de fazer cursos complementares. Cada um em seu tempo, os generais que formam o núcleo militar do futuro governo Bolsonaro – Mourão, Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Fernando Azevedo e Silva (Defesa) – optaram pelo curso da Brigada de Infantaria Paraquedista. Para oficiais do Exército, não é mera coincidência que o capitão reformado tenha se cercado de parceiros dessa brigada, tida como uma das mais unidas da corporação – mesmo depois de concluir o curso, os paraquedistas costumam manter vínculos de amizade por muitos anos. Foi do lema dessa brigada, aliás, que Bolsonaro tomou emprestado o slogan de sua campanha, “Brasil acima de tudo!” – ao qual acrescentou a frase “Deus acima de todos”. O lema – e grito de guerra – é sempre evocado em treinamentos e operações: depois que um paraquedista brada “Brasil!”, seus colegas respondem “Acima de tudo!”.

“As tropas que lidam com risco maior acabam sendo grupos muito unidos. É um espírito de corpo próprio de forças especiais, a Brigada Paraquedista, os Comandos Anfíbios da Marinha, os pilotos de caça na Força Aérea, o Bope na Polícia Militar. A gente brinca que são algumas máfias”, explicou o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, no apartamento em que vive com a mulher numa quadra residencial no Plano Piloto, em Brasília.

Quando cheguei ao prédio, no final da tarde, o general tinha saído a pé para comprar pão. Voltou caminhando a passos lentos, com o corpo arqueado, reflexo de um problema de coluna. Naquele dia, ficara definido que ele não seria mais o titular do Ministério da Defesa, como anunciado antes, mas ministro-chefe do GSI, o Gabinete de Segurança Institucional. Na prática, se livrará de uma intensa agenda de viagens e compromissos oficiais e assumirá no Palácio do Planalto um posto mais estratégico, como responsável, inclusive, pela Abin, a Agência Brasileira de Inteligência, e a segurança do presidente.

Heleno, que tem 71 anos, foi entre 2004 e 2005 o primeiro comandante da missão de paz da ONU no Haiti liderada pelo Brasil. Em 2008, quando era comandante militar da Amazônia, criticou a política indigenista do governo Lula, afirmando que a demarcação contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol era uma “ameaça à soberania nacional” – mais tarde a demarcação foi homologada pelo STF. Ao passar para a reserva, em 2011, foi contratado como diretor do Comitê Olímpico Brasileiro, onde trabalhou por seis anos. Em 2017, quando o então presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, foi preso, acusado de corrupção, Heleno afastou-se do posto, no qual ganhava então um salário mensal de 59 mil reais. “Criamos [no COB] a Academia Brasileira de Treinadores, cursos de gestão de todos os níveis, formamos mais de 600 treinadores. Ainda assumi a comunicação e a cultura. Então eu fiz o que estava ao meu alcance. Mas não tenho nada a ver com o problema pessoal do Nuzman. Nada a ver”, afirmou o general.

Dos militares que vão compor o governo, Heleno é o mais próximo do presidente eleito, o mais respeitado por ele e o general a quem Bolsonaro dedica maior afeição. A amizade dos dois remonta à Aman, onde Heleno foi instrutor do cadete Bolsonaro. O general acompanhou de perto a trajetória política do colega, de cuja candidatura foi apoiador de primeira hora. Tanta proximidade credenciou Heleno como líder natural do núcleo militar bolsonarista. Ao lado do general Oswaldo Ferreira – que foi cotado para um ministério, mas acabou fora da Esplanada –, coordenou um grupo que elaborou diretrizes para o futuro governo nas áreas de infraestrutura, saúde, educação, segurança pública e meio ambiente.

A liberalização da economia é uma bandeira do núcleo, que costuma evocar como modelo o governo de Castello Branco, o menos estatizante dentre os da ditadura. “O nacional-desenvolvimentismo surgiu da falta de condições para que houvesse outros investimentos de vulto no país que não os realizados pelo Estado. Mas hoje não há nenhuma obsessão por estatização. Pelo contrário, a gente, ao longo do tempo, foi se conscientizando de que o Estado precisava fazer só aquelas coisas básicas, não adiantava estatizar”, afirmou Heleno.

Como tantos militares, ele acredita que em 1964 não houve um golpe militar, mas um “contragolpe”. “[O que ocorreu em 1964] Foi alguma coisa que se opôs a uma intenção comprovada de transformar o Brasil numa ditadura do proletariado. Basta ler os editoriais dos jornais do dia 31 de março e dos dias 1º e 2 de abril… Quem lê e continua a dizer que as Forças Armadas deram golpe, ou está com má-fé ou não sabe ler. Ali está claro que as Forças Armadas foram praticamente compulsadas a tomar uma atitude. A população não aguentava mais, estava pedindo pelo amor de Deus que cortassem aquele caminho.”

Entretanto, diferentemente de Bolsonaro e Mourão, Heleno não classifica Ustra como herói. “Os dois foram subordinados ao coronel Ustra. Eu não tive tanto contato com ele para chegar a essa definição. Tem gente para quem o herói é o pai, tem gente para quem o herói é o tio, ou o filho. No caso, eles definiram o Ustra”, comentou, para em seguida relativizar. “Mas não que eu tenha do Ustra uma imagem de anti-herói. Não tenho nada contra ele.”

Quando insisti no tema da tortura, Heleno, uma pessoa na maior parte do tempo calma e de fala mansa, irritou-se. “Eu sou muito cético em relação a essas coisas [denúncias de tortura]. Mas é o tal negócio. Gostaria que você registrasse isso na reportagem. Ou tem anistia ou não tem anistia.” Agitando as mãos e aumentando o tom de voz, prosseguiu: “Anistia é anistia! É esquecer esse troço. Se a gente ficar lembrando a luta armada, como terrorista pode ser ministro, presidente da República, dono de banco? Toda hora falam nessa época… Esqueçam! Teve uma anistia ampla, geral e irrestrita, que foi feita em comum acordo com todos os envolvidos. A esquerda não consegue esquecer esse troço. Todos os dias tem um cara dizendo: ‘Ki-ki-ki, tem tortura, tem não sei o quê.’ E as explosões e os militares que morreram? Fica nesse nhe-nhe-nhem da esquerda, que continua querendo fazer do Brasil uma Venezuela, uma Cuba, uma Guiné Equatorial. Nós não seremos isso, se Deus quiser o Brasil não vai ser o que esses caras têm na cabeça.” Levantando-se da poltrona, Heleno resolveu então encerrar a entrevista.

 

Ainda não é possível saber se a vitória dos militares numa eleição democrática pode abrir uma cruzada revisionista sobre o golpe militar de 64. Já surgem, contudo, alguns sinais a respeito. Ao assumir a presidência do STF, o ministro José Antônio Dias Toffoli nomeou como assessor especial o general Azevedo e Silva – que logo depois seria indicado como futuro ministro da Defesa. Durante uma palestra na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Toffoli disse que preferia tratar o que houve em 64 como “movimento”, em vez de “golpe” ou “revolução”.

Para amparar sua visão do perigo comunista, os militares costumam recorrer, inclusive, ao ponto de vista de um ex-guerrilheiro, o historiador Daniel Aarão Reis. Ele defendeu – em livros como Ditadura e Democracia no Brasil, artigos e entrevistas – que as organizações da luta armada daquela época não faziam “resistência democrática”, como consagrado na narrativa das esquerdas, mas lutavam para impor um regime comunista ditatorial. Até o coronel Ustra, em seu livro de memórias, A Verdade Sufocada, recorreu a Aarão Reis com esse propósito.

Perguntei ao historiador o que achou da declaração do presidente do Supremo. “Toffoli inscreveu-se numa interpretação ‘negacionista’ da história. Uma atitude de avestruz. Não pode dar bons resultados”, disse. “Eu não fiz mais do que clarificar o processo. Mas nunca fui partidário da doutrina dos ‘dois demônios’, que iguala os grupos de luta armada com a repressão do Estado. Muito menos defendi a inexistência da ditadura civil-militar no Brasil após 64. Houve golpe em 64. E ditadura. Negá-lo é negar também as evidências. Os historiadores, acima de tudo, devem ter compromisso com as evidências. Cabe a eles explicá-las e interpretá-las.” Segundo Reis, que é professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense, a Constituição de 88 não foi capaz de integrar as Forças Armadas no processo democrático, mas as mantiveram como tutoras da vida política, “uma característica presente desde a fundação da República”. Desde então, observou o historiador, “a sociedade não cobrou delas responsabilidades pela ditadura, mas também não discutiu suas novas funções. As Forças Armadas permaneceram como que à margem, cultivando ressentimentos, e mantendo padrões de formação ancorados nos tempos de polarização da Guerra Fria”.

 

Depois da vitória nas urnas, Mourão continuou atuando como representante ativo do governo eleito. Foi a uma reunião na sede da Petrobras no Rio, onde ouviu uma exposição sobre a situação da estatal, visitou uma agência de publicidade para prospectar modelos de comunicação digital para o governo, participou de uma videoconferência com investidores brasileiros e estrangeiros reunidos em Nova York. Embora às vezes aja sozinho, está sempre em contato com Bolsonaro, Heleno e Paulo Guedes.

Desde o início da campanha, o núcleo militar permaneceu mais alinhado ao núcleo econômico, liderado por Guedes, do que ao núcleo político, cujos expoentes são o deputado federal Onyx Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil, e o advogado Gustavo Bebianno, que presidiu o PSL durante a campanha e foi indicado ministro da Secretaria-Geral da Presidência. “Acompanho o Paulo Guedes há anos. Sempre lia sua coluna no jornal O Globo e dizia: ‘Esse cara escreve o que eu penso’”, contou Mourão. Antes do primeiro turno, o general teve um longo almoço com o economista no Gávea Golf and Country Club, no Rio, a fim de conhecer as principais diretrizes do programa econômico de Guedes para o governo Bolsonaro.

Antes de Sérgio Moro ser apontado como futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, perguntei a Mourão quem ele achava que poderia ocupar o cargo. O general respondeu que o tributarista Ives Gandra da Silva Martins seria um ministro “muito bom”. “E Bebianno?”, acrescentei – na época, o advogado era um dos cotados para assumir a pasta. Mourão fez uma careta simulando desdém e afirmou: “Sem comentários.” Após um hiato, emendou: “Bebianno é o nosso Toffoli, pô.” Numa conversa anterior, o general dissera que o atual presidente do stf “não tem gabarito técnico para ser ministro” daquela corte. “A gente não pode errar. Representamos uma parcela imensa da população que tem uma expectativa enorme de mudar essa estrutura. Há uma expectativa sobre as Forças Armadas, e eu e Bolsonaro representamos as Forças Armadas. O único capital que tenho é o meu nome, e não vou jogar meu nome na lama”, completou Mourão.

O grupo de militares tampouco se bica com Lorenzoni – e quanto a isso tem a solidariedade de Guedes, que já teve oportunidade de dar suas patadas no deputado. Mourão travou nas últimas semanas uma guerra fria com Lorenzoni por causa de atribuições da Casa Civil e lidera o grupo que considera o futuro ministro da pasta sem capacidade nem estatura política para o cargo. As mudanças promovidas por Bolsonaro, ao levar os generais Mourão, Heleno e Carlos Alberto dos Santos Cruz – indicado à Secretaria de Governo – para trabalhar perto de si, no Palácio do Planalto, refletem a força do núcleo militar.

 

A competição de saltos no Centro Hípico do Exército reuniu famílias de militares e civis no sábado ensolarado. Um quiosque vendia cerveja e refrigerantes. Soldados e cabos serviam gratuitamente salgadinhos para o público e uísque para generais e coronéis. A distinção é normal no ambiente militar. No Centro Hípico, há cinco banheiros-vestiários diferentes: o de soldados e cabos, o de sargentos e tenentes, o de oficiais superiores, o de oficiais generais e o de civis. À exceção de uma mulher com uma camiseta amarela estampada com o slogan bolsonarista “Meu partido é o Brasil”, não havia ali quase nenhum sinal da mais extremada disputa eleitoral no país em muito tempo, apesar de ser a véspera do segundo turno.

O comandante do regimento de cavalaria que administra o centro, tenente-coronel Paulo Ubirajara Mendes, aproveitou a ocasião para convidar Mourão a proferir uma palestra sobre o tema “O cavalo e a formação militar” num evento que ocorreria dali a alguns dias. O general ficou de pensar. Numa roda de conversa, a mulher de um general de 72 anos que também disputaria uma prova criticava a libertinagem da novela das nove da Globo e também a jornalista Miriam Leitão. Em outro grupo, um coronel da reserva avaliava os colunistas de política do jornal O Globo, disparando elogios a Merval Pereira (“É o mais centrado”) e críticas a Bernardo Mello Franco (“Não dá, é o pior de todos, só podia ter sido da Folha”).

Dois personagens foram muito festejados. O primeiro, sargento Benigno José da Silva, treinava os cavalos de Figueiredo e até hoje, aos 82 anos, dá aulas de salto. Perguntei a ele se Mourão é tão bom nos saltos quanto era Figueiredo. Ele não precisou refletir: “Figueiredo era melhor. Ele chegou a saltar 1,70 metro, eu tenho a foto.” O subtenente Elmo Jardim de Moura, que dobrava paraquedas na Brigada de Infantaria Paraquedista nos tempos de Bolsonaro e de Mourão, circulou nas rodinhas contando suas histórias e distribuindo paçoquinhas.

A prova de Mourão tinha 21 inscritos, mas só competiram dezesseis. O general foi o sexto a entrar na pista. Passou sem percalços pelos sete primeiros obstáculos. Diante do último, um prosaico bloco de traves de 70 centímetros, Ídolo do Rincão refugou. O tranco do cavalo levou o cavaleiro ao chão. A queda de Mourão sobre a areia produziu um barulho e comoção geral na plateia. Ao meu lado, Ana Paula, sua mulher, deu um grito: “Ai, meu Deus!” A expressão do general era de dor, mas logo ele se ergueu do solo, o dorso sujo de terra, e seguiu para os bastidores da prova. Quando voltou para se juntar à audiência, já de camisa trocada e com uma lata de cerveja na mão, estava macambúzio, mas se esforçou para parecer bem.

Várias pessoas se aproximaram para prestar solidariedade e saber como ele estava. “Eu rolei na hora e me protegi com o braço, proteção de queda de PQD [paraquedista]. Tô acostumado, por isso não me machuquei”, minimizou, apesar de escoriações no cotovelo e um machucado no tornozelo. Ana Paula e um coronel insistiram que ele deveria passar a montar com um colete de proteção. Outros lembraram como o hipismo é um esporte perigoso. Uma placa na parede do centro, inclusive, homenageia o coronel Fernando Monzon Abril, morto em 1979 após uma queda de cavalo – o animal em que saltava caiu sobre o corpo dele.

Em grupinhos, os presentes tentavam interpretar o ocorrido com o general. Um coronel que foi da turma de Mourão na Aman palpitou que Ídolo do Rincão talvez tenha se assustado com a balbúrdia na plateia, que naquele trecho da prova estava muito próxima da pista. A fã de camiseta amarela sugeriu uma variante mais bajulatória da mesma hipótese: “Muita gente queria tirar foto do senhor, o cavalo se assustou.” Um general mais velho afagou: “Guardou a sorte para amanhã.” Formou-se também ali uma corrente de proteção para impedir que o ocorrido viesse a público. Não seria muito adequado, afinal, os brasileiros saberem que o provável vice-presidente do país havia caído do cavalo na véspera da eleição. Nem naquele sábado nem depois a notícia da queda atravessou os muros da Hípica do Exército.

O vencedor da prova da qual Mourão terminou eliminado foi o soldado André Silva, tratador de Ídolo do Rincão, que competiu com outro cavalo, emprestado de um capitão. Na hora da premiação, ele desfilou com a medalha no peito e a faixa pendurada no cavalo, batendo continência para os superiores. Mourão, naturalmente, o aplaudiu. Depois, o general circulou entre amigos, entregou as medalhas aos vencedores de outra prova, tomou quatro doses de uísque e foi embora – tinha de pegar o voo para Brasília, onde votaria no dia seguinte.

 

Em 28 de outubro, dia do segundo turno da eleição, retornei a Brasília para acompanhar Mourão na sua viagem de volta ao Rio. Como nosso voo, marcado para as três e meia da tarde, foi cancelado por causa de problemas com a aeronave, o general precisou tentar realocação em algum voo seguinte. Enquanto aguardava na fila da companhia aérea, uma moça, com a câmera do celular ligada, lhe pediu: “General, manda um abraço pro pessoal de Terra Roxa, no Paraná, a capital da moda bebê.” O candidato assentiu sem se apoquentar: “Pessoal de Terra Roxa, capital da moda bebê, um abraço do general Mourão.” A fila da realocação não andava, e Mourão resolveu comprar outro bilhete, em outro guichê. Só conseguiu para um voo três horas mais tarde.

Decidiu, então, ir à festa que seus dois filhos tinham organizado para acompanhar a apuração. A reunião era no salão de festas do prédio onde mora sua filha caçula, de 35 anos, a advogada especializada em mineração Renata Rossell Mourão de Souza, num condomínio no Guará, cidade vizinha ao Plano Piloto. O primogênito, Antonio Hamilton Rossell Mourão, o Toninho, 40 anos – administrador de empresas que trabalha na Diretoria de Agronegócios do Banco do Brasil –, também estava lá, bem como dois dos cinco netos do general. O celular de Mourão tocou. O emissário de um grupo de empresários que apoiou a campanha no Rio Grande do Sul oferecia um jato fretado para levá-lo ao Rio sem demora. Ele recusou. (Menos de um mês após as eleições, a chapa vencedora teve de retificar sua prestação de contas ao TSE depois da revelação de que o general viajou durante a campanha no jatinho de um empresário paranaense sem declarar como doação eleitoral.)

Mourão foi ao banheiro, seu celular, que ficara em cima da mesa, tocou novamente, e Toninho atendeu. “Fala, tio, tudo bem? Peraí.” O pai voltava. “Fala, Sérgio”, disse Mourão, deixando o salão de festas. Era o general Sérgio Etchegoyen – ministro do Gabinete de Segurança Institucional de Michel Temer –, de quem Mourão é amigo de longa data. Às cinco e meia, um casal recém-chegado deu os parabéns ao candidato a vice pela eleição. Renata, que estava próxima, disse que ainda não era hora. A convidada continuou: “Já tá resolvido. Agora é atirar esses petistas tudo no…” A filha de Mourão não esperou que a mulher concluísse a frase e atalhou, num tom apreensivo: “Não, não é assim.” Risos nervosos se espalharam pelo ambiente.

De volta ao aeroporto, e quase certa a vitória de sua chapa, Mourão viu o assédio aumentar, com seguidos pedidos de fotos. Um sujeito alto e loiro se aproximou, apresentou-se como capitão do Exército alemão, fez uma foto com o general e disse que esperava que seu país seguisse o exemplo eleitoral do Brasil. Mourão agradeceu e entabulou, num inglês correto, um diálogo breve com o homem, que, pouco após se despedir, voltou com um papel na mão em busca de um autógrafo. O general escreveu: To German soldiers – Strength and Honour (Para os soldados alemães – força e honra). Contou-me então sobre sua experiência nos Estados Unidos.

Em 1967 e 1968, Mourão viveu em Washington, depois que seu pai foi destacado para uma missão diplomática pelo Exército. Chegou lá com 14 anos e ainda se lembra do dia em que morreram Martin Luther King e Robert Kennedy, bem como da eleição de Nixon. “Estudei numa escola pública muito boa, convivi com gente de todo o mundo, e aquilo abriu minha cabeça de adolescente”, me contou, já no avião. Empolgado, passou a rechear a conversa com expressões em inglês. Quando cogitei pedir a um comissário de bordo que nos avisasse sobre o resultado das eleições, ele retrucou, fazendo um sinal de zíper sobre os lábios: “Não. Low profile.” Um casal que pedira uma foto na fila do embarque sentou-se ao lado de Mourão, e a mulher mencionou a coincidência. O general devolveu: Happy coincidence.

Aproximava-se a hora do início da apuração, os últimos passageiros entravam no avião, e o celular de Mourão não parava de tocar. Primeiro foi “Ferreirinha”, como o vice chama o general Oswaldo Ferreira. Em seguida, o ministro Francisco Falcão, do STJ, o Superior Tribunal de Justiça. O vizinho de poltrona do candidato, que acompanhava as notícias pelo celular, avisou quando saiu a pesquisa de boca de urna – que apontava a vitória de Bolsonaro por 56%, contra 44% de Fernando Haddad. Passavam alguns minutos das sete da noite e o avião se preparava para decolar quando o rapaz informou que 85% das urnas já estavam apuradas e confirmavam a pesquisa. “Pronto, matamos a cobra”, exclamou Mourão.

Na chegada ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, agentes da Polícia Federal e do Bope, o batalhão de elite da PM do Rio, entraram no avião para escoltar o general. Um passageiro gritou: “Pessoal, antes de desembarcar, vamos aplaudir o nosso vice-presidente. Uma salva de palmas.” A maior parte dos passageiros aderiu à saudação. Mourão empertigou-se, ergueu o braço direito e acenou em agradecimento. Um micro-ônibus o conduziu a uma saída reservada do aeroporto. Durante o trajeto e no saguão os agentes da PF e do Bope pediram para fazer fotos com o vice. Entramos, com dois agentes do Bope, num carro blindado, que levaria o general até a casa de Bolsonaro para a celebração da vitória. No banco de trás, havia um colete à prova de balas para Mourão, que não o vestiu.

Os agentes do Bope tratavam o passageiro ilustre por “Zero Um”. No rádio do carro, ouvia-se o jornalista Reinaldo Azevedo comentar os desafios e as dificuldades que Bolsonaro enfrentaria para governar. “Não sai do palanque”, balbuciou Mourão.  Escoltado por viaturas da PM, o carro blindado avançava a toda velocidade pela Linha Amarela. Um amigo telefonou para parabenizar o general pela vitória. Ele agradeceu e disse: “A aventura começa agora.”

Fabio Victor

Repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

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Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

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Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

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A guerra contra o termômetro

Quando chegam más notícias sobre o desmatamento, os governos atacam o emissário

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Cortes de Bolsonaro emperram pesquisa para deter câncer incurável no cérebro

Sem bolsas federais, pesquisadora aprovada em primeiro lugar na UFRJ atrasa estudo sobre vírus da zika como arma contra tumor

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Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos