tipos brasileiros

O vira-casaca

Minha chama revolucionária sucumbiu diante do hino a capela

Renato Terra
ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2014

Substituição tripla. Sai “Não vai ter Copa”; entra “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Sai cartolina com a frase “Copa pra quem?”; entra controle remoto. Sai vinagre; entra cerveja. Não precisa ser um Paulo Vinícius Coelho para perceber que eu, Rafael Arantes, mudei todo o meu esquema tático.

Bem, amigos da revista piauí, assim como o João Gordo, eu confesso que traí o movimento. Minha chama revolucionária sucumbiu diante da simpatia da seleção holandesa, da profusão de gols da primeira fase, do clima caliente dos torcedores sul-americanos e dos irresistíveis hinos a capela. A força arrebatadora que me fez assistir na íntegra ao embate entre Honduras e Equador fincou a pá de cal em meus sentimentos anti-Copa: virei a casaca.

 

O processo foi lento e gradual. Ano passado, alterei meu nome no Facebook para Rafucko Guarani Kaiowá. A única partida de futebol que assisti foi em uma reserva indígena. Fui convocado para as ruas e participei de um crowdfunding para financiar dois cartazes: um com a frase “Eu não quero ser colonizado pela Fifa”; e o outro, a ser distribuído nas escolas de ensino fundamental, “A Fifa não é fofa”. O primeiro sinal de que o futebol pairava acima de qualquer ideologia apareceu quando chutei de volta uma bomba de efeito moral jogada por um policial militar. Tive vontade de gritar “Vai que é tua, sargento”, mas me contive.

Veio a Copa das Confederações e me peguei perguntando para um brucutu da Tropa de Choque o resultado da final contra a Espanha. Levei um jato de pimenta no rosto. Atordoado, ouvi um “Ganhamos de 3 a 0” e, confesso, entre sufoco e lágrimas, enxerguei no meganha um irmão de sangue a quem não hesitaria em oferecer um prato de comida, além de incenso, ouro e mirra.



No calorão de janeiro, saí de casa com um chapéu-panamá, bigode postiço, sobretudo bege de gola levantada e óculos escuros. Afetei a voz para o jornaleiro quando pedi o álbum da Copa. Semanas depois, montei um bunker secreto que funcionou como ponto de encontro para troca de figurinhas. Entre um Balotelli e um Asamoah, eu e meus colegas tramávamos a queda da civilização ocidental para logo depois do dia 13 de julho.

Então as seleções estrangeiras começaram a chegar. Alemães dançaram com índios. Ingleses jogaram capoeira na Rocinha. Argentinos, chilenos, colombianos tomaram as ruas de Copacabana. Lidei com um profundo sentimento de culpa no dia em que troquei uma reunião do Movimento Passe Livre pela oportunidade de assistir ao treino da Holanda, mas a verdade é que não hesitei em pagar 3 reais para ir de Copacabana à Lagoa. Achei até barato depois que consegui acenar para o Robben.

 

Quando soou o apito de Brasil e Croácia, lá estava eu em frente à tevê adorando detestar o Galvão Bueno. Vesti uma camiseta amarela lisa, indefinida, sem o escudo da CBF. Achei simbólico que o primeiro gol da Copa fosse contra, mas me flagrei torcendo para que a Seleção logo empatasse. Ao primeiro pontapé em Neymar, gritei: “Sem violência! Sem violência!”

Rendido ao ufanismo de Tino Marcos, vi a última nesga de resistência se dissipar quando torci para que os refletores do estádio superassem a pane momentânea. Neymar e Oscar me puxaram pela mão e mergulhei no jogo feito um Policarpo Quaresma. Simpatizei com o David Luiz como se conhecesse o zagueiro desde a infância. E troquei palavras ásperas com um mané que não gostou do Paulinho.

Numa inversão de perspectivas, lancei o movimento “Occupy Bar do Seu Clóvis”. Sem arredar pé durante toda a madrugada, entoamos canções de exaltação à pátria. Defendi o Waldir Peres de 82, o Elzo de 86, o Bismarck de 90, o Ronaldão de 94, o Zé Carlos de 98, o Anderson Polga de 2002, o Cris de 2006 e – Sim! Sim! – o Felipe Melo de 2010. A comemoração começou pacífica, mas uma horda de argentinos adentrou o local e promoveu uma saborosa e previsível disputa de provocações envolvendo Pelé e Maradona.

Estava incontornavelmente convertido, tudo bem, mas estabeleci uma regra inicial: só torceria pelas seleções com menor IDH. Em hipótese alguma comemoraria qualquer jogada da seleção dos Estados Unidos ou Japão. Mas já na segunda arrancada do Robben e no primeiro passe do Schweinsteiger abri mão de todos os princípios. Deus estava morto. No máximo, celebrei o êxito das seleções sul-americanas com uma rodada de chope em homenagem a Simón Bolívar.

 

No segundo jogo do Brasil, marquei uma reunião com uns amigos da faculdade. Pintamos cartazes, ensaiamos gritos de guerra e confeccionamos máscaras. Em seguida, partimos para a Fifa Fan Fest. Perguntei ao Pol Pot, meu amigão da geografia da Uerj, se ele me emprestaria um dos dois cartazes que carregava. Ele, que é ponta firme, me deu o “Eu tô na Globo!” e ficou com o “Galvão, filma nóis”.

Amontoado entre brasileiros de todas as classes sociais, cantei, arrepiado, o “virundum”. Os astros se alinharam, tive a compreensão plena da expressão Zeitgeist, enxerguei a cor índigo e não consegui conter o grito de “Eeeeeeeeeu sou brasileeeeiro, com muito orguuuulho, com muito amooooooooooor” que saía da minha garganta como se lá dentro existisse uma Fátima Bernardes enlouquecida. Cheguei ao ponto de comprar uma corneta. Cinco Budweisers depois, lanchei no McDonald’s e cogitei considerar Luiz Gustavo um gênio da raça. A essa altura, minha alcunha no Facebook já era Rafinha10 e meu corte de cabelo, um moicano.

No dia seguinte, quando acordei de sonhos tranquilos, me vi metamorfoseado em Fuleco. Com uma ressaca transcendental, temi que tivesse ocorrido o pior. Revolvi meus rins e meus bolsos com sofreguidão. Deus é pai. Não havia perdido meus dois ingressos para as oitavas de final.

Melhor assim. Guevara já dizia que um revolucionário precisa de um pouco de distração antes das grandes pelejas. Estou apenas carregando minhas baterias. Porque não tenham dúvidas: Não vai ter Olimpíada!

Renato Terra

Renato Terra foi repórter de piauí e era ghost-writer do Diário da Dilma e responsável pelo piauí Herald até 2016

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