poesia

Olha, é tanta merda

Bruna Beber
CREDITO: MARIA EUGÊNIA_2021

AS PÍTIAS

olha é tanta merda

pensada vivida ressentida violenta

num só dia que a vontade é pisar

nesse prego enferrujado e voltar

a ser o que sempre fui

 

I – aquela

pendurada na beirola dura da bombona

o nariz bambeando as moléculas ardidas

do chorume com água sanitária e plástico

gritando lá pra dentro – o sangue bombeia

os olhos, o som em estado térmico – gritando

berrando rindo chorando caindo na gargalhada

ali pra fora e os cabelos vejam ó meros morcegos

aquela doida

pra cair de cara

 

olha é tanta merda

pensada vivida ressentida violenta

num só dia que a vontade é pisar

nesse prego enferrujado e voltar

a ser o que sempre fui

 

II – essa

sentada na frente do circulador quadrado

conversando sozinha em voz metálica

duplicada – oion comoun teim pãssadon

me ouvindo e me falando e ao me interrogar

informalmente respondo só aquilo que gostaria

de perguntar quiçá argumentando é meio quilo

de ilusão! Prestes a ressoar o que esperei ou esperava?

ou o que ainda espero e escolherei como resposta

mas a verdade é que me distraio com o silêncio

emparedando nossas vozes e esqueço

essa louca

pra decepar um dedo na hélice

 

olha é tanta merda

pensada vivida ressentida violenta

num só dia que a vontade é pisar

nesse prego enferrujado e voltar

a ser o que sempre fui

 

III – outra

de rosto retrancado, jeito de corpo

de quem é dona de açougue e usa

poças de óleo como espelho; a colecionadora

de peles de dedo coladas à trempe do fogão

essa sim mais uma que estuda pra matéria

prima do progresso e sabe fazer e aceitar

convites e faz conta como ninguém e gosta

de opinar entende das coisas mexe com dinheiro

enfim desejo ser tudo o que não existe mais

outra insana

faz tabelinha pra tomar chumbinho

 

olha é tanta merda

pensada vivida ressentida violenta

num só dia que a vontade é pisar

nesse prego enferrujado e voltar

a ser o que sempre fui

 

IV – você

que ateou fogo na cabeça do colega

da frente e treinou beijo na parede

do box cujo grande medo era e é

a cortina cair junto com a vareta

isto é um escândalo: ano atrás de ano

xingando a mãe pra dentro do casaco

esfriando leite com saliva; belo dia avistou

almas de pardais evaporando na vidraça fria

e uma baía que de longe parecia o deserto

azul de nossas dores quaradas, cavalgadas

e encavalando-se numa fazenda à beira-mar

você frenética

gostando de queimar a língua

 

olha é tanta merda

pensada vivida ressentida violenta

num só dia que a vontade é pisar

nesse prego enferrujado e voltar

a ser o que sempre fui

eu não sei mas acho

que as coisas boas começam assim

cair gritar decepar veneno abandono combustão

doutro lado é jogar a tarrafa nesse cupinzeiro e nomear

o trauma destronar a corja dispersar a glória e sabe do que

mais vou te contar todo dia é muito prego enferrujado

 

Almada, maio de 2020

 

LIPOMA BLUES

Não gosto de ser gente

e quando esses palhaços

me perguntam (falam muito)

o que faço então da vida eu digo

SONHO

QUE

SOU

 

inclusive detetive

no Campo de Santana Praça da República Belacap RJ –

Alô quem fala

Miss Uva Thompson em que posso ajudar

De que natureza da parte de quem é o seu pai

Digamos que sim. Especialista. Afobações leves.

Dez reais? Navalhada? No jarrete? Francamente.

 

A QUADRIGÊMEA

LINDA de CHÃ

PATINHO e LAGARTO JÚNIOR

 

Uma ligação? No telefone? Que dia é hoje?

Miss Pera Williams em que posso não ser útil

Em absoluto, senhor, mas colônia não é perfume.

Às dez e meia. Manhã, entre a loucura e o despertar.

Modéstia, naturalmente. Dentifrício. Evite molas e ais.

 

Não gosto de ser gente

A evidência é simples

A ressonância, profunda

Estar de boia no sentido

Olha o som indo e vindo.

Barra Funda, abril de 2020

Bruna Beber

é poeta, tradutora e mestre em teoria e história literária pela Unicamp. Publicou Ladainha e Rua da Padaria (Record).

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