ficção

Onze ideias que deram em nada

Antonia Pellegrino
As crianças alimentariam os peixes. Os peixes trariam buena onda para a casa. O barulhinho da água disfarçaria o som da rua. A mulher do <i>feng shui</i> vibrou com a ideia do espelho d’água
As crianças alimentariam os peixes. Os peixes trariam buena onda para a casa. O barulhinho da água disfarçaria o som da rua. A mulher do feng shui vibrou com a ideia do espelho d’água ILUSTRAÇÃO: FOTOMONTAGEM_BALÃO / SNAKE3D_ÁGUA / JURI SAMSONOV_PEIXES / LARS CHRISTENEN

IDEIA DE DESEJO

O gato branco arranha bolhas de sabão.

 

IDEIA DE RESSENTIMENTO

A pior coisa do mundo é quando a gente se relaciona com alguém que não abre espaço na vida pra gente. O Arthur era assim. Um saco. Ele dizia que não tinha mais tempo de escrever uma obra melhor do que as que ele lia. Então vivia frustrado, atrás de uma inspiração qualquer que não dava as caras. E eu ali, indo ao cinema sozinha, enquanto ele precisava desse tempo do escritor, sabe? Uma coisa meio romântica. Que acha que escritor não sabe se relacionar, não gosta de sair, só quer ficar em casa escrevendo a grande obra que nunca começa. Eu dizia pra ele, então vai e escreve. E nem uma linha. Enquanto isso eu produzi à beça. Comecei a dirigir teatro, assim, aos poucos. Eu não quero ser o Kike Diaz. Mulher é diferente, vai indo, fazendo, deixa as coisas acontecerem com mais naturalidade. Acho que essa coisa muito ambiciosa é de homem, de querer ser um fodão e traçar um caminho pra isso. O Arthur é meio assim, quer ser o Godard com o orçamento de um Scorsese. Ele acha que é o Godard. Oi? Ele até é muito inteligente, mas tem 45 anos, emocionalmente é um menino, só que careca e barrigudo. E, cá entre nós, nem trepa tão bem assim. Agora tá namorando outra mais menina que ele, que eu, como se essa fonte de juventude fosse ser sua fonte de inspiração pro tal livro que ele nunca coloca no papel. Coitado.

 

IDEIA DE TESÃO

O neném chora, o leite desce.

 

IDEIA DE IR AOS ÍNDIOS

Não deu pra ir porque nas aldeias os índios tratam mal os cães. Não cuidam, deixam ficar doentes, amarrados por coleiras em árvores, morrendo à própria sorte. E eu não posso ver um cachorro sofrendo que adoto. Ia virar a louca dos vira-latas, sair de lá embarcada com um bando deles. Comecei a pensar em desistir. Até porque mosquito é um problema pra mim, tenho pavor de inseto. Acho índio superlegal, mas onde tem pernilongo, muriçoca, micuim, eu não vou. E já estava na minha cabeça essa ideia de comprar um paletó de ombreiras do Balmain, e Balmain só vende em Paris. Então fui a Paris.

 

IDEIA DE MEMÓRIA

A casa ficava em Pedra de Guaratiba, no tempo em que a Barra da Tijuca era um areal. Longe o suficiente para eu me sentir de férias. Pertencia à família da mãe da minha amiga Mariana, assim como a fazenda com zoológico onde ficava a elefanta Rosa e os babuínos de bunda vermelha que nos perseguiram num dia de piquenique. Eu tinha 5 anos? As casas onde nós moramos me ajudam a lembrar das datas. Parque Gávea entre 4 e 6 anos. Do fim do casamento com meu pai ao começo do casamento com meu padrasto. Dá pra assumir 5 anos. Minha mãe ficou amiga da mãe da Mariana no teatro. Fez uma turma. Denise, Buza, Massoca, Paulinho, Paulo Roberto. Quem mais? Além dos adultos, estávamos eu, meu irmão, Krishna, João, seu amigo preto e a Mariana. Acordamos cedo, ou pelo menos antes de qualquer adulto. Vestimos biquínis, sungas e maiôs. A piscina era enorme, azul, e tinha trampolim bege. Nos revezamos para encher de ar o colchão flutuante e o lançamos dentro d’água. A piscina não era nem quadrada nem oval, mas de linhas arredondadas, uma forma orgânica. Me parecia enorme, e devia ser. Mergulhamos e subimos sobre o colchão escorregadio. Remávamos de uma borda a outra quando o menino preto filho da cozinheira do João afundou. Meu irmão Francisco e o João mergulharam seus corpos magrelos no resgate super-heroico. O menino riu. Recordo ou imagino seus dentes alvos no riso largo em meio à cara escura? Ele sobe novamente ao colchão, alterando nosso aquático equilíbrio. Seguimos remando, é difícil alcançar o outro lado. Se alguém se mexe, desequilibra o colchão e todo mundo cai. Lá foi o menino preto novamente ao fundo. Já perdeu a graça, viu. Um casulo escuro turvado pela água azul. Como é que ele consegue isso? Já tem quase meio minuto. Eu sei, eu me lembro bem. Os braços estendidos sobre o chão, rente ao corpo enrodilhado. As palmas das mãos pra cima. A testa contra os joelhos, e o topo da cabeça no fundo, em posição fetal. Hein, um minuto. Como é que ele consegue fazer isso?! Um minuto e meio parecendo pedra. Quem correu para acordar os adultos? Provavelmente o João. Quando vi o Paulinho se jogando de cueca na piscina, me assustei. Acho que o menino devia ter 7 anos naquele dia em que foi retirado inconsciente da água. Não nos quiseram no hospital. Só o João foi com a mãe. O dia demorou a passar, ninguém conseguia brincar de nada. Era noite quando eles voltaram. Sem o garoto. Ouvi minha mãe dizendo que a mãe dele nunca o deixava ir a lugar nenhum, tinha medo. Um problema, ele tinha um problema, parece. Problema não é coisa de velho? Finalmente, a convocação. Nos sentaram em roda na sala que dava pra piscina. E disseram: ele teve uma parada cardíaca, vai ser enterrado amanhã. Sem conversa de virar estrela, passarim, essas coisas de criança. Não fomos ao enterro, não sei por quê. Naquela noite eu fiz xixi na cama.

 

IDEIA DE FANTASMA

A luz mais antiga que podemos ver.

 

IDEIA DE LAGO COM CARPAS

O barulhinho da água. As crianças alimentariam os peixes. Os peixes trariam buena onda para a casa. O barulhinho da água disfarçaria o som da rua. A mulher do feng shui vibrou com a ideia do espelho d’água. As crianças pescariam peixes e devolveriam ao lago. Nos dias de verão, crianças e peixes dividiriam o lago.

O lago começa a ser cavado em sua forma orgânica, conforme o projeto do arquiteto no papel. Uma caçamba está parada na rua, na porta da casa, para receber a terra. No meio do trabalho, o engenheiro descobre que não tem apenas terra, mas asfalto. Agora são necessárias britadeiras para terminar o buraco. Os vizinhos mal-humorados com a obra aproveitam a terra preta para fertilizar os vasos de suas casas. A caçamba finalmente vai embora.

A cratera é arrematada. Sua forma orgânica não fica como no projeto. As curvas do lago resultam curtas como o voo de uma galinha. Teria sido melhor fazer uma linha reta. Mas o deque pode dar o arremate, a proprietária acredita que vai funcionar.

O espelho d’água ocupa boa parte da área externa. Está brutal. Vai ficar bonito, mas a dona do lago encasqueta de mudar o projeto. Acha que não precisa de um lago tão grande, precisa é de sofá. O engenheiro faz as contas, a proprietária assina o cheque. Cobre-se de entulho metade do lago e ele agora é um tanque.

Chega o eficiente filtro pressurizado para as mais diversas opções de instalação em lagos ornamentais. É maior que a área a ele reservada. É necessário refazer a casa de máquinas. O engenheiro faz as contas, a proprietária assina o cheque.

Finalmente o laguinho é impermeabilizado, está quase pronto. A ideia é revesti-lo com madeira, uma continuidade do deque. O marceneiro inventa um jeito de colar as réguas e, como todo marceneiro, estoura o prazo. O lago demora semanas para ser finalizado. A proprietária briga com o marceneiro. O deque é arrematado por outro marceneiro, que reclama do trabalho do marceneiro anterior e aponta defeitos. A proprietária assina um cheque para o segundo marceneiro resolver os problemas deixados pelo primeiro.

O deque, o laguinho e a área externa ficam prontos. Não há mais cheques a serem assinados. O barulhinho da água é delicioso. A conta de luz chega, está substancialmente mais cara por causa do trabalho do filtro pressurizado. Mas dormir com o barulhinho da água faz o esforço valer a pena.

A proprietária desiste dos peixes, porque eles atrairiam gambás e gambás podem transmitir doenças para as crianças. Mesmo sendo pressurizada, a água fica verde. É necessário tratá-la. Comprar cloro e limpar o lago, como uma piscina. As crianças entram no laguinho e gostam, e isso é bom.

O barulhinho da água é persistente. Para dar trégua é preciso levantar o alçapão pesado da caixa de máquinas e interagir com a válvula de seis posições que permite um total controle das operações disponíveis no filtro com uma simples troca de posição da alavanca. No entanto, ninguém consegue trocar a alavanca. A proprietária liga para o engenheiro no domingo e ele explica como proceder. Agora o laguinho fica quieto, pelo menos um pouco.

Desligada a bomba, a água esverdeia mais rápido. O tanque fica repleto de larvas. A casa é invadida por nuvens de mosquitos, inclusive Aedes. É necessário drenar o lago, mas como? A proprietária precisa trabalhar, mas liga para o engenheiro que explica o que fazer e, entretanto, o dreno não funciona. A faxineira dobra as calças e entra no lago para tirar na munheca a rapa de água com larvas.

O noticiário diz que vai chover. A proprietária tampa o lago com plástico azul. Chove e sobre o plástico se formam piscinas, que em poucos dias também estão cheias de larvas. Vaza água do plástico para o lago, que a faxineira tira novamente na munheca.

Limpo, enche-se novamente o laguinho. O barulhinho agora está de volta. O verão se aproxima e a mangueira sobre o laguinho desfolha. A proprietária pede à faxineira para tirar as folhas, mas ela esquece. O laguinho está com aspecto horrível. As crianças não querem mais brincar lá dentro.

A proprietária entra em casa sem olhar para o laguinho. Mas é impossível não notá-lo na conta de água, de luz e na marca das picadas de mosquito na pele das crianças. O marido não tolera outra obra. A família fica com o tanque até sair de férias no final do ano e o engenheiro entrar com sua equipe.

Quebram a parte do laguinho que foi fechada, de modo a deixá-lo no tamanho do projeto original e chamam uma caçamba cheia de terra para fazer ali um canteiro de plantas, como antes da obra.

 

IDEIA DE CATECISMO

Rezava pra dormir, hoje se masturba.

 

IDEIA DE DISPUTA

não dá para a gente se chamar de chuchu e vocês também. nós somos próximos demais para isso, vocês moram nos fundos da casa e a gente mora em cima. então a melhor coisa a se fazer é deixar o apelido conosco, que estamos juntos há mais tempo, portanto temos a preferência do chuchu.

 

IDEIA DE FACA NO PESCOÇO

O que você quer ser daqui a dez anos?

Onde você quer estar daqui a dez anos?

Nas cabeças?

Na sarjeta?

Daqui a dez anos.

Quanto dinheiro você vai conseguir ganhar?

E quantos prêmios?

Quantos países quer ter conhecido, daqui a dez anos?

Quantos filhos gerados?

Quantas oportunidades terão sido desperdiçadas?

Em quantas matérias de jornal você será citado?

Quantas metas vai conseguir cumprir?

Pra ser quem você quer ser daqui a dez anos?

 

IDEIA DE ANGÚSTIA

Tentar esconder a tristeza do próprio feto.

Antonia Pellegrino

Antonia Pellegrino é escritora e roteirista de televisão e cinema

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