quarentena

A origem do medo

O país onde a fome assusta mais que a Covid-19

Mónica Baró Sánchez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

De Havana
Tradução de Sérgio Molina e Bia Goldoni

Há em Havana, em Cuba inteira, um medo maior que o medo do novo coronavírus. Um medo antigo, íntimo, que vem da crise econômica dos anos 1990 e resume o povo cubano melhor que qualquer outro: o medo da fome. As pessoas estão mais preocupadas em arranjar comida do que com o vírus. O medo da Covid-19 parece um luxo que só os que vivem em outros lugares do mundo, e têm alguma coisa além de gelo na geladeira, podem se permitir.

Cuba não foi dos países mais atingidos pela pandemia no continente americano. As estatísticas do Ministério da Saúde Pública, a única fonte de informação a respeito, indicam que a situação epidemiológica está sob controle. Até 26 de maio, o número de casos positivos diagnosticados chegava a 1 974, com 82 óbitos. Quase 90% dos casos, até o dia 12, eram de pessoas que tiveram contato com portadores confirmados anteriormente – só em 3% dos casos se desconhecia a fonte da infecção e o restante pegou o vírus no exterior. Além disso, desde 3 de maio, as altas hospitalares superam os novos positivos, e 1 224 pacientes já se recuperaram.

Um dos fatores-chave no controle da Covid-19 foi o sistema de vigilância epidemiológica implementado pelas autoridades sanitárias assim que foram confirmados os três primeiros casos, em 11 de março. As pessoas que têm contato com infectados são imediatamente transferidas a centros de isolamento ou hospitais, e a população com algum tipo de risco é monitorada nas comunidades pelos serviços de atenção primária à saúde. Além disso, desde 17 de março, 28 mil estudantes de medicina, em parceria com trabalhadores da saúde, têm visitado os lares dos 11 milhões de habitantes do país para detectar casos.



Cuba também foi rápida em implementar fortes medidas de isolamento e distanciamento. As fronteiras começaram a ser fechadas em 20 de março, quando havia apenas 21 casos confirmados e uma morte. Três dias depois, o governo anunciou que as pessoas que entrassem no território nacional deviam ir diretamente do aeroporto para um centro de isolamento e lá permanecer durante duas semanas. Itália e Espanha, por exemplo, começaram a fechar suas fronteiras quando já tinham milhares de casos positivos e centenas de mortes.

Os centros educacionais – todos públicos – fecharam em 24 de março, e a partir da semana seguinte as aulas para todos os níveis, exceto o universitário, passaram a ser transmitidas pela televisão estatal – que também é a única –, de segunda a sexta, das 8 horas às 16h30, em dois canais diferentes. O ensino presencial só deverá ser retomado quando as condições epidemiológicas permitirem.

 

O governo cubano insiste, há quase dois meses, que as pessoas permaneçam em casa e só saiam para fazer o indispensável. A fim de reduzir ao máximo a mobilidade, o transporte público urbano foi suspenso na primeira quinzena de abril. No entanto, o acesso a produtos de primeira necessidade, sobretudo a alimentos, é o calcanhar de Aquiles da ilha em sua luta contra o novo coronavírus.

Para ilustrar como Cuba tem sofrido com a profunda escassez de alimentos, talvez melhor do que as estatísticas seja a história da mãe de uma amiga minha, que ficou cinco horas numa fila para tentar comprar um pacote de oito salsichas num mercado de Santa Ana, uma cidadezinha com cerca de mil habitantes na província de Matanzas. Só vendiam um pacote por pessoa, mas ela voltou para casa de mãos abanando. Sua senha era a de número 50.

A província de Havana, que possui a maior e mais diversificada rede comercial do país, produz todos os dias histórias parecidas com a de Santa Ana. As filas muitas vezes começam a se formar na véspera da abertura dos mercados, todos estatais, porque é preciso enfrentar primeiro a fila para conseguir um pedaço de papelão que atribui um lugar numa segunda fila, que dá acesso ao mercado. O pior, sem dúvida, não são as filas em si, mas o desabastecimento generalizado.

Você nunca consegue tudo o que precisa num único lugar. É muito comum ver filas, ou melhor, aglomerações, nas quais não se costuma respeitar o distanciamento social recomendado, para tentar obter um só produto: frango, iogurte, papel higiênico, sabonete, óleo, carne de peru picada ou manteiga, que são alguns dos itens mais procurados.

A partir de 23 de março, o governo realizou vários ajustes a fim de diminuir o problema. Estabeleceu rigorosos limites para a venda de mercadorias, incluiu mais itens de higiene e alimentos na caderneta de racionamento mensal – os produtos a que têm direito todos os cidadãos –, impulsionou o comércio eletrônico com entrega em domicílio e lançou uma campanha midiática contra a especulação ligada à estocagem de produtos. Mesmo assim, a escassez continua a ameaçar seriamente os esforços do sistema de saúde para conter a Covid-19.

A soberania alimentar é um dos maiores desafios que Cuba vem enfrentando há décadas. O embargo que os Estados Unidos impuseram à economia do país nos anos 1960, a dependência econômica (primeiro da União Soviética, depois da Venezuela), a centralização das forças produtivas no Estado, a deficiente gestão dos recursos e a falta de liberdades civis, políticas e econômicas são algumas das causas que explicam por que Cuba importa entre 70% e 80% dos alimentos que consome, embora possa produzir mais da metade deles, segundo economistas respeitados, ou por que perde 57% da sua produção agrícola (30% na colheita e pós-colheita e 27% na fase de distribuição aos mercados).

Hoje, a pergunta que mais preocupa muitos cidadãos é quanto tempo a frágil economia cubana poderá resistir depois da paralisação do turismo – uma de suas principais fontes de receita –, e sem que o Congresso norte-americano levante o embargo ou o governo cubano promova as reformas e a abertura que os economistas vêm recomendando desde muito antes da pandemia. Na origem do medo da fome está, sem dúvida, a incerteza de viver num país cujo estado natural parece ser a crise.

Entre a infinidade de vídeos sobre a escassez que circulam nas redes sociais, há um que mostra uma senhora idosa queixando-se por não ter conseguido arroz depois de muito caminhar por vários mercados. Alguém, então, se aproxima dela para saber sua opinião sobre o novo coronavírus. Sua resposta é devastadora: “Tomara que ele mate todos nós.”

Mónica Baró Sánchez

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