cartas

Os leitores não se cansam de perguntar: O que é arte? O que é poesia?

OS TENTÁCULOS DO POLVO

Sou farmacêutico, doutrinado pelos maiores especialistas. Mesmo já distante da prática, ao ler o texto de capa da piauí_108, “Intoxicado de ofertas”: 1) não me surpreendi; 2) gostaria de oferecer congratulações ao delator (entre prescritores, esse hábito não é comum); 3) percebo que me dedicar à minha especialidade, sob esse esquema atual que elitiza o poder sobre os medicamentos, foi uma sublime utopia; 4) meus colegas que poderiam ser acusados de estar participando do esquema terapêutico muitas vezes estão soterrados na administração das farmácias ou submetidos a metas de venda sem fim; 5) tudo é bem planejado pelo polvo.
RUANDRO KNAPIK_QUATRO BARRAS/PR

 

Foi preciso um médico para relatar os meandros da indústria farmacêutica, transformada em puro business, com players, managers e marketing (sorry!). Olavo Amaral fez isso com conhecimento de causa, de sintomas e também com primor literário. Pena que “Intoxicado de ofertas” não seja ficção.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

 

Senti-me representado pela epopeia psicofarmacológica narrada em “Intoxicado de ofertas” por Olavo Amaral. Entre brindes e badulaques (ou adulações?), a saga me fez lembrar dos coffee breaks das ligas estudantis na graduação em medicina e dos jantares didáticos da residência médica. Nessa narrativa sem vilões óbvios, a indústria ocupa mentes, corações, estômago e prateleiras. É preciso que sejamos capazes de produzir uma clínica que efetivamente teça relações menos utilitárias. Senão, restará apenas tocar um tango argentino para o polvo autofágico.
FABRÍCIO DONIZETE DA COSTA_SÃO PAULO/SP

TAXONOMIA PRA QUÊ?

Muito obrigado, piauí, por ter me dado a honra e a satisfação de conhecer o cientista Vitor Becker (de quem nunca tinha ouvido falar), por meio do bem elaborado (mais um!) perfil que o repórter Bernardo Esteves produziu (“O colecionador”, piauí_108, setembro).
Que raridade: além de Vitor Becker ser uma sumidade em sua área, revelou-se um empreendedor criativo e engenhoso. Sem um tostão estatal, criou uma rede internacional de apoiadores e construiu uma imensa reserva natural. Tudo com muito cuidado e documentação, sem deixar brechas para que a faminta burocracia governamental o atrapalhasse. Aliás, o discurso teórico do diretor da Embrapa, cheio de insinuações contra Becker, cheio de regras e condicionais, mas de resultado oco, é um delicioso contraponto à realidade da obra do entomólogo.
WANDERLEY RODRIGUES_RIO DE JANEIRO/RJ

 

Identifiquei-me muitíssimo com Vitor Becker. Notáveis seu patriotismo, dedicação e altruísmo. Também sou apaixonado por taxonomia – fiz meu trabalho de mestrado sobre as diatomáceas, um grupo de algas microscópicas. Assim como Becker, penso que a busca e a obtenção do conhecimento são fins, e não meios. Mas para nós, taxonomistas, muitas vezes não resta outra opção senão usar argumentos utilitaristas. Se um não iniciado me pergunta por que se deveria estudar um grupo de algas microscópicas, aparentemente insignificantes, o que dizer? Que respondem por imensa parte do oxigênio da Terra?
A propósito, sou leitor da piauí desde o primeiro número e assinante há muitíssimo tempo. Já enviei continuações de historinhas propostas pela revista, poeminhas com seis palavras, algumas cartas, até elaborei questão de vestibular sobre príons baseada em matéria da piauí (e informei isso a vocês), e nada de aparecer na seção de cartas. Quem sabe agora?
​JOSÉ CARLOS FERNANDES DA COSTA_PETRÓPOLIS/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: Imperdoável, José Carlos. Se você escrever no mês que vem, publicaremos também. Nem precisa ser sobre a revista. Poema, receita, recado para o dentista, lista de supermercado – é só mandar.

ARTE CONTRADITÓRIA

O texto de Nuno Ramos (“Frankfurt, Salvador”, piauí_108, setembro) contém uma contradição que torna a instalação Iluminai os Terreiros ainda mais reveladora. Sobre Frankfurt, ele afirma que foi difícil escolher um espaço esquecido para instalar seus círculos de luz, pois tudo parecia “já inteiramente tomado pela vida social”. Mas o que ele descreve como vida social na verdade é o Estado regulador. Em Salvador, a dificuldade advinha da onipresença da violência, “essa divindade brasileira contemporânea”. Ora, a violência é uma forma de interação e pode ser a base de uma vida social. Na verdade, ambas as situações revelaram mais das sociedades contemporâneas do que o próprio artista parecia esperar quando aceitou o desafio de remontar a instalação.
TARCÍSIO BOTELHO_BELO HORIZONTE/MG

 

O ensaio de Nuno Ramos suscitou-me a seguinte questão: qualquer ideia levada a cabo com a intenção de ser arte deve ser considerada como tal?
JOSÉ ANÍBAL SILVA SANTOS_TEÓFILO OTONI/MG

 

Acabo de criar algo que à primeira vista se parece com a união de uma operação da matemática com uma entidade africana. No entanto, é apenas o nome do ensaísta-escritor-artista-escultor Nuno Ramos lido às avessas, de trás para a frente. Uma singela homenagem àquele que é capaz de fincar pés em tantas áreas e subverter tudo. Papel do bom artista, claro. De um homem-polvo. Deixa-me sem chão quando o leio-vejo. E acredito que a todos.
PS: Mandar um pinguim para Varginha pode ser a oportunidade de contato da piauí com outro mundo. Ele pode ficar aqui em casa. As portas estão abertas. Mineiramente.
LUIZ CARLOS MONTANS BRAGA_VARGINHA/MG



 

NOTA EXTRATERRESTRE: Criamos a revista com a ambição de torná-la global. Como todos sabem, hoje ela é lida em todos os quadrantes do planeta. É hora, portanto, de expandirmos nosso alcance para Alfa Centauri e adjacências. Pinguim a caminho. Como cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, rogamos que você lhe ensine as palavras “Pinguim phone home”. Se puder, instale também uma luzinha na pontinha da asa. Embora nosso pinguim seja cosmopolita, a espécie é dada a sentir banzo.

CONFUSÃO EM DOSE DUPLA

A matéria “Vidas paralelas”, de Susan Dominus (piauí_108, setembro), que a princípio parecia interessantíssima, tornou-se um fardo no decorrer da leitura. Precisei voltar várias vezes ao texto para compreendê-lo, até desenho fiz. Se a ideia da autora era transmitir a sensação de confusão que atinge irmãos separados no nascimento e que se reencontram por acaso anos depois, teve sucesso!
VIRGILIO DA SILVA ROCHA JR._RIO DE JANEIRO/RJ

SER NEGRO

Ta-Nehisi Coates proporcionou-me uma visão extraordinariamente nova sobre o que é ser negro, não só na América mas em quase toda parte (“Não controlamos o destino de nossos corpos”, piauí_108, setembro). Sua visão de mundo é narrada de maneira única e dolorosa. Fico ofendido de viver onde vivemos, enclausurados e coagidos por nós mesmos.
RICARDO FERNANDO DOS SANTOS_SÃO PAULO/SP

Toda vez que a piauí chega a minha casa, eu me arrependo de tê-la assinado. As matérias são intermináveis e complexas. Desisto logo de cara. “Não vou mais ler essa revista”, digo para mim mesmo, por alguns dias. E de fato ela permanece inerte em minha escrivaninha. Mas, por curiosidade, começo a ler uma seção qualquer. Nessa edição me deparei com “Não controlamos o destino de nossos corpos”. Comecei o texto meio desanimado, mas terminei em êxtase. Sensacional. Relato social e literatura de primeira. Só isso já valeria a revista e, talvez, a assinatura. Mas na próxima edição serei colhido, novamente, pelo desânimo. Até que…
MAURICIO JOSÉ DE ALMEIDA CASTRO_VITÓRIA/ES

NOTA MENDICANTE DA REDAÇÃO: O teu desânimo mensal não é maior do que nosso temor de te perder. Não é outra a razão pela qual dedicamos parte de nosso tempo a incluir em cada edição ao menos uma linha que irá te surpreender. Dê-nos o benefício da dúvida e fique conosco, Mauricio José, fique conosco. A maré tá braba e não é hora de nos dispersarmos.

O QUE É POESIA?

É difícil, senão impossível, definir o que é poesia, pois ela incorpora, em sua essência, sua época, um período literário e a concepção própria que cada poeta tem da criação. Trata-se de uma atividade criadora cuja matéria-prima se encontra na vida dos sentimentos e em seus acessórios, como o metro e a rima, o ritmo e a melodia da frase.
Essas considerações me ocorreram ao ler os poemas de Sylvio Fraga Neto (piauí_108, setembro) e não encontrar qualquer uma das características que me permitissem classificá-los como poesia. “Uma história” não é poesia. É prosa. Definitivamente. “Uma noite” é um amontoado de sandices sem qualquer conteúdo poético, assim como “Arte poética” e “A eminência parda”. Dentro do limite dos meus parcos conhecimentos, não logrei identificar o sentimento poético dos versos de “Olhando o Rio de Janeiro no mapa do telefone”.

DILERMANDO GUEDES CABRAL_BELÉM/PA

NOTA DA REDAÇÃO: É como você diz, Dilermando: difícil definir o que é poesia. O que para você não é, para nós é. Nesses momentos de perplexidade, urge, como sempre, recorrermos a Mario Quintana: “A poesia não se entrega a quem a define.” E também: “O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”, que não faz muito sentido nesse contexto, mas citamos mesmo assim.

CHAMA O GILMAR

Caro senhor Michel Laub, quem lhe deu o direito de entrar na minha (oca) cabeça, vasculhar as reminiscências da minha juventude e interpretá-las da maneira que só meu id conseguiria? (“O oráculo divergente”, piauí_108, setembro). Nem o conheço pessoalmente para permitir que o (belíssimo) texto sobre a presença e influência da Legião Urbana na minha (nossa) vida juvenil fosse escancarado ao grande público dessa revista pinguim. Que isso não se repita. Da próxima vez, chamo o Gilmar Mendes.
JOÃO BATISTA NONOHAY_PORTO ALEGRE/RS

PINGUIM VIDENTE

Deu no Sensacionalista que a presidenta Dilma demorou a perceber a crise porque só lia a Carta Capital e a revista Fórum. O site de notícias fantasiosas teve lá sua razão. Se a turma do PT lesse a piauí, saberia desde 2010 que a dobradinha Dilma–Temer seria o verdadeiro inferno que virou.
Na brilhante matéria que fez o perfil do então candidato a vice-presidente de Dilma (“A cara do PMDB”, piauí_45, junho 2010), a jornalista Consuelo Dieguez começa com o alerta sobre a natureza do PMDB: lealdade, traição, reconciliação e fisiologismo. Ao resgatar o histórico governista do partido que, desde Sarney, conta com as maiores bancadas no Legislativo, com o maior número de cargos comissionados e ministérios, tudo isso em troca da “governabilidade”, a matéria deixou claro que a aliança entre o político profissional Michel Temer e a debutante em pleitos eleitorais Dilma Rousseff colocava o PT em situação de extrema vulnerabilidade.

Quando, em 17 de julho de 2015, o incendiário presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciou seu rompimento oficial com o governo, após impor sucessivas derrotas ao Planalto em votações importantes no primeiro semestre, piauí deveria ter fechado a capa da edição seguinte com um “Eu já sabia”. A obstinação sem cerimônia de Cunha na defesa de seus interesses e projetos de poder foi detalhadamente explicada na matéria de 2010, quando a figura do deputado era ainda pouco conhecida.

Segundo Dieguez, o PT resistia ao nome de Temer por causa de sua proximidade com Cunha, que controlava “um grupo de vinte deputados, a maioria evangélicos, com capacidade de infernizar a vida do governo”. Cinco anos depois, o cacique pemedebista é um dos homens mais poderosos do país e num quadro político capaz de levar adiante o processo de impeachment de Dilma.

O perfil termina com o lado poeta do cerimonioso, contido e ambicioso Temer. A jornalista destaca os versos por ele escritos: “Lamentavelmente,/Tudo anda bem./Por isso, andam mal/Os meus escritos.” Bem e mal são conceitos extremamente relativos. Não sei vocês da piauí, mas me arrisco a dizer, levando em conta a lógica do autor, que os escritos de 2015 de Temer nunca estiveram tão mal.
BRUNO MOURÃO GUZZO_SÃO PAULO/SP

CIÊNCIA CRIATIVA

Fiquei impressionada com as descobertas de Bruno Mota e Suzana Herculano-Houzel, relatadas por ela em “AT xT1/2 = k xAE5/4” (piauí_107, agosto). Parabéns! Senti orgulho da pesquisa brasileira. Ao mesmo tempo, chegar ao final do artigo e constatar a falta de investimento dos órgãos brasileiros de fomento à pesquisa é humilhante, lamentável e revoltante. Ainda mais depois de ler algumas páginas antes sobre a roubalheira exposta na reportagem de Malu Gaspar, “Em águas profundas” (piauí_107, agosto). Fui do orgulho à vergonha em poucas linhas.
MAYARA SCHMIDT VIEIRA_FLORIANÓPOLIS/SC

DE BRINCADEIRA

Comprei a piauí_107 (agosto) hoje. Não acreditei quando vi a primeira matéria (Chegada, “Junior decola”) e, depois, a reportagem “Eu era o melhor”. Vocês estão brincando com a cara dos que leem a revista. Por acaso vocês não percebem que algo está acontecendo neste país?
LENA APARECIDA BERALDO_SÃO PAULO/SP

NOTA ARGUMENTATIVA DA REDAÇÃO: Para ficar apenas no teu primeiro exemplo, você não acha que uma das coisas que andam acontecendo no país é deixarem Junior decolar?

COM AÇÚCAR E COM AFETO

Um grande amigo meu diz que as notícias leves, as fofocas e o humor são como sobremesas: primeiro você se alimenta, ingere o que é importante, depois saboreia um pedacinho das idiossincrasias alheias. Assim sendo, a seção Cartas da piauí se tornou a hora apetitosamente doce da revista, coisa fina, algo assim como um crème brûlée. O único problema é que continuo desobedecendo às convenções e comendo a sobremesa antes.
DÉBORA DE ALMEIDA_CARIACICA/ES

NOTA PARA MAURÍCIO JOSÉ, LEITOR DESANIMADO: As cartas são curtinhas, Mauricio José! Quem sabe Débora não te mostrou o caminho das pedras? Comece pelas calorias e só depois ataque o jiló. Primeiro o gostoso, depois o que faz bem.

 

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