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Flip 2010

Os primeiros passos do escritor: ovos

| Edição 46, Julho 2010

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O primeiro conto que escrevi na vida foi para a revista Collier’s, embora a Collier’s não soubesse disso. Chamava-se “Ovos”, e era sobre um homem que entra numa lanchonete e pede ovos mexidos. O atendente do balcão não quer lhe servir ovos e sugere um goulash. O homem insiste e o atendente, depois de alguma relutância, acaba por servi-los, o homem come os ovos e se retira. Fim. Eu tinha 18 anos e acabara de entrar na faculdade. Assim que terminei o conto, mostrei para a minha mãe e, como no caso de tudo que eu fizera na vida até então, ela achou ótimo. Mostrei também para o meu professor de banjo, Mike Pantone. E ele concordou que era bom. Não “muito bom” nem “excelente”, que era o que ele dizia quando eu tocava bem nas aulas de banjo.

Mostrei o conto a meu pai, e ele leu o original à mesa do café da manhã enquanto comia seus ovos. Gostava de ovos quentes com uma colher de açúcar, acompanhados de uma xícara de chá com três colheres de açúcar. Nunca o vi comer ovos mexidos. Como poderia entender meu conto? Ele leu até o fim e então perguntou: “Que diabo é isso?”

“Um conto”, respondi.

“Sobre um sujeito que resolve comer ovos”, disse ele.

“Exatamente”, respondi.

“Mas que tipo de conto é esse?”, perguntou.

“Um conto realista”, disse eu. “Que vou mandar para a Collier’s.”

“E eles publicam esse tipo de coisa?”

“Toda semana”, respondi.

“Mas quem vai querer ler a história de um sujeito que entra num lugar para comer ovos?”

“Todo mundo lê a Collier’s”, falei. “Todo mundo come ovos.”

“Foi isso que você aprendeu na escola?” Meus estudos tinham custado um bom dinheiro.

“Não vou discutir com você”, disse. “Ou você gosta ou não gosta.”

“Adivinhe”, falou meu pai.

Pois ele ia ver só. Mandei o conto para a Collier’s naquela mesma tarde e ainda guardo a prova: a carta de recusa que recebi em resposta. Nunca mais mostrei conto algum para o meu pai. O que também é conhecido como bloqueio criativo. No entanto, voltei a ler o conto na semana passada pela primeira vez em quarenta e cinco anos, e posso dizer que meu pai se sai dessas lembranças como um crítico literário de primeira. Um orangotango retardado teria escrito um conto melhor do que “Ovos”.

Seja como for, escrever o conto teve a sua importância, por uma série de motivos. Foi o primeiro passo de uma carreira. Provava que eu iria melhorar, pois pior que aquilo seria impossível. Foi minha primeira experiência de rejeição, e nem por isso causou a minha morte. Ensinou-me que, estejam certos ou errados, o escritor nunca deve confiar no juízo literário de seus pais. O conto falava de um lugar específico, a lanchonete que ficava a um quarteirão da minha casa e eu frequentava cinco noites por semana, e de um sujeito que trabalhava atrás do balcão chamado Herbie que tinha trabalhado como encarregado dos tacos do time de beisebol dos Yankees e foi meu amigo, morreu de tanto fumar e era uma figura tão única que reescrevi “Ovos” duas vezes nos anos seguintes. Primeiro mudei o nome do conto para “Balconista” e depois só para “Comer”, e o texto melhorou um pouco sem contudo jamais chegar à categoria de bom. Finalmente abandonei o conto e incluí Herbie num romance, com outro nome, e lá ele está até hoje, muito embora jamais tenha saído na Collier’s.

Eudora Welty escreveu certa vez que os escritores devem escrever não sobre o que conhecem, mas sobre o que não sabem das coisas que conhecem. A maneira como traduzo essas palavras é a seguinte: todo escritor precisa compreender e valorizar o mistério. O único mistério em relação a “Ovos”, porém, é o motivo pelo qual não percebi o quanto era ruim. Com o tempo fui acrescentando um pouco do meu próprio mistério aos lugares sobre os quais escrevi, e minha ficção melhorou bastante.

Lamento que meus pais não tenham podido acompanhar o que aconteceu comigo como escritor. Minha mãe morreu enquanto eu ainda tentava publicar meus primeiros contos, e meu pai já se encontrava no limiar da senilidade quando meu primeiro romance saiu. Mas gabava-se muito do livro na Suprema Corte do Estado de Nova York, onde trabalhava. Dizia que era a história de como duas mil vacas tinham sido varridas para o mar em Porto Rico. Na verdade, o livro se passa em Albany e não fala de vaca nenhuma. Mas logo se vê de que maneira, com esse tipo de imaginação e capacidade crítica nos meus genes, era inevitável que eu me tornasse escritor.

Tradução Sergio Flaksman