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    Na Zona Norte carioca, a favela Parque Everest abriga três tanques que acumulam lixo e água da chuva. Crianças não só os convertem em piscinas como vendem as rãs que aparecem por lá FOTO: FABIO TEIXEIRA_2019

despedida

Os sem-praia

Cenas de um verão que se vai

Fabio Teixeira | Edição 151, Abril 2019

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Quando se mudou para o Rio de Janeiro, em 2011, o fotógrafo Fabio Teixeira logo se sentiu atraído pela relação que as crianças e os adolescentes pobres da cidade estabelecem com a água. “Os que moram longe das praias nem sempre conseguem ir até lá, seja por não haver quem os leve, seja por lhes faltar dinheiro para o transporte.” Eles, então, se refrescam do jeito que dá e transformam em Copacabana os recantos mais improváveis. “É fascinante! Mas também entristece, já que muitas vezes a meninada se banha em lugares insalubres.”

O fotógrafo acredita que a diversão aquática dos garotos o seduziu tão rapidamente por remetê-lo à própria infância. Filho de um enfermeiro com uma empregada doméstica, Teixeira nasceu em Piracicaba, no interior de São Paulo, e começou a trabalhar aos 8 anos. Vendia sorvete, pipoca e salgadinhos pelas ruas. À beira dos 11, se tornou ajudante numa oficina mecânica. Pouco depois, virou faxineiro. “O verão piracicabano costuma ser bem quente e seco. As crianças das famílias com grana brincam nas piscinas dos clubes, prédios ou casas. As pobres improvisam. Eu e meus amigos adorávamos explorar o principal rio da cidade, que não primava pela limpeza.”

Também na infância, Teixeira – que completou 39 anos em setembro – pegou gosto pelo jornalismo. Via filmes que tratavam repórteres fotográficos como heróis e sonhava com a profissão. Depois de concluir os ensinos fundamental e médio em colégios públicos, conseguiu uma bolsa para fazer comunicação na Universidade Metodista de Piracicaba, a Unimep. Cursou três semestres e abandonou a faculdade. “A morte de minha irmã mais velha, que lutava contra um câncer de mama, me deprimiu. Fiquei sem vontade de estudar.” À época, o rapaz já fotografava casamentos, atividade que exerceu até ingressar como fotojornalista no jornal A Tribuna Piracicabana.

Hoje Teixeira é freelancer e presta serviços tanto para a imprensa brasileira quanto para a internacional. Casado com uma fotógrafa carioca, mora na favela Nova Holanda, uma das seis que integram o Complexo da Maré. Há cinco anos, percorre a Zona Norte e o Centro do Rio para retratar meninos e meninas sem praia. As imagens desta página e das seguintes são todas do último verão, que terminou em 20 de março. A estação registrou a temperatura mais alta do município desde 2012. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, os termômetros marcaram 41,2ºC no dia 3 de janeiro, em Santa Cruz, bairro do extremo oeste.

Inaugurado em 2001, o Piscinão de Ramos é uma alternativa gratuita de lazer para os moradores da Zona Norte e já recebeu 60 mil banhistas num único fim de semana. As águas sujas da Baía de Guanabara o abastecem, depois de tratadas

A praia de Ramos (acima e abaixo) fica perto do piscinão. Embora seja muito poluída, jovens e crianças não se privam de frequentá-la

Moradores do Morro da Providência costumam se divertir no Píer Mauá, no Centro do Rio. Impróprias para banho, as águas da zona portuária circundam o Museu do Amanhã