esquina

Ovelha negra

As agruras de um brasileiro em um concurso nipônico de karaokê

Tomás Chiaverini
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Avantajados ventiladores giravam sem descanso, mas não deram conta de refrescar a atmosfera saariana do auditório. Centenas de espectadores, em sua maioria senhores de olhos puxados, suavam e se abanavam inutilmente com leques de papel. No palco, os finalistas do 17o  Paulistão de Karaokê, que aconteceu em Sorocaba. A situação deles era ainda pior: ao contrário da plateia, não podiam desfrutar do conforto dos bermudões, camisetas sem manga e chinelos.

Luxo e glamour eram pré-requisitos. Mulheres exibiam vestidos longos ou impecáveis trajes de gueixa. Homens envergavam ternos, fraques, casacas, ou se embrulhavam em quimonos ricamente bordados. Flores artificiais, babados e paetês adornavam os cantadores de ambos os sexos. Havia especial predileção por lantejoulas furta-cor. A fim de explorar ao máximo esse brilho todo, luzes coloridas se movimentavam no proscênio e tornavam a temperatura ainda mais escaldante.

Nada disso abalou a calma dos candidatos, quase todos japoneses ou descendentes – segundo estimativas extraoficiais, cerca de 95% dos 604 participantes veem o mundo através de olhos puxados. Um a um eles subiram ao palco, fizeram uma rápida mesura de agradecimento e, com ritmo e afinação impecáveis, entoaram canções populares japonesas. Nada de Roberto, Wandeca ou Bruno & Marrone. A legenda que passa ditando o ritmo também é coisa para amadores. No 17o  Paulistão, as canções foram interpretadas de cor, em japonês. Era escassa a presença de não descendentes.

Escassa, mas não nula, como atestava o técnico em administração Pedro Vasconcelos, 39 anos, metido em um terno preto de microfibra, camisa escarlate, o cabelo curto encaracolado e a pele cor de caramelo. Guardava pouca semelhança étnica com os concorrentes, o que lhe rendeu situações embaraçosas. Em um dos primeiros concursos de que participou, quando era o único não oriental entre os cantores, foi chamado às pressas ao estacionamento, o que lhe pareceu um tanto estranho, uma vez que não tinha carro. A confusão durou alguns instantes antes que ele percebesse o que estava acontecendo. “Acharam que eu era manobrista”, contou.

Como boa parte dos cantores, Pedro Vasconcelos hospedou-se em Sorocaba desde o início do evento, sexta-feira, 4 de fevereiro. Veio de São Paulo num ônibus fretado, junto com outros competidores. Em todo o estado, cerca de 3 mil pessoas se inscreveram para as diversas categorias, divididas por idade. Menos de um terço classificou-se nas pré-seleções.

Já durante a apresentação, no sábado, Vasconcelos passou pela primeira fase, conquistando uma das 23 vagas para a final da sua divisão. O primeiro colocado de cada categoria disputa o Grand Prix, que premia o melhor cantor do estado com 2 500 reais.

Vasconcelos ainda não sonha com tamanha façanha. No domingo, enquanto ensaiava numa salinha separada, ao lado do professor Roberto Maeda, esperava apenas ficar entre os dez melhores do grupo. O mestre, um japonês baixo e rijo, com um pontiagudo cavanhaque preto, interrompeu o aluno na primeira passagem e pediu que ele corrigisse a afinação em uma palavra específica. Depois a canção foi repetida mais oito vezes sem interrupções.

Maeda se orgulha do aluno. “Ele é persistente, tem garra, mais até do que muitos descendentes”, afirmou, referindo-se ao fato de que Vasconcelos se dedica não apenas a aulas de canto, mas também ao estudo do idioma, o que não é comum entre os competidores. Apesar dos olhos puxados, a maioria não é fluente em japonês e boa parte canta sem saber do que as letras tratam.

Desde o ano 2000, quando descobriu o karaokê no aniversário de um amigo, Vasconcelos pratica ao menos duas vezes por semana e ouve canções orientais o tempo inteiro. Recentemente, passou a frequentar aulas de um instrumento típico, o shamisen. Como não podia deixar de ser, namora uma nissei.

 

Pouco depois das três da tarde, Vasconcelos se postou na lateral do palco, junto a um competidor de terno branco acetinado, duas gueixas e um samurai. Aguardou a vez esfregando as mãos, na tentativa de espantar a tremedeira. De vez em quando fazia um discreto “trrrrrr”, para manter a voz aquecida. Não demorou muito para que, sempre no idioma da Terra do Sol Nascente, o apresentador anunciasse “Pedro Sam”.

Ele entrou ereto e confiante, dobrou-se ao meio numa mesura, e parou sobre o X de fita adesiva no chão que marcava o posicionamento diante das luzes. Quando o playback encheu o ambiente de harpas e violinos, Pedro já segurava o microfone colado aos lábios. A melodia desabrochou suave e rosada qual uma flor de cerejeira até que, com a precisão de um metrônomo, Pedro soltou o vozeirão barítono.

Afinação e ritmo soaram impecáveis. Para ouvidos ocidentais, as vogais anasaladas do idioma japonês pareciam moldadas por um legítimo filho de Tóquio. A mão esquerda segurava de leve a aba do paletó enquanto a outra empunhava o microfone, que mais parecia uma extensão do braço. As sobrancelhas se juntaram numa expressão de genuíno sofrimento, o que certamente garantiria boas notas no quesito interpretação. Violinos e percussão sintetizados se uniram, a melodia foi crescendo até explodir num longo e poderoso vibrato que encerrou a primeira parte da canção.

A plateia aplaudiu discretamente, Vasconcelos dobrou-se mais uma vez em agradecimento. Depois, qual um crooner experiente, caminhou um pouco ao redor da marca ouvindo a música, até voltar a empunhar o microfone para a segunda entrada, tão precisa quanto a primeira. Ninguém estranharia se aquele brasileiro tímido acabasse entre os primeiros colocados. Então veio a tragédia.

Uma palavra saiu arranhada, áspera como se envolta em palha de aço. As que vinham em seguida trombaram umas nas outras, num desastroso engavetamento vocal. Um esgar de dor contraiu a sobrancelha direita de Vasconcelos. Ele tentou sussurrar mais algumas sílabas, mas ao contrário do que recomendaria a cantora Vanusa, desistiu logo. Sabia que havia perdido o andamento e que não há mente no hemisfério ocidental capaz de reverter um branco em japonês. Desolado, teve tempo apenas de murmurar um “Ai, meu Deus” antes que o braço do microfone despencasse inerte.

A plateia não se mostrou especialmente comovida, mas ouviu-se um ou outro aplauso de motivação enquanto Vasconcelos agradeceu e saiu. A primeira ideia que lhe veio à mente foi tomar um táxi até a rodoviária e embarcar no primeiro ônibus para São Paulo. Mas aos poucos a calma voltou a dominá-lo e ele resolveu ficar até o fim do evento, pouco depois das 20 horas. Nesse tempo, a todo instante era abordado por amigos e concorrentes que perguntavam o que aconteceu ou lhe desejavam mais sorte na próxima vez. Vasconcelos sorriu com os olhos cheios de lágrimas. Não ser mais tomado por manobrista parecia insuficiente como prêmio de consolação.



Tomás Chiaverini

Tomás Chiaverini é jornalista, autor do romance Avesso, publicado pela editora Global.