poesia

País em fuga

Guillermo Saavedra

Argentina,
ramagem verde incendiada!

Ricardo E. Molinari

LUZ

Fogo?
Não: luz.

Lume?
Não: luz.

Luz?
Sim: esta luz.

Luz assim?
Não: de fumo
de velas úmidas
pútrida luz enferma
de bruma que lambe os contornos
e os dissolve.

Luz assim?
Não: carcomida
impede distinguir
se é dia que se apaga
ou noite que não chega a se fechar
sobre o mundo.

Luz negra?
Nem isso: luz ao arrepio
zurro de uma estrela
desterrada
da última galáxia
deste olvido.

Luz como?
Leitoso pus de lua
quebrado
em água de alibour
onde nada reflete
que não seja roto.

Luz para quê?
Horripilante luz
que não ilumina cega
vagalume ferido
deixando tudo aquilo
empapado na sombra.

Luz de quê?
De barro e trapo
quero dizer: de carne
de camelo
de circo
de província.

Que luz?
Como uma que
depois de ter varado
um corpo morto
arrastasse pelo ar
o mal de não dar luz.

Sim? Luz?
Sim: difusa
surdo mormaço
rascante
fogo
fátuo.

 

CARNE

Carne
tem
carne.

De quê?
Carne de si
carne de carne.

Mas, de quê?
De províncias
do campo
carne solta.

Viva ou o quê?
Verde
muito verde
lambuzada
de mofo e
moída
a golpes.

De quê?
De carne da
sua carne
que

não.

Mas, de quê?
De animais
perdidos
encardidos
talvez
vacas.

Vacas de quê?
Daquelas
uma vez
alheias
e hoje
apenas.

Quê?
Esfolada
fazenda
carne verde
calejada
inchada
de moscas
ávidas.

Em quê?
Farpas
ou vermes
nessa carne
viva
sim mas
impossível.

Fazenda quê?
Entre pedras
mato seco latas
enferrujadas
carne de vacas
soltas
desatentas.

Em pé?
De guerra
perdida
de trapos desfiados
de amnésia
que se encarna
nessa carne
velha
que
como cão
na coleira
não come
nem se deixa
mais
comer.

 

ÁGUA

Tem água aí?
No país
sonham ver o mar
sua jóia escalonada
única
sua camisola aberta
suas anáguas.

Tem água?
Mas resta conformar-se
em pensá-lo
longe
surdo
inconcebível
alheio.

Água água, tem? Água?
No chaparral imenso do país
há muita
mas está quieta
morta
acachapada
suor de terra que se cansa
sem alcançar a beira.

Quero ir à água. Posso ir até a água?
É caldo envenenado
é lastro que não lava
é barro é bosta
é suco de latrinas
viscosa ladainha
que não drena
é água falsa.

Água quero água, me dão água?
Filtra-se entre as pedras
encarde a cal imunda
das fachadas
não irriga não circula
infecta as feridas
descasca a madeira
empaca
vira
vala.

Tem água já? Tem fria? Água?
Empapa os depósitos
de telas
de papéis
de alimentos
se instala entre os tacos
se empasta nos humores:
um sedimento verde
uma hemorragia
seca
esquecida
no bolso da calça
de um aposentado.

Tem? Vem? Teremos água?
Na polpa do polegar
de uma enfermeira
é uma ampola velha
que ao se quebrar
goteja em silêncio
molhando e encharcando
um único ponto morto
do hospital mais pobre
do bairro das latas.

Água? Aguinha? Água?
Estraga, infiltra, embaça:
como um rancor nanico
se incrusta nas lajotas
se mete nas gavetas
se encharca vira
craca apodrecendo os ossos
do cantor
da bugrinha meiga
do poema campestre
apodrecendo os peitos.

Água? Já temos? Voltou a água?
Enfermidade do ar,
erro de alguma nuvem cega,
estupor do Paraná, fétida espuma
do Uruguai, brejinho hediondo
do Pilcomayo murcho:
em toda a espantosa bacia
nem uma gota para matar a sede
nem batizar o cu de uma freira
apenas
água que não vais beber
e que não corre:
é lerda
é turra
espessa
suja
enferma
água estancada.

25_poesia1

VALA

Aqui já não.

Aqui já não
se perde
nada
porque
não resta
nada.

Pulsa só.

Pulsa o
mero ruído.
A muda
queixa
do silêncio
transtorna
o ar,
que nunca
se resigna
ao socavão
de ausências.

Aqui já não.
Aqui já não
há mais
pais,
nem mães,
nem filhos.
Só a vala
espessa,
escura,
cega
onde não
sobrenadam
os filhos
dos seus pais,
os pais
desses
outros
filhos.

Aqui está tudo.

Aqui está
tudo
guaxo,
quieto,
surdo,
mas não
morto.
Aqui esse nada.

Aqui esse
nada
insosso
onde se
desencontram
esses
pais
e esses
filhos
exsuda
um estertor,
espasmo
que na
terra
não deixa
descansar
nem a
desgraça.

Venham ver.

Escutem
o que
rasteja,
aquilo que
não alcança
sequer o
turvo
estado
da solidão,
porém
teima
em ser
aqui
a marca
de uma
escória,
a seca,
emputecida
saliva
do esquecimento.

Como isso que.

Como essa
ferida
alheia
que nunca
deixará
de ser
dura
sentença.

Guillermo Saavedra

Guillermo Saavedra, poeta, contista e jornalista argentino, escreveu os romances Caracol e Tentativas sobre Cage.

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