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Para inglês ver

Cobras marroquinas são fonte de raro prazer

Tomás Chiaverini
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Reza a prudência que não se deve flanar na ruidosa, calorenta e colorida praça central de Marrakech. Os lúcidos caminharão firme e com propósito, não exageradamente rápidos, para não revelar medo ou insegurança, nem lentos em demasia, para não excitar os predadores. A esse andar construidamente senhor de si é necessário apor um olhar específico, fluido, desinteressado. O semblante deve exibir uns fumos de mau humor, porém necessariamente tênues, vaporosos, de maneira a não produzir o efeito contrário, pois são legião os comerciantes que se sentem atraídos por desafios.

O essencial, de todo modo, é jamais, em hipótese alguma, fazer contato direto com os olhos de um vendedor marroquino, os quais devem ser considerados translúcidos – pela simples e boa razão de que, assim, em vez de encará-los, será possível olhar através deles. Quem não se achar capaz de dominar essa complexa arte de olhar atravessado não vá a Marrakech. Ou então compre óculos escuros. Quanto maiores, melhor.

A praça onde não se deve passear gostosamente leva o nome de Djemaa el-Fna, ou “Assembleia dos Mortos”. No passado, era ali que ocorriam as execuções capitais. Sobre aquelas pedras rolavam cabeças de condenados, imagem que convinha ter sempre fresca na mente, como lição. Hoje, contudo, nesse lugar historicamente perigoso, o transeunte pode se despreocupar quanto ao destino de sua cabeça, o que é uma vantagem, pois o libera para se preocupar integralmente com o bolso.

Ninguém o desestimulará a observar – atenção: de relance – os objetos espalhados pela infinidade de lojas, bancas e bibocas que se amontoam na área. A rigor, de fato, na Assembleia dos Mortos não se observa – se vislumbra. Seja como for, não importa o item visado, o olhar terá de ser fugaz, idealmente com tintas de tédio e prepotência. Quem fizer pouco dessas recomendações será atraído para o interior de uma loja onde não penetra a luz do sol, será embebedado com doses cavalares de chá de hortelã e não tornará a ver a família a menos que esvazie a carteira, em troca, por exemplo, de um tapete muito maior do que a sua sala de estar.

Vale insistir, a regra alcança itens animados e inanimados. Assim, piruetas de macacos amestrados serão registradas apenas com o canto do olho e ofertas de haxixe merecerão um solene desdém. E olho vivo no dentista: a mesinha a céu aberto na qual se pode experimentar um dente de segunda mão – arapuca para olhares frouxos – tem de ser tratada com toda a consideração que Drácula dispensava aos crucifixos.

Como são fortes a tensão e o calor, pode-se buscar refresco nas várias bancas de suco de laranja. Os grandes copos de vidro, lavados numa bacia ali mesmo e reutilizados o dia todo, aborrecerão os leitores de Drauzio Varella. Mas bobagem, germes não têm gosto. Além do quê, é cedo para melindres. Espere a hora de saciar a pontinha de fome que começa a se manifestar. No setor de alimentação da praça, uma multidão se acomoda em mesinhas de metal e, usando apenas os dedos, se esbalda com porções baratas de legumes, frutos do mar e moluscos terrestres pouco familiares. A torta doce de pombo com nozes é altamente recomendável.

Aos fanáticos por cor local, permite-se uma espiadela mais detida nas cabeças de carneiro. Detrás de uma bancada, um sujeito baixo e careca usa um cutelo para destrinchar as carnes. Diante dele repousam em fila meia dúzia de cabeças de carneiro, cada qual com sua porçãozinha gelatinosa de cérebro à côté. Sentados ao redor, comensais de lábios e mãos lustrosos de gordura mastigam concentradamente. Não há turistas nesse recanto, apenas marroquinos e um chinês.

 

Já tendo visto tanto, o turista se autocongratulará com um tapinha nas costas (“Aventureiro incorrigível…”) e dará o passeio por encerrado. Cheio de si, sua tendência será baixar a guarda. Errará feio. Sem saber como nem por quê, ele se verá apertando a mão de um sujeito de turbante e túnica branca, de cujo braço esquerdo, esgueirando-se para fora da manga, assomará a cabecinha de uma cobra.

A primeira reação é fugir escandalosamente, isso se o pavor não congelar os músculos. Nesse caso, nada a fazer senão dobrar-se à cobra, que, curvilínea, mobilíssima, abandonará o braço do encantador e se deixará depositar, com cuidado, em torno do pescoço do inocente – você, por exemplo. Então mantenha a calma. Passe a mão de leve pelo corpo esguio da serpente e mire aqueles olhos nacarados que ela tem. Tire fotos para provar aos colegas de trabalho. A não ser pela língua bífida – cujo vaivém insensato pode causar uma certa irritação –, ela não reagirá. Desconsidere que a essa distância ela poderia facilmente abocanhar o seu nariz. Pense que ela provavelmente não tem veneno, talvez nem dentes.

Pronto, muito tempo já se passou. Você já pode pedir ao homem de turbante que faça a gentileza de retirá-la da sua jugular. Ele o atenderá, felizmente. E agora se prepare para gozar uma dessas experiências que dividem a vida em antes e depois, próxima do êxtase místico: note o quão prazerosa é a sensação de alívio provocada pela ausência de uma cobra em torno do seu pescoço.

Perceba também que ela não demonstrou nenhum ressentimento pela rejeição.

Agradeça a experiência e, agora, prepare-se para ser extorquido. Com a cobra enroscada no braço e a mão em concha, o homem lhe pedirá 200 dirhams (algo como 40 reais) pela efêmera promiscuidade com o reino animal. A cobra continuará a encará-lo – a você, não ao dono –, aparentemente concordando com o preço. Não obstante, barganhe. Ofereça um quinto. Encantador e serpente farão cara feia e outros homens se aproximarão, todos armados com um exemplar de réptil. A flauta dos músicos que assanha o novelo de serpentes pelo chão se tornará mais estridente. Por um momento, sair correndo em meio à multidão não parecerá má ideia.

Mas calma. Aos turistas mais avaros e destemidos, está aberta a possibilidade de encerrar a negociação com uma única nota de 50 dirhams. Vai-se embora com o ônus tolerável de uma inimizade, acrescido de uma praga em alto e obscuro árabe. Cem dirhams, por outro lado, é uma boa soma para que todos saiam felizes. O homem ainda terá a cara amarrada por algum tempo, mas logo voltará a ser simpático e até pegará a sua naja – perigosíssima não fosse a ausência de presas – para uma nova rodada de fotos.

No aperto de mão de despedida, note que a cobra continua enrolada no braço do amo, sempre encarando você do fundo daqueles olhos pré-históricos. É provável que nesse piscar de olhos ela mostre a língua duas ou três vezes. É provável também que a você, agora, o gesto soe menos como reação fisiológica e mais como deboche.

Tomás Chiaverini

Tomás Chiaverini é jornalista, autor do romance Avesso, publicado pela editora Global.

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